28 de jun de 2009

Plano Nacional de Mudanças Climáticas

Geógrafos (futuros e atuais),

Vale a pena se informarem sobre o Plano Nacional de Mudanças Climáticas. O plano tem quatro eixos estratégicos: mitigação das emissões de gases do efeito estufa, adaptação; pesquisa e desenvolvimento; e divulgação e capacitação.

Abaixo o link de acesso ao Plano. Leiam, discutam, critiquem, sugiram!!

http://www.mma.gov.br/estruturas/169/_arquivos/169_29092008073244.pdf

24 de jun de 2009

Sugestões - Milton Santos

SANTOS, Milton. “O retorno do território”. In: SANTOS, M.; SOUZA, M. A. A. de. & SILVEIRA, M. L. Território: globalização e fragmentação. São Paulo: HUCITEC, 1994b.
SANTOS, Milton. Pobreza urbana. São Paulo: Hucitec, 1979.
SANTOS, Milton A totalidade do diabo: como as formas geográficas difundem o capital e
mudam estruturas sociais. São Paulo:Hucitec, n.4, pp 31- 43, novembro de 1977.
______. Por uma geografia nova. São Paulo: HUCITEC, 1986.
______. Metamorfose do espaço habitado: fundamentos teóricos e metodológicos da geografia. São Paulo: HUCITEC, 1991.
______. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1992.
______. O Espaço do cidadão. São Paulo: Nobel, 1993.
______. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional. São Paulo: HUCITEC, 1994.
______. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo, HUCITEC, 1996b.
______. “Guerra dos lugares”. In: Folha de São Paulo, Caderno Mais, 8/8/1999.
______. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Record, 2000.
______. Pensando o espaço do homem. São Paulo: Edusp, 2004
.______. Da totalidade ao lugar. São Paulo: Edusp, 2005.
SANTOS, M. et al. O papel ativo da Geografia. Um manifesto. XII Encontro Nacional de Geógrafos. Florianópolis: LABOPLAN-FFLCH/USP, 2000b.

23 de jun de 2009

Alfred Hettner


Geógrafo alemão nasceu em 1859. Preocupado sobre a natureza da Geografia, Hettner procurará reafirmar o carácter corográfico desta ciência, propondo, para isso, um retorno a Kant e Ritter. O objeto da Geografia seria a superfície da Terra, estudada a partir de suas unidades espaciais. Cada uma única e singular. Cada área, ou unidade espacial, deveria ser estudada em seus aspectos físicos e humanos. Desta forma, a Geografia não seria dual mas una. Hettner, portanto, compreendia a geografia não como a ciência que estuda as relações entre natureza e homem mas como uma ciência das diferenciações de áreas. Contudo, a geografia não poderia descuidar-se das generalizações possíveis a partir das associações espaciais. Há, desta forma, em sua geografia um duplo enfoque metodológico. Ela é, ao mesmo tempo, regional - estudo das características das áreas singulares, e geral -comparando as áreas em função de certos tipos de especificidades.


No texto abaixo, Hettner propõem pensar o lugar da Geografia no sistema das ciências, tendo em consideração essa dupla natureza.

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O SISTEMA DAS CIÊNCIAS E O LUGAR DA GEOGRAFIA
ALFRED HETTNER



O sistema das ciências se baseava no passado exclusivamente nas relações ou na diversidade dos objetos, ou seja, as ciências se estruturavam de acordo com as afinidades concretas de seus objetos. Alguns sistematizadores ingênuos, sobretudo os que se originam das ciências particulares e não se tomam o encargo de considerar o sistema das ciências, prosseguem, ainda hoje, agindo assim. Os filósofos sistemáticos, porém, superaram essa concepção e reconheceram que a interpretação das coisas desde o ponto de vista das afinidades concretas é simplista, assim como admitem a possibilidade e a necessidade de outra concepção, baseada em pontos de vista completamente opostos, que permita o nascimento de ciências especiais. Tais filósofos, entretanto, pouco ainda desenvolveram essa concepção e omitiram precisamente o ponto de vista que resulta decisivo para a integração lógica da geografia. Deixaram-se levar pela definição, em princípio bastante lógica, da geografia como ciência da terra, incluindo-a sob essa concepção em seu sistema, sem ter em conta a concepção dual desta ciência, de modo que ou a geografia humana fica excluída ou a geografia fica dividida entre as diferentes partes do seu sistema de classificação.

A primeira distinção fundamental dentro das ciências experimentais teóricas, quenaqui nos interessam, é a estabelecida por Comte entre as ciências abstratas e as ciências concretas. Esta distinção não significa que as primeiras tenham menos relação com os objetos concretos que as segundas, no sentido de objetos reais perceptíveis pelos sentidos, mas sim que as ciências abstratas despojam-nos de todas as suas características especiais e individuais para investigar somente os processos ou qualidades gerais, como, por exemplo, a gravidade, a luz, o magnetismo, a natureza física como tal, enquanto que, ao contrário, as ciências concretas entendem sempre os processos e condições gerais como qualidades de determinados corpos. Porém a distinção entre ciências abstratas e ciências concretas não é muito marcada. Podemos dizer que existe uma transição desde as ciências completamente abstratas, como a física, a química e a psicologia, passando pelas ciências que têm alguma relação com a natureza ou a mente, como a mineralogia, a botânica, a fisiologia, a sociologia e a economia política geral, até às ciências concretas voltadas para os conceitos individuais e coletivos.

Esta diferenciação coincide até certo ponto com a diferenciação recentemente estabelecida entre ciências nomotéticas e ciências ideográficas, ou entre ciências de leis e ciências de eventos, de forma pouco afortunada designadas por ciência natural e ciência cultural ou histórica. Esta diferenciação produz a falsa impressão de que o fim das primeiras é o estabelecimento de conceitos gerais e legais ao passo que o das segundas é o conhecimento do singular. Os conceitos e leis gerais constituem a finalidade do conhecimento das ciências abstratas, mas na medida da aproximação analítica da síntese que perseguem, seja a síntese reprodutiva da ciência, seja a síntese produtiva da técnica e da prática. As ciências abstratas não cobrem o conhecimento completo da realidade, apenas o preparam e fundamentam. O conhecimento da realidade em si encontra-se dividido entre as diversas ciências concretas.

As ciências concretas se referem à realidade de acordo com a versatilidade do conteúdo das coisas e as diferenças de seu comportamento no espaço e no tempo. Podem partir, portanto, de três pontos de vista diferentes e, desse modo, configuram três agrupamentos principais.

Uma parte importante, talvez a maioria, das ciências concretas, que em seu conjunto poderiam denominar-se ciências sistemáticas, põe umas depois das outras as condições temporais e espaciais, e encontra sua unidade na homogeneidade ou na afinidade dos objetos dos quais se ocupa. A distinção habitual das ciências entre ciências da natureza e ciências do espírito se baseia em uma diferenciação sistemática desse tipo. Dentro das ciências naturais desenvolveram-se em primeiro lugar as ciências dos minerais e das rochas (mineralogia e petrologia), das plantas (botânica), dos animais (zoologia), junto às quais criou-se por diversos motivos a ciência das plantas e animais fósseis (paleontologia). Mais tarde incorporou-se também o estudo do corpo terrestre e de seus fenômenos, cujo lugar científico está definido na descrição da geografia geral.

As ciências das línguas podem ser consideradas ciências sistemáticas do espírito, assim como a ciência da religião, a ciência política, a ciência econômica e outras. Porém, junto com os princípios sistemáticos da distribuição interfere um outro princípio de distribuição que define a transição aos dois outros grupos principais das ciências concretas, o princípio que se rege pelas diferenças das áreas linguísticas e culturais, dando lugar à filologia e à etnologia.

A afinidade do conteúdo dos objetos é secundária para as ciências históricas. Estas reúnem em seu estudo uma série de objetos pertencentes a distintos sistemas e que retiram sua homogeneidade desse ponto de vista tão especial que é a consideração do desenvolvimento temporal das coisas. Se estas coisas se sucedessem casualmente no tempo e se a evolução dos distintos grupos de fenômenos fosse independente, a ciência poderia declarar-se satisfeita com a aproximação sistemática. Porém a conexão das distintas épocas que expressamos com a palavra desenvolvimento e a conexão das diferentes coisas em uma mesma época, obrigam a uma consideração histórica específica. O estudo do desenvolvimento histórico de um único grupo de fenômenos, correspondendo assim unicamente a um dos dois pontos de vista indicados, como, por exemplo, a história da fauna ou da arte, ou da história das constituições, situa-se em uma posição intermediária entre as ciências sistemáticas e as ciências históricas.

As ciências verdadeiramente históricas abrangem todos os fenômenos, porém se dividem em três ciências distintas. A primeira é a ciência da história da terra ou geologia histórica, que não é unicamente a história da crosta terrestre, mas também a história do clima e do mundo das plantas e dos animais. A segunda é a pré-história, que foi durante muito tempo uma ciência sistemática, mostrando agora um caráter autenticamente histórico devido à periodização de suas descobertas.
A terceira é a história propriamente dita, isto é, a história cultural do homem, que ultimamente começou a superar tanto a limitação à área cultural da Ásia Menor e da Europa como a limitação do tratamento das condições dos Estados, ainda que siga lutando para conseguir um método verdadeiramente histórico universalmente aplicável. em situação semelhante ao desenvolvimento no tempo, o ordenamento das coisas no espaço tem direito a uma consideração especial. E é significativo observar que os especialistas em lógica que reconheceram a necessidade do primeiro não tenham se dado conta do segundo. A realidade é um espaço tridimensional que observamos desde três pontos de vista. Em primeiro lugar, vemos as conexões de uma interrelação material; em segundo, vemos o desenvolvimento no tempo; e em terceiro, a distribuição e a ordem no espaço. Na medida em que renunciamos à utilização da terceira perspectiva, a realidade se torna bidimensional. Não a vemos em toda a sua extensão e variedade. Daí se deduz que devem aparecer ciências corológicas junto às ciências sistemáticas e cronológicas.

Existem duas ciências corológicas. Uma delas se ocupa do ordenamento das coisas no espaço universal: é a astronomia, que no passado se entendeu indevidamente como uma mecânica aplicada, isto é, como uma ciência de leis abstratas, quando seu verdadeiro objeto é a constelação e a natureza dos distintos astros. A outra ciência corológica é a ciência do ordenamento do espaço terrestre, ou, posto que não conhecemos o interior da terra, da superfície terrestre. Uma ciência corológica deste tipo é necessária por razões muito parecidas às que justificam a ciência cronológica da história. Se não houvesse relações entre os distintos pontos da superfície terrestre e se os diferentes fenômenos situados em um mesmo lugar fossem independentes entre si, não seria necessária nenhuma concepção.

O sistema das ciências e o lugar da geografiacorológica. Porém a existência destas relações, que as ciências sistemáticas e históricas aludem ou apenas podem tratar, torna necessária uma ciência corológica especial da terra. Essa ciência é a geografia. A consideração do desenvolvimento histórico da geografia como ciência nos mostra que em todo momento fez-se referência ao conhecimento dos distintos espaços da terra, e que ao longo do tempo só mudou o método de estudo, devido ao progresso dos resultados científicos. Os metodólogos que não perderam o contato com o desen- volvimento científico sempre situaram por isso no lugar preferido o ponto de vista do ordenamento do espaço. A geografia de Ritter encontra-se indubitavelmente dominada por esta concepção, à qual se refere quando denomina a geografia como ciência dos espaços e quando trata de sua função. Após a confusão metodológica introduzida na geografia por Peschel, ao tempo que propiciou revolucionária transformação à geografia física, F. von Richthofen voltou a ressaltar o verdadeiro ponto de vista da geografia, denominando-a ciência da superfície terrestre, referindo-se à superfície sólida.

Imediatamente depois de Richthofen, Marthe ampliou esse conceito e ressaltou com força o ponto de vista corológico, ainda que em um sentido equivocado, denominando a geografia de ciência do onde das coisas. Nas conferências posteriores de Richthofen, em Leipzig, apresenta-se uma concepção de geografia que configura o programa da geografia atual, ajustando o conceito de Marthe e aceitando por sua vez as posições de Ritter, já que o conceito de superfície terrestre perdeu seu sentido restrito e inclui a crosta terrestre sólida, a água, a atmosfera, a flora, a fauna e o homem.
Numerosos metodólogos modernos adotaram as linhas gerais dessa perspectiva e a aproximação corológica ocupa uma posição preferida inclusive no caso daqueles geógrafos que, em teoria, partem do conceito de geografia como ciência da terra e rendem culto à opinião “dualista”. Entre estes geógrafos se encontram A. Kirchhoff e H. Wagner.

Resumindo os resultados de nossas considerações, podemos afirmar que não se deve renunciar à concepção, historicamente válida, da geografia como ciência corológica da superfície terrestre, ou ciência dos espaços terrestres, que se organiza com base em suas diferenças e nas relações entre os seus diferentes pontos, não só porque a lógica sistemática de outras concepções não resulta nem historicamente comprovada e nem praticamente realizável, mas porque, pelo contrário, constitui a exigência de uma sistemática das ciências logicamente completa.

Fonte: Revista GEOgraphia – Ano. II – No 3 – 2000.

20 de jun de 2009

Geografia e arte (artigos)

Sugestões de artigos para aqueles que querem pensar a possível relação entre Geografia e arte.

1. BARBOSA, Jorge Luiz. A arte de representar como reconhecimento do mundo: o espaço geográfico, o cinema e o imaginário social.

Disponível em: http://www.uff.br/geographia/rev_03/jorge%20luiz%20barbosa.pdf

2. SUSUKI, Julio Cesar. Geografia e literatura: uma leitura da cidade na obra poética de Paulo Leminski.

Disponível em: http://www.anpege.org.br/downloads/revista2/geografia_literatura.pdf

3. MOREIRA, R. . SER-TÕES: o universal no regionalismo de Graciliano Ramos, Mário de Andrade e Guimarães Rosa (um ensaio sobre a geograficidade do espaço brasileiro). Ciência Geográfica, Bauru - SP, v. X, n. X, p. 186-194, 2004.

4. GEIGER, Pedro. Ciência, arte e geografia no cinema de David Lynch.

Disponível em: http://www.geografia.fflch.usp.br/publicacoes/geousp/Geousp15/Artigo1.pdf

5. BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura (obras escolhidas). São Paulo: Brasiliense, 1993.

Geografia e cinema

Abrimos uma nova sessão: Geografia e arte.

Iniciamos com a sugestão do filme Soy Cuba/Я - Куба (1964). Co-produção Cuba e URSS teve direção de Mikhail Kalatozov e fotografia de Sergei Urusevsky.

O filme está dividido em quatro histórias, todas passadas numa Cuba pré-revolucionária. A primeira conta a história de Maria (Luz María Collazo). Na segunda, o fazendeiro Pedro (José Gallardo), coloca fogo em sua lavoura ao descobrir que suas terras foram roubadas. Na terceira história, o estudante universitário Enrique (Raúl Garcia)enfrenta soldados nas ruas de Havana. Por último, Mariano (Salvador Wood), morador das colinas procura defender sua mulher e filhos dos bombardeios de Batista, juntando-se à guerrilha liderada por Fidel Castro.

Foram dois anos de gravação. Com belíssima fotografia, Soy Cuba pretendeu selar a aliança URSS-Cuba divulgando para todo o mundo ocidental a vitória da revolução cubana. Todo o filme foi filmado com uma película utilizada pela agência espacial russa. Lançado em 1964 foi um fracasso de público e de crítica, tanto em Cuba quanto na URSS, permanecendo em cartaz apenas durante uma semana. Foram precisos 30 anos para que o filme fosse resgatado por Coppola e Scorsese.

O vídeo abaixo é de uma das mais belas cenas/fotografia do filme. Vale conferir!

19 de jun de 2009

Karl Ritter


Filósofo, historiador e professor de Geografia na Universidade de Berlin, Karl Ritter nasceu na Alemanha em 1779. Considerado, junto com Humboldt, fundador da geografia científica. Sua primeira obra foi Europa, Quadro Geográficos, Históricos e Estatísticos. Acreditava na necessidade do uso de todas as ciências para o estudo da geografia.

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ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO NA SUPERFÍCIE DO GLOBO E SUA FUNÇÃO NA EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Carl Ritter

Examinemos um globo terrestre. Por maior que seja, nós o vemos apenas como uma miniatura e uma representação imperfeita do modelado externo de nosso planeta.
O que no surpreende ao observarmos um globo terrestre é o caráter aleatório que preside a distribuição das extensões de água e de terra. Não há espaços matemáticos, nenhuma construção linear ou geométrica, nenhuma seqüência de linhas retas, nem de pontos regulares; somente a rede de coordenadas estabelecida a partir da abóbada celeste permite medir artificialmente uma realidade inalcançável: os próprios pólos não passam de pontos matemáticos definidos em função da rotação da Terra e cuja realidade ainda nos escapa.
Sim, este Todo terrestre assimétrico, ao não obedecer aparentemente a nenhuma regra e ser difícil de captar como um conjunto, deixa-nos obedecer aparentemente a nenhuma regra e ser difícil de captar como um conjunto, deixa-nos uma impressão estranha e nos vemos obrigados a utilizar diversos métodos de classificação para apagar a idéia de caos que dele resulta. Por isso, até agora o interesse foi maior em relação às suas partes constitutivas do que em relação à suas aparência global e, então, os compêndios geográficos têm-se dedicado fundamentalmente a descrever essas partes. Portanto, tendo-se contentado até agora em descrever e classificar sumariamente as diferentes partes do Todo, a geografia não pôde ocupar-se das relações e das leis de caráter geral, que são as únicas capazes de transformá-la em uma ciência e de dar-lhe sua unidade.
Embora a Terra, como planeta, seja muito diferente das representações em escala reduzida que dela conhecemos, e que só nos fornecem uma idéia simbólica de seu modelado, tivemos que lançar mão dessas miniaturizações artificiais do globo terrestre para criar uma linguagem abstrata que nos permitisse falar da Terra como um todo. E foi desse modo que, inspirando-nos diretamente na realidade terrestre, pudemos elaborar a terminologia das relações espaciais.
Existe uma diferença fundamental entre as obras da natureza e as criações do homem: por mais belas, simétricas ou acabadas que estas últimas possam parecer, um exame atento revelará sua falta de coesão e sua estrutura tosca. O tecido mais fino, o relógio mais elegante, o quadro mais formoso, o brilho mais intenso do mármore ou dos metais trabalhados nos levariam, vistos no microscópio, a uma constatação semelhante. Inversamente, a impressão de assimetria e a aparência informe das obras da natureza desaparece com um exame minucioso. A lente do microscópio faz surgir em uma teia de aranha, na estrutura de uma célula vegetal, no aparelho circulatório dos animais, na estrutura cristalina molecular dos minerais, elementos e conjuntos de uma textura sempre mais delicada.
Não deveríamos encontrar esta diferença também no caso do maior corpo natural que conhecemos, isto é, nosso planeta, embora saibamos que nosso conhecimento dele é ainda e apenas superficial? ... E, como conciliar esta abordagem global de nosso planeta com o que sabemos de tudo que nele vive, grupos humanos e outros seres vivos; com o que conhecemos de aventura do homem nesse planeta; e como conseguir esta conciliação se concebemos o globo como o lugar e a morada que oferecem ao homem, durante o tempo de sua passagem na Terra, a base necessária ao seu desenvolvimento?
Tudo nos leva a não buscar no presente a imagem da eternidade, a não confundir aparência e essência, as impressões que obtemos de uma coisa ou de um fenômeno e a realidade dessa coisa ou desse fenômeno, a não interpretar as leis naturais estabelecidas como construções lógicas do nosso intelecto, mas, antes, a considerá-las como uma feliz descoberta de um mundo de fenômenos que nos envolve e que, estão, não tínhamos conseguido elucidar. A gênese dessas multidões de estrelas que constituem as nebulosas, o estudo da formação dos ventos estão entre as coisas que têm ensinado a não rotular de incoerente a aparente deserdem do mundo que no rodeia.
Com efeito, quanto mais avançamos no conhecimento de distribuição espacial (dos fenômenos) na superfície terrestre, e quanto mais nos interessamos – para além de sua deserdem aparente – pela relação interna de suas partes, mais simetria e harmonia descobrimos nela, e uma medida cada vez maior as ciências naturais e a história podem ajudar-nos a compreender a evolução das relações espaciais. De fato, graças à meteorologia e à física, foi possível a realização, até agora, de grandes progressos em matéria de conhecimento da ordem espacial. Mas, resta ainda muito para se fazer e esperamos consegui-lo por meio da intervenção, nesse estudo, de nossos conhecimentos relacionados com a história dos homens e dos povos e, também, da distribuição geográfica dos elementos dos três reinos da natureza.
RELAÇÕES ENTRE OS FATORES NATURAIS E A EVOLUÇÃO DA HUMANIDADE
De início, basta recordar aqui como, nos três continentes do Velho Mundo, as formas oval da África, romboédrica da Ásia e triangular da Europa determinaram para cada um deles três tipos de relações dimensionadas. O caráter uniforme que essas relações adquirem na África (praticamente a mesma largura e o mesmo comprimento em termos de latitude e de longitude) se opõe fundamentalmente ao caráter que assumem na Europa. Neste último caso, com efeito, a extensão leste-oeste do continente equivale a duas ou três vezes sua largura norte-sul, a qual diminui cada vez mais, desde a base do triângulo, junta à Ásia, até seu vértice, voltando para o Atlântico. Se a África, este corpo maciço e voltado para si mesmo, é pobre em termos de articulações, o coração do continente asiático, igualmente maciço... tem um outro problema: não somente o sul e a oeste mas, também, ao norte e no seu próprio interior, cujas ramificações tiveram tanta importância quanto aquela do núcleo central no que diz respeito ao desenvolvimento do processo de civilização.
A pequena articulação entre o centro e a periferia no continente africano conduz `pobreza dos contatos entre o mar e o interior das terras e à dificuldade de acesso ao coração do continente. As condições naturais e humanas negaram ao corpo inarticulado da África uma individualização clara... Este caráter, em grande parte uniforme, é o que explica o estado primitivo e patriarcal em que vivem os povos deste continente e que eles tenham permanecido à margem dos progressos...
Quanto à Ásia, o extraordinário desenvolvimento costeiro provocou um mundo de fenômenos completamente diferentes. (Essas regiões costeiras) isoladas do resto do continente, mas comunicando-se entre si pelo mar, possuem uma configuração diferenciada pela natureza, através de suas montanhas, seus vales, seus rios, seus mares, seus ventos e seus produtos. Suas próprias populações e culturas as convertem em mundos à parte. É isto que explica, ademais, o caráter fortemente diferenciado das individualidades constituídas pelo mundo chinês, malaio, hindu, persa, árabe, etc. Entretanto,... os progressos levados a cabo por essas civilizações não puderam modificar de maneira substancial a vida dos nômades que circulam pelo interior da Ásia há milênios: mongóis, turcomanos, quirgnizes, uzbeques, kalmucos e outros. E, muito menos ainda, puderam alcançar o norte do continente...
Embora um prolongamento da Ásia, a Europa, na medida em que progride para o oeste, desenvolve suas superfícies com uma crescente autonomia. Assim com "membros" proporcionalmente mais importantes que o corpo, a Europa supera sua vizinha oriental precisamente no sentido de que, não possuindo obstáculos naturais importantes, o núcleo central não fica isolado de seus membros (periféricos). Assim, pois, este indivíduo terrestre fortemente compartimentado que é a Europa conheceu um desenvolvimento harmonioso... que condicionado desde o começo seu caráter civilizador e antepôs a harmonia das formas à força da matéria. O menos dos continentes estava, assim destinado a dominar os maiores...
Nos encadeamentos de causa e efeito que a natureza e a história nos mostram, pode-se prever – posto que o planeta parece ter uma vocação mais nobre revelada pela continuidade histórica – uma organização superior que, ademais, não seria de natureza puramente física. Esta organização deve ser fundamentalmente diferente daquela dos organismos naturais que o planeta sustenta, que se movem nele e datados de uma existência forçosamente mais breve.
Apesar da desordem aparente em que se encontra envolvido o globo par um observador despreparado, é nas diferenças entre superfícies e formas que reside o segredo do sistema interno e superior de organização planetária que expressa ema infinidade de forças cujos efeitos invisíveis estão em interação. Estas forças, que influem na natureza e na história, atuam de uma forma análoga à atividade fisiológica que determina a vida dos organismos vegetais e animais.
É precisamente na repartição diferencial e na amplitude irregular das extensões de terra e de água, assim como nas temperaturas variáveis que as acompanham necessariamente, e nos movimentos aparentemente desordenados dos eventos que reside a razão fundamental da organização planetária e de sua interação feral. Assim o fato de que os continentes tenham superfícies deferentes explica o poderio dos povos e a possibilidade que lhes é dada de cominar esses espaços. O aparente acaso que preside a disposição relativa das massa de terra reflete uma lei cósmica superior, que tem, necessariamente, determinado todo o processo de desenvolvimento da humanidade. A separação, à primeira vista puramente física entre o Velho e o novo Mundo, entre os continentes e as ilhas caba por ser a essência da relação espacial universal. A distribuição desigual dos dons naturais é o estimulante fundamental par o desenvolvimento dos intercâmbios universais. A pequena superfície da Europa e a harmonia de suas formas limitadas é a condição de sua liberdade e de sua capacidade de dominação

Sugestões 2 (Movimentos sociais)

Abaixo sugestões de leitura sobre o tema movimentos sociais, em especial o movimento social urbano. Muitas fazem parte de uma literatura já clássica sobre o tema. Bom proveito!!
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CARDOSO, Ruth Corrêa Leite, Movimentos Sociais na América Latina. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, n. 3, v.1, p. 27-37, fev. 1987.
______. Movimentos sociais urbanos: balanço crítico. S.n.t. Mimeografado.
CASTELLS, M. Movimientos sociales urbanos. Madri: Siglo XXI, 1974.
CASTRO, Mary Garcia. Sobre o cuidado conceitual quanto a movimentos sociais, cidadania e sociedade civil. Disponível em: http://www.icd.org.uy/mercosur/forum/anexo.html>. Acesso em: 21 jul. 2003.
DOIMO, Ana Maria; DOXSEY, Jaime R.; NETO, Roberto A. Beling. Os novos movimentos sociais: teoria e prática, Ciências Sociais Hoje, São Paulo, p. 8-35, 1986.
DURIGUETTO, Maria Lúcia. A teoria dos movimentos sociais em debate. Libertas, Juiz de Fora, n. 1, v. 1, p. 67-84, 2001.
EVERS, Tilman. Identidade: a face oculta dos novos movimentos sociais. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, v. 2, n. 4, p. 11-23, 1984.
______. Reprodução da força de trabalho e movimento popular: o caso dos loteamentos clandestinos em São Paulo. In: KOWARICK, Lucio (Org). Terra de habitação versus terra de espoliação. São Paulo: Cortez, 1984.
FERNANDES, Bernardo Mançano. A formação do MST no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2001.
FERREIRA, Patrícia Mena Barreto. A formação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e a luta contra o latifúndio urbano. 2003. 88 f. Dissertação (Mestrado em Ciências em Engenharia de Produção) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003.
FILHO, Gumercindo Rocha Dorea. Singularidade e autogestão no Movimento Sem Terra da cidade de São Paulo. 1996. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Pontificada Universidade Católica, São Paulo, 1996.
GOHN, Maria da Gloria. A força da periferia: a luta das mulheres por creches em São Paulo. Petrópolis: Vozes, 1985.
______. Lutas pela moradia popular em São Paulo. 1987. Tese (Livre Docência em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo,1987.
______. Reivindicações populares urbanas: um estudo sobre as associações de moradores de São Paulo. São Paulo: Cortez, 1982.
JACOBI, Pedro. Movimentos sociais e políticas públicas: demandas por saneamento e saúde. São Paulo: Cortez, 1989.
KOWARICK, Lucio. Movimentos urbanos no Brasil contemporâneo: uma análise da literatura. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v.1, n. 3, p. 38-50, fev. 1987.
MARQUES, Eduardo; BITAR, Sandra. Espaço e grupos sociais na metrópole paulistana. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n.64, p.123-131, nov. 2002.
MARTINS, Andréa Damacena. Movimentos sociais: uma discussão acerca da literatura sociológica (1984-1992). S.n.t. Mimeografado.
MOCANYO, Hector León. Los Movimientos sociales entre la condicionalidad y la globalización. Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2003.
MOISÉS, José Alvaro. Movimentos de mobilização popular na grande São Paulo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1978.
______. Estado: as contradições urbanas e os movimentos sociais. Revista de Cultura e Política, São Paulo, 1979.
MOURIAUX, René; BEROUD, Sophie. Para una definición del concepto de “movimiento social”. OSAL. Jun. 2000.
O ASSENTAMENTO Anita Garibaldi. Crítica Marxista, São Paulo, n.14, p.134, abr. 2002.
PAOLI, Maria Célia; TELLES, Vera da Silva. Direitos sociais: conflitos e negociações no Brasil contemporâneo. In: ALVAREZ, Sonia E. et al. Cultura Política nos movimentos sociais latino-americanos. Belo Horizonte: UFMG, 2000.
REIS, M. B. M. O debate teórico acerca dos Novos Movimentos Sociais no Brasil: um balanço outro. Revista Serviço Social e Movimento Social, São Luis, v.1, n. 2, Jul/dez 2000.
RIBEIRO, Ana Clara T. Leituras de movimentos: conjuntura, ação e poder. Revista Temporalis, Juiz de Fora, Ano II, n. 4, jun/dez. 2001.
RIBEIRO, Ana Clara T. Movimentos sociais urbanos: algumas reflexões. In: IV ENCONTRO NACIONAL DE GEÓGRAFOS. Anais do IV Encontro Nacional de Geógrafos. Rio de Janeiro, 1980.
______. Movimentos sociais: caminhos para a defesa de uma temática ou os desafios dos anos 90. Ciências Sociais Hoje, São Paulo, p. 95-121, 1991.
______. Movimentos, sujeitos sociais e política (elementos para a prática pedagógica). Cadernos IPPUR, Rio de Janeiro, ano VI, n. 1, p. 89-103 dez. 1992.
SADER, Eder; PAOLI, Maria Célia. Sobre “classes populares” no pensamento sociológico brasileiro (notas de leitura sobre acontecimentos recentes). In. CARDOSO, Ruth (Org). A Aventura antropológica: teoria e pesquisa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986
SADER, Eder. Quando novos personagens entram em cena. experiências, falas e lutas dSILVA, Luis Antonio Machado da; RIBEIRO, Ana Clara Torres. Paradigma e movimento social: por onde andam nossas idéias? Ciências Sociais Hoje. São Paulo, p. 318-35, 1985.
SILVA, Luis Antonio Machado da. Desdobramentos do campo temático dos movimentos sociais. Caderno CEAS, Salvador, n. 144, p. 39-51, 1993.
SILVA, Luis Antonio Machado da; ZICCARDI, Alicia. Notas para uma discussão sobre movimentos sociais urbanos. III Encontro Anual da ANPOCS. In: Anais do III Encontro da ANPOCS. Belo Horizonte, 1979.
TELLES, Vera da Silva. Anos 70: experiências práticas e espaços políticos. In: KOWARIC, Lucio (Org.). São Paulo Passado e Presente: Lutas sociais e as cidades. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
______. Movimentos Sociais. Reflexões sobre a experiência dos anos 70. In. KRISCHKE, P. F. e WARREN-SCHEREN, I (Org.) Uma Revolução no Cotidiano?: os movimentos sociais na América Latina. São Paulo: Brasiliense, 1987.
TOURAINE, Alan. In: O Retorno do Ator: Movimentos Sociais em Perspectiva. SEMINÁRIO INTERNACIONAL O RETORNO DO ATOR: MOVIMENTOS SOCIAIS EM PERSPECTIVA. In: Anais do Seminário Internacional O Retorno do Ator: Movimentos Sociais em Perspectiva. São Paulo, Faculdade de Educação, USP, ago. 1991.
______. Movimentos sociais. In: FORACHHI, Marialice Mencarine. et. al (Org.). Sociologia e sociedade: leituras de introdução à Sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1977.

9 de jun de 2009

Friedrich Ratzel


Sua primeira profissão foi de farmacêutico. Profissão que exerceu até os 21 anos de idade, quando passou a estudar Ciências Naturais e Geografia. Defendeu seu doutorado em zoologia pela Universidade de Heidelberg (1868). Foi correspondente do jornal Kölnische Zeitung, de Colônia (1874-1875), o que o obrigou a viajar pelo sul da Europa, México e Estados Unidos. Estas viagens o levaram ao estudo da antropogeografia (geografia humana). Ao regressar à Alemanha, tornou-se professor universitário em Munique e, posteriormente, em Leipzig. Morreu em Ammerland, Germâni em 1904. Maiores obras: Anthropogeographie (1882-1891), Völkerkunde (1885-1888), Politische Geographie (1897), Die Erde und das Leben (1901-1902) e Lebensraum (1901).
Sua formação original associada as chamadas ciências naturais é um dos elementos que explica sua aproximação à obra evolucionista de Darwin. É preciso lembrar que neste momento o paradigma evolucionista havia causado uma verdadeira revolução no seio das ciências. E é a partir dele que Ratzel busca compreender a relação entre a natureza e a história da humanidade. Ou seja, as influências da natureza sobre a humanidade.
Há em suas obras uma clara analogia com a teoria das Espécies de Darwin. No entanto, é preciso clareza para saber que o pretendido era indicar a possibilidade da Geografia avançar na formulação de grandes construções explicativas. Procedendo dessa forma, considerada então a cientificamente válida, seria possível elucidar a história.Em sua obra há uma nítida dimensão política na relação homem e natureza. Dimensão esta que se realiza através do Estado e da propriedade.
Entender Ratzel exige superar velhas leituras baseadas num suposto antagonismo determinismo x possibilismo ou Ratzel x La Blache.
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O ELEMENTO HUMANO NA GEOGRAFIA. A HISTORIA E A GEOGRAFIA DO HOMEM


Friedrich Ratzel


§29. Tarefas da geografia do homem e sua tríplice divisão — Se consi¬derarmos o homem dentro do quadro geral da vida terrestre, não nos será possível compreender o papel que ele ocupa na Terra, a não ser seguindo aquele mesmo método do qual nos valemos para estudar a difusão das plan¬tas e dos animais. Por isso a geografia do homem, do mesmo modo que a zoogeografia e a fitogeografia, deverá descrever e representar cartografica¬mente aqueles territórios onde se nota a presença do homem, separando a parte da Terra que é por ele habitada, ou ecúmeno, daquelas que não o são. Ela estudará por outro lado a difusão do homem dentro do ecúmeno e fixa¬rá os resultados do seu estudo em mapas da densidade de populações poli¬gráficas e itinerárias. E na medida em que a humanidade compreende raças, povos e grupos étnicos menores, a geografia do homem representa também a difusão destes elementos diversos através de mapas das raças humanas, mapas etnográficos, mapas das línguas e mapas políticos. E essencialmente a esta parte da nossa ciência que dedicamos a Parte II desta geografia do homem (1891).
A descrição e a representação do estado de coisas antropogeográfico são úteis para muitos objetivos da vida, do aprendizado, do trabalho cientí¬fico; e, quando ambas se realizam, pode-se dizer que foram cumpridas mui¬tas das tarefas práticas da geografia do homem. Mas a ciência nunca se sa¬tisfaz por ter respondido à pergunta “ONDE?”; pois quando este quesito é resolvido, ela prossegue adiante e passa à pergunta “DE ONDE?”. Já na execução da sua tarefa descritiva, a geografia do homem se encontrará diante de uma grande quantidade de casos nos quais vêm se repetindo fenômenos relativos ao território juntamente com fenômenos relativos à difusão do ele¬mento humano. Passando agora à segunda parte da sua tarefa, esta ciência, ao examinar a área de difusão de cada raça e de cada povo, se colocará a questão: “Corno se formou esta área?”; e se apresentarão então ao seu es¬tudo os movimentos do homem na sua dependência do território. Na verda¬de ela se dará conta de que nenhum povo teve origem no mesmo solo em que habita então, e dai tirará a conclusão de que ele não poderia mesmo permanecer aí eternamente. Alguns povos se expandem e outros são expul¬sos. E diante de todos os movimentos que daí se seguem, a Terra não repre¬senta já um elemento totalmente passivo, mas os direciona, os obstaculari¬za, os favorece, os torna lentos, os acelera, os desordena e os ordena graças às suas condições incomensuravelmente variadas de posição, de amplitude, de configuração, de riqueza de água e de vegetação. Quando a geografia se aproxima do exame destes fenômenos ela entra em contato com a história, que considera o solo como a pátria do cidadão, enquanto aquela o vê como a pátria da humanidade. Também a história considera a humanidade em mo¬vimento, embora não costume avançar através do estudo desta até o exame do território, enquanto a geografia, ao contrário, não ignora jamais sua presença.
As tarefas do terceiro grupo referem-se ao estudo das influências que a natureza exerce sobre o corpo e sobre o espírito dos indivíduos, e da/sobre os povos. Trata-se portanto, essencialmente, de efeitos que se devem ao cli¬ma, à configuração do solo, aos produtos vegetais ou animais do território. Todos os fenômenos da natureza, passando através do intelecto, exercem uma influência às vezes claramente visível, às vezes sutil e oculta sobre o ser e sobre as atitudes do homem, algumas vezes simplesmente se espelhan¬do nele, outras animando ou retardando sua atividade intelectual. Assim ve¬mos o ambiente físico refletir-se na religião, na ciência, na poesia. Na ver¬dade o exame destas influências compete mais à fisiologia e à psicologia do que à geografia; e isto tanto mais na medida em que tais influências não per¬manecem inativas no organismo como traços inanimados, mas continuam a produzir seus efeitos na vida material e espiritual do homem. Contudo a geografia do homem ao descrever países e povos não poderá se desinteressar pelos conhecimentos adquiridos nesta matéria, na medida em que estes to¬cam diretamente todos os problemas relativos à aclimatação.

§30. A geografia é uma ciência auxiliar? — Em contraposição à afir¬mação hoje difundida de que a geografia é uma ciência auxiliar da história, recordemos aqui a pergunta de Kant: “Qual das duas ciências existiu antes, a história ou a geografia?”. Kant responde: “A geografia está na base da história, porque os fatos históricos devem também ter um elemento ao qual se referir”. Enquanto o historiador considera o solo como algo de acessó¬rio, ele também atribui pouco valor aos serviços que a geografia presta à investigação histórica com o estudo e a descrição deste; mas aqueles serviços lhe parecerão tanto maiores quanto maior é a importância que ele passa a atribuir ao conhecimento do ambiente físico. A própria geografia pode con¬tribuir para aumentar esse interesse dedicando-se intensamente ao estudo do elemento humano, com o que estará tornando mais fácil à história a investi¬gação das mutáveis relações que se estabelecem entre o solo e os aconteci¬mentos históricos que se desenvolvem sobre este. Mas o nome de ciência au¬xiliar não tem no caso nenhum sentido, pois qualquer ciência pode se tornar útil a uma outra sem por isso se tornar sua serva. Não há nenhuma ciência que seja tão auxiliar, assim como não há ciência que não possa prestar algum serviço a qualquer das ciências irmãs. E neste sentido que consideramos a geo¬grafia e a história da humanidade como ciências irmãs, do mesmo modo que a geografia e a geologia.

Assim estamos de acordo com Vambery ao entender que, em relação ao território da Ásia Central e das estepes européias contíguas, deve-se sem dúvida excluir a possibilidade de estabelecer uma distinção etnográfica preci¬sa no que se refere às antigas migrações. Desde que esses territórios pos¬suem o aspecto atual eles sempre receberam povos nômades. Mas se por trás do véu das lendas já muito obscuras não é possível distinguir nitidamente ne¬nhum povo, e não havendo portanto a possibilidade da distinção etnográfica, resta sempre a possibilidade da distinção antropogeográfica: fossem turcos ou arianos, os povos que habitaram aquelas terras de todo modo sempre fo¬ram pastores nômades.
Concorreu também para diminuir a importância que é dada à geogra¬fia uma razão puramente literária, da qual muitos não se dão conta mas que não deixa de ter eficácia. A história adquiriu na literatura um lugar eminen¬te graças à forma sob a qual são apresentadas muitas de suas obras, e ao espírito de que algumas destas se animam. Ora, isto é mais arte do que ciên¬cia. A geografia, propondo-se em geral a objetivos menos elevados e de uti¬lidade prática mais direta, raramente obteve uma tal excelência formal. E por isso uma importante parcela da grande fama, considerada por alguns exagerada, conquistada por Alexander von Humboldt se deve justamente a que a geografia encontrou nele finalmente um escritor clássico como des¬de a Antiguidade já não possuía. Por outro lado é compreensível que o es¬treitamento das relações entre a geografia e a história tenha servido para tor¬nar cada vez mais manifesta a grande diferença existente entre as duas ciên¬cias sob o aspecto literário. Entre todos os geógrafos do século XVIII, Pin¬kerton só reconhece algum mérito literário em D’Anville; e este foi entre to¬dos o que mais aproximou o estudo geográfico da ciência histórica. Além disso Pinkerton afirmou, e com razão, que os antigos geógrafos tinham maior valor literário que os modernos; constatação que não deve surpreender se se levar em conta que aqueles consideraram os problemas geográficos sob as¬pectos gerais e se limitaram a descrever um mundo pouco extenso ou apenas nas suas linhas principais. A propósito disso Pinkerton compara os 18 volumes de Büsching sobre a Europa ao único e imortal volume de Estrabão. Mas a crítica não se justifica inteiramente. Pela sua própria essência a geo¬grafia não pode, assim como não podem as ciências naturais em geral, dar à literatura universal tantas obras clássicas quantas lhe pode dar a história; esta não poderá produzir apenas naquela parte da matéria geográfica que se limita com a história e com a etnografia, e onde a exposição pode ter ca¬ráter narrativo. Mas nesta consideração não há nada que possa diminuir a importância que cabe à geografia ao lado da história, pois neste argumento as razões formais não têm valor de espécie alguma.

§31. Razões práticas que determinaram a afirmação do elemento hu¬mano na geografia — A geografia já se ocupava com predileção particular do homem e de suas obras muito antes que os fenômenos resultantes da união do homem com a Terra fossem, pelo menos em parte, atribuídos ao seu es¬tudo; e isto por uma razão de ordem exterior. Na história de toda a ciência ocorre que o homem no princípio é tudo; depois, pouco a pouco, o objeto efetivo do estudo se liberta do invólucro ideal para se lançar enfim, comple¬tamente depurado, à investigação objetiva. No estudo geográfico este pro¬cesso se realizou com uma lentidão particular. Por muito tempo se pensou que as regiões terrestres tivessem importância apenas pelas suas relações com o homem, e essas relações ocupam sempre a maior parte das obras também de geografia científica. Por motivos de ordem prática ocorre que de todas as coisas existentes sobre a superfície terrestre aquelas que pertencem ao ho¬mem ou têm estreita relação com ele se impõem em maior medida ao espíri¬to humano. Estrabão considerou Homero como o pai da geografia “por ter ele superado todos os seus predecessores e seus sucessores não apenas na ar¬te poética, mas talvez também no conhecimento da vida civil”.
Esta predileção pelo elemento humano é sempre uma característica do estudo geográfico, mas é também um perigo constante que ameaça seu cará¬ter científico. Toda vez que uma ciência reúne ao mesmo tempo elementos humanos e elementos naturais, são os primeiros que invariavelmente predo¬minam. Basta recordar o que aconteceu com a biologia geral pelo amplo es¬paço que esta ciência dedicou à anatomia humana, à fisiologia e à psicolo¬gia. Mas para reforçar esta tendência a que aqui se acenou concorre ainda um segundo motivo, também de ordem exterior, que é o fato de que na lite¬ratura a descrição dos territórios e a descrição dos povos quase não se apre¬sentam mais separadas uma da outra, e isto especialmente quando se trata de países e povos longínquos. Ademais é exatamente esta íntima ligação dos dois elementos que confere particular atrativo às narrações das viagens. Por isso ocorreu que ambos os argumentos fossem estudados e tratados pelos mesmos escritores, de modo que geografia descritiva e etnografia permane¬cessem intimamente ligadas entre si tanto na investigação como no ensino.
Há finalmente uma terceira razão de caráter prático como as anterio¬res que induz a geografia a se ocupar com particular interesse do elemento humano: esta deve ser buscada no abandono em que todas as outras ciên¬cias deixaram sempre o estudo de uma grande quantidade de fenômenos que se referem ao homem. Assim a investigação histórica inicia suas pesquisas a partir do momento em que aparece o documento escrito; e a antropologia até muito recentemente se ocupava apenas do corpo humano, de modo que a história e a etnografia dos povos primitivos e semicivilizados ficassem in¬teiramente com a geografia; e esta tinha que, querendo ou não, tomá-las para si, tanto que ainda hoje a etnografia é estudada e ensinada por geógra¬fos e freqüentemente tem em comum com a geografia as mesmas revistas, livros, bibliografias e obras cartográficas.
Ora, à medida que a etnografia e a ciência social foram se desenvol¬vendo por conta própria, verificou-se na verdade como a antiga união da geografia descritiva e da etnografia estava apoiada em grande medida em razões de ordem exterior, mas ao mesmo tempo o desenvolvimento da geo¬grafia do homem abriu um novo campo sobre o qual as duas ciências apare¬cem novamente reunidas, sem com isto perder sua independência.
Os filósofos climatistas, ou seja, aqueles que sustentam a teoria das rá¬pidas transformações dos povos por efeito do clima, distorceram e reviraram em todos os sentidos a natureza de modo a fazê-la servir a seus objetivos; e nesse sentido suas teorias apresentam, sob o aspecto lógico, um certo inte¬resse, embora de caráter negativo. Raras vezes ocorreu de a ciência trabalhar por tão longo tempo com um material tão inadequado. Kant pretende demons¬trar que toda a raça mongólica provém das regiões setentrionais, e por isso exagerou desmesuradamente as influências do clima frio. No rosto largo e sem pêlos, no nariz longo, nos lábios finos, nos olhos semicerrados dos mongóis ele vê modificações produzidas pelo clima infeliz das terras nórdicas, onde “tudo é árido”. Assim, dos anões do norte que não existem de fato em lugar nenhum se fez uma raça especial; E. A. Zimmermann, ao contrário, escreve que a presença de comunidades de anões na África e em Madagáscar deve ser atribuída à emigração de alguns indivíduos deficientes. A alta estatura dos patagônios foi objeto de amplas discussões, pelo fato de que estes habitam muito próximos dos fuegos que são provavelmente anões. Mas se chegou a afirmar que se as terras do hemisfério austral avançassem antes em direção ao pólo, também os patagônios teriam altura inferior. Naquela época a geo¬grafia da América permanecia completamente à mercê destas teorias. Assim, para demonstrar que o fato de os americanos, também das zonas tropicais, terem a cor mais clara que os negros resulta unicamente de que a América tem clima geral frio, induziram-nos repetidas vezes à pesquisa das influências moderadoras do clima americano, até que finalmente Alexander von Hum¬boldt não mais levasse esta afirmação a um terreno positivo da observação experimental, limitando-a assim dentro de estreitas fronteiras. Entretanto Con¬damine afirmava que os índios da América do Sul se tornam mais escuros à medida que se avança em direção ao equador; Bourguer achava que os ha¬bitantes da encosta pacifica e mais fresca dos Andes são mais claros que os habitantes da encosta atlântica, mais quente.
A estas duas observações inexatas se referiram durante todo o século XVIII todos aqueles que quiseram demonstrar também na América a influência do calor sobre a coloração escura da pele. Maupertuis, em Vénus physi¬que, II, cap. 1, afirma que os negros africanos habitam entre os trópicos e formula, não apenas para a África mas para toda a Terra, a lei: “Á medi¬da que se afasta do equador, a cor dos povos se torna gradativamente mais clara”; e explica este fato, como também a difusão geográfica dos povos anões e dos gigantes, de um modo original, errado sem dúvida, mas sutil. Quando, diz ele (op. cit., II, cap. VII), anões, gigantes e negros se apresen¬taram entre os outros povos, a prepotência ou o medo armou contra eles a maior parte do gênero humano, e a espécie humana mais numerosa deve¬ria expulsar estas “raças disformes” para as regiões menos habitadas da su¬perfície terrestre. Os anões recuaram em direção ao pólo norte, os gigantes escolheram como sua sede o território de Magalhães e os negros foram mo¬rar na zona tórrida.
Uma das circunstâncias mais características na evolução desta ciência é que já há dois séculos Ortelius, que no seu mapa da África, contido no seu Theatrum Orbis Terrarum de 1570, tinha chamado os indígenas do Ca¬bo da Boa Esperança pelo nome de nigérrimos, tinha chegado à conclusão de que a causa da sua cor não podia ser atribuída ao mais intenso calor so¬lar, porque nesse caso os habitantes do estreito de Magalhães também deve¬riam ser negros. Este era portanto o caminho correto a ser seguido para se compreender que os movimentos dos povos, dada sua breve duração, nada têm a ver com as modificações das características raciais, que só se produ¬zem em períodos muito longos. Infelizmente o fato de ter pretendido encon¬trar uma relação entre estas características e o clima sempre impediu o estu¬do geográfico de seguir por este, que era o melhor caminho. Buffon, susten¬tando o conceito de uma enorme adaptabilidade do organismo humano às condições climáticas, foi quem contribuiu em maior medida para reforçar o antigo erro. E à sua influência não se subtraiu inteiramente nem mesmo G. Forster, embora este como observador arguto tenha conseguido tirar uma conclusão exata da premissa da natureza plástica, da massa humana. Nas suas Anotações filosóficas feitas durante uma viagem ao redor do mundo lê-se:

“Se portanto a influência do clima é tão poderosa como afirma Buffon não deve fazer muito tempo que a ilha de Mallicolo é povoada, pois desde que vi¬vem naquele clima moderado seus habitantes não mudaram ainda nem sua cor negra originária nem os cabelos crespos”.

§32. Que lugar cabe à geografia diante da história — A grande e às vezes exagerada importância que se quer atribuir ao elemento humano no estudo geográfico serviu para tornar mais difícil a compreensão das relações que existem entre a geografia e a história. Que a história tenha necessidade de recorrer à geografia para poder representar, medir, descrever o teatro dos acontecimentos políticos e as formações territoriais que daí resultam, isso foi compreendido claramente já por Ortelius quando este publicou seu pri¬meiro mapa cartográfico. Ortelius afirmou que a geografia e a cronologia são as duas colunas basilares da história. Dankwerth e Meier na sua Neue LandesbeSChreibUflg der Herzogtürner Schleswig und Holstein (1652) consi¬deram a geografia e a cronologia como os dois faróis principais da história. Mas a história fez uso destas em graus muito diversos. Já há muito tempo que as datas são consideradas como um elemento indispensável para a nar¬rativa histórica; mas por outro lado mesmo nas obras mais profundas buscam¬se freqüentemente em vão os dados numéricos relativos aos elementos geo¬gráficos da história, como áreas, cifras da população, desenvolvimento das comunicações etc. Até a geografia histórica ignorou de modo estranho os dados relativos às dimensões dos territórios políticos, dos países, das pro¬víncias etc.
É verdade que KarI Ritter afirmara: “O lugar da história não é junto à natureza, mas dentro desta”. Não obstante isso, no estudo geográfico a importância atribuída ao elemento humano tinha de tal forma minimizado o interesse pela natureza que Guthe, um verdadeiro seguidor de Ritter, atri¬buía à geografia a tarefa de nos fazer conhecer a Terra enquanto sede do homem. Na primeira edição, lançada em 1868, de Lehrbuch der Geographie, que depois foi tão profundamente transformado por Hermann Wagner de modo a fazer dele o melhor tratado de geografia dos nossos tempos, a parte que Guthe dedica à geografia física compreende 68 páginas*, enquanto a parte dedicada à corografia e à geografia política ocupa 479 páginas. O pri¬meiro parágrafo da introdução de Guthe assinala:

“A geografia nos ensina a conhecer a Terra como sede do homem; esta não é de modo algum uma simples descrição da Terra com seus mares etc., embora ao descrever a superfície do globo ela coloque o homem entre os outros seres, e nos mostre como por um lado este se encontra em estado de dependência da natureza que o circunda e como por outro tem tentado se subtrair a essa dependência, com o que a geografia vem a constituir o elemento de conjunção entre a ciência natural e a história”.

É esta a ação do conceito que Playfair havia expressado em 1808 no seu System ofgeography: “O estudo da geografia é necessário para conhecer o teatro da história”. Mas esta é uma consideração de valor puramente pra¬tico e foi um erro introduzi-la na ciência.
Diante de concepções deste gênero é necessário afirmar enfaticamente que a geografia deve antes de mais nada estudar e descrever a Terra, inde¬pendentemente de quaisquer considerações acerca do elemento humano e his¬tórico; e que a realização desta tarefa, que é específica da geografia, deve preceder o cumprimento de outra tarefa que esta tem em comum com a história no campo antropogeográfico. Mas as duas tarefas são inseparáveis uma da outra. Certamente, para usar as palavras de Karl Ritter, “a ciência geográfica não pode desprezar o elemento histórico, se pretende ser verda¬deiramente um estudo do território e não uma obra abstrata, uma moldura através da qual se veja o espaço vazio e não o quadro que essa deve con¬ter’’ ~. Do mesmo modo a história não pode desprezar a geografia por¬que os fatos que esta contempla tem necessidade de um teatro onde se de¬senvolver:

‘esta deverá em todas as suas formas acolherem si, mais ou menos claramen¬te, um elemento geográfico, seja como em Tucidides e Johann von Müller pre¬cedendo a narração de uma visão geral do território, seja como em Heródoto, Tácíto e outros mestres inserindo a descrição geográfica no curso da narrati¬“a, ou seja, finalmente como em outros escritores apenas aflorando o elemen¬to geográfico e extraindo dele só a entonação e a cor. A filosofia da história, tal como foi pensada por Bacon e Leibniz, que Herder esboçou e que outros recentemente tentaram levar adiante seu desenvolvimento, teve que atribuir a este elemento geográfico um lugar cada vez maior”

Entretanto a tarefa mais importante da geografia continuará sendo sem¬pre a de estudar, descrever e representar a superfície terrestre. Porém, mes¬mo atribuindo à história o estudo dos acontecimentos que se sucedem no tempo, à geografia as condições de fato do território, não se pode esquecer que todo acontecimento se faz no espaço, e por isso toda história possui seu teatro. Tudo que hoje constitui o presente será história amanhã; por isso o material da geografia vai passando ininterruptamente pelas mãos da his¬tória. Compreende-se a partir dai que uma nítida separação entre as duas ciências não seria logicamente possível, mas que ao contrário é necessário, para que ambas possam desenvolver uma atividade profícua, que elas atuem intimamente unidas. A frase de Herder de que a história é uma geografia em movimento permanece verdadeira também inversamente, e disso se se¬gue que a história não pode ser compreendida sem o território onde ela se desenvolve, e que a geografia de qualquer parte da Terra não pode ser re¬presentada sem conhecer a história que imprimiu sobre esta suas pegadas. Todo mapa tem que ser examinado tendo presentes os elementos históricos ai referidos, do mesmo modo que sem o mapa não seria possível compreen¬der nem as modificações das fronteiras, nem as variações do tráfico ou das sedes humanas, nem os movimentos dos povos.
A partir do conceito que temos da posição do homem na natureza re¬sulta quanto é imperfeita a concepção que considera a importância do ele¬mento geográfico na história partindo de critérios de ordem puramente ex¬teriores. Isto significa, para nos exprimir praticamente, que a introdução à história de um país não deve ser uma simples descrição corográfica; isto por¬que, mesmo que esta descrição seja colorida e fiel como a introdução à Ges¬chi chie der Schweizerischen Eidgenossenschaft de Johann von Müller, ou como a introdução à Griechische Geschichte de Curtius, ela contudo não atingirá minimamente o seu objetivo se não examinar além disso a relação geográfica entre esse país e a inteira superfície terrestre e não nos mostrar que as influências recíprocas que se exercem entre povo e território e entre este e o Estado são ininterruptas e governadas por uma lei de necessidade.

§33. A história universal deve abarcar toda a Terra — Mas nesta união das duas ciências não se deve considerar uma história limitada ao estreito círculo da Europa e dos países mediterrâneos, assim como esta se nos apre¬senta nas abordagens usuais.
Na verdade a razão filosófica, da qual derivava essa limitação, não pôde impedir que a história acolhesse gradativamente no seu seio uma parte cada vez maior daquela matéria, que de resto pertence à etnografia. E o estudo comparado dos povos uma vez iniciado não podia certamente ser interrom¬pido. Não podia permanecer ignorada a justa advertência de Heinrich Barth: “Mesmo os movimentos dos povos da África central têm sua história; e ape¬nas quando eles também passarem a fazer parte do grande quadro histórico da humanidade poderá este quadro aproximar-se da sua realização”.
Hoje uma história universal da civilização não poderia mais, sem con¬tradizer seu próprio nome, eximir-se de considerar os mexicanos, os japone¬ses, os malaios; e toda história dos Estados Unidos da América tem que de¬dicar um grande espaço às condições dos povos primitivos que existem na¬quele território e aos acontecimentos que a eles se referem. Uma obra como a História da Nova Inglaterra de Palfrey não seria concebível se não tratasse da influência política que exerceu sobre a história universal a incidência de povos privados de história, como fizeram Salústio e Tácito em seus capítu¬los sobre a África. Mas em relação a isto a filosofia da história não ilumi¬nou em nada a obra dos narradores. Um erro fundamental que falseia a con¬sideração filosófica da história é, e tem sido sempre, o desprezo ao elemento geográfico, desprezo que significa também uma visão histórica limitada. Pode-se afirmar antes que toda a direção construtiva da filosofia da história alemã não teria sido forjada se aqueles cientistas tivessem atribuido maior importância ao elemento geográfico. Kant, que também foi grande amigo e conhecedor da geografia, foi o primeiro a introduzir-se por uma estrada falsa, que Fichte, Schelling e Hegel seguiram depois, chegando a um resul¬tado geograficamente absurdo. A idéia de Kant de que a história da huma¬nidade deva ser considerada como a realização de um projeto secreto da na¬tureza, visando a efetuar uma constituição política interna e exteriormente perfeita, não teria sido possível se não com a tácita premissa de que o proje¬to compreendesse apenas a história da Europa, que a Europa devesse, por assim dizer, fazer a história de todos os outros continentes, que provavel¬mente deveriam receber da Europa algum dia suas leis. Em Fichte esta pre¬missa se apresenta como a condição necessária para a determinação dos seus períodos históricos, e por isso se expressa aqui sem nenhuma atenção ao ele¬mento geográfico; pois este pensador audacioso declara que se limita a seguir aquele fio da civilização que conduz até nós, “interrogando apenas a nossa história, isto é, a história da Europa civilizada, que é a sede atual da civiliza¬ção, e desprezando outros fios secundários que não conduzem diretamente a nós, como a história da civilização chinesa e indiana”.
A par com este conceito está o outro, também de Fichte, que admite que tenha existido um povo primitivo originário, no qual a razão dominava “como um instinto cego”, que regulava, sem constrição ou esforço, todos os eventos humanos. Mas a Limitação do conceito de história se manifesta mais que em qualquer outro em Hegel para quem, segundo uma expressão sua fre¬qüentemente citada, apenas é história “aquela que constitui uma época es¬sencial na evolução do espírito humano”, e que por isso devem ser excluídas do círculo das considerações histórico-filosóficas não só a zona glacial e a zo¬na tórrida, “porque o calor e o frio são forças muito poderosas que não per¬mitem ao espírito humano criar um mundo próprio, mas igualmente a Áfri¬ca, na medida em que não se observa aqui nenhum movimento de evolução” e a América, cujos pensadores mais ágeis e mais modernos exclui, porém ape¬nas formalmente, para representá-los depois em perspectiva. Estas idéias não têm absolutamente nada de geográfico, e não refletem inteiramente a amplia¬ção do horizonte intelectual, que é sempre a conseqüência necessária e mais importante do estudo da geografia, mas manifestam um enorme deslumbra¬mento diante da natureza das coisas. E se observe, por outra parte, como es¬sas idéias deveriam se enraizar, a ponto de que o próprio Augusto Comte pô¬de afirmar explicitamente que seu estudo histórico-filosófico se limitava aos povos de raça branca, e por outro lado dedicar uma preferência tão acentua¬da aos habitantes da Europa ocidental, como aqueles que constituem uma civilização mais avançada e representam a élite ou avantgarde de l’humanité!.
A história universal, tal como é entendida pelos nossos escritores de his¬tória, está ainda muito Longe de ser uma história da humanidade; mas tam¬bém a história particular, que deveria tomar em grande consideração as ob¬servações de caráter topográfico, raramente consegue tirar partido dos meios que a ciência irmã lhe poderia fornecer.
Mas se deve observar que em Comte a limitação tem mais um caráter meramente temporário e se move por uma razão metodológica:

“Leur appréciation spéciale doit être systématiquement ajournée jusqu’au mo¬ment oú, les bis principales du mouvement social ayant été ainsi appréciées dans le cas le plus favorable à leur pleine manifestation, il deviendra possible de pro¬céder à l’explication rationnelle des modifications plus ou moins importantes”.

Se de fato, como diz Comte, a evolução histórica tende a reunir toda a hu¬manidade em uma sociedade única, e todos os acontecimentos anteriores não representam senão uma preparação para esta, então ele deveria prever que o movimento histórico acabaria por abarcar toda a Terra.

5 de jun de 2009

Alexander von Humboldt

Alexander Von Humboldt, nasceu na Alemanha em 14 de setembro de 1769. Considerado, junto com Karl Ritter, um dos fundadores da Geografia moderna dando a ela um objeto e um método próprio. "Comparando diferentes partes e reconhecendo-lhes a unidade, valendo-se tanto dos dispositivos da ciência racionalista como da filosofia da natureza e do romantismo, Humboldt cumpre uma análise geográfica holística". O fragmento abaixo é parte do prefácio de sua mais importante obra: O Cosmo.
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PREFÁCIO DE COSMOS

Ofereço aos meus compatriotas, no ocaso de minha vida, uma obra cujas idéias ocuparam meu espírito por um meio século. Freqüentemente eu a abandonei, duvidando de possibilidade de realizar um empreendimento assim, tão temerário: sempre, e talvez imprudentemente, eu acabava por voltar a ela e, desse modo, persisti em minha intenção original. Ofereço o “Cosmos”, que é uma “descrição física do mundo”, com a timidez que me inspira a justa desconfiança em relação às minas forças. Procurei esquecer que as obras esperadas por mais tempo são, geralmente, aquelas que o público acolhe com menos indulgência.
Em função das vicissitudes de minha vida e de um desejo de aprender dirigido para objetos muito variados, vi-me obrigado a me engajar, aparentemente de modo quase exclusivo e durante numerosos anos, no estudo de ciências especiais como a Botânica, a Geologia, a Química, ou no estudo de questões como as das posições dos astros e do magnetismo terrestre. Foram estudos preparatórios para fazer, com utilidade, viagens longínquas, todavia, eu tinha, nesses estudos, um objetivo mais elevado. Eu desejava compreender o mundo dos fenômenos e das forças físicas em sua conexão e em sua influência mútua. Beneficiando-me, desde o começo de minha juventude, dos conselhos e da boa vontade de homens superiores, desde muito cedo fui tomado de uma crença íntima de que, sem o desejo de conseguir uma instrução sólida nas partes especiais das ciências naturais, toda contemplação da natureza em escala maior, toda tentativa de compreender as leis que compõem a física do mundo, não passariam de um empreendimento vão e quimérico.
Os conhecimentos especiais, pelo próprio encadeamento das coisas, assimilam-se e fecundam-se mutuamente. Quando a Botânica descritiva não fica circunscrita aos estreitos limites do estudo das formas e de sua reunião em gêneros e em espécies, ela conduz o observador que percorre, sob diferentes climas, vastas extensões continentais, montanhas e planaltos, às noções fundamentais da “Geografia das Plantas”, à explicação da distribuição dos vegetais, de acordo com a distância do equador e com a elevação do acima do nível dos mares. Ora, para compreender as causas complicadas das leis que regulam esta distribuição, é preciso aprofundar os conhecimentos das variações da temperatura que o solo irradia e do oceano que envolve o globo. É assim que o naturalista, ávido de instrução, é conduzido de uma esfera de fenômenos a uma outra esfera que limita os efeitos daquela. A Geografia das plantas, cujo nome era praticamente desconhecido há meio século, apenas ofereceria uma nomenclatura árida e desprovida de interesse se ela não fosse esclarecida pelos estudos meteorológicos.
Nas expedições científicas, poucos viajantes tiveram, na mesma proporção que eu próprio, a vantagem de ter não somente visto as costas litorâneas, como ocorre nas viagens em torno do mundo mas, também, a de haver percorrido o interior de dois grandes continentes em extensões consideráveis, e naqueles lugares em que esses continentes apresentam os contrastes mais chocantes, a saber, a paisagem tropical e alpina do México ou da América do Sul, e a paisagem das estepes da Ásia boreal. Empreendimentos dessa natureza tiveram por resultado, em razão da tendência do meu espírito para as tentativas de generalização, a vivificação de minha coragem, e o excitamento a correlacionar, em uma obra à parte, os fenômenos terrestres e aqueles que incluem os espaços celestes.
A composição de uma tal obra, se ela aspira a juntar ao mérito de fundo científico aquele da forma literária, apresenta grandes dificuldades. Trata-se de levar a ordem e a luz à imensa riqueza dos materiais que se oferece, à reflexão, sem tirar dos quadros da natureza o sopro que os vivifica; pois se nos limitássemos a oferecer resultados de caráter geral, arriscar-nos-íamos a sermos tão monótonos, quanto através da exposição de uma imensa quantidade de fatos particulares. Eu não ouso me gabar de ter satisfeito a essas condições tão difíceis de serem satisfeitas, e de ter evitado as dificuldades cuja existência apenas posso mostrar.
A frágil esperança que tenho, de obter a boa vontade do público, repousa no interesse, testemunhado por tantos anos, em relação a uma obra que foi publicada pouco tempo depois de meu retorno do México e dos Estados Unidos, sob o título “Quadros da Natureza”. Este pequeno livro, escrito originalmente em Alemão, e traduzido em Francês, graças a um raro conhecimento dos dois idiomas, por meu velho amigo, M. Eyrès, trata de algumas partes da Geografia Física, tais como a fisionomia dos vegetais, as savanas, os desertos, e os aspectos das cataratas, todos de pontos de vista gerais. Se ele teve alguma utilidade, foi menos pelo que ele pode oferecer de seus próprios méritos, do que pela influência que ele exerceu sobre o espírito e a imaginação de uma juventude ávida de saber e pronta a se lançar em empreendimentos longínquos. Procurei mostrar no “Cosmos”, como nos “Quadros da natureza”, que a descrição exata e precisa dos fenômenos não é, absolutamente, inconciliável com a descrição animada e viva das cenas imponentes da criação.
Expor em cursos públicos as idéias que se acreditam novas pareceu-me, sempre, o melhor meio de tomar consciência do grau de clareza que é possível desenvolver sobre essas idéias: além disso, experimentei este meio em duas línguas diferentes, em Paris e em Berlim. Os cadernos de notas foram redigidos, nessas ocasiões, por ouvintes inteligentes, continuam desconhecidos para mim. Preferi não consultá-los.
A redação de um livro impõe obrigações bem diferentes daquelas advindas da exposição oral em um curso público. Com a exceção de alguns fragmentos da introdução ao “Cosmos”, tudo foi escrito nos anos de 1844. O curso desenvolvido diante de dois auditórios de Berlim, em sessenta lições, foi anterior à minha expedição ao norte da Ásia.
O primeiro volume desta obra (Cosmos) compreende, ao meu ver, a parte mais importante de todo meu projeto, isto é, um quadro da natureza apresentando o conjunto dos fenômenos do universo, desde as nebulosas planetárias, ate a Geografia das Plantas e dos Animais, e terminando pelas raças dos homens. Este quadro é precedido de considerações sobre os diferentes graus de satisfação que oferecem o estudo da natureza e o conhecimento de suas leis. Os limites da ciência do “Cosmos” e o método segundo o qual procuro expô-la são aí, igualmente, discutidos. Tudo o que diz respeito ao detalhe das observações dos fatos particulares, e às rememorações da antigüidade clássica, fonte eterna de instrução e de vida, está concentrado nas notas colocadas na parte final de cada volume.
Freqüentemente se faz a observação, pouco consoladora na aparência, de que tudo que não tem suas raízes nas profundezas da reflexão, do sentimento e da imaginação criadora, que tudo que depende do progresso da experimentação das revoluções que fazem sentir às teorias físicas o aperfeiçoamento crescente dos instrumentos, e a esfera, cada vez mais ampliada, da observação, não tarda a envelhecer. As obras sobre as ciências da natureza carregam, assim, nela próprias, um germe de destruição, de tal sorte que, em menos de um quarto de século, em função da rápida marcha das descobertas, elas estão condenadas ao esquecimento, tornando-se ilegíveis para quem quer que esteja à altura do presente. Estou longe de negar a justeza de tais reflexões, mas penso que aqueles que, através de um longo e íntimo intercâmbio com a natureza, foram penetrados do sentimento de sua grandeza, aqueles que, neste intercâmbio salutar, fortaleceram, simultaneamente, seu caráter e seu espírito, não se afligiram, simultaneamente, seu caráter e seu espírito, não se afligiram ao ver que a natureza é cada vez mais e melhor conhecida, ao ver estender-se incessantemente o horizonte de idéias, assim como dos fatos conhecidos. E há ainda mais: no estado atual de nossos conhecimentos, partes muito importantes da física do mundo estão assentadas em fundamentos sólidos. Uma tentativa de ligar o que, em uma certa época, foi descoberto sobre os espaços celestes, à superfície do globo, e à pequena extensão que nos é permitido perceber em suas profundezas, poderia, se não me engano, quaisquer que sejam os progressos da ciência, oferecer ainda algum interesse, se essa tentativa conseguisse retratar com vivacidade uma parte ao menos do que o espírito do homem percebe de generalizável, de constante, de eterno, no meio das aparentes flutuações dos fenômenos do universo.
Alexander von Humboldt, Novembro de 1844

Traduzido pelo Prof. Oswaldo Bueno Amorim Filho de:
HUMBOLDT, Alexander von: Cosmos - Essai d'une decription physique du monde. Paris, guide et cie., Libraires Éditeur, 1847.