20 de fev de 2012

Evento: Palestra David Harvey

 Vale a pena!

O geógrafo britânico David Harvey acaba de confirmar visita ao Brasil, a convite da Boitempo Editorial, para a realização de conferências de lançamento do livro "O enigma do capital e as crises do capitalismo". Serão três dias de eventos em universidades de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Todos os eventos são gratuitos e não há necessidade de inscrição prévia.

Nos locais haverá venda dos livros da Boitempo com descontos especiais.

Saiba mais informações sobre o livro: http://bit.ly/AedJWd
Saiba mais sobre os eventos: http://bit.ly/xAxKPt

Programação completa:

27/02 | Segunda-feira | 19h30 - São Paulo (SP)
Teatro TUCA (PUC-SP)

Rua Monte Alegre, 1024 - CEP 05014-001, Perdizes - Tel. (11) 3670-8458

Com a presença de Leda Paulani (FEA/USP) e João Ildebrando Bocchi (FEA, PUC-SP)
Realização: APROPUC, Núcleo de Estudo de História: Trabalho, Ideologia e Poder (NEHTIPO), Departamento de História da PUC-SP, Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP e Boitempo Editorial
Apoio: PUC-SP e Teatro TUCA.

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28/02 | Terça-feira | 18h30 - São Paulo (SP)
Auditório da FAU/USP

Rua do Lago, 876 - CEP 05508-900, Cidade Universitária - Tel. (11) 3091-4801

Com a presença de Ermínia Maricato (FAU/USP) e Mariana Fix (LabHab)
Realização: FAU/USP, Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da FAU (LabHab), Pós-Graduação FAU/USP e Boitempo Editorial.

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29/02 | Quarta-feira | 18h - Rio de Janeiro (RJ)
Salão Nobre do IFCS da UFRJ

Largo de São Francisco, 01 – 2º Andar – CEP 20051-070 – Centro
Com a presença de Marco Aurelio Santana (PPGSA-IFCS-UFRJ)
Realização: Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA-IFCS/UFRJ), Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) Núcleo de Estudos Trabalho e Sociedade (NETS-IFCS/UFRJ) e Boitempo Editorial.

Entrevista: Roberto Lobato

Abaixo reproduzo parte da entrevista com o Prof. Roberto Lobato, originalmente publicada na revista  Espaço Aberto, PPGG - UFRJ, V. 1, N.1, p. 155-160, 2011.

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Quem são os Clássicos da Geografia Brasileira? E Por Que Lê-los?

Entrevista com o Prof. Dr. Roberto Lobato Azevedo Corrêa

A intenção da presente seção é apontar – a partir de vários pontos de vista obtidos em entrevistas com geógrafos renomados – os autores clássicos que não só foram de fundamental importância na formação dos geógrafos brasileiros como também deram dignidade à nossa profissão, auxiliando a construir a imagem respeitável e o reconhecimento à nossa expertise. Para tanto, nessa seção é sempre reproduzida uma entrevista realizada com um geógrafo reconhecido regional ou nacionalmente.

Sua origem está na leitura da obra “Por que ler os clássicos?”, de Ítalo Calvino, publicada em 1994. Em seu texto, o autor brinca ao descrever o clássico como a obra que todos se envergonham de ainda não terem lido e, por esse motivo, está sempre sendo relida. Ler os clássicos é melhor do que não lê-los, afinal invariavelmente acabamos aprendendo algo com essas obras. Enfim, nós lemos os clássicos em benefício da nossa educação. 

A produção geográfica brasileira, apesar do meio século de existência, pode ser considerada ainda relativamente recente. O geógrafo brasileiro Milton Santos, por sua vez, esclareceu:

A ambição de uma obra que procura apresentar um corpo de ideias elaboradas de modo pioneiro é provocar um debate teórico e encorajar estudos empíricos que confirmarão ou não a idéia geral e ajudarão a reformulá-la. (Palestra proferida na UFRJ, 1980.)

Por tudo isto e por muitos outros motivos também importantes, talvez aqui esquecidos, a leitura das obras que nos antecederam foram e são fundamentais à produção renovada do conhecimento e à explicação do espaço brasileiro. Não se trata apenas de sua abordagem puramente descritiva. É a partir das leituras dos clássicos, embora não só deles,  que os pesquisadores antigos e os atuais formam o capital intelectual específico e coletivo.

Seria desnecessário detalhar a trajetória de nosso entrevistado do mês, contudo vamos recordar sua brilhante e rica trajetória. O Prof. Roberto Lobato Azevedo Correa nasceu em 5 de novembro de 1939, no Rio de Janeiro. Formou-se em geografia no ano de 1969, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Obteve o título de mestre em geografia pela University of Chicago, nos Estados Unidos, em 1974, com a dissertação “Variations in Central Place Systems: An Analysis of the Effects of Population Density and Income Level”. Em 2000, concluiu o doutorado na UFRJ. Sua tese, orientada por Maurício de Almeida Abreu, resultou no livro “Trajetórias Geográficas”.

Trabalhou na Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no período de 1959 a 1993,  tendo sido diretor do Departamento de Geografia (DEGEO). Em 1972, foi convidado a atuar como professor na UFRJ e, desde então, tornou-se pesquisador do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-graduação em Geografia (PPGG Aposentado do IBGE, foi aprovado no concurso para professor adjunto da UFRJ, integrando-se ao corpo docente do Departamento de Geografia no ano de 1995. Em sua função administrou disciplinas como Geografia Regional do Brasil, Análises Regionais, Organiza ção Interna das cidades e Redes Urbanas. Elaborou e desenvolveu na UFRJ os seguinte projetos de pesquisa: “Formas simbólicas e espacialidades”, “Áreas sociais: uma avalia ção crítica”, “Estudos comparativos sobre a rede urbana, espaço e cultura” e “Organiza ção interna da cidade”. Geografia Urbana e Geografia Cultural são as duas áreasde destaque em suas pesquisas, sendo que nos últimos anos o Prof. Roberto se tornou um expressivo proponente da Geografia Cultural contemporânea no Brasil. Aposentou-s como professor adjunto do Departamento de Geografia da UFRJ em 2009. Atualmente participa como professor colaborador voluntário do PPGG.

1. O que é uma obra clássica da Geografia brasileira?
Resposta: – Livro ou artigo escrito por um(a) geógrafo(a) (falecido(a), que atravessou gerações e períodos da história do pensamento geográfico, tendo percorrido uma longa trajetória:
- Introduz um novo modo de ver as coisas, um avanço na teoria geográfica.
- Sintetiza um amplo campo da Geografia, oferecendo uma visão complexa que é ou foi referência básica.
- É ou foi objeto de debates no campo específico ou em campos vizinhos, tendo sido analisado e reanalisado por inúmeros autores durante um período relativamente longo.
- Gera “discípulos”, que produzem outros textos a partir do clássico.
- Lido por todos ou quase todos.
- Tem duas ou mais edições, algumas com comentários adicionais feitos por terceiros.
- O campo específico tem a sua própria trajetória marcada pelo clássico.
2. Quais são os critérios para considerar um(a) autor(a) como clássico(a)?
Resposta: – Os critérios estão especificados nos pontos indicados na resposta anterior.
3. Cite alguns clássicos da Geografia brasileira.
Resposta: – Nilo Bernardes; Lysia Bernardes; Manoel Correia de Andrade; Aroldo de Azevedo; Pierre Monbeig; Milton Santos.

4. E por que ler os clássicos da Geografia brasileira?
Resposta: – Porque a obra deles contribuiu para fundar ou dar continuidade ao conhecimento do espaço brasileiro. A obra deles marcou um período ou causou uma ruptura na história da geografia brasileira, tendo repercussões que atravessaram um largo período.

Foram marcos de períodos ou ruptura entre períodos.
Um clássico deve ser leitura obrigatória na formação do geógrafo brasileiro.

5. Cite obras dos autores mencionados.
Resposta: – Obras importantes que devem ser lidas:
a) MILTON SANTOS
-  Por uma Geografia Nova (1978)
Livro que rompe com as perspectivas tradicionais e da geografia teorético-quantitativa. É o marco inicial de uma geografia crítica, com reflexões sobre o espaço e as relações com a sociedade.
- O Espaço Dividido (1ª edição, 1979; 2ª edição, 2004)
Fundamental para a compreensão das espacialidades nos países subdesenvolvidos, apresentando e discutindo os circuitos inferiores e superiores da economia.
- A Natureza do Espaço: Razão, Técnica, Tempo e Emoção (1996)
Trata-se de obra que sintetiza o pensamento de Milton Santos na década de 1990. O espaço é o objeto do livro, tema central na trajetória de Milton Santos.

b) MANOEL CORREIA DE ANDRADE
- O Homem e a Terra no Nordeste Trata-se de um clássico, produzido na primeira metade dos anos 1960. O Nordeste é apresentado por meio de seus quadros regionais e de sua problemática.

c) AROLDO DE AZEVEDO
- A Cidade de São Paulo – Estudos Geográficos.
Com alguns volumes, o livro, publicado nos anos 1950, é uma descrição e interpretação da cidade de São Paulo.

6. Cite alguns brasilianistas.
Resposta: – É um termo utilizado sem muito rigor. São eles:
a) Pierre Monbeig
- Pioneirs et planteurs de São Paulo. Paris, A. Colin, 1952, 376p.
- Estudos de Geografia Humana
- O Estudo Geográfico da Cidade
b) Pierre Deffontaines
c) Leo Waibel
d) Pierre Denis
- Le Brésil au XXéme Siécle, publicado nos anos 1920
e) Pierre Gourou

Nem todos podem ser definidos como brasilianistas (aqueles que se dedicaram a estudar o Brasil), mas trata-se de geógrafos que durante certo tempo dedicaram-se a estudar o Brasil. Pierre Monbeig talvez seja o único brazilianista de fato.

Literatura e ciência

Diálogo Filosófico

Carlos Drummond de Andrade

- As coisas não são o que são, mas também não são o que não são - disse o professor suíço ao estudante brasileiro.
- Então, que são as coisas? - inquiriu o estudante.
- As coisas simplesmente não.
- Sem verbo?
- Claro que sem verbo. O verbo não é coisa.
- E que quer dizer coisas não?
- Quer dizer o não das coisas, se você for suficientemente atilado para percebê-lo.
- Então as coisas não têm um sim?
- O sim das coisas é o não. E o não é sem coisa. Portanto, coisa e não são a mesma coisa, ou o mesmo não.

O professor tirou do bolso uma não-barra de chocolate e comeu um pedacinho, sem oferecer outro ao aluno, porque o chocolate era não.

Contos Plausíveis, in Andrade, C. D. (1992): Poesia e Prosa, Rio de Janeiro: Aguilar, pg. 1261.