10 de abr de 2012

Evento: Seminário de História da Cidade e do Urbanismo

XII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo.

O evento acontecerá em Porto Alegre entre os dias 15 a 18 de Outubro.

Este ano o tema do Seminário será  A CIRCULAÇÃO DAS IDEIAS NA CONSTRUÇÃO DA CIDADE: UMA VIA DE MÃO DUPLA

Maiores informações no site

Estrutura Fundiária do Recôncavo da Guanabara - Banco de dados da pesquisa do Prof. Maurício de Almeida Abreu

Uma linda homenagem ao prof. Mauricio Abreu. Mas mais do que isso. Um banco de dados de uma vida inteira de pesquisa. Importantíssimo para quem estuda o processo de formação e evolução da cidade do Rio de Janeiro.

Fica a dica e a sugestão.

Maurício de Almeida Abreu

3 de abr de 2012

Resenha: Pelo Espaço

 Resenha publicada na Revista Formação, n.15 volume 1 – p.162-166,

 
MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2008. 312 p.

Nécio TURRA NETO*

 * Professor do Departamento de Geografia da UNICENTRO/Guarapuava-PR e Doutorando em Geografia pela UNESP/Presidente Prudente. Email: turraneto@yahoo.com.br.



Doreen Massey é uma autora que conhecemos apenas por alguns poucos artigos traduzidos para o português e publicados no Brasil. Finalmente, chega a tradução deste livro, Pelo Espaço, trabalho acompanhado por Rogério Haesbaert, que também faz a apresentação ao público brasileiro da autora, da sua obra e deste livro em especial.

É possível identificar facilmente no livro as idéias já esboçadas nesses conhecidos artigos, como: “Um Sentido Global do Lugar”, publicado no livro “Espaço e Diferença”; “Pensamentos Itinerantes”, publicado recentemente na Revista Terra Livre, n. 27 e, sobretudo, o artigo “Filosofia e Política da Espacialidade: algumas considerações”, publicado na Revista GEOgraphia, n. 6, da UFF. A leitura prévia destes textos contribui muito para um mergulho mais seguro no livro, visto que este parece estender e melhor fundamentar todos aqueles, inserindo-os e articulando-os dentro de um mesmo quadro teórico-conceitual.

O livro é dividido em cinco partes e em quinze capítulos, além de algumas inserções provocativas que ela chama de “Confiar na ciência? 1;... 2; ... 3”, nas quais Massey procura articular as imaginações sobre espaço no quadro de referências mais amplas do pensamento científico e suas transformações. Nesses pontos, a autora apresenta uma releitura de conhecidas associações (como a associação entre a imaginação de espaço da modernidade e a física Newtoniana) e questiona outras (como a euforia de pesquisadoras e pesquisadores diante das teorias da complexidade, para falarem de acaso e indeterminação do espaço).

O propósito central do livro é construir uma nova imaginação (e essa é a expressão da própria autora) de espaço, diferente daquelas construídas no pensamento Ocidental durante a modernidade – mas também agora, na pós-modernidade –, que sempre o viram como morto, fixo, atemporal. Retirado desse quadro conceitual que o associava a tudo que é estático, o espaço em Massey é pensado a partir de um outro conjunto de idéias, como inter-relação, contemporaneidade dinâmica, abertura radical, heterogeneidade.

Já na parte um (Proposições Iniciais), a autora apresenta sua proposta alternativa para conceituar espaço, em que ele é visto como “produto de inter-relações”, como “esfera da possibilidade de existência da multiplicidade”, e como sempre em construção e, portanto, aberto, inacabado. Para Massey, pensar o espaço dessa forma é muito mais do que afirmar que o espacial é político, é abrir a Geografia e a discussão espacial em direção a um diálogo com as principais vertentes da política progressista contemporânea, como as teorias feministas e queer e as teorias pós-coloniais. O que é um alívio para nós, geógrafos e geógrafas, acostumadas a ver essas discussões presentes apenas em outros campos das Ciências Sociais, como Antropologia, Educação, Sociologia... Assim, o livro de Massey pode nos oferecer uma bússola, uma referência da própria Geografia, para nos guiar no quadro desse debate teórico-político.

Para exemplificar essas articulações, vale a pena acompanhar um pouco do argumento da autora, para quem sua concepção de espaço dialoga bem com uma política antiessencialista em questões de identidade de grupos sociais e de lugares, enfatizando sua construção relacional. Emerge daí a questão da Geografia das relações na construção dessas identidades, pois o espaço é produto de inter-relações e elas só podem existir num espaço de multiplicidade, onde não há nada dado de forma definitiva.

Essa idéia do espaço como esfera de possibilidade da existência da multiplicidade articula-se com a idéia política que salienta a diferença e a heterogeneidade. Uma política que questiona as narrativas do Ocidente, do masculino e do branco.

Inspirando-se nas teorias pós-coloniais, a autora defende o reconhecimento da contamporaneidade de múltiplas trajetórias históricas, em substituição à idéia de uma única história universal, que colocou todas as diferenças numa mesma linha do tempo. Para ela, reconhecer a heterogeneidade e a multiplicidade à sério, só é possível pela consideração da espacialidade, que é a esfera que permite a contemporaneidade radical da diversidade e as suas relações. Trata-se de reconhecer a coexistência de outros, com trajetórias históricas próprias; trajetórias que se cruzam, se conectam e se desconectam, formando assim o espaço a partir dessas relações.

Por fim, imaginar o espaço como aberto e em processo, articula-se com a idéia política de abertura do futuro. O contraponto aqui é a idéia moderna de progresso, na qual o desenvolvimento histórico já estaria com o trajeto traçado e o destino acertado. Não só a história, mas também o espaço é aberto, pois há ainda muitas combinações relacionais possíveis a serem feitas. Nesse sentido, “conceituar o espaço como aberto, múltiplo e relacional, não acabado sempre em devir, é um pré-requisito para que a história seja aberta e, assim, um pré-requisito, também, para a possibilidade da política” (p. 95).

Há uma “pluralidade de trajetórias, uma simultaneidade de estórias-até-agora” (p. 33), cujas conexões são sempre cambiantes e conjunturais, o que faz com que o próprio lugar se forme como um feixe dessas articulações, um aqui-agora em que se encontram diversas trajetórias. O lugar seria, assim, também uma eventualidade, sempre aberto a novas conexões, desconexões...

Na parte dois do livro (Associações Pouco Promissoras), Massey apresenta algumas filosofias que, ao discutirem o tempo, acabaram definindo espaço. São as filosofias de Bergson, o estruturalismo e o desconstrucionismo Derridiano. Em todas essas filosofias, o espaço é visto como dissociado e oposto ao tempo; ele é o reino da fixação, da estase, do que precisa ser superado para o movimento libertador do tempo e da história.

Essa imaginação de espaço é amplamente criticada pela autora. Mas, como entende que espaço e tempo, apesar de distintos, são indissociáveis, Massey se apropria de algumas idéias dessas filosofias sobre o tempo (liberdade, desarticulação, surpresa), como características que também devem ser atribuídas ao espaço, reformulando o entendimento de ambos, por sua constituição conjunta.

Se o tempo se revela como mudança, então o espaço se revela como interação. Neste sentido, o espaço é a dimensão social não no sentido da sociabilidade exclusivamente humana, mas no sentido do envolvimento dentro de uma multiplicidade. Trata-se da esfera da produção contínua e da reconfiguração da heterogeneidade, sob todas as suas formas – diversidade, subordinação, interesses conflitantes. À medida que o debate se desenvolve, o que começa a ser focalizado é o que isso deve trazer à tona: uma política relacional para um espaço relacional (p. 97/98).

Mudança requer interação, e essa requer espaço. Assim, a multiplicidade é fundamental para a geração da temporalidade, para haver multiplicidade tem que ocorrer espaço. Assim, o espaço nos oferece a possibilidade da história.

A parte três do livro é uma pergunta: “Vivendo em Tempos Espaciais?”. Nela, a preocupação da autora continua sendo a “desconstrução” de imaginações “pouco promissoras” e tendencialmente conservadoras de espaço, surgidas em tempos de globalização.

As teorias pós-coloniais informam-na em sua reconstrução da espacialidade da modernidade. Dentro da imaginação moderna, sociedades, comunidades, nações, eram tidas como tendo relações com espaços delimitados, internamente coerentes e diferenciados uns dos outros pela separação. Para Massey, essa foi uma forma de imaginar o espaço que, mais do que representar a realidade como um espelho, serviu para construí-la. Assim, a modernidade viu a forma do Estadonação ser difundida, todo o espaço ser dividido/regionalizado e as sociedades localizadas, com mitos de origem telúrica e de coerência interna, com fronteiras tidas como intransponíveis.

É essa imaginação de espaço que também hoje é reavivada em muitos movimentos contrários à globalização, reclamando a perda das “velhas coerências espaciais”, numa espécie de “nostalgia por uma coisa que nunca existiu”; movimentos aprisionados à uma visão reacionária do lugar como fechado, coerente, com uma história construída a partir de dentro.

O argumento forte dessa parte (Capítulo 6) é que as especificidades no espaço resultam muito mais do contato, do que do isolamento espacial. Nesse sentido, o lugar deve ser pensado também como produto de inter-relações, de forma que não há um ponto de partida original a ser recuperado, uma posição que seja anterior à relação. Argumento que já se encontra esboçado no artigo “Um sentido global do lugar”.

Também na parte três, Massey questiona o discurso da instantaneidade em tempos de globalização, que forja uma imagem de espaço como pura horizontalidade, sem profundidade. Nessa imaginação, o temporal é oposto à conectividade instantânea do espaço global, como se os elementos em contato não fossem eles mesmos portadores de história. A figura central das críticas é Jameson e sua idéia de “presente perpétuo”, pela qual viveríamos agora na era do espaço, um espaço que é sem tempo. Também problematiza os discursos que hoje falam da vitória do espaço sobre o tempo e, ao mesmo tempo, do seu aniquilamento. A lógica é a passagem de uma imaginação moderna para uma pós-moderna, em que o espaço visto como um “mundo de lugares” delimitados é tido agora como “mundo de fluxos”.

Na modernidade, os espaços separados eram colocados numa mesma linha histórica. A preocupação era com o tempo, com o progresso dos “atrasados”. Na pós-modernidade, a globalização, o espaço de fluxos, a ampliação da conexão entre os lugares (que seria a vitória do espaço sobre o tempo, ou do tempo pelo espaço, dependendo do autor que se considere), apagou as diferenças históricas, colocando todos no mesmo presente. Aqui também trata-se de um espaço sem tempo. Uma simultaneidade estática em que a liberdade de futuro é também aniquilada. Para Massey é fundamental que reconheçamos a multiplicidade de estórias-até-então, e que, na verdade, o que está sendo conectado, não são elementos estáticos, mas trajetórias históricas em processo que, por isso, articulam-se agora, mas podem seguir suas trajetórias e desarticularem-se adiante.

Nesse ponto, retoma mais uma vez o argumento pós-colonial. A história Ocidental de conquista da Europa dos outros continentes e povos dispõem o tempo como uma linha única que articulou os outros que estavam lá, parados a espera desse acontecimento. Os outros não são vistos como portadores de histórias próprias e esse contato não é visto como um encontro entre diferentes trajetórias. As diferenças espaço-temporais são reduzidas a diferenças no tempo de uma mesma história, a história da Europa. Fecha-se assim, a possibilidade de construção de histórias alternativas.

Na época atual, também a diversidade espacial é reduzida a uma diferença temporal, ou seja, a Geografia mais uma vez é reduzida à História. Quando se fala da inevitabilidade da globalização, e de que todos os povos vivem num mesmo mundo de presente, temos também uma negação da abertura da história. A atenção com esses discursos não deve ser apenas no sentido de que eles não espelham a realidade, mas também com o fato de que a realidade a partir deles está sendo assim construída.

A parte três se encerra com um capítulo no qual Massey rechaça o discurso da aniquilação do espaço pelo tempo, novamente chamando a atenção para a indissociabilidade de ambos, e outro capítulo em que começa a esboçar alternativas à essa imaginação. Para ela, mesmo no que se refere ao ciberespaço, a questão central “[...] não é se o espaço será aniquilado ou  não, mas que tipo de multiplicidades (padrões de unicidade) e relações serão co-construídas com esses novos tipos de configurações espaciais” (p. 139).

As partes quatro e cinco, respectivamente, “Reorientações” e “Uma Política Relacional do Espacial”, são os momentos em que a autora, dando por encerrada a sua “desconstrução” das problemáticas imaginações de espaço, aprofunda seu trabalho de (re)construção de uma imaginação alternativa do espaço, com vistas a chamar a atenção para o desafio político que ele nos coloca.

 Na parte quatro também podemos encontrar, de forma concentrada, sua discussão sobre o conceito de lugar, que é um importante terreno para a política. “[...] O que é especial sobre o lugar é, precisamente, esse acabar-juntos, o inevitável desafio de negociar um aqui-e-agora [...]” (p. 203). Uma negociação que deve acontecer não só entre os humanos, mas também entre esses e aquilo que no lugar é o não-humano, a natureza. Uma ponte promissora com a Geologia é realizada em algumas partes do livro, em que as próprias trajetórias da natureza se encontram com as múltiplas trajetórias humanas, para formar espaço e lugar.

O lugar, assim, é compreendido como um encontro de trajetórias em processo (naturais e humanas). Um encontro que não é definitivo, mas conjuntural e que o movimento pode conduzir à dispersão, à novas conexões e desconexões. As trajetórias em processo que se encontram no aquiagora vão se contaminar, uma passando a fazer parte da constituição da outra, mas nunca vão chegar a formar um todo coerente e estável, mesmo porque, o lugar nunca é fechado ao que vem da sua relação com outros lugares. A abertura para a política não poderia ser mais explícita, no sentido em que somos forçados a reconhecer que o aqui-agora é sem precedentes na história e está totalmente aberto ao futuro. Daí a nossa “responsabilidade”.

Para a autora,

[...] todas as negociações de lugar acontecem no movimento entre identidades que estão se movendo. Significa, também, [...] que qualquer política que apreenda as trajetórias em pontos diferentes está tentando articular ritmos que pulsam em diferentes compassos. Este é outro aspecto do caráter elusivo do lugar que torna a política tão difícil (p. 225).

O lugar para Massey não é entendido, como normalmente se encontra nos discursos contrários à globalização, como uma vítima de processos globais, mas como também implicado nos processos de produção do mundo (capítulo 10). Assim, é preciso contextualizá-lo no quadro das geometrias de poder globais em que cada lugar ocupa posição diferenciada, antes de sair em defesa do local contra o global.

Dizer que o local participa da construção do global significa que políticas locais referendam as políticas e práticas produzidas pelos agentes da globalização. Não se pode defender o local contra o global simplesmente, mas procurar alterar os efeitos e mecanismos do próprio global localmente. Essa é uma questão da responsabilidade do local pelo global. Mas, tanto as possibilidades de intervenção, quanto sua natureza e potencial variam também de acordo com a posição relacional de cada lugar.

A maior parte da literatura de defesa do lugar vem do Sul e isso não é por acaso, pois ali a globalização parece chegar com força avassaladora [talvez nesse contexto pudéssemos situar inclusive a discussão de lugar apresentada por M. Santos (2002)]. Mas em outros pontos, pode ser que uma defesa do lugar não seja politicamente defensável.

Levar a sério a construção relacional de espaço e lugar significa considera o contexto em que as relações se dão, para aí pensar nas desiguais articulações de cada lugar em particular  dentro das geometrias de poder. Não há regra única a ser seguida.

A relação local com o global irá variar e, em conseqüência, também irão variar as coordenadas de qualquer política local com potencial de desafiar a globalização. Sem dúvida, argumentar pela defesa do lugar, de uma maneira indiferenciada, significa, de fato, manter [...] [a] associação do local com o bom e o vulnerável [...] (p. 153).

Para ela (Capítulo 14), o debate não deveria ser colocado em termos de “formas espaciais abstratas” (lugar fechado/espaço aberto; lugar concreto, espaço abstrato), o que seria cair no “fetichismo espacial”, mas sempre considerar as relações pelas quais a abertura ou o fechamento são constituídos como estratégias móveis das relações (também móveis) de poder. Nesse sentido, é preciso considerar o contexto e o conteúdo, mais que formas abstratas estabelecidas a priori.

Como últimas palavras do livro, a autora apresenta o que poderíamos entender como uma definição de espaço, que sintetiza um pouco o seu argumento: O espaço é tão desafiador quanto o tempo. Nem o espaço nem o lugar podem fornecer um refúgio em relação ao mundo. Se o tempo nos apresenta as oportunidades de mudança e (como alguns perceberiam) o terror da morte, então o espaço nos apresenta o social em seu mais amplo sentido: o desafio de nossa interrelacionalidade constitutiva – e, assim, a nossa implicação coletiva nos resultados dessa inter-relacionalidade, a contemporaneidade radical de uma multiplicidade de outros, humanos e não-humanos, em processo, e o projeto sempre específico e em processo das práticas através das quais essa sociabilidade está sendo configurada (p. 274).

Esperamos, com essas poucas palavras, ter dado conta da complexidade do pensamento de Massey e estimular outros/as colegas da Geografia a conhecerem o pensamento dessa geógrafa, abrindo-se assim também para outras referências da Geografia anglo-saxônica, cuja produção tem estimulado um repensar da própria Geografia e do conceito de espaço.

O livro de Massey, além disso, permite importantes interlocuções com autores brasileiros, tensionando-os e enriquecendo-os. O próprio Haesbaert sugere uma aproximação do seu conceito de multiterritorialidade com o conceito de lugar de Massey. Também é possível vislumbrar diálogos com o pensamento de Milton Santos, sobretudo no que se refere à sua ontologia do espaço, a sua proposta de método e ao seu debate sobre o lugar, apresentados no livro “A Natureza do Espaço...”.

REFERÊNCIAS CITADAS:

MASSEY, D. Pensamentos Itinerantes. Terra Livre, São Paulo, ano 22, v. 2, n. 27, p. 93 – 100, jul./dez.
2006.
__________. Filosofia e política da espacialidade: algumas considerações. GEOgraphia, Rio de Janeiro,
ano6, n. 12, p. 7 – 23, 2004.
__________. Um sentido global do lugar. In: ARANTES, A. A. (org.). O espaço da diferença. Campinas:
Papirus, 2000. p. 176 – 185.
SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: EDUSP, 2002.