Mostrando postagens com marcador Entrevista com geógrafos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Entrevista com geógrafos. Mostrar todas as postagens

31 de out. de 2013

O direito à cidade nas manifestações urbanas: entrevista inédita com David Harvey

O geógrafo britânico David Harvey é um dos pensadores mais influentes da atualidade. Unindo geografa urbana, marxismo e filosofia social na compreensão das contradições do mundo contemporâneo, sua obra é um forte eixo de renovação da tradição crítica e ganha especial relevância num contexto de explosão de movimentos contestatórios urbanos no Brasil e no mundo.
Nesta entrevista, traduzida em primeira mão pelo Blog da Boitempo, Harvey discute as manifestações que tomaram as ruas do Brasil a partir de junho e os desafios para a organização de mobilizações urbanas de amplo escopo, assim como o lugar das novas tecnologias e dos movimentos sociais. À luz do urbanismo privatizado e securitário de Londres, o geógrafo comenta a importância do debate sobre o direito à cidade e os desafios de se pensar uma cidade anti-capitalista. Traçando paralelos com revoltas urbanas ao redor do globo, da China a Istambul, ele esboça, inclusive, acréscimos a sua obra mais recente, que dá nome e inspira o livro de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, que a Boitempo acaba de lançar analisando as causas e consequências das ditas “Jornadas de Junho”, e com o qual Harvey contribui como autor.
*
Em 1968, Henri Lefebvre introduzia o conceito do “direito à cidade”. Ele advogava o “resgate do homem como o principal protagonista da cidade que construiu (…) o ponto de encontro para a vida coletiva.” O senhor tem se referido a esse direito coletivo – de refazermos a nós mesmos e a nossas cidades – como “um dos mais preciosos, porém mais negligenciados de nossos direitos humanos.” De que formas o senhor pensa que temos negligenciado esse direito humano nos últimos anos?
Se a questão de que tipo de cidade é construída depende criticamente do tipo de pessoa que queremos ser, então a ampla falência em se discutir abertamente essa relação significa que abandonamos o remodelamento das pessoas e de suas paixões aos requisitos da acumulação do capital. Acredito que estava bem claro a seus planejadores e legisladores que a suburbanização dos Estados Unidos após 1945 não apenas ajudaria resgatar os EUA do prospecto de um retorno às condições de depressão dos anos 1930 por meio de uma ampla expansão da demanda efetiva, mas que serviria para criar um mundo social e político desprovido de consciência revolucionária ou de sentimento anticapitalista. Não é de se espantar que o movimento feminista da década de 1960 via o subúrbio como seu inimigo e que o estilo de vida suburbano tornou-se associado a um determinado tipo de subjetividade política socialmente preconceituosa, excludente e, em último caso, racista.
Londres é elogiada como uma cidade multicultural, e talvez um componente significativo do direito à cidade seja o direito de coexistir. Ao reimaginar e refazer cidades, como podemos garantir que esse processo não se dê de forma a privilegiar ou discriminar diferentes interesses ou comunidades que nela existem?
Não há nada que garanta isso além de movimentos sociais, engajamento político ativo e a disposição de lutar por seu lugar. Conflito na e pela cidade é saudável, e não uma patologia que intervenções estatais devam controlar e suprimir.
Vivemos em uma era digital. Em muitos casos, há quem desenvolva relações mais íntimas com pessoas a milhares de quilômetros de distância do que com seus próprios vizinhos de rua. Se é justo dizer que as cidades têm tendido, historicamente, a se desenvolver em torno de um espaço físico compartilhado, de que forma as tecnologias comunicativas que minam a preeminência de comunidades físicas/espaciais afetam a futura configuração da cidade?
As novas tecnologias são uma faca de dois gumes. Por um lado, funcionam como “armas de destruição em massa” levando as pessoas a acreditarem que a política só seria possível em algum mundo virtual. Por outro, podem ser usadas para inspirar e coordenar ação política nas ruas, nos bairros e por toda a cidade. Nada substitui corpos na rua mobilizados para ação política como vimos no Cairo, em Istambul, Atenas, São Paulo etc. Quando trabalham junto com política de rua ativa, as novas tecnologias podem ser um recurso fabuloso.
Em “Whose Rebel City?”[Cidade rebelde de quem?], Neil Grey sugere que em seu livro mais recente, Rebel Cities, a análise do senhor negligenciava a tradição [marxista] autonomista que surgiu durante as lutas urbanas das décadas de 1960 e 1970 na Itália – caracterizadas pelo slogan “Tomar a cidade”; por debates feministas em torno da reprodução social; pela ideia da “fábrica social” e o dito “ativismo comunitário territorial” –, focando sua teoria na absorção do capital e do trabalho excedente via urbanização. Como o senhor responde a essa crítica? Concorda que essas práticas políticas podem servir de modelos delineadores de como habitantes poderiam reorganizar suas cidades?
Acho essa crítica estranha. De fato, o capítulo 2 de Rebel cities trata da criação da urbanização por meio de processos de acumulação de capital, mas o capítulo 5 se dedica a movimentos sociais de classe nas cidades. Não pude cobrir todos esses movimentos, é claro, e então existem tantos, como os associados ao movimento autonomista na Itália que são, certamente, dignos de inclusão. Mas cheguei a me debruçar sobre a forma pela qual as casas das pessoas no começo do século na Itália complementavam os movimentos de conselho fabril e, é claro, se inspiraram muito no caso de El Alto assim como na Comuna de Paris e em outras insurgências urbanas, na tentativa de teorizar de que formas poderiam ser compreendidos no quadro da luta de classes. Então dizer que eu só me preocupei com a absorção do capital excedente é um tanto esquisito e sugere que Neil Grey ou não chegou ao final do livro ou foi desdenhoso porque não tratei de seu movimento social urbano favorito em particular.
Gostaria, no entanto, de ter citado o comentário de Gramsci sobre a importância de suplementar os conselhos fabris com comitês de bairro:
“No comitê de bairro, deveria tentar-se incorporar delegados também de outras categorias de trabalhadores que habitam o bairro: garçons, motoristas, condutores de bonde, ferroviários, lixeiros, empregados domésticos, comerciários etc. O comitê de bairro deveria ser a emanação de toda a classe trabalhadora que habita o bairro, emanação legítima e influente, capaz de fazer respeitar uma disciplina, investida de poder, espontaneamente delegado, bem como capaz de ordenar o fechamento imediato e integral de cada trabalho em todo o bairro.”(“Democrazia operaia“, L’Ordine Nuovo, 21 de junho, 1919; versão em português)
Na esteira da rápida urbanização e pleno inflacionamento da bolha de propriedade na China, o senhor falou de uma crescente luta de classes de base da qual quem mora no Ocidente simplesmente não ouve falar. Se olhássemos com mais cuidado à situação na China, o que poderíamos aprender?
Há muito mais saindo sobre a China agora e há um crescente reconhecimento dos perigos, tanto das gigantescas bolhas de ativos urbanos (particularmente na habitação), quanto de um problema crônico de superprodução de urbanização em resposta à queda de mercados de exportação em 2008. Existe agora muito nervosismo no que diz respeito à superacumulação urbana. Teoricamente, compreendo o que está acontecendo, mas não sei dizer quando o processo será interrompido. E sabemos que existe muita inquietação urbana e industrial na China, mas é muito difícil julgar o quanto e com que significância.
O senhor coloca seu conceito de “acumulação por desapossamento” no coração da urbanização sob regime capitalista. Atualmente, trechos significativos de Londres estão sendo transformados sob o pretexto de “regeneração”, processo que vem acompanhado de cortes nos benefícios habitacionais, e o novo bedroom tax*. Um exemplo entre muitos seria o das centenas de moradores do conjunto habitacional de Heygate, no centro da cidade, que perderam suas casas para que incorporadores imobiliários pudessem substituir habitação social por propriedades “a preços acessíveis”. Movimentos locais emergiram em resistência a esses despejos, mas enfrentam continuamente constrangimentos políticos e legais. Quais são seus pensamentos sobre a importância e as potenciais armadilhas de um movimento unificado em toda cidade – ou de escopo ainda maior?
Acho que é vital unificar, o quanto for possível, as lutas contra o desapossamento na cidade toda. Mas fazer isso requer uma imagem precisa das formas de desapossamento e de suas raízes. Por exemplo, existe atualmente uma necessidade de montar um quadro das práticas predatórias dos incorporadores imobiliários e de seus financiadores em nível metropolitano, e começar uma luta coletiva e de toda a cidade para refrear e controlar suas práticas. Recentemente vimos uma grande inquietação urbana no Brasil tratando principalmente de custos com o transporte, mas também (e isso é notável, dado que se trata do Brasil) contra a construção de estádios para a Copa do Mundo e o deslocamento e gasto de recursos públicos envolvidos. Então, lutas em nível metropolitano e trans-metropolitano não são impossíveis. O perigo, como sempre, é que as lutas possam esmaecer na medida em que as pessoas se cansam da luta. A única resposta é manter as lutas acontecendo e construir organizações que têm a capacidade de fazer isso (o MST no Brasil é um bom exemplo disso, apesar de não ser uma luta distintamente urbana).
Existe uma distinta carência de espaços de propriedade comum em Londres. Boa parte da cidade é privatizada e atende ao panóptico securitário da vigilância, e há uma escassez de espaços públicos livres de interferências do mercado. É importante buscar e construir espaços comunitários para permitir àqueles que resistem às depredações do capitalismo terem espaço não somente para trabalho, mas para explorar novas vias de interação criativa também?
A questão de liberar espaços controlados pelo Estado para fazer deles um bem comum controlado pelas pessoas é, na minha opinião, crucial. A reversão da privatização dos espaços públicos é também vital e eu esperaria ver muito mais movimentos dirigidos a esses fins.
O senhor tem falado sobre a possibilidade de uma “liga de cidades socialistas” como uma maneira poderosa de mudar a ordem do mundo. Será que poderia discorrer um pouco sobre o que quer dizer, e como elas poderiam funcionar?
É uma ideia um tanto distante à primeira vista mas existe muita aferição ocorrendo entre cidades, e em determinadas questões, como o controle de armas nos EUA, existem ligações cooperativas entre administrações urbanas que podem ter resultados progressivos. Não vejo por que tais práticas não possam ser desenvolvidas em resistências urbanas organizadas contra práticas neoliberais. Penso que uma resposta coordenada atravessando o escopo da administração urbana no Reino Unido para a chamada bedroom tax seria uma possibilidade que ecoaria a maneira pela qual a luta sobre a poll tax* se desenrolou anteriormente. Temos de fato feito coisas desse tipo, mas deixamos de analisá-las completamente e de apreciarmos suas possibilidades posteriormente.
A inquietação civil está se tornando uma característica recorrente da vida urbana em Londres, assim como em outras cidades ao redor do mundo, dentre elas Atenas, Madri, Cidade do México, Buenos Aires, Santiago, Bogotá, Rio de Janeiro e, mais recentemente, Estocolmo. Os motins (não apenas protestos e movimentos sociais organizados) estariam se tornarndo parte da caixa de ferramentas para reivindicar o direito à cidade? O que aqueles aqui [em Londres], na capital financeira do mundo, podem aprender dessas lutas em outras cidades?
Já que me convida a comentar essas questões, temos Istambul. Quando você olha para a situação global, sente que há uma situação vulcânica borbulhando debaixo da superfície da sociedade, e nunca sabe quando e onde ele explodirá em seguida (quem diria Istambul, apesar de estar claro para mim em minha visita anterior que havia lá muito descontentamento). Penso que temos de nos preparar para tais erupções e construir, tanto quanto seja possível, infraestruturas e formas organizacionais capazes de apoiar e desenvolvê-las em movimentos sustentáveis.
Mesmo reconhecendo a inerente legitimação da propriedade privada no interior do conceito, quais são suas visões sobre a eficácia da implementação de uma taxa sobre o valor da terra** no Reino Unido? Você acha que ela poderia atingir algum dos efeitos equalizadores advogados por seus proponentes?
Acredito que uma taxa sobre o valor da terra poderia ajudar, mas, em último caso, não endereça o problema das vastas extrações de riqueza por uma classe de rentistas que se tornou tão poderosa nos anos recentes, particularmente em grandes cidades como Londres e Nova Iorque, pois isto é uma das principais formas de espoliação que precisa ser confrontada.
*
Bedroom tax é o apelido dado a uma das mais discutidas mudanças nas políticas públicas habitacionais impostas pelo pacote de reformas no bem-estar redigido no final de 2012, sob o Welfare Reform Act. Traduzido literalmente como “taxa do quarto”, trata-se de uma “penalidade de sub-ocupação” que reduz os benefícios dos beneficiários que possuiriam espaço demais. Em vigor desde abril de 2013, a medida é frequentemente comparada ao poll tax, ou imposto comunitário, imposto por Margaret Thatcher no final de seu governo. A medida, que substituía o imposto sobre o valor dos imóveis por uma taxa única a ser cobrada por habitante (“por cabeça”), foi fortemente resistida pela população e é um dos principais fatores atribuídos à queda da Primeira-Ministra neoliberal. [Nota do Editor]
** No Brasil, em especial em São Paulo, há um debate semelhante em torno da aplicabilidade dos instrumentos que visam a promoção da função social da propriedade, previstos pelo Estatuto da Cidade. O recente manifesto Urbanistas pela justiça social destaca o IPTU progressivo no tempo, o PEUC, o direito de preempção, e a desapropriação com pagamento em títulos da dívida pública. [N.E.]
Publicado em inglês no The Occupied Times of London, de agosto de 2013.
A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo

8 de mai. de 2012

Entrevista: Bertha Becker

ENTREVISTA COM A PROFA. BERTHA BECKER
Originalmente publicada em: http://oglobo.globo.com/blogs/razaosocial
Em 27 de abril de 2012


Há mais de 40 anos, a geógrafa Bertha Becker viaja para realizar pesquisas na Amazônia. Professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela conhece a região na palma da mão a ponto de ser consultora do governo federal para os temas relativos ao bioma. Por isso mesmo, foi convidada para ser debatedora em dos painéis da programação oficial da Rio + 20. Vai falar sobre florestas, assunto que escolheu como objeto de pesquisa em 1970 quando pisou pela primeira vez na Floresta Amazônica. Nesta entrevista ela faz uma crítica ao Rascunho Zero. Diz que ele favorece a iniciativa privada e não aborda como o atual sistema econômico gera problemas ambientais sério, como a perda da biodiversidade. Ela também faz uma crítica ao termo Economia Verde, por ser genérico demais.

A senhora faz uma crítica ao Rascunho Zero, documento preparatório das Organização das Nações Unidas (ONU) para a Rio + 20. Por que?

BERTHA BECKER - O texto defende a mercantilização da natureza. É a lógica capitalista transposta para a natureza. Teremos mais um mercado, dos produtos e serviços da natureza, mas não vamos discutir novas formas de desenvolvimento. É mais uma tentativa para sair da crise econômica e não um novo mecanismo de desenvolvimento, mais responsável, como precisamos. Também acho que o rascunho não aborda, por exemplo, de que forma o atual sistema econômico gera problemas ambientais, como a destruição da biodiversidade. Temos que debater isto para criar novos mecanismos de desenvolvimento. O documento fortalece a iniciativa privada. Favorece a criação, por exemplo, de mercados de carbono e não trata de sistemas de regulação. Nós precisamos da iniciativa privada, mas não podemos ficar submetidos a ela. Porque favorecer a criação de mercados de carbono privados e não criar bolsas de carbono nos estados reguladas pelo poder público? Imgine Manaus com uma bolsa de carbono? É importante favorecer a iniciativa privada, mas a Ciência e o Estado devem estar também a serviço de um novo modelo de desenvolvimento.

A senhora também faz críticas ao conceito de Economia Verde, não é?

BERTHA BECKER - Sim. O que é Economia Verde? Como se pode falar em apenas uma Economia Verde. O que é bom para a Europa não é bom para o Brasil. São muitas Economias Verdes, pois as realidades dos países são diferentes. O termo é genérico demais e não dá conta das diferenças regionais. Também não entendo a associação de Economia Verde com redução de pobreza, pois como já disse ela (a Economia Verde) se baseia na lógica capitalista de produção que promove exclusão. Não sei, por exemplo, como a venda de créditos de carbono por empresas privadas pode ajudar a reduzir a pobreza. Esta relação para mim não é clara.

O que seria Economia Verde para a realidade brasileira?

BERTHA BECKER - Somos um país que desperdiça. Desperdiçamos recursos naturais, alimentos, energia. Desmatamos mais do que devíamos e do que podíamos. E exportamos sem agregar valor aos produtos. De modo que Economia Verde para o Brasil significa reduzir o desperdício, como, por exemplo, investir em eficiência energética; reduzir o desmatamento, criando uma indústria madeireira responsável; e criar indústrias de beneficiamento para os produtos e não mais exportá-los in natura, o que geraria empregos.

O que está em jogo, hoje, na Rio + 20?

BERTHA BECKER - Durante a ECO 92 o que estava em jogo era a preservação da Amazônia. Era uma questão internacional. Hoje são muitos os problemas. Há os países insulares que vão sofrer com o auamento do nível do mar. Há a questão da distribuição de alimentos. No Brasil, temos que vencer a luta contra a pobreza, combater o desmatamento, criar uma indústria de beneficiamento, ter um olhar atento para a classe C, que acaba de ascender a condição de consumidor.  Enfim, são muitas as questões em jogo na Rio + 20.

16 de mar. de 2012

Homenagem ao prof. Aziz Ab' Saber

Registro aqui minha homenagem ao professor e geógrafo Aziz Ab´Saber, falecido na manhã de hoje. A Geografia perde, o mundo perde.
 


ENTREVISTA COM AZIZ AB'SABER
Questão hídrica: necessidade de estudos e soluções mais eficazes

Geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, autor de diversas teorias e projetos inovadores na geografia brasileira, tendo recebido o Prêmio Santista e o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, oferecido pelo CNPq, o prof. Aziz Ab'Saber demonstra grande preocupação com meio ambiente.

Em abril deste ano, Ab'Saber declarou que a frase mais triste que já ouviu ao longo de sua vida foi "Mãe, nós não temos mais nada nesse mundo". A frase foi proferida por uma criança para sua mãe, cujo barraco havia desmoronado após um temporal. À época, o professor afirmou que gostaria de repetir tal frase a FHC, ACM, Covas e outros políticos no poder. "As autoridades têm que aprender a complexidade do metabolismo urbano para dar uma solução à cidade", disse. Ab'Saber referia-se a conhecimentos básicos, como quantidades de lixo e esgoto produzidas pela população.

Antes de autoridades se darem conta, Ab'Saber já afirmava que despoluir o rio Tietê é uma grande utopia. "Não adianta querer limpar o rio, pois seus afluentes, pré-poluídos, continuarão nutrindo a insalubridade", afirmou.
Como os grandes geógrafos, Ab'Saber não consegue discorrer sobre a questão hídrica de forma isolada. Tudo no meio ambiente interage, e o papel que se joga no chão hoje, pode ser a gota d'água para inundar as cidades amanhã.

Com Ciência - O Brasil pode ser considerado um país rico em mananciais?
Ab'Saber
- O Brasil, por sua extensão territorial e sua posição predominantemente entre os trópicos, com "pequena grande" área subtropical, é um dos países mais beneficiados por rios perenes do mundo. Ainda assim, há uma área de cerca de 750 mil km2 - o nordeste seco -, em que as drenagens são intermitentes. Trata-se de uma região grande, cerca de três vezes o estado de São Paulo. Observado em seu conjunto, o Brasil tem riquezas de recursos hídricos importantíssimos, atingindo seu ápice na Amazônia.

CC- A Amazônia possui reservas de água gigantescas - o suficiente para abastecer 500 milhões de pessoas durante cem anos. Que condições favorecem essa riqueza de recursos?
Ab'Saber
- As precipitações dentro do território brasileiro são suficientes para garantir a perenidade de quase 7,5 milhões de espaços territoriais, sobretudo na Amazônia, onde as chuvas anuais variam entre 1600 e 3500 mm por quase 4 milhões de km2. Há regiões mais chuvosas, como Baixo-Amazonas e noroeste da Amazônia, e menos chuvosas, como a faixa transversal que vai de Roraima até as proximidades do Araguai. Mesmo assim, não houve impecilhos para se formar a floresta contínua, devido à colaboração do clima quente e úmido.

CC - Esse fenômeno não ocorre em regiões próximas à Amazônia, como nordeste seco e Brasil central. Quais as diferenças essenciais entre o cerrado (Brasil central) e a caatinga (nordeste seco)?
Ab'Saber
- As variedades climáticas em regiões próximas apresentam características próprias. O nordeste seco apresenta drenagens intermitentes sazonais e abertas ao mar e o Brasil central caracteriza-se por clima tropical com uma estação chuvosa e outra relativamente seca, mas rios perenes - essa é a grande diferença entre os domínios dos cerrados e o das caatingas. As médias anuais de chuva no cerrado chegam a ser de duas a três vezes mais que as da caatinga. Para comparar, a região que recebe menos chuva no nordeste seco possui média pluvial anual de 268mm, sendo 850mm o máximo registrado.

CC - Como se comportam as chuvas na região tropical atlântica?
Ab'Saber
- No Brasil tropical atlântico, que começa na faixa dos climas tropicais úmidos, na região costeira do nordeste, e vai se alargando na direção da Bahia, os rios são longos e muitas vezes nascem em climas secos e passam para o úmido. A partir do sul de Minas Gerais, essa área se interioriza muito, passando pelo Estado de São Paulo e do Paraná - viabilizando o clima subtropical e úmido deste estado e encerrando-se na porção oriental de Santa Catarina. Quando chega no planalto das araucárias, continua havendo chuva suficiente para manter cursos d'água importantes e perenes.

CC - O Sr. acha que, entre outros motivos, a riqueza hídrica da Amazônia é pólo de atração de interesses estrangeiros?
Ab'Saber
- Sim. Uma das razões por que existe grande interesse em fazer o Brasil perder sua soberania sobre a Amazônia é essa. Muitos países não têm mais recursos hídricos disponíveis e, não sei porquê, acham que poderiam transportar para suas terras as águas da Amazônia - o que implicaria um custo imenso.

CC - Mas se há tanta água no Brasil, por que estamos passando por problemas tão sérios, como o racionamento de água da cidade de São Paulo?
Ab'Saber
- Não basta verificar as condições de existência de águas em função da natureza climática e da perenidade das drenagens. O problema é mais sério. Trata-se da questão da distribuição de populações urbanas, indústrias, e espaços agrícolas mais importantes, que precisam de água natural e de água para realizar pivô para irrigação em terras mais secas, tornando-as produtivas. Essa distribuição anômala faz com que falte água em muitos lugares, sobretudo nas áreas metropolitanas. A grande São Paulo, por exemplo, tem cerca de 17 milhões de habitantes, enquanto Cuba e outros países têm por volta de 3 milhões. São Paulo, então, requereu, requer e requererá tanta água, que é difícil pensar em uma solução adequada.

CC - Por que o racionamento de água foi adotado? Quais os problemas que o Centro-Sul enfrenta que levaram a essa medida emergencial?
Ab'Saber
- As águas nessa região destinam-se a quatro campos: água potável, água para fins industriais, água para serviços e limpeza pública e água para atender ao período de estiagem - entre agosto e setembro. Em função da grandiosidade espacial da região metropolitana e da exeqüibilidade de recursos locais - cabeceiras e manaciais que são diversos, mas não muito importantes -, toda a região está ameaçada. São Paulo nasceu na cabeceira do rio Tietê, mas de repente a cidade estorou e até a Cantareira corre perigo, devido à má administração e ao mal gerenciamento da serra tombada. Pessoas ricas estão subindo de Mairiporã para a Cantareira, de forma a olhar para São Paulo como se fosse um belvedere. No entanto, a única vista que terão será a da poluição. O problema hídrico deixou de ser uma questão associada apenas às taxas de precipitações, mas ao balanço entre as precipitações e a quantidade de água necessária para manter a população metropolitana, as indústrias, os serviços etc. Assim, São Paulo vai buscar água em locais cada vez mais distantes. É o caso de águas em regiões além-Cantareira, como Campinas, que já precisam capturar recursos de Minas Gerais, pois as águas disponíveis nas regiões mais próximas já foram capturadas pela Grande São Paulo. De modo geral, as capturas de água foram feitas das aguadas da Cantareira e do Alto Rio Grande e nas cabeceiras dos rios Pinheiros e Tietê. Mas isso é insuficiente para atender às necessidades da metrópole. Estamos, portanto, em um impasse: temos que buscar água além da bacia de São Paulo, mas muitos casos exigem altos custos e energia para fazer a transposição de águas de terrenos mais baixos para a cidade.

CC - O Sr. disse certa vez que despoluir o rio Tietê é uma prática inviável. Por quê?
Ab'Saber
- As águas que são fundamentais para abastecimento são poluídas devido ao crescimento urbano caótico e envolvimento de algumas áreas de represamento de água que deveriam doar água permanentemente para São Paulo e, hoje, são poluídas antes de ser tratadas. O próprio tratamento tem muitos problemas - excesso de cloro e outras substâncias, principalmente no período em que as águas começam a secar - e a qualidade do recurso cai muito. Sendo os afluentes poluídos previamente, é impossível despoluir um rio como o Tietê.

CC - A situação de emergência em relação à poluição de recursos hídricos é uma questão apenas brasileira?
Ab'Saber
- Em algumas partes do mundo a situação é até pior. Em certas cidades da Europa ocidental, os chafarizes históricos tradicionais estão soltando águas com espuma. Mas se levarmos em conta o volume de espumas que sai do Tietê a partir do alto vale do Tietê até pouco depois da cidade de Salto, tem-se um dos maiores valores de poluição hídrica do mundo. São águas fora de qualquer possibilidade de uso. Isso ocorre porque a drenagem tropical é muito densa e tem muitos córregos que estão entremeados por vida urbana, favelas e bairros carentes etc, e recebem, então, uma carga poluente que desemboca nos rios Tietê e Pinheiros.

CC - Como São Paulo deve pensar o futuro para solucionar essa questão?
Ab'Saber
- A cidade deve pensar em muitas estratégias para resolver o problema. Água subterrânea é muito pouco. Serviria para um ou outro lugar na bacia de São Paulo, oferecendo poucos metros cúbicos por segundo de água. O lençol de água subterrânea mais importante hoje é o chamado lençol Guarani, mas esse lençol começa bem para dentro da depressão periférica, dirigindo-se à bacia do Paraná, ao oeste, o que é longe de São Paulo. Talvez algum dia haja uma idéia tecnocrática de fazer perfurações no lençol Guarani para trazer água a São Paulo sem grandes gastos de energia. A situação é altamente preocupante e pede estudos permanentes e soluções com hierarquia de prioridades.
ComCiência
Revista Eletrônica de Jornalismo Científico

20 de fev. de 2012

Entrevista: Roberto Lobato

Abaixo reproduzo parte da entrevista com o Prof. Roberto Lobato, originalmente publicada na revista  Espaço Aberto, PPGG - UFRJ, V. 1, N.1, p. 155-160, 2011.

_____________________

Quem são os Clássicos da Geografia Brasileira? E Por Que Lê-los?

Entrevista com o Prof. Dr. Roberto Lobato Azevedo Corrêa

A intenção da presente seção é apontar – a partir de vários pontos de vista obtidos em entrevistas com geógrafos renomados – os autores clássicos que não só foram de fundamental importância na formação dos geógrafos brasileiros como também deram dignidade à nossa profissão, auxiliando a construir a imagem respeitável e o reconhecimento à nossa expertise. Para tanto, nessa seção é sempre reproduzida uma entrevista realizada com um geógrafo reconhecido regional ou nacionalmente.

Sua origem está na leitura da obra “Por que ler os clássicos?”, de Ítalo Calvino, publicada em 1994. Em seu texto, o autor brinca ao descrever o clássico como a obra que todos se envergonham de ainda não terem lido e, por esse motivo, está sempre sendo relida. Ler os clássicos é melhor do que não lê-los, afinal invariavelmente acabamos aprendendo algo com essas obras. Enfim, nós lemos os clássicos em benefício da nossa educação. 

A produção geográfica brasileira, apesar do meio século de existência, pode ser considerada ainda relativamente recente. O geógrafo brasileiro Milton Santos, por sua vez, esclareceu:

A ambição de uma obra que procura apresentar um corpo de ideias elaboradas de modo pioneiro é provocar um debate teórico e encorajar estudos empíricos que confirmarão ou não a idéia geral e ajudarão a reformulá-la. (Palestra proferida na UFRJ, 1980.)

Por tudo isto e por muitos outros motivos também importantes, talvez aqui esquecidos, a leitura das obras que nos antecederam foram e são fundamentais à produção renovada do conhecimento e à explicação do espaço brasileiro. Não se trata apenas de sua abordagem puramente descritiva. É a partir das leituras dos clássicos, embora não só deles,  que os pesquisadores antigos e os atuais formam o capital intelectual específico e coletivo.

Seria desnecessário detalhar a trajetória de nosso entrevistado do mês, contudo vamos recordar sua brilhante e rica trajetória. O Prof. Roberto Lobato Azevedo Correa nasceu em 5 de novembro de 1939, no Rio de Janeiro. Formou-se em geografia no ano de 1969, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Obteve o título de mestre em geografia pela University of Chicago, nos Estados Unidos, em 1974, com a dissertação “Variations in Central Place Systems: An Analysis of the Effects of Population Density and Income Level”. Em 2000, concluiu o doutorado na UFRJ. Sua tese, orientada por Maurício de Almeida Abreu, resultou no livro “Trajetórias Geográficas”.

Trabalhou na Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no período de 1959 a 1993,  tendo sido diretor do Departamento de Geografia (DEGEO). Em 1972, foi convidado a atuar como professor na UFRJ e, desde então, tornou-se pesquisador do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-graduação em Geografia (PPGG Aposentado do IBGE, foi aprovado no concurso para professor adjunto da UFRJ, integrando-se ao corpo docente do Departamento de Geografia no ano de 1995. Em sua função administrou disciplinas como Geografia Regional do Brasil, Análises Regionais, Organiza ção Interna das cidades e Redes Urbanas. Elaborou e desenvolveu na UFRJ os seguinte projetos de pesquisa: “Formas simbólicas e espacialidades”, “Áreas sociais: uma avalia ção crítica”, “Estudos comparativos sobre a rede urbana, espaço e cultura” e “Organiza ção interna da cidade”. Geografia Urbana e Geografia Cultural são as duas áreasde destaque em suas pesquisas, sendo que nos últimos anos o Prof. Roberto se tornou um expressivo proponente da Geografia Cultural contemporânea no Brasil. Aposentou-s como professor adjunto do Departamento de Geografia da UFRJ em 2009. Atualmente participa como professor colaborador voluntário do PPGG.

1. O que é uma obra clássica da Geografia brasileira?
Resposta: – Livro ou artigo escrito por um(a) geógrafo(a) (falecido(a), que atravessou gerações e períodos da história do pensamento geográfico, tendo percorrido uma longa trajetória:
- Introduz um novo modo de ver as coisas, um avanço na teoria geográfica.
- Sintetiza um amplo campo da Geografia, oferecendo uma visão complexa que é ou foi referência básica.
- É ou foi objeto de debates no campo específico ou em campos vizinhos, tendo sido analisado e reanalisado por inúmeros autores durante um período relativamente longo.
- Gera “discípulos”, que produzem outros textos a partir do clássico.
- Lido por todos ou quase todos.
- Tem duas ou mais edições, algumas com comentários adicionais feitos por terceiros.
- O campo específico tem a sua própria trajetória marcada pelo clássico.
2. Quais são os critérios para considerar um(a) autor(a) como clássico(a)?
Resposta: – Os critérios estão especificados nos pontos indicados na resposta anterior.
3. Cite alguns clássicos da Geografia brasileira.
Resposta: – Nilo Bernardes; Lysia Bernardes; Manoel Correia de Andrade; Aroldo de Azevedo; Pierre Monbeig; Milton Santos.

4. E por que ler os clássicos da Geografia brasileira?
Resposta: – Porque a obra deles contribuiu para fundar ou dar continuidade ao conhecimento do espaço brasileiro. A obra deles marcou um período ou causou uma ruptura na história da geografia brasileira, tendo repercussões que atravessaram um largo período.

Foram marcos de períodos ou ruptura entre períodos.
Um clássico deve ser leitura obrigatória na formação do geógrafo brasileiro.

5. Cite obras dos autores mencionados.
Resposta: – Obras importantes que devem ser lidas:
a) MILTON SANTOS
-  Por uma Geografia Nova (1978)
Livro que rompe com as perspectivas tradicionais e da geografia teorético-quantitativa. É o marco inicial de uma geografia crítica, com reflexões sobre o espaço e as relações com a sociedade.
- O Espaço Dividido (1ª edição, 1979; 2ª edição, 2004)
Fundamental para a compreensão das espacialidades nos países subdesenvolvidos, apresentando e discutindo os circuitos inferiores e superiores da economia.
- A Natureza do Espaço: Razão, Técnica, Tempo e Emoção (1996)
Trata-se de obra que sintetiza o pensamento de Milton Santos na década de 1990. O espaço é o objeto do livro, tema central na trajetória de Milton Santos.

b) MANOEL CORREIA DE ANDRADE
- O Homem e a Terra no Nordeste Trata-se de um clássico, produzido na primeira metade dos anos 1960. O Nordeste é apresentado por meio de seus quadros regionais e de sua problemática.

c) AROLDO DE AZEVEDO
- A Cidade de São Paulo – Estudos Geográficos.
Com alguns volumes, o livro, publicado nos anos 1950, é uma descrição e interpretação da cidade de São Paulo.

6. Cite alguns brasilianistas.
Resposta: – É um termo utilizado sem muito rigor. São eles:
a) Pierre Monbeig
- Pioneirs et planteurs de São Paulo. Paris, A. Colin, 1952, 376p.
- Estudos de Geografia Humana
- O Estudo Geográfico da Cidade
b) Pierre Deffontaines
c) Leo Waibel
d) Pierre Denis
- Le Brésil au XXéme Siécle, publicado nos anos 1920
e) Pierre Gourou

Nem todos podem ser definidos como brasilianistas (aqueles que se dedicaram a estudar o Brasil), mas trata-se de geógrafos que durante certo tempo dedicaram-se a estudar o Brasil. Pierre Monbeig talvez seja o único brazilianista de fato.

14 de jun. de 2011

Sugestão de site e de vídeo

No site da CPFL Cultura você encontra uma série de vídeos interessantes. Destaco aqui uma conversa com o professor Rogério Haesbaert sobre território, territorialização e desterritorialização. Vale a pena.


"Uma detalhada descrição do conceito de desterritorialização a partir de quatro perspectivas conceituais. As ideias de território e a multiterritorialidade como uma alternativa para a compreensão das complexas relações espaciais do mundo contemporâneo. A palestra faz parte do módulo “Geografia na contemporaneidade” de curadoria de Antonio Carlos Robert Moraes" (Fonte:http://www.cpflcultura.com.br)

Para acessar o site e a entrevista clique aqui

11 de jun. de 2011

Entrevista com geógrafo: Prof. Maurício de Almeida Abreu (UFRJ)

 Entrevista publicada no caderno Prosa on line do Jornal O Globo.

Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/02/19/mauricio-de-abreu-fala-sobre-rio-dos-seculos-xvi-xvii-364125.asp

Mauricio de Abreu fala sobre o Rio dos séculos XVI e XVII

Nos 15 anos em que se dedicou, como quem monta o mais impossível quebra-cabeça, a reconstituir a feição assumida por um modesto povoado tropical entre os anos de 1502 e 1700, o geógrafo Mauricio de Almeida Abreu percorreu uma extensão milhares de vezes superior à de seu objeto de estudo. Da Cidade Nova ao Vaticano, passando por Lisboa e Paris, esse professor da UFRJ vasculhou arquivos e bibliotecas recolhendo um conjunto enorme e a princípio caótico de informações sobre os dois primeiros séculos de existência do Rio de Janeiro. Meticulosamente organizados e reunidos nas 912 páginas de “Geografia Histórica do Rio de Janeiro” (Andrea Jakobsson/Prefeitura do Rio), os dados formam um painel inédito em seus detalhes e abrangência da infância da cidade e seu entorno, examinando seu desenvolvimento, divisão de terras, economia e articulação com as rotas comerciais da época. Abreu conversou com O GLOBO sobre o livro, que será lançado segunda-feira às 19h num debate com o autor e os pesquisadores João Fragoso, Mariza de Carvalho Soares e Fania Fridman na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Segue abaixo a íntegra da entrevista, publica em versão editada no caderno deste sábado.
Quais são, em linhas gerais, as transformações do Rio no período estudado, e como elas determinaram os marcos temporais do seu trabalho?
Nossa análise abrange o período que se estende de 1502, ano em que surgem as primeiras informações sobre a baía de Guanabara, à virada do século XVII para o XVIII, quando a emergência das Minas Gerais provoca uma mudança substancial no espaço e na economia colonial brasileira. Como a cidade de São Sebastião só foi fundada em 1565, os primeiros capítulos tratam da luta pelo controle territorial da Guanabara, que lhe antecedeu. A virada do Seiscentos para o Setecentos, por sua vez, marca o ponto final do estudo, pois separa um lugar relativamente pobre e fundamentalmente canavieiro, uma capitania que não era mais que um território secundário no contexto colonial, de um Rio de Janeiro que ainda se manterá canavieiro, mas que agora vai se tornar também - e principalmente - um grande exportador de ouro e importador de escravos, articulador de fluxos comerciais outrora inimagináveis.
A geografia brasileira, em seu processo de construção acadêmica, exacerbou a "ditadura do presente" e o resultado disso foi que inúmeras questões importantes sobre o passado deixaram de ser feitas. Este trabalho vem contribuir para que essa postura seja rapidamente deixada para trás, mas o caminho a percorrer ainda é longo.
O principal objetivo deste livro é discutir o processo de produção do território que esteve sob a jurisdição da cidade e da capitania do Rio de Janeiro nos séculos XVI e XVII. Mais especificamente, o que se intenta é analisar criticamente o processo histórico de construção desse antigo espaço colonial, identificando suas forças propulsoras, seus principais agentes, os conflitos e contradições sociais que engendraram e sua expressão espacial. O que se pretende, em última instância, é realizar um grande esforço de análise e de síntese, que integre processo social e forma espacial e que dê sentido ao processo de formação de um lugar, no caso, o Rio de Janeiro colonial. A opção por um período dessa amplitude implica uma pesquisa muito longa, bem ao contrário de projetos que envolvem apenas alguns anos. Assim, nosso trabalho desdobrou-se por mais de quinze anos, com minuciosos mapeamentos e análises de dados inéditos na historiografia e na geografia histórica relativas ao Rio de Janeiro. Mas, confesso, foi difícil saber onde parar, até por que, inicialmente, a pesquisa se concentaria em outro período histórico, no século XIX, e o período colonial constituiria apenas uma introdução. Ao contrário do que se propagava, da destruição de quase todos os documentos relativos ao Rio de Janeiro do século XVII, no incêndio de 20 de julho de 1790, acabei conseguindo recuperar muitas pistas que me permitiram, em alguns pontos, introduzir novas leituras sobre esse período. Além da questão da delimitação histórica tive também que enfrentar alguns dilemas em termos da delimitação espacial, geográfica, inicialmente restrita ao atual espaço do município do Rio de Janeiro, mas que não fazia sentido para aquela época, e que acabou se estendendo para todo o entorno da baía de Guanabara, com algumas "incursões" pelas capitanias vizinhas, como a de Cabo Frio, que acabava em grande parte subordinada à do Rio de Janeiro.


Quais foram as fontes mais importantes para seu trabalho?

As mais importantes fontes utilizadas na elaboração deste trabalho foram os antigos livros de notas dos cartórios do Rio de Janeiro, que estavam guardados no Arquivo Nacional. Num período de dez anos, incluídas as interrupções, pude ler e fichar todos os livros de escrituras dos cartórios de notas fluminenses ainda existentes (muitos tinham se perdido ou estavam fora de consulta), esforço que envolveu o levantamento de aproximadamente 500 livros cartoriais e exigiu a leitura de dezenas de milhares de escrituras. Inicialmente foi difícil ter acesso à documentação cartorial, que é interditada, pois está em péssimo estado de conservação, mas em 1998-99, sobretudo, eu consegui autorização para ter acesso à documentação, numa sala especial. Também utilizei o Arquivo da Cidade, que foi muito afetado pelo incêndio de 1790, mas onde ainda há documentação colonial. Quero destacar que, embora este livro se refira aos séculos XVI e XVII, o levantamento cobriu todo o período colonial, até 1822. Enquanto os livros de escrituras do Arquivo Nacional iam sendo levantados, uma outra decisão, de igual importância, foi tomada: investigar o que havia nas caixas dos chamados "documentos avulsos" da capitania do Rio de Janeiro no Arquivo Histórico Ultramarino, em Portugal. Em 1995, quando lá cheguei, existiam mais de duas centenas de caixas sem qualquer catalogação. Trabalhei ainda em vários outros arquivos, como o Arquivo da Companhia de Jesus, no Vaticano, e também em varias bibliotecas onde tive acesso a obras raras indispensáveis à elaboração do trabalho, como a Biblioteca Nacional, em Paris. Foi um verdadeiro quebra-cabeças, mas muitas informações puderam ser recuperadas. Descobri que era possível entrar nesse passado distante, especialmente o Rio de Janeiro do século XVII, a partir de informações dispersas nos diversos fundos documentais que precisavam, de certa forma, serem colocadas juntas, porque elas acabavam se encaixando. Posso garantir que muita coisa não consegui fazer, é claro, mas muita coisa que eu não imaginava fazer, logrei fazê-lo com bastante sucesso, sobretudo no caso da identificação e da caracterização do mundo açucareiro fluminense, que é uma das maiores contribuições deste trabalho.
Ao lado das fontes escritas outro aspecto importante foi o levantamento da iconografia de época e posterior relativa ao período e tema estudados. Mapas e obras artísticas foram cuidadosamente catalogadas ao longo dos anos e puderam, depois de grande esforço editorial no sentido de conseguir todas as autorizações necessárias, constar da presente edição. Gráficos e mapas da distribuição dos engenhos elaborados ao longo da pesquisa constituem ainda um componente básico do trabalho que servirá de fonte para outros pesquisadores interessados no tema.

Seu texto consolida informações dispersas e revela muitos dados novos sobre o Rio dos séculos XVI e XVII. Quais o senhor destacaria como mais relevantes?
É difícil resumir em poucas linhas as contribuições do trabalho. Tentarei comentar algumas delas. Começando pelo século XVI, a capitania do Rio de Janeiro, incrustrada na capitania de São Vicente, é uma capitania muito pequena, mas singular: a partir de sua consolidação como cidade por Mem de Sá, em torno do Morro do Castelo, em 1567, o "Termo da Cidade de São Sebastião" coincidia com a capitania, um entorno de cerca de 40 quilômetros continente a dentro, território sobre o qual a cidade tem jurisdição. Espaço restrito, mas singular: desde o início o Rio de Janeiro é uma cidade real. No livro apresento um debate sobre a indenização requerida no século XVII pelos herdeiros de Martim Afonso de Souza, capitão de São Vicente, capitania à qual o Rio de Janeiro deveria pertencer, que reivindicavam esse pedacinho de terra que a Coroa tomara para si. É uma discussão que até hoje não vi sendo discutida, porque na verdade a capitania era de Martim Afonso, e quem tinha que defendê-la, especialmente dos franceses, era ele, o capitão... e ele não o fez. Coube à Coroa recuperar esse território e há um "imbróglio" nessa época sobre se aquilo foi uma re-apropriação ou uma espoliação. Assim, o Rio de Janeiro nos séculos XVI e XVII já começa como uma cidade real, em que o donatário não tem ingerência, em que os governadores são determinados pela Coroa. Aos poucos, nessa condição, ela passou a ser utilizada também como base da administração direta colonial, com a repartição, ainda no século XVI, do governo colonial em dois, o do Norte, sob o comando de Salvador, e o do Sul, de forma efêmera e temporária exercido pelo Rio de Janeiro. 
Sobre a "França Antártica", a presença francesa no Rio de Janeiro, não apresento propriamente uma leitura nova, pois utilizei as fontes já existentes, mas o enfoque é inovador, penso, na medida em que me preocupei em detalhar a análise da organização espacial do território, que não é frequente entre os historiadores que abordaram o tema.
Na segunda parte do livro, "A apropriação do território e a formação da sociedade colonial: agentes, ritmos e conflitos", enfoco a apropriação através do sistema sesmarial, que desconsiderava completamente a presença dos indígenas. Foi a transferência para o Brasil da forma como se deu o domínio do sul de Portugal no período da reconquista cristã, mas que aqui sofreu modificações. Aqui havia "sesmarias de terras", dadas aos "sesmeiros" (em Portugal sesmeiro era quem concedia a terra), para a produção agrícola, e "sesmarias de chão", os chãos dados para a construção de vilas e cidades - e sobre essas é que temos pouca informação, mas que este trabalho conseguiu trazer algumas novidades. Aqui, as sesmarias foram doadas à própria Cidade, enquanto pessoa jurídica, às corporações municipais e religiosas (jesuítas, beneditinos, carmelitas...). Começam aí, também, os conflitos de apropriação.
Também há informações novas sobre os engenhos que tinham papel fundamental para a economia da cidade. Qual era a extensão da economia do açúcar no Rio?
Uma das principais contribuições do trabalho é em relação ao Rio de Janeiro açucareiro do século XVII, sobre o qual se sabe muito pouco. Nesse ponto o livro traz muita informação nova. Porque até hoje sabe-se que o Rio de Janeiro exportava açúcar e que não era tão grande exportador como a Bahia ou Pernambuco antes da conquista holandesa. Mas não sabíamos nada, ou quase nada, sobre quem eram, onde se situavam e quantos engenhos existiam, que força de trabalho utilizavam, enfim, informações sobre essa economia açucareira que não foi desprezível, ao contrário. Depois de um trabalho intenso no arquivo dos jesuítas, no Vaticano, em 1999, consegui identificar mais de 161 engenhos no Rio de Janeiro do século XVII. Mapas inéditos estão no livro. A partir dessas informações fiz algumas análises, que são novas, do tamanho dos engenhos. Pude corroborar a hipótese sobre a grande crise econômica do século XVII, século de crise na Europa, de que aqui, por um certo grau de autonomia da economia colonial frente à conjuntura mundial, não houve essa repercussão toda. A melhor prova é que, ainda que não fossem grandes engenhos, o número de engenhos no Rio de Janeiro não parou de crescer ao longo do século XVII. Além de nomear quase que um a um esses engenhos, pude também localizar com bastante aproximação onde se encontravam. Consegui ver que o Rio de Janeiro açucareiro era sobretudo o que hoje chamamos Irajá, São João de Mereti, Deodoro, Realengo e, sobretudo, São Gonçalo. Descobri também a localização do "Porto dos Franceses", na "banda d'além" (atuais Niterói e São Gonçalo), que provavelmente foi a área onde alguns franceses permaneceram depois da derrota da França Antártica para Portugal.

Em que a medida a própria geografia da cidade foi transformada nesse período?

Para trabalhar com a geografia urbana, tivemos de trabalhar com as sesmarias de chãos, cujas informações são quase totalmente inexistentes. Então para trabalhar com a cidade original sobre o Morro, mais tarde chamado do Castelo, foi necessário trabalhar com muito poucas fontes documentais. Mas consegui recuperar o que deveria ser a forma urbana original e o retalhamento territorial original no alto desse outeiro. Na realidade eu não consegui fazer um mapeamento final, único, porque a documentação é tão carente que cheguei à conclusão de que a cidade poderia ter três formas, sobretudo quando se trata do muro. A cidade era murada, no alto do morro. Mas produzi três mapas conjecturais: num há um muro contínuo, no outro um muro apenas aberto em uma parte, em outro, aberto em duas partes. Descobri a existência de uma porta e a localizei. Descobri também, com a ajuda de um professor português, o que era o "trasto" da cidade - uma palavra que ninguém ouvira falar, nem no Brasil, nem em Portugal. Na pouca documentação existente ainda aparece nove vezes. Descobrimos que era uma área de derrubada de mata - o morro era todo florestado - na base, no sopé do morro. Todo o sopé do morro foi desbastado da vegetação original para que pudesse ser melhor controlado lá do alto. Na realidade essa palavra não existe em português, é um neologismo. Segundo o professor Rafael Moreira é uma mistura de uma palavra italiana chamada "guasto", que virou "trausto", enfim, que é introduzida por engenheiros militares portugueses que estudaram na Itália à época de Dom Sebastião e que, para "falar difícil", como dizia o referido professor, começaram a introduzir palavras novas e a chamar o "trauto"de trasto, que seria a junção dos termos português e italiano. 
O senhor afirma que a cidade se expandiu antes e de modo mais organizado do que se pensava. Poderia falar sobre isso?
Como o mapeamento e a discussão que é feita sobre a expansão da cidade em direção à várzea, provo que estão errados todos aqueles que falam que o Rio de Janeiro ficou em cima do morro durante todo o século XVI. A cidade ocupa a várzea. A cidade baixa, ela é praticamente concomitante à ocupação da cidade alta. E já há conflitos nessa cidade baixa desde o início. Nesta parte faço uma discussão sobretudo com os arquitetos que têm trabalhado com morfologia urbana. Provo com vários documentos como as ruas foram abertas com critério, com medição, com cordeamento, com lavragem de documentos cartoriais. Ou seja, a ideia de que a cidade portuguesa se enlaça na paisagem e que não tem método algum, que vem do "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Hollanda, não se aplica. O próprio Sérgio Buarque de Hollanda neste capítulo de seu livro diz que isso não se aplica ao Rio de Janeiro. Mas essa ideia acabou sendo generalizada para a cidade colonial portuguesa no Brasil. Mas Sérgio Buarque de Hollanda está falando dos arraiais, dessas cidades do interior, não das cidades reais. Salvador tem um plano extremamente regular. E regular não é sinônimo de ortogonalidade. Isso é importante também. Você pode ter um plano regular sem ser ortogonal e é o que ocorria nas cidades brasileiras, muitas das quais tiveram planos triangulares, como São Paulo, Piratininga e Vitória. E o Morro do Castelo. O plano lá em cima deste outeiro acabou sendo triangular.
O que a identificação dos donos das residências da cidade, feita pelo senhor, mostra de novo sobre a sociedade carioca daquela época?
Outra inovação do trabalho em termos de geografia urbana foi mostrar onde ficavam as residências urbanas dos senhores de engenho cristãos-novos. Já há importantes trabalhos sobre os cristãos-novos e judeus no Rio de Janeiro, mas pouco abordando essa perspectiva geográfica. Já se sabia que eles estavam concentrados em duas áreas produtoras de açúcar, Irajá e São Gonçalo. Mas não se sabia onde tinham suas residências urbanas nesse período. Pois descobri a provável estratégia de proximidade que essas famílias utilizavam em suas residências, tanto no campo quanto na cidade. Ao contrário de alguns autores, que falam da mistura de usos e classes sociais na cidade colonial, percebe-se claramente que no Rio de Janeiro dos séculos XVI e XVII não é bem assim.
Que dados desmentem essa crença na mistura de diferentes classes no espaço urbano do Rio no período?
Por exemplo, os senhores de engenho têm casas em toda a cidade na área urbana, que é pequena. Porém, eles estão predominantemente no setor Sul da cidade (consegui dividir a cidade em setores norte e sul). Muito menos no setor Norte. E os artesãos? Os oficiais mecânicos? Eles estão na cidade toda, também, mas estão predominantemente no setor Norte. Alguns usos estão concentrados em setores e eu chego à conclusão de que, na realidade, inclusive os ofícios mecânicos, os - vamos dizer assim, os ofícios de maior status - ourives, alfaiates - estão mais em certas áreas do que em outras, o que mostra que o Rio de Janeiro, apesar de ser muito pequeno (fisicamente) - no final do século XVII não atinge nem a rua Uruguaiana atual - , era uma cidade, não em que tudo se misturasse, mas em que as classes mais poderosas, inclusive artesanais, estavam concentradas, enquanto outras estavam menos concentradas.

De que maneira se deu o processo de conquista da região, especialmente na relação dos portugueses com os povos indígenas?
Esta é uma relação complexa, que se dá em ritmos diferentes ao longo do tempo e segundo a região e os grupos indígenas envolvidos. O lado ocidental da baía de Guanabara, por exemplo, onde a cidade foi instalada, foi o primeiro espaço onde os índios foram rapidamente expulsos ou dizimados ou aculturados em aldeamentos. Em compensação, eles permaneceram por mais tempo na "Band'Além" (atuais municípios de Niterói e São Gonçalo) e na área de Cabo Frio - onde representava um risco o apoio dos tamoios aos franceses - que, não podemos esquecer, também com apoio indígena, permaneceram por 5 anos (1555-1560) em seu malogrado projeto da "França Antártica" na baía de Guanabara. A apropriação se dava lentamente na segunda metade do século XVI até que, em 1575, os índios tamoios foram dizimados e expulsos em Cabo Frio, num verdadeiro genocídio. Outra resistência importante, a dos goitacás, mais ao norte, só foi definitivamente dominada na segunda e terceira décadas do século XVII, e com fortes indícios de envolver também a difusão de epidemia. O povoamento seguia especialmente os vales fluviais, em direção à serra, já que o grande meio de locomoção era o mar e os rios. Assim como deram suporte aos franceses, os aldeamentos indígenas também tiveram importante papel auxiliando os portugueses na defesa do território, na "retaguarda" da Guanabara, de Cabo Frio à baía de Ilha Grande. Não se pode esquecer que os indígenas também eram dominados e utilizados como mão-de-obra escrava. Mesmo sem muita informação, reunindo várias informações dispersas, foi possível reconhecer que, no Rio de Janeiro, a escravidão é predominantemente indígena no século XVI, mas já no século XVII começa a escravidão negra, africana, que acaba se impondo na segunda metade daquele século. Isso vai contra algumas interpretações que dizem que o Rio de Janeiro do século XVII ainda era baseado em força de trabalho majoritariamente indígena.

Que fatores impulsionaram a expansão da cidade nesse período? Quais foram os principais grupos responsáveis por esse processo, e quais os conflitos surgidos entre eles?
Como já destacamos, conflitos de apropriação na cidade do Rio de Janeiro começaram com a própria doação de sesmarias ("sesmarias de chão", para uso urbano), entre sesmeiros, jesuítas e a Câmara, enquanto corporação municipal, mas também entre as diversas ordens religiosas que também recebiam terras. Dentre eles o mais importante foi, sem dúvida, aquele entre a Companhia de Jesus e a municipalidade, desde que Estácio de Sá doou à municipalidade terras que se sobrepunham às que já havia doado aos jesuítas. As primeiras sesmarias são dadas ainda pelo Capitão de São Vicente, antes da conquista, que depois são anuladas, provavelmente - pois não há documentos sobre isso. Há conflitos, portanto, com São Vicente, cujos donatários jamais abdicaram do direito que originalmente tinham sobre as terras que constituíam a capitania real. É depois da cidade fundada, no sítio original de Estácio de Sá, no sopé do Pão de Açúcar, que toda a área que margeia a baía de Guanabara, ou grande parte dela, é doada - mesmo que não pudesse ainda ser ocupada, pois os indígenas estavam lá - e, em determinado momento, com alguns franceses a lhes ajudar... A apropriação formal ou "de jure", que continha muitas imprecisões de limites e rumos, entra em conflito com a apropriação real, efetiva. Em algumas áreas, como os vales com cursos d'água, a ocupação é mais rápida, em outras é muito mais lenta. Temos notícias de conflitos em 1573, em 1574. Na década de 1570 já começam conflitos de apropriação entre sesmeiros, entre a Câmara e sesmeiros, na passagem para o século XVII entre a Câmara e os jesuítas. Acompanhar a ocupação do território é acompanhar, obrigatoriamente, os conflitos que decorrem desse processo. Esses conflitos têm um papel importante para o pesquisador, pois geraram muitos documentos: muita reclamação foi enviada para Lisboa, muita coisa foi escrita em cartório e, mesmo muitos documentos tendo desaparecido, outros ficaram. E eles trazem também informações sobre o território, muita coisa é explicada sobre a demarcação de terras, topônimos utilizados, tipo de organização agrária.

Como o Rio se inseria nas rotas comerciais do império português, e que outras relações econômicas relevantes a cidade possuía?
Toda a parte III do livro, com quase 200 páginas, refere-se a "O Rio de Janeiro e o sistema atlântico" onde é analisada a inserção do Rio de Janeiro na economia-mundo, com a importância, especialmente, da economia açucareira e seus desdobramentos. Após um breve período em que, a exemplo de outras áreas litorâneas, o Rio de Janeiro se engajou na extração e comércio do pau-brasil, iniciou-se a atividade canavieira, embora, pela maior distância da metrópole e pelos problemas de transporte, coubesse ao Rio uma condição secundária em relação às "capitanias de cima", muito mais privilegiadas nesses aspectos. Outro comércio fundamental no final do século XVI foi com o Prata, quando o Rio passou a prover Buenos Aires e os interesses contrabandistas de Potosí de mercadorias europeias e de escravos africanos. De lá recebia sobretudo charque e trigo e muitos recursos que acabaram sendo investidos na cidade. Mesmo com a proibição oficial do comércio com o Brasil, em 1594, o contrabando era intenso, comandado especialmente por portugueses cristãos-novos. Durante certo tempo, especialmente nas quatro primeiras décadas do século XVII, o Rio de Janeiro ocupou um lugar excepcional no tráfico negreiro entre Angola e Buenos Aires, ajudando a acobertar sua própria ilegalidade e estabelecendo um ativo comércio triangular no Atlântico Sul. Viria logo depois, entretanto, a desestruturação dessa rede de contrabando, especialmente com a fundação da Companhia das Índias Ocidentais pelos holandeses, que atacaram o comércio português e invadiram a Bahia, em 1624, Pernambuco, em 1630 e Luanda, em 1641. Luanda foi retomada em 1648, mas nunca mais o tráfico com Buenos Aires voltou a ser o mesmo. A esses efeitos negativos veio se somar, finalmente, o impacto da entrada das Antilhas no mercado do açúcar, a instituição do sistema de frotas na Colônia e as perdas materiais e humanas causadas por intempéries e epidemias. Com a falta de numerário, até o açúcar passou a servir de moeda durante algum tempo. A cidade só voltaria ao dinamismo do segundo quartel do século XVII com a descoberta do ouro nas Minas Gerais. Mas esta já é uma outra história...

Como o comércio de açúcar transformava a vida na cidade?

Eu concluo o livro comentando documentos riquíssimos, três cartas enviadas pelo monge beneditino Mauro da Assunção, filho do negociante Francisco Frade, em 1669, ao príncipe D. Pedro, que há pouco assumira o trono com o afastamento do rei D. Afonso VI. Ali aparece claramente como a cidade do Rio de Janeiro do século XVII dependia do comércio açucareiro e via o seu cotidiano profundamente modificado com a chegada das frotas de navios que comercializavam o açúcar. Era quase como se se desenhassem, durante o ano, duas cidades: aquela marcada pelo ritmo pacato das atividades militares, artesanais e comerciais rotineiras, e a cidade agitada, quase turbulenta, do período - algumas semanas - em que as frotas permaneciam na cidade. A vida da cidade, assim, era regulada pela chegada anual da frota de navios que vinha de Portugal. Os navios geralmente chegavam em maio e partiam para a Bahia em julho, para se incorporarem ao restante da armada. Seu objetivo principal era levar o açúcar em segurança para o reino. Mas era também uma ocasião de chegada de novas mercadorias, movimento de pessoas, cartas, noticias. Como o açúcar não tinha valor enquanto a frota não chegasse e houve ano em que não veio , os negociantes da terra adiavam a compra junto aos produtores o mais que podiam, e quando o faziam, era por preço tão baixo, que as receitas pouco compensavam os esforços despendidos na produção. A chegada da frota alterava o quotidiano da cidade e da capitania de forma radical. Como a navegação era governada pelo sistema de ventos predominantes, os navios não podiam se demorar muito no Rio, sob risco de terem de permanecer aí o restante do ano. Por isso, tão logo fundeavam os barcos, o governador lançava bandos pelas ruas da cidade, determinando prazo para o apresto e partida da frota. Esse era um momento único. Nas poucas semanas de permanência da frota, as áreas rurais se agitavam com os preparativos finais do transporte da produção açucareira e a pequena urbe se eletrizava com o frisson que invadia seu pacato quotidiano e alterava seus ritmos de vida. Havia, com efeito, que fazer muita coisa e com rapidez. Em primeiro lugar, os navios precisavam ser reparados e abastecidos para a viagem de volta, daí porque era necessário acelerar o ritmo de trabalho de calafates, cordoeiros, carpinteiros da ribeira, tanoeiros, serralheiros, ferreiros, caldeireiros e outros tantos artesãos; o mesmo acontecia com o uso da força de trabalho escrava, tanto dos cativos que labutavam nas tendas dos oficiais mecânicos urbanos, como daqueles que operacionalizavam as etapas de transporte e embarque da produção. Enquanto isso, a azáfama era grande nos cartórios da cidade, aos quais afluíam todos aqueles que precisavam fazer procurações a terceiros ou lavrar documentos a serem remetidos com a frota. Os controles urbanos também se intensificavam. Com tantos homens do mar circulando pelas ruas, esse era um período em que os distúrbios públicos aumentavam, assim como a vigilância e a repressão por parte das autoridades. Com a partida dos navios para Portugal, a cidade e seu termo voltavam ao seu ritmo costumeiro, marcado, de um lado, pelas atividades urbanas tradicionais e, de outro, pela atividade canavieira, que dava sustentação econômica à capitania desde o seu início e que era complementada por uma produção alimentar crescente. Como a próxima safra já estava em andamento, não havia tempo para descanso, pois urgia dar prosseguimento aos trabalhos iniciados e torcer para que a próxima colheita fosse aquinhoada com bons tempos e protegida de pragas e de epidemias.

16 de jun. de 2010

Entrevista com Mauricio Abreu

Entrevista com o professor Maurício de Almeida Abreu

Geosul - Hoje dia 29 de setembro de 2005, durante o Encontro da ANPEGE, em Fortaleza, vamos começar a entrevista com a clássica pergunta: onde você nasceu, como era sua família, seus primeiros anos.
Prof. Maurício - Eu nasci no Rio de Janeiro, em dezembro de 1948, filho de um casal de classe média. Fiz o colégio primário em escola particular, mas depois completei minha formação de ginásio e colegial no Colégio Pedro II, um colégio federal, naquela época - e ainda hoje - de muito difícil ingresso. A seleção para o colégio era feita por um tipo de vestibular, a que se submetiam as crianças de 11 anos, chamado àquela época de “exame de admissão”. No ano em que fiz esse exame eram, se não me engano, cerca de 20.000 candidatos para cerca de 1.000 vagas. O colégio (como ainda hoje) tinha uma sede na área central, inaugurada no século XIX, durante a Regência, e três “filiais” em bairros do Rio de Janeiro. O Pedro II era conhecido como “colégio padrão” porque seus currículos serviam de orientação aos demais colégios secundários do país. Todas as disciplinas ali lecionadas possuíam catedráticos e eu tive lá mestres de altíssimo gabarito. Hoje ainda é um colégio importante, mas não é mais o que foi. Posso dizer que tive uma formação secundária muito boa, pública e gratuita. Foi no Pedro II que comecei a me interessar por geografia. Mas voltando à infância, meu pai era contador e trabalhava para uma empresa americana de publicidade, a J. Walter Thompson. Minha mãe era dona-de-casa, formada em piano, falava um pouco de rancês; meu pai falava um pouco de inglês e lia muito bem o latim, pois pensou inicialmente em ser padre. Enfim, venho de uma família de classe média culta.
Geosul - Você tem irmãos?
Prof. Maurício - Tenho dois irmãos. Sou o mais moço, meio temporão. Era a típica família de classe média; vivíamos com o orçamento familiar apertado, mas para a educação nunca faltaram recursos. Meu pai se sacrificou muito para nos dar o máximo que podia. Mas também conseguia benesses quando necessário; boa parte de meu curso de inglês da Cultura Inglesa foi realizada com bolsa. Já o meu francês foi o que aprendi no Colégio Pedro II. Em 1994, fui fazer um pós-doutorado na França apenas com o francês que aprendi no Colégio Pedro II, que, aliás, também permitiu que eu fosse aprovado no curso de Letras da UFF, que abandonei depois.
Geosul - E a geografia neste período como aparece para você?
Prof. Maurício Quando prestei concurso para professor titular da UFRJ, em 1997, fui obrigado a escrever um memorial. A elaboração desse documento exige que se pense muito no que já fizemos, nos caminhos que trilhamos. Outro dia li a entrevista que o professor Roberto Lobato concedeu à revista Expressões Geográficas, de Santa Catarina. Fiquei então sabendo que, quando ele era criança, tinha vontade de conhecer o mundo e que havia criado, inclusive, um país imaginário. Acho que todos os geógrafos tiveram experiências semelhantes. Eu me lembro que havia duas coisas que gostava de fazer quando criança. Uma era ler uma coleção de livros que meu pai possuía na biblioteca, em nove volumes, que se chamava “O Mundo Pitoresco”. Já naquela época eram livros meio desatualizados. Havia umas fotos de povos primitivos de Nova Guiné, gravuras de regiões exóticas, de paisagens distantes. Apreciava muito essas gravuras. Ficava imaginando como seriam aqueles povos, aqueles países. Tinha vontade de conhecê-los todos. Já naquela idade eu viajava bastante. Meu avô materno era de Cananéia, litoral sul de São Paulo, e era para lá que íamos todos os anos passar as férias de verão. Meu avô era advogado e historiador; durante 50 anos trabalhou no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Escreveu também toda a história do litoral paulista. Era pessoa letrada e figura importante de Cananéia, mas residiu a maior parte da sua vida na capital paulista. A árvore genealógica da família Almeida, que ele conseguiu fazer, começa com um português que foi para Santa Catarina no início do século XVIII e de lá migrou para Cananéia, vila que, no período colonial, tinha grande interação com o litoral catarinense e, fiquei sabendo disso muitos anos depois, também com o Rio de Janeiro. Quando criança e adolescente, passei praticamente todas as minhas férias escolares em Cananéia, com incursões por outros municípios do vale do Ribeira, especialmente Iguape. Meu gosto pelas viagens não se limitou, entretanto, às férias. Tinha também muitos sonhos. Quando era adolescente, tinha o hábito de ir uma vez por ano ao Aeroporto do Galeão, para ver a chegada dos vôos internacionais. Como esse vôos chegavam muito cedo, por volta das 7 horas, para estar lá a essa hora eu tinha que sair muito cedo de casa, por volta das 5:30. Ficava no aeroporto durante toda a manhã. Era fantástico ver as pessoas desembarcando dos aviões, chegando de países distantes. Tudo isso já evidenciava meu interesse por viajar, por conhecer o mundo, mas o interessante é que, naquela época, jamais pensei em fazer geografia. Na verdade, me preparei para ser diplomata. Eu achava que era por meio dessa carreira que eu iria conhecer o mundo; por isso investi também no aprendizado do inglês e do francês, além do espanhol, que aprendi também no Pedro II quando cursava o colegial (fiz o “clássico”, que privilegiava bastante o estudo de línguas). Como as pessoas diziam que para ser diplomata era necessário fazer antes um curso superior, comecei a me preocupar com isso e foi aí que comecei a me angustiar. A verdade é que eu não sabia direito o que queria ser. Essa experiência de vida me faz hoje respeitar muito as dúvidas dos adolescentes e mesmo dos jovens alunos da graduação. No último ano do colegial eu sabia o que não gostava, mas não sabia o que queria ser.
Geosul - E como surgiu sua decisão de fazer geografia?
Prof. Maurício - No terceiro ano do ginasial eu tinha sido aluno de um professor de geografia chamado Tharceu Nehrer. No ano anterior fora aluno de uma professora de geografia que fazia a gente decorar tudo: os rios da margem esquerda do Amazonas, os cabos e penínsulas das Américas, etc. Até hoje sei de cor a seqüência dos principais rios europeus que deságuam no oceano. A prova era feita com um mapa mudo e as perguntas eram assim: localize a península disso, o estuário daquilo, o estreito de não sei o quê. Como tinha facilidade para memorizar, só tirava boas notas, de nove para cima. Mas no ano seguinte tive esse professor que não exigia decoreba e que fazia perguntas estranhas, que me obrigavam a pensar. Na primeira prova tirei cinco. Reclamei com o professor. Disse-lhe que eu era, até então, um excelente aluno de geografia. Ele me disse que eu era um excelente memorizador, mas que poderia ser também um pensador da geografia. Não entendi bem, àquela época, o que isso queria dizer. Tharceu foi novamente o meu professor de geografia no terceiro ano colegial. Só que eu não estava nem aí para a geografia. Pensei em fazer vestibular para o curso de grego antigo (que também estudara por dois anos no Pedro II e que apreciava bastante); depois decidi ser mais pragmático e resolvi me dedicar a uma língua viva, razão pela qual comecei a me preparar para o vestibular de letras (Português-Francês). Nessa ocasião, eu tinha um colega no Pedro II que hoje é professor de geografia da Universidade de Brasília, o Mário Diniz. Ele já havia resolvido fazer o vestibular para geografia. Durante algum tempo, complementamos o estudo no Pedro II com aulas num cursinho pré-vestibular, ele se preparando para geografia e eu para letras. Não me lembro quando foi exatamente que resolvi fazer o vestibular para geografia. Só sei que isso ocorreu uns três meses antes da data em que ele se realizaria. Todavia, como estava cursando o pré-vestibular para letras, achei que tinha que dar uma satisfação a meus pais, que estavam pagando por isso, e me inscrevi no vestibular de Letras da UFF, que seria realizado uns dois meses antes do vestibular de Geografia da UFRJ. Fui aprovado no vestibular da UFF, que me habilitou a ser estudante de Português-Francês. Resolvi então me preparar sozinho para o vestibular de Geografia, que seria realizado em fevereiro. Fui para Cananéia. Havia àquela época um livro muito bom, de autoria de Levi Marreiro, que se chamava “A Terra e seus recursos”. Lembro-me bem que esse foi um dos livros que levei comigo para o litoral sul paulista. Prestei o vestibular na UFRJ e passei em primeiro lugar. Resolvi cursar as duas universidades. O ano era 1967 e eu tinha aulas no centro do Rio de Janeiro das oito da manhã ao meio dia. Como não tinha ainda abandonado a idéia da diplomacia e havia rumores de que seria realizado em breve um concurso para oficial de chancelaria, decidi que isso seria um passo inicial importante para o concurso para diplomata. Só que oficial de chancelaria tinha que saber datilografia e eu resolvi então me matricular na Escola Remington. Aliás, esse foi o curso mais útil que já fiz. Até hoje sou exímio datilógrafo. E fiz este curso na hora do almoço, depois de sair da UFRJ. Acabada a aula, ainda ia para casa almoçar, tomava banho e voltava para o centro do Rio, para pegar a barca para Niterói; lá tinha aulas na UFF de 17:30 às 22 horas. Quando regressava ao lar, já era mais de meia noite. Sábados e domingos também eram dias de trabalho. Em muitos sábados havia trabalho de campo de geografia e foram muitos os domingos que passei em Niterói fazendo trabalhos de grupo com os colegas das letras. Praticamente não fiz outra coisa em 1967 a não ser estudar, mas não posso deixar de dizer que gostei de tudo o que fiz naquele ano. Em maio de 1968, quando cursava o segundo ano de geografia e de letras, minha vida mudou. Naquele momento, eu estava cursando a disciplina Metodologia da Geografia, que era lecionada pela Professora Lysia Bernardes. Lysia já era uma das geógrafas mais importantes do país. Além de ser docente em tempo parcial da UFRJ, já havia sido diretora do IBGE e estava agora trabalhando para o IPEA. Àquela época, a satisfação a meus pais, que estavam pagando por isso, e me inscrevi no vestibular de Letras da UFF, que seria realizado uns dois meses antes do vestibular de Geografia da UFRJ. Fui aprovado no vestibular da UFF, que me habilitou a ser estudante de Português-Francês. Resolvi então me preparar sozinho para o vestibular de Geografia, que seria realizado em fevereiro. Fui para Cananéia. Havia àquela época um livro muito bom, de autoria de Levi Marreiro, que se chamava “A Terra e seus recursos”. Lembro-me bem que esse foi um dos livros que levei comigo para o litoral sul paulista. Prestei o vestibular na UFRJ e passei em primeiro lugar. Resolvi cursar as duas universidades. O ano era 1967 e eu tinha aulas no centro do Rio de Janeiro das oito da manhã ao meio dia. Como não tinha ainda abandonado a idéia da diplomacia e havia rumores de que seria realizado em breve um concurso para oficial de chancelaria, decidi que isso seria um passo inicial importante para o concurso para diplomata. Só que oficial de chancelaria tinha que saber datilografia e eu resolvi então me matricular na Escola Remington. Aliás, esse foi o curso mais útil que já fiz. Até hoje sou exímio datilógrafo. E fiz este curso na hora do almoço, depois de sair da UFRJ. Acabada a aula, ainda ia para casa almoçar, tomava banho e voltava para o centro do Rio, para pegar a barca para Niterói; lá tinha aulas na UFF de 17:30 às 22 horas. Quando regressava ao lar, já era mais de meia noite. Sábados e domingos também eram dias de trabalho. Em muitos sábados havia trabalho de campo de geografia e foram muitos os domingos que passei em Niterói fazendo trabalhos de grupo com os colegas das letras. Praticamente não fiz outra coisa em 1967 a não ser estudar, mas não posso deixar de dizer que gostei de tudo o que fiz naquele ano. Em maio de 1968, quando cursava o segundo ano de geografia e de letras, minha vida mudou. Naquele momento, eu estava cursando a disciplina Metodologia da Geografia, que era lecionada pela Professora Lysia Bernardes. Lysia já era uma das geógrafas mais importantes do país. Além de ser docente em tempo parcial da UFRJ, já havia sido diretora do IBGE e estava agora trabalhando para o IPEA. Àquela época, o trabalho urbano que era padrão das reuniões da AGB (como fiquei sabendo mais tarde), com a turma se dividindo em equipes para estudar o uso do solo, a fisionomia urbana, o raio de ação do comércio, etc. Desse trabalho resultaram relatórios parciais. Com o estímulo da Professora Therezinha, dois estudantes ficaram responsáveis por transformar as anotações de campo da turma num artigo e daí surgiu “As causas do crescimento urbano recente de Itaboraí-Venda das Pedras”, que minha amiga Maria do Socorro Diniz e eu publicamos no Boletim Carioca de Geografia, órgão oficial da AGB-Rio. Trabalho bem simplesinho. A gente falava do processo de metropolização, da ponte Rio-Niterói em construção e já prevíamos grandes mudanças especulativas para o outro lado da Baía de Guanabara.
Geosul - E lá no IBGE você conheceu quem, além da Lysia?
Prof. Maurício - Conheci a Lysia na faculdade, pois foi minha professora. Quando entrei para o IBGE, ela já estava trabalhando no IPEA. No IBGE, fui alocado, inicialmente, à Seção Regional Leste, que era chefiada por José Cezar de Magalhães Filho, que foi presidente nacional da AGB nos anos setenta e comandou a famosa reunião de 1978 em Fortaleza. Em meu primeiro dia de trabalho, conheci um outro estagiário, que hoje é presidente da Anpege: meu querido amigo José Borzacchiello da Silva. O estágio no IBGE mudou muito a minha vida. Não posso deixar de reconhecer que tive também muitos momentos de sorte. A história das carreiras não é apenas explicada pela competência e dedicação das pessoas; temos também que contar com o imponderável. Eu tive a sorte de me formar num momento em que o mercado de trabalho se expandia para os geógrafos. E tive algumas sortes inesperadas também. Em 1969, por exemplo, quando ainda estava no terceiro ano da graduação, acabei integrando uma equipe do IBGE que fez uma longa excursão ao Nordeste. No ano anterior, a Sudene havia assinado um contrato com o IBGE para a realização de estudos de desenvolvimento urbano e regional. Num exemplo típico da importação de teorias, o Plano Diretor da Sudene havia proposto a adoção da teoria dos pólos de crescimento que o economista francês François Perroux havia desenvolvido para a Europa do pós-guerra. Era uma teoria feita para o espaço topológico das relações inter-industriais, das matrizes de insumo-produto, mas que, àquela época, vinha sendo também aplicada, sem muita crítica, ao espaço geográfico. Na realidade, essa foi uma estratégia generalizada no planejamento capitalista de então e vinha sendo seguida também nos países de economia centralizada. Só muito mais tarde é que a crítica a essa livre adaptação seria feita. O Plano Diretor da Sudene seguia a estratégia da descentralização concentrada, isto é, evitar a super-concentração de investimentos nas áreas metropolitanas, mas evitar também a dispersão de investimentos; estes deveriam ser prioritariamente concentrados em alguns “centros dinamizadores” e em “regiões programa”, estas últimas ligadas ao desenvolvimento rural. De início, não fui escolhido para ir ao Nordeste. Todavia, por razões de ordem particular, o José da Silva teve que desistir da excursão e eu fui escolhido para substituí-lo, integrando a equipe comandada pelo José Cezar de Magalhães, que iria fazer o levantamento das “regiões programa”. A outra equipe, chefiada pela saudosa Hilda da Silva, concentraria seus esforços no estudo dos “centros dinamizadores”, ou seja, seria a equipe urbana. Embora preferisse estar nessa última, foi com incontida alegria que me preparei para trabalhar nas áreas rurais nordestinas. As duas equipes, cada uma com quatro geógrafos e três estagiários, voaram juntas para Recife. Tive nesse dia a alegria de viajar pela primeira vez de avião, um Caravelle da Cruzeiro do Sul (ainda hoje sou fascinado por aviões). Em Recife tivemos reuniões preparatórias com o Professor Mário Lacerda de Melo, geógrafo que faleceu há pouco tempo, então trabalhando na Sudene. Alguns funcionários daquele órgão de desenvolvimento regional juntaram-se então aos dois grupos e partimos para Fortaleza. Aqui em Fortaleza é que as duas equipes iriam se separar. O grupo urbano devia se dirigir para Sobral e o rural para Baturité. Foi aí que algo inesperado definiu minha participação nessa excursão. Pouco antes da viagem eu havia feito uma operação de apendicite. Acontece que, em Fortaleza, eu comecei a rejeitar os pontos internos da operação, que deveriam ter sido absorvidos pelo organismo. Consultado um médico, ele foi de opinião que eu poderia continuar o trabalho, mas que era recomendável que eu integrasse o outro grupo, que estudaria as cidades, pois teria sempre a possibilidade de contar com hospitais em caso de rejeição de outros pontos. Com a concordância dos chefes do trabalho de campo, fui então transferido para a equipe urbana e parti para Sobral. Em quase dois meses de trabalho, foram 7.000 km andando de Rural Willys pelas estradas do Nordeste que, nessa época, eram quase todas de terra. De Sobral voltamos a Fortaleza e rumamos para Mossoró e Natal; depois, cruzamos os estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba e fomos para o Cariri cearense para estudar Crato e Juazeiro do Norte. De lá, fomos para Aracaju, via Paulo Afonso, e Maceió, seguindo depois para Recife, de onde voltamos para o Rio. Foram feitos levantamentos em todas aquelas cidades, então consideradas de porte médio. A mim, coube fazer a pesquisa nos hospitais e faculdades, para obter dados sobre a procedência de pacientes e alunos. Aproveitei as idas aos hospitais para fazer curativos, pois continuava a rejeitar pontos internos. De volta ao Rio, fui transferido para a Seção Regional Nordeste, que era chefiada pela Hilda da Silva, minha chefe na excursão. Lá passei um ano inteiro organizando os dados coletados, fazendo tabelas, elaborando mapas de fluxos, etc. Todo esse material está publicado. Esse também foi um período muito efervescente em termos políticos, de repressão muito grande nas universidades; um dos meus colegas de estágio do IBGE foi seqüestrado e preso pelos militares; na UFRJ convivemos dois anos com um estudante “transferido”, que todos sabíamos que era agente infiltrado pelo Dops na Academia. Foi também o momento das passeatas (antes que o AI-5 chegasse). Foi uma época muito tensa e, para mim, de grande aprendizado político. Em comparação àquele tempo, não deixa de causar surpresa como os estudantes de hoje se despolitizaram. Em 1970, ano em que iria me formar, a universidade decidiu separar o bacharelado da licenciatura. Optei inicialmente pelo bacharelado, mas lá por maio, Socorro e eu concluímos que, em termos de mercado de trabalho, seria mais interessante concluir primeiro a licenciatura. Conseguimos a transferência para a Faculdade de Educação e foi lá que obtive, ao final do ano, meu diploma de Licenciado em Geografia. Aliás, até hoje, não sou bacharel. Sou mestre, doutor; um dos mais antigos doutores da geografia brasileira, pois obtive meu grau de Ph.D em 1976, ou seja, há quase 30 anos, mas não sou bacharel (e também não sou filiado ao CREA, pois quando a profissão foi regulamentada começaram a exigir o diploma de bacharel e eu me recusei, depois de já ser mestre e doutor, a ingressar novamente na universidade para obter esse grau). Também nunca exerci a profissão de professor secundário, apenas dei aulas no Colégio de Aplicação, uma experiência que considerei fantástica. Foi também em 1970, ano em que me formei na graduação, que fui novamente bafejado pela sorte. Naquela época, o IBAM, Instituto Brasileiro de Administração Municipal, instituição privada que existe até hoje, estava criando seu Centro de Pesquisas Urbanas (CPU). O diretor do IBAM, Professor Diogo Lordello de Mello havia feito um convênio com a Fundação Ford para a criação desse Centro, que seria dedicado ao estudo da urbanização brasileira, que estava se tornando explosiva. A idéia era realmente inovadora. O que o Professor Lordello queria era criar uma equipe multidisciplinar que se dedicasse ao estudo das cidades. Resolveu então contratar um profissional de sociologia, um de geografia, um de economia, um de arquitetura e urbanismo, etc. Só que ele não queria contratar nenhuma estrela, nenhum profissional já estabelecido; a idéia era contratar pessoas jovens, em início de carreira. Sabendo disso pelo marido de uma colega, que era arquiteto e fazia consultoria para o IBAM, resolvi me apresentar para uma entrevista e fui contratado como estagiário em junho de 1970. Mais tarde, soube que o Professor Lordello pediu referências minhas a Lysia Bernardes, que mais uma vez me deu um empurrão profissional. No IBAM enfrentei muitos desafios. O primeiro foi o de escrever um artigo para ser publicado na Revista de Administração Municipal, órgão oficial da instituição, sobre a contribuição da geografia para oestudo das cidades. Escrevi então “A geografia e os problemas urbanos”. Eu sabia que era apenas um estagiário e que esse trabalho seria fundamental para uma possível contratação após a formatura. Deu tudo certo. Dois dias após a formatura, entrei oficialmente para os quadros do IBAM. E aí tive um outro desafio a enfrentar. A idéia original do Professor Lordello, homem que estava realmente à frente do seu tempo, era que os integrantes do CPU fossem pós-graduados. Por essa razão havia feito o convênio com a Fundação Ford. Todos os membros do CPU deveriam obter graus de mestre. A escolha das universidades era livre, mas o país tinha que ser os EUA já que o órgão financiador era norte-americano. Quando entrei para o CPU, dois de seus integrantes já estavam naquele país fazendo o mestrado. Seis meses depois de ter me formado, fui também enviado para os EUA. A preparação para a ida aos EUA foi um misto de alegria e de medo. Essa foi a época em que a geografia brasileira se abria ao neo-positivismo. E em matemática eu era um desastre. Enquanto era estagiário do IBGE, tive o primeiro contato com a tal “geografia quantitativa”, pois participei de um curso introdutório (na realidade, de estatística descritiva) ali ministrado pelo geógrafo John Cole. Nessa época, alguns geógrafos do IBGE estavam “mergulhando de cabeça” nessa geografia, sobretudo Pedro Geiger e Speridião Faissol. Alguns setores do IBGE já estavam trabalhando com técnicas quantitativas e os computadores já começavam a fazer parte da rotina de pesquisa. No IBGE, eu não trabalhava com a “quantitativa”, como então se falava, mas sabia que, nos Estados Unidos, seria por aí (o que, na realidade, era um erro, pois nem todos os departamentos de geografia dos EUA abraçaram o neo-positivismo). Eu, entretanto, com todo o meu temor da matemática e minha formação lablacheana, acabei indo para um dos departamentos mais neo-positivistas daquele país. Minha escolha foi produto das influências do momento (a geografia aplicada, o planejamento, as novas técnicas que se apresentavam como “científicas”, a opinião de mestres e geógrafos profissionais com os quais convivia) e também da rebeldia natural de todo jovem, que quer se diferenciar da geração que lhe precedeu. No início dos anos setenta, David Harvey escreveu um trabalho que considero seminal. Chama-se “Teoria revolucionária e contra-revolucionária na Geografia e o problema da formação do gueto”, que é um capítulo de “A Justiça Social e a Cidade”. Nesse texto, Harvey discute o que significa uma mudança de paradigma para pessoas que estão começando a carreira. As críticas que se fizeram ao neo- positivismo no Brasil, todas publicadas a posteriori e não quando ele surgia, isto é, em fins dos anos sessenta, tendem a misturar tempos. As perspectivas que se abriam ao geógrafo que se formava ao final da década de sessenta eram duas: ou você fazia a geografia regional francesa ou optava por uma geografia mais de intervenção, que não necessariamente tinha que ser “quantitativa”;mesmo os franceses defendiam isso, pois Pierre George e outros falavam de “geografia ativa”, Jean Labasse de “geografia voluntária”, Michel Philipponeau de “geografia aplicada”. Ou seja desde os anos 50 havia na geografia francesa uma proposta de intervenção, de planejamento, palavra que depois ficou sendo maldita na geografia brasileira, pois acabou se transformando em sinônimo apenas da intervenção feita pelo regime militar instaurado em 1964. Essa proposta de intervenção através do planejamento fascinava a mim e a muitos da minha geração. Não posso negar, entretanto, que minha opção por Ohio State University nada teve a ver com essas reflexões que faço agora. Tive muito pouco tempo para decidir. Os prazos eram curtos, tanto para ser aceito pela universidade escolhida como para começar os trâmites burocráticos com a Fundação Ford. Além do mais desconhecia quase por completo a geografia norte-americana (que àquela época, tinha pouquíssima influência sobre a geografia brasileira), razão pela qual dependi muito do que me diziam os profissionais mais experientes, sobretudo Lysia Bernardes. A escolha por Ohio State foi, na realidade, fruto de uma conversa com Lysia e Nilo Bernardes. Àquela época, o nome norte-americano que se projetava no cenário mundial era o de Brian Berry (que, aliás, era inglês). Pensei então em ir para Chicago, para fazer o mestrado com ele. Lysia e Nilo, entretanto, me demoveram dessa idéia, pois achavam que ele viajava muito e que não daria muita importância à atividade de orientação. Sugeriram, então, que eu fosse para a Ohio State University, pois lá havia um geógrafo que eles haviam conhecido no Brasil, que também fazia essa “nova geografia” e que falava português. Confesso que minha decisão foi totalmente influenciada por essa conversa. Acabei escrevendo para esse professor (Howard Gauthier, que seria meu orientador do mestrado e do doutorado), que aceitou minha candidatura de imediato. Seis meses depois de minha formatura na graduação, aterrissei em Columbus, capital do estado de Ohio, que seria a minha residência pelos próximos cinco anos. O próprio Professor Gauthier me recomendara que chegasse para o quadrimestre de verão, pois nesse período a universidade trabalhava mais lentamente, com poucos cursos sendo oferecidos, e eu teria mais tempo para me adaptar e começar a soltar a língua. Era também o tempo necessário para ir me acostumando com essa “nova geografia”, sobre a qual eu não sabia quase nada e que teria de enfrentar no quadrimestre de outono, início do ano letivo regular. Enquanto me preparava para ir para os EUA, tive que enfrentar um outro desafio no Brasil. Em 1972, ou seja, no ano seguinte à minha ida para os Estados Unidos, seria realizada em Estocolmo a Conferência das Nações Unidos para o Meio Ambiente, temática que começava a ter importância na agenda de pesquisa. Fui então solicitado por meu chefe no IBAM, Cleuler de Barros Loyola, a escrever um trabalho sobre o assunto. Nessa época, o IBAM editava umas monografias que orientavam as atividades de planejamento das prefeituras municipais. Os temas eram os mais variados: sistema viário, abastecimento d’água, localização de indústrias, de matadouros, de cemitérios, etc. Havia que falar da importância dessas atividades e/ou usos para as cidades, definir metas de planejamento e indicar os indicadores qualitativos e quantitativos que deveriam ser levados em consideração pelos planejadores. Eu nunca tinha trabalhado com meio ambiente. Comecei então a ler textos diversos, a coletar estatísticas, a me aventurar por caminhos que não havia percorrido muito na graduação ou no estágio no IBGE. Logo reconheci também que o tema era inovador, pois havia muito pouca coisa publicada sobre as questões ambientais. Produzi então um livrinho de capa verde, que teve o título “Sistema Urbano de Conservação do Meio Ambiente”, que tive a honra de ver prefaciado pelo Professor Simões Lopes, da Fundação Getúlio Vargas e, àquela época, presidente do Conselho de Administração do IBAM. Em 1997, quando preparava meu memorial para o concurso de professor titular, tive a oportunidade de reler o que havia escrito vinte e seis anos antes. Fiquei impressionado ao me ver abordando temas que só depois se afirmariam na pesquisa geográfica. Embora não usasse palavras como sustentabilidade, o conceito já estava delineado ali. É interessante verificar também que, naquela época, final dos anos 60 e início dos 70, o termo ambiente estava muito relacionado ao ambiente urbano. O grande tema de discussão era a poluição: da água, do ar, visual, etc. Quando o livrinho foi publicado, eu já estava nos EUA, cursando o mestrado.
Geosul - E você com sua base geográfica podia ver o meio ambiente e explicar os sítios...
Prof. Maurício - Aliás, naquele artigo “A geografia e os problemas urbanos” uma das questões que abordo é a dos sítios das cidades; outra é a dos “movimentos de massa”, expressão que, àquela época, não era sinônimo de movimentos políticos, mas sim de deslizamentos de encostas. A Maria Regina Mousinho e o Jorge Xavier da Silva haviam escrito, inclusive, um trabalho muito inovador sobre isso e foram chamados a prestar informações à polícia política que, imbecil como era, pensou que se tratasse de obra subversiva. Ora, esses deslizamentos afetam não só as áreas rurais pouco habitadas, como foi o caso que eles estudaram, mas também as áreas urbanas. Minha incursão pelas questões ambientais ficou por aí. Depois gente acaba enveredando por outros caminhos. Tive, entretanto, uma boa formação de Geografia Física; fui aluno de duas grandes mestras: Maria do Carmo Corrêa Galvão e Maria Regina Mousinho de Meis.
Geosul - Fale um pouco sobre a sua experiência lá em Ohio.
Prof. Maurício – O primeiro ano foi extremamente difícil. A sensação que eu tinha é que tudo que havia aprendido antes não servia para nada. A verdade é que minha formação de graduação e de pós-graduação ocorreu na época das “revoluções paradigmáticas”. Em um curto período de cinco anos fui influenciado pela geografia clássica francesa, pela geografia quantitativa e pela geografia marxista, com a qual tive contato ainda nos EUA. Mas, voltando ao assunto, o primeiro ano foi muito difícil, a língua, a adaptação. Todavia, jamais tive saudade do feijão com arroz ou da goiabada. Para mim, viajar para o exterior era sonho antigo e eu estava ali para aproveitar ao máximo o que ele tinha para me oferecer. No primeiro ano, minhas anotações eram uma mistura de português com inglês (ainda guardo meus cadernos e fichários). Havia dificuldade de entender o que o professor falava e escrever rapidamente alguma coisa em inglês; portanto, misturava as línguas. Também foi difícil entrar no mundo da estatística e da matemática, que apesar de extremamente introdutórias nesse primeiro ano, eram grande novidade para mim, pois meu curso de estatística da graduação foi péssimo. Até hoje, o que sei de estatística e de matemática (sobretudo, álgebra linear) é em inglês; fiz três cursos de cálculo, mas já esqueci quase tudo. Como disse, cheguei a Columbus no verão. Naquele quadrimestre, fiz inscrição em dois cursos, mas acabei fazendo apenas um, de leituras, com meu orientador, totalmente dedicado ao livro Industrial Location, de David M. Smith, que até hoje considero um primor. Abandonei o curso de Microeconomia logo que pude, pois já era muito carregado de matemática e tinha dificuldade em entender o que dizia a professora, que era indiana e falava com muito sotaque. No quadrimestre de outono me inscrevi nos dois cursos obrigatórios para o mestrado. O primeiro se chamava Spatial Systems e era uma introdução às teorias da geografia neo- positivista; o livro-texto era o recém-lançado “Spatial Organization”, de Abler, Adams e Gould. O segundo era “Técnicas Quantitativas I”, de estatística descritiva. Os dois cursos estavam sob a responsabilidade de Kevin Cox, geógrafo político e um dos grandes professores que tive em Ohio State. Ele ainda está lá. É um dos poucos geógrafos marxistas que ainda existem nos EUA, mas nessa época ainda não havia feito sua transição teórica. Nesse semestre, me matriculei também em Geografia Urbana, curso muito diferente daquele que eu havia feito no Brasil, todo baseado em teorias dedutivas, modelos de localização, fórmulas.Embora estudasse dia e noite, tirei um C na primeira prova de Spatial Systems, aliás, a única nota baixa que tive nos cinco anos que passei nos EUA Foi um drama! Eu tinha que manter, no mínimo, a média B para poder continuar com a bolsa; de outra forma, teria que retornar ao Brasil. Não sei como sobrevivi àquele primeiro semestre de carga pesada. Não era só a geografia que era diferente em Columbus. Todo o resto também era e exigiu muito em termos de adaptação. Eu morava em um dormitório para pós-graduandos e estudava todos os dias. A universidade tinha mais de 50.000 alunos, uma cidade dentro de outra, a maior universidade americana em um só campus. Já começava a fazer amizades com americanos e outros estrangeiros, mas foram os brasileiros que me acompanharam mais naqueles primeiros meses. Ohio State sempre foi famosa na área de agricultura. A maioria dos brasileiros que estavam lá eram de faculdades de agronomia, muitos deles da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, de Piracicaba. No final do semestre consegui um A em Geografia Urbana e B nos outros dois cursos. Foi minha primeira vitória. A partir daí tudo foi melhorando.

Geosul - Você fez o mestrado e o doutorado nos Estados Unidos?
Prof. Maurício – Fiz o mestrado e o doutorado em Ohio State. No total, foram cinco anos de residência e trinta e poucos cursos que tive que cursar, pois o modelo americano de pós-graduação exige muitos créditos, muitos cursos, muitas provas, muitos trabalhos. E o sistema em Ohio State era de quadrimestres, isto é, os cursos se estendiam por apenas 10 semanas. Ou seja, tudo tinha que acontecer em 10 semanas: introdução ao curso, desenvolvimento, realização de leituras, provas, trabalhos. Para o mestrado, o aluno tinha a opção de escolher entre mestrado com tese ou com exame. Se optasse por fazer um exame, tinha, entretanto, que apresentar também um trabalho escrito, que não era uma tese, mas tinha que ter um nível semelhante ao de um trabalho aceito para publicação em revista científica. No Departamento de Geografia, a regra era que todos tinham que fazer o exame de mestrado. Fiz isso em junho de 1973. Minha área de especialização acabou sendo Desenvolvimento Econômico e Regional, que era a área do meu orientador. Meu trabalho escrito foi sobre o desenvolvimento regional no Brasil, teorias dos pólos de crescimento, modelo centro-periferia, etc. Enquanto me preparava para o exame, já dominando muito bem o inglês, fui convidado por meu orientador para permanecer para o doutorado. Não havia mais possibilidade de ficar com a bolsa da Fundação Ford (o convênio com o IBAM havia acabado). Portanto, se era para ficar, teria que fazer como inúmeros de meus colegas: obteria uma bolsa da própria universidade e teria que trabalhar como auxiliar de ensino. Optei por ficar. Já conseguia destrinchar bem os modelos e teorias, que já não me assustavam tanto. Consegui também a necessária autorização do IBAM para ficar. Nesse ínterim, fui novamente bafejado pela sorte, pois consegui uma bolsa de estudo para fazer um curso de “Urbanização e Desenvolvimento Regional” no Brasil! Era um curso patrocinado pelo Cedeplar, da UFMG, também com apoio da Fundação Ford, destinado à formação de pesquisadores latino-americanos. Eu havia tido conhecimento do curso e, como quem não quer nada, tinha também preenchido o formulário de inscrição. Não tinha esperança em obter uma vaga, pois achava que não iriam dar uma bolsa para um brasileiro que morava nos EUA ir fazer um curso no Brasil. Mas foi isso que aconteceu. Passei o verão (do hemisfério norte) de 1973 no Brasil, fiz o curso do Cedeplar (ministrado por professores de altíssimo gabarito, dentre os quais Jorge Hardoy e Luiz Uniquel) e voltei para os EUA em setembro. Comecei então meu curso de doutorado e minha atividade como auxiliar de ensino. Boa parte dos alunos de pós-graduação tinha essa atividade. O Departamento oferecia três disciplinas do ciclo básico, que eram Geografia Física, Geografia Regional do Mundo e Geografia Econômica. As aulas eram de 50 minutos, mas como o quadrimestre era de 10 semanas, precisavam ser dadas durante todos os dias da semana. Como a universidade tinha 50.000 alunos, a demanda pelos cursos básicos era enorme. O de Geografia Regional do Mundo era oferecido em várias turmas: às 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15 e 20 horas. Cada um desses horários era de responsabilidade de um professor do departamento ou, o que era mais comum, de alunos bolsistas da pós-graduação. Nos primeiros dois anos, quando faziam o mestrado, os estudantes bolsistas geralmente auxiliavam o professor; depois, quando já eram estudantes de doutorado, assumiam total responsabilidade por um dos horários das disciplinas. Apesar de já estar cursando o doutorado, comecei como todo mundo: auxiliando um professor, no caso, George Demko, que era grande especialista em Geografia da População e em União Soviética. Fui o primeiro auxiliar de ensino do Departamento em muitos anos cuja língua materna não era o inglês. Devido a uma experiência anterior mal sucedida, o departamento só oferecia bolsas a alunos estrangeiros que viessem de países de língua inglesa, por motivos óbvios. Como eu já dominava bem o idioma e tinha obtido um bom aproveitamento no mestrado, o Departamento havia resolvido mudar essa política e havia, inclusive, concedido uma bolsa a um outro estudante vindo de país não-anglofônico, no caso Zoran Roca, àquela época cidadão da Iugoslávia, hoje da Croácia. O Professor Demko tinha grande interesse em tê-lo em Ohio State, porque já o conhecia antes e porque ele era oriundo do leste europeu (lembremos que estávamos na guerra fria). Um ano depois da chegada de Zoran, chegaria a Ohio State minha colega de graduação da UFRJ, Maria de Nazaré de Oliveira, também com bolsa de auxiliar de ensino. Acabaram esses dois se enamorando um do outro e estão casados desde 1975. Moraram na Croácia por muitos anos e lá obtiveram seus doutorados. Hoje estão em Lisboa, onde são professores universitários; já estiveram dando cursos no Brasil. Mas voltemos ao período em que comecei a ser auxiliar de ensino. Como disse, o docente responsável era George Demko, um professor insuperável em sala de aula, que recebia seguidos prêmios pela qualidade de suas aulas (aliás, isto é uma prática que precisava ser incorporada nas universidades brasileiras, pois esses prêmios eram concedidos pelos próprios alunos). Com um professor como esses oferecendo a disciplina, o Departamento abriu vagas para 300 alunos naquele horário e, a pedido do próprio Demko, alocou os dois únicos bolsistas de países de língua não inglesa para auxiliá-lo. A disciplina era dada num auditório e tínhamos que usar microfone. Além das atividades burocráticas, isto é, passar listas de presença, auxiliar na correção de provas, participar dos trabalhos práticos e ter horários de atendimento para os alunos, coube a nós dois lecionar os módulos de Europa de Leste (Zoran) e América Latina (eu). Foi um batismo de fogo: dar aulas em inglês para 300 alunos. No ano seguinte, passei a ter total responsabilidade por um dos horários em que a disciplina Geografia Regional do Mundo era oferecida. Ministrei essa disciplina durante oito quadrimestres seguidos, até obter o doutorado. No início, obtive os primeiros horários, mas depois sempre acontecia o “upgrade”: comecei dando aula no inverno às oito da manhã, antes mesmo do sol nascer, e terminei no horário nobre das 10 e 11 da manhã. Foi uma experiência fantástica. Até hoje guardo algumas fichas de avaliação discente que o Departamento gentilmente me ofertou quando voltei para o Brasil; elas eram muito importantes para que o Departamento acompanhasse o desempenho de seus alunos bolsistas. Defendi minha tese de doutorado no final de maio de 1976 e colei grau no início de junho. Minha tese foi sobre migrações e absorção de força de trabalho migrante e não-migrante nas áreas metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Foi nessa época que a temática da informalização do mercado de trabalho ganhou importância. Tudo havia começado numa reunião da OIT ocorrida no Quênia poucos anos antes, a partir da qual inúmeras teorias foram desenvolvidas. Em minha tese, dialoguei muito com os autores que então teorizavam sobre essa temática, sobretudo com Michael Todaro; não conhecia, àquela época, o trabalho de Milton Santos sobre os dois circuitos da economia urbana nos países subdesenvolvidos. Como o censo demográfico de 1970 tinha informações detalhadas sobre migrações, tive a felicidade de obter tabulações especiais que permitiram que eu desenvolvesse o trabalho. Contei, para isso, com a ajuda prestimosa de meus antigos colegas do IBGE, sobretudo de Marilourdes Lopes Ferreira, que também tinha sido colega da faculdade. Apesar de serem os dados mais detalhados já publicados sobre migrações no Brasil, as tabulações que obtive apenas distinguiam o município central da área metropolitana (Rio e São Paulo) do conjunto dos demais municípios metropolitanos, o que não permitiu esmiuçar as diferenças internas das duas periferias. Além dos dados de migração, utilizei também dados de escolaridade e de ocupação. Como era de se esperar, a tese teve um arcabouço teórico neo-positivista, utilizou técnicas quantitativas (no caso, a correlação canônica) e se alicerçou, sobretudo, na teoria econômica neoclássica. Minha tese de doutorado contou com um co-orientador de alta qualidade: o Professor Douglas Graham, economista com grande experiência em Brasil. Logo após colar grau, retornei ao Brasil.
Geosul - Você foi logo para a Universidade?
Prof. Maurício – Não. Voltei para trabalhar no IBAM. E foi um choque. Quando tinha saído do Brasil, meu horizonte profissional era atuar no planejamento urbano; essa era a grande palavra do momento: intervenção. Podia ser local, regional. Depois de voltar, o que eu mais queria era dar continuidade ao trabalho que tinha feito em Ohio State, isto é, fazer pesquisa, escrever trabalhos científicos, ser professor universitário. Mas o que o IBAM queria (e não podia ser de outra maneira) é que eu trabalhasse em planejamento urbano e regional. Por essa razão, fiquei, inicialmente, um pouco distante da universidade. Nesse ínterim, o CPU tinha mudado bastante. Eram agora quase 20 profissionais, chefiados por Ana Maria Brasileiro, cientista política. Logo depois, Ana Maria foi substituída por Carlos Nelson Ferreira dos Santos, grande arquiteto e antropólogo, infelizmente já falecido. Meu problema era um só naquele tempo: eu queria a vida acadêmica, mas precisava trabalhar com temáticas bem operacionais: localização de terminais de ônibus, etc. Em 1977, entretanto, fui alocado a uma pesquisa extremamente interessante, que trataria do impacto do metrô, então em construção, na estrutura urbana do Rio de Janeiro. Esta pesquisa já tinha sido contratada antes de eu voltar, mas foi só em 1977 que ela teve início. Fiquei com a sub-coordenação. O coordenador era Murillo Godoy, um grande planejador urbano, ex-diretor do atual IPPUR-UFRJ, que havia sido demitido da universidade por perseguição política. Para essa pesquisa foram alocados mais de 50 pesquisadores, alguns do quadro efetivo do IBAM e a maioria contratada por tempo determinado. Pesquisamos os impactos sobre o uso do solo, o mercado imobiliário, o meio ambiente e a estrutura sócio-econômica dos diversos bairros cortados pelas linhas metroviárias em construção. Ao final, coube a mim dar o fecho final do trabalho. Além de ter sido um trabalho importante da minha carreira, a pesquisa sobre o impacto do metrô me fez conhecer inúmeras pessoas, muitas das quais são minhas amigas até hoje.
Geosul - E foi esta pesquisa que te levou para a história das cidades?
Prof. Maurício - Ainda não. Hoje eu estou usando aquela pesquisa sobre o metrô em minhas orientações de graduação. A verdade é que já se passaram mais de 25 anos desde que ela foi feita e achei que seria importante verificar se os impactos que previmos naquela época realmente aconteceram ou não. Muita coisa que previmos ocorreu. Outras não. Um dos “furos” do trabalho foi que não previmos (não sei se isso seria possível àquela época) o grande impacto que os shopping centers iria causar na estrutura comercial da cidade. Escrevemos o trabalho antes que o primeiro shopping surgisse no Rio. Dois de meus alunos já se debruçaram sobre essa temática. Eles utilizam o que escrevemos e os mapas que produzimos em 1977 e comparam com a situação atual. Voltando agora à sua pergunta, quando o trabalho do metrô terminou, fui obrigado a fazer aquilo que eu mais detestava: escrever termos de referência de futuras pesquisas que poderiam ser desenvolvidas pelo CPU e apresentá-los a potenciais financiadores. O IBAM vivia dos contratos que firmava; por isso, tínhamos que estar sempre vendendo o peixe. Antes de acabar uma pesquisa, já tínhamos que estar propondo alguma outra para o futuro. Nesse ínterim, comecei a dar aulas na universidade. Nessa época, a UFRJ tinha apenas quatro doutores. Fui convidado por Maria do Carmo Galvão, que era a coordenadora da pós-graduação, para dar aulas como colaborador horista. Comecei em 1977, oferecendo um curso sobre migrações internas. Eu queria dar Desenvolvimento Regional, mas Bertha Becker já lecionava essa disciplina. Era uma atividade paralela, pois minhas maiores responsabilidades estavam no IBAM. Ao mesmo tempo, comecei a participar de bancas examinadoras de mestrado na UFRJ, inclusive da sua, Dolores, lembra-se? Voltando novamente à pergunta formulada, enquanto dava aulas na UFRJ e escrevia termos de referência no IBAM, surgiu uma oportunidade de pesquisa fantástica. Foi através do Carlos Nelson Ferreira dos Santos, que nesta época já era o chefe do centro de pesquisas. Ele havia conseguido um financiamento de uma instituição canadense, que vinha concedendo verbas a equipes latino-americanas para estudar questões relativas à distribuição da população. Cada país poderia estudar o que quisesse: migrações inter-regionais, mobilidade pendular, etc. Carlos Nelson havia se comprometido a fazer um estudo de distribuição de população na escala metropolitana. O Brasil foi o único país que trabalhou nessa escala; as equipes dos demais países optaram por desenvolver estudos na escala regional, ou mesmo nacional. Como naquela época eu não estava alocado a projeto algum, Carlos Nelson me chamou para desenvolver o projeto juntamente com Olga Bronstein, socióloga. De início, não tínhamos a menor idéia do que fazer. Mas logo chegamos a um acordo. O que precisávamos pesquisar era o “modelo metropolitano” que havia surgido no Brasil, que tinha como eixo um município relativamente rico em termos de renda média da população e bem servido de infra estrutura urbana, que era cercado por periferias cada vez mai pobres e mal servidas de infra-estrutura à medida que no distanciávamos do núcleo metropolitano. Na divisão de trabalho que se seguiu, fiquei com a incumbência de buscar as origens desse “modelo”, isto é, estudar o processo que lhe havia dado origem Olga deveria concentrar sua atenção nas políticas habitacionais Comecei então a mergulhar no passado carioca. A questão que me perseguia era: será que as políticas públicas atuais (década de 1970), que beneficiavam sempre as classes mais privilegiadas e expulsavam os pobres para as periferias, constituíam processo novos de estruturação metropolitana ou será que elas eram a feição mais acabada de processos que sempre existiram? Comecei então a reler os trabalhos clássicos de Therezinha de Segadas Soares e de Lysia Bernardes sobre o Rio do passado. Mergulhei nos censo cariocas de 1872, de 1890, de 1906, de 1920 etc. Li muitos outro autores que desconhecia até então. Comecei a descobrir coisa sobre o Rio de Janeiro de outrora e comecei a gostar do que fazia Como resultado desse esforço, produzi um trabalho que Foi publicado alguns anos depois sob a forma de livro: Evolução Urbana do Rio de Janeiro, que caminha agora para a sua quarta edição. Sem perceber, acabei fazendo nesse trabalho um pouco do que tinha aprendido na graduação, ou seja, que cabia ao geógrafo fazer sínteses das regiões (ou cidades) que estuda. A partir daí voltei a valorizar essa dimensão da pesquisa geográfica. Fazer sínteses não é a única contribuição que um geógrafo pode dar ao avanço do conhecimento, como pensavam muitos dos clássicos mas é, certamente, uma de suas contribuições importantes. A produção de trabalhos sobre o Rio de Janeiro sempre foi muito grande. Apesar disso, havia muitas lacunas que precisavam ser preenchidas. A mim coube preencher algumas delas. Ainda há muitas outras que demandam a atenção dos pesquisadores.
Geosul - E esta é a visão metodológica que você passa para seus orientados.
Prof. Maurício - Ao fazer aquele trabalho, recuperei a minha formação da graduação. E recuperei em um outro contexto, porque agora vou ter que falar da outra revolução paradigmática que estava acontecendo naquele momento. Veja, voltei do exterior com o título de doutor e com 27 anos e meio de idade. Quando comecei a dar aulas na UFRJ, havia apenas quatro doutores no departamento: Maria do Carmo Galvão, Bertha Becker, Jorge Xavier e Regina Mousinho. Muitos dos que foram meus professores de graduação obtiveram a sua pós-graduação depois de mim. Eu tinha meu título de doutor e era muito orgulhoso dele porque não tinha sido fácil consegui-lo. Retornei ao Brasil em meados de 1976, quando o pensamento marxista ganhava força na geografia, embora com bastante atraso em relação às outras ciências humanas. Como já disse, não estava envolvido com a universidade; trabalhava no IBAM. Ia à universidade apenas para dar meu curso sobre migrações. Mas aí veio a AGB de Fortaleza em 1978. Roberto Lobato, que trabalhava no IBGE e também lecionava como colaborador na UFRJ, tinha sido convidado para organizar uma mesa redonda sobre geografia urbana e me convidou para participar dela.. Eu não atentei que a mesa era apenas de geografia urbana e preparei um trabalho sobre a história do pensamento geográfico. Grande profissional que é, Lobato recusou o trabalho, dizendo-me que não era aquilo que seria discutido na mesa. Deu-me mais um mês para escrever um trabalho sobre urbana. Obedeci. Acabei enviando o outro trabalho para uma sessão de comunicação. E vim para Fortaleza. Aqui, em 78, o ambiente era de total ebulição. Milton Santos começava a refazer sua carreira acadêmica no Brasil e também iria participar da mesa organizada por Lobato. Os outros integrantes eram Olga Maria Buarque de Lima, geógrafa do IBGE, e Armen Mamigonian. Na realidade, todos nós complementávamos a mesa. Quem a multidão queria ouvir era Milton. Suas idéias mais recentes já começavam a circular entre os geógrafos e causavam furor naquele momento de “abertura política”. No meio disto tudo, eu me apresento pela primeira vez num congresso de geógrafos brasileiros e com uma bagagem não muito apreciada naquele momento: doutor por universidade norte-americana; profissional ligado ao planejamento; um geógrafo com formação neo-positivista. Foi a pior mesa redonda de que participei. Havia um verdadeiro frisson na sala. Mais de 400 pessoas se apertavam no auditório; todos aguardavam a fala de Milton com ansiedade. Eu estava tão nervoso que fui obrigado a ler meu texto; até hoje gosto muito dele, mas é óbvio que, naquele ambiente, meu trabalho não teve qualquer chance de agradar. Milton Santos foi o último a falar. Fazia a sua rentrée na comunidade geográfica brasileira. Além de apresentar algumas idéias que estavam no texto que havia enviado, falou sobre o que bem quis e foi, obviamente, ovacionado. Fiquei impressionado com o seu domínio de palco; aliás, ele era um mestre nisso também. Foi nessa ocasião que ele lançou o livro “Por uma Geografia Nova”. Olha, Fortaleza/1978 foi para mim uma experiência muito difícil, não só pelo que aconteceu na mesa redonda, mas também pelo que ocorreu depois que retornei ao Rio. Comecei a refletir muito sobre minha vida profissional. Estava no IBAM fazendo planejamento urbano e regional, mas não era mais disso que eu gostava. Tinha resolvido me apresentar à comunidade geográfica brasileira (só os geógrafos do Rio me conheciam), mas verifiquei que a geografia que eu fazia tinha virado a vilã da vez. Assim como a “geografia tradicional”, que eu havia aprendido nos anos sessenta, pouco tinha me servido nos EUA, agora o que me atormentava era perceber que toda aquela geografia que eu havia sofrido tanto para dominar nos EUA, também era equacionada a um conhecimento inútil. A ordem agora era ler Marx; era ali que encontraríamos a verdade, as bases da “geografia nova”. Eu fiquei meio encolhido durante alguns meses. De um lado, me recusava a começar tudo de novo, a desvalorizar minha formação. E me irritavam bastante alguns discursos que tinham tanto “ibope”naquele momento, pois achava que eram bons discursos políticos,adequados à conjuntura que estávamos vivendo, de exaustão do regime militar, mas que se sustentavam muito pouco como discursos científicos, com as exceções de praxe. Por outro lado, me incomodava também não dominar o discurso do momento. Até então, eu nunca tinha lido Marx, apesar de, nos Estados Unidos, ter tido acesso à nascente literatura geográfica que mais tarde ficou conhecida como “crítica”. Ainda hoje me lembro do curso de geografia política urbana que fiz, em 1973, com meu mestre Kevin Cox, através do qual fui apresentado às novas idéias que David Harvey lançava em seu “A Justiça Social e a Cidade”, que só muito mais tarde seria publicado no Brasil. Gostei tanto das temáticas que ele discutia, que escolhi a geografia política urbana como segunda área de concentração de meu doutorado (a primeira continuou sendo a do mestrado: desenvolvimento econômico e regional); nos EUA éramos obrigados a fazer dois exames de qualificação, um em cada área escolhida. Também foi nessa época que foi lançada a revista Antipode, que acompanhei no doutorado com bastante interesse. Em outras palavras, já conhecia alguns trabalhos acadêmicos de inspiração marxista, me interessava por eles, mas não tinha embarcado nesse barco. Fortaleza me obrigou a, pelo menos, corrigir erros de minha formação. Ao voltar para o Rio,resolvi que não podia ficar alheio ao que estava acontecendo na geografia brasileira. Naquela época, surgiram muitos grupos de leitura e discussão de O Capital. Tenho um amigo, Ivandro da Costa Salles, que já tinha uma sólida formação teórica marxista e que resolveu organizar um desses grupos. Decidi participar. De início, fiquei reticente. Achava que muitos dos conceitos que discutíamos ali eram diferentes na forma, mas não no conteúdo. Lembro-me bem das discussões que tive com Ivandro sobre o conceito de mais valia que, para mim, não era outra coisa senão o lucro da economia neoclássica. Ivandro era paciente comigo (e com os outros também). Falava que eu não tinha entendido; parecia igual, mas a construção teórica que levava ao conceito de mais valia era totalmente diferente. Um dia, numa de nossas discussões, deu um “clic” na minha cabeça e vi que ele tinha razão. Comecei então a ler mais a obra de Marx e passei a admirar suas construções teóricas. Vi também como elas eram importantes para entendermos o processo de produção do espaço geográfico. Foi realmente uma descoberta fundamental. Ao mesmo tempo, travei conhecimento com a obra de diversos autores marxistas, muitos dos quais admirei, mas boa parte deles achei demasiadamente herméticos, economicistas e deterministas (e, muitos deles, convenhamos, extremamente chatos). Foi nessa ocasião, quando já conseguia compreender melhor o novo paradigma que se instaurava na geografia, que tomei também uma grande decisão: não iria embarcar mais uma vez no paradigma do momento. O doutorado serve, sobretudo, para tornar uma pessoa auto-suficiente e auto-didata. Se minha formação tinha falhas graves, seria eu mesmo quem teria que sanar esses problemas. E foi o que fiz, sem renegar minhas formações anteriores. A partir daí, minha bagagem geográfica passou a ser a síntese de todas as minhas formações. Resgatei com intenso prazer a geografia clássica francesa que aprendi na graduação, não amaldiçoei a formação neo-positivista que obtive na pós-graduação (que, aliás, até hoje me permite ver como tem gente por aí que fala contra o neo-positivismo sem ter capacidade para fazê-lo) e acrescentei a esses dois aprendizados formais o que aprendi por auto-didatismo, seja no materialismo histórico e dialético, seja nas correntes fenomenológicas e culturalistas que se impuseram mais tarde na disciplina (cujos progressos acompanho meio de longe). Meu livro “Evolução Urbana do Rio de Janeiro” é o passo inicial dessa transformação. Embora a primeira edição tenha saído apenas em 1987, o texto foi produzido no segundo semestre de 1978, logo depois de Fortaleza. Ali já dá bem para ver como recuperei os trabalhos clássicos da geografia francesa, como fiz a crítica necessária a muitas teorias neo-positivistas e como minha geografia já começava a ser influenciada pela obra de Milton Santos e de outros autores marxistas (ou então marxistas) como Manuel Castells. Foi nessa época que o IBAM entrou numa grande crise financeira, pois os contratos que fazia com o Governo Federal não foram mais renovados por medida de contenção de despesas do governo Figueiredo, que então se iniciava. Durante seis meses não entrou um tostão novo no Centro de Pesquisas. Eu me ocupava com uma coisinha aqui, outra ali, e ganhava um alto salário. Com a falta de contratos, foi inevitável que a direção da instituição decidisse diminuir seu quadro de pessoal. Na primeira leva saíram dois; eu saí na segunda. De um lado, fiquei furioso com a demissão, mas por outro estava contentíssimo, porque era a possibilidade que eu tinha de entrar, finalmente, para a academia. Isso não aconteceu, entretanto, de imediato. O problema é que a academia me oferecia 30% a menos do que eu ganhava no IBAM e eu tinha acabado de comprar um apartamento, tinha muitas notas promissórias assinadas. Como também tinha sido convidado a reingressar no IBGE, que me oferecia, praticamente, o mesmo salário do IBAM, optei por essa última instituição. Mas, com as constantes mudanças políticas ocorrendo em Brasília, com ministros do Planejamento que não paravam no cargo, minha nomeação para o IBGE não saía nunca. Fiquei dois ou três meses desempregado. A universidade continuava me chamando. Até hoje não obtive resposta do IBGE. E aceitei ser professor visitante. Já havia um outro professor visitante trabalhando na UFRJ àquela época: ele se chamava Milton Santos.

Geosul - E como foi sua reaproximação com o Milton Santos?
Prof. Maurício – Foi aproximação, não reaproximação. Eu o conheci em Fortaleza e, depois disso, nunca mais o tinha visto. Ao entrar para UFRJ, entretanto, já tinha lido as suas obras mais recentes. A UFRJ foi a primeira universidade brasileira que contratou Milton Santos depois que ele voltou definitivamente ao país. Ele foi para lá no início de 1979. Eu fui contratado como professor visitante em novembro daquele mesmo ano. A princípio, minha relação com Milton foi difícil. Com a chegada de Milton Santos e de mim mesmo, o quadro de doutores da UFRJ havia aumentado em 50%. Como éramos poucos doutores, acabávamos participando de muitas coisas juntos, sejam bancas ou comissões. Ele era muito gentil comigo, mas havia sempre uma certa ironia quando conversávamos, principalmente porque só me chamava de professor-doutor; também não perdia uma oportunidade para fazer comentários, geralmente desabonadores, sobre a geografia que se fazia nos Estados Unidos, onde ele também havia trabalhado (mas não com os geógrafos). Enfim, havia um certo distanciamento polido. Eu não era considerado um integrante da geografia crítica que se impunha na geografia brasileira, mas tinha algo que poucos geógrafos brasileiros possuíam àquela época: um título de doutor, o que me dava enorme autonomia, tanto na universidade como fora dela. Milton tinha personalidade muito forte. Eu estava começando a carreira; ele já possuía um currículo invejável. Convidou-me para participar mais ativamente de seu grupo de pesquisa. Fui também chamado para participar dos grupos de outros professores. Tomei então outra decisão que, até hoje, considero muito certa, a de fazer minha carreira de forma independente, sem participar do grupo de pesquisa de ninguém. Afinal, eu era doutor e poderia muito bem fazer o que bem quisesse, contanto que tivesse produção científica de qualidade. Comecei a fazer meu trabalho de forma autônoma. Propus como projeto de pesquisa o aprofundamento do estudo sobre o Rio de Janeiro do passado que havia realizado no IBAM; a idéia agora era entrar nos arquivos, pesquisar as fontes primárias. Mas, voltando à sua questão, minha relação com Milton Santos mudou da água para o vinho quando deixei de ficar acuado por ele e o enfrentei. Lembro-me que isso aconteceu depois de um exame de qualificação de mestrado (ou teria sido uma reunião de departamento?). Milton, Regina Mousinho e eu permanecemos na sala e ficamos jogando conversa fora. Foi aí que ele começou a reclamar que os alunos não mais respeitavam as hierarquias, que tinha sido um erro acabar com as cátedras, etc. Eu contra-argumentei que também havia problemas com os catedráticos, pois muitos deles não davam aulas, ou alguma coisa assim. Ele ficou surpreso com minha reação e reproduziu o que eu tinha falado, só que usou suas próprias palavras. Ele já havia feito isso comigo mas eu não tinha percebido bem ou não tinha tido a coragem de replicar. Mas nesse dia consegui perceber como ele estava desconstruindo e reconstruindo a minha fala. E fiquei com muita raiva; falei que não admitia que ele pegasse as minhas palavras e fizesse o discurso que lhe apetecia. Bati com a mão na mesa. Ao esmo tempo, percebi que estava exagerando na minha “performance”, que estava fazendo uma encenação. E que estava gostando daquilo! Milton ficou surpreso com minha reação e disse que eu não havia compreendido bem o que ele quis dizer. A Regina, por outro lado, estava sem saber o que falar, pois nunca tinha me visto tão alterado. A partir daí nossa relação mudou. Coincidência ou não, ele parou de me chamar de professor-douto e, logo depois, começamos a participar de forma menos tensa das atividades do departamento. Pouco tempo depois, solicitou um trabalho que eu havia escrito para publicar numa coletânea de artigos que estava organizando. Passei também a freqüentar a sua casa. Pouco depois se transferiu para a USP. Com o tempo acabamos virando amigos, sem jamais termos tido muita intimidade. Eu gostava muito dele e sempre o admirei muito Considero Milton Santos o maior geógrafo que o Brasil já produziu. A sua perda é irreparável. Quando fiz pós-doutorado em Paris, em 1994-1995, ele também estava lá, escrevendo “A Natureza do Espaço”. Foi uma época muito agradável, de troca de idéias científicas e de conversas informais. Nossos objetivos de pesquisa eram distintos, mas seus trabalhos teóricos sempre foram importantes para a orientação de meus estudos. Nossa maior discordância era em relação à geografia histórica. Isso porque, no fundo, Milton nunca deixou de se aliar à proposta da geografia clássica, sobretudo a francesa, de que a geografia devia estudar apenas o presente e que o passado só devia ser escarafunchado com o intuito de buscarmos ali explicações sobre o presente. Essa não é a minha posição e já escrevi sobre isso.
Geosul - Esta é uma contribuição importante para a geografia brasileira, e ao mesmo tempo mostra que podem ser feitos trabalhos diferentes sem estar atrelado a uma corrente
Prof. Maurício - Eu sou uma síntese de todas as minhas formações. Acredito que a geografia que faço reflete bem isso, tanto em suas qualidades como em suas deficiências. Mas é a geografia que faço. Repito o que o Roberto Lobato falou em sua entrevista a Expressões Geográficas. Uma coisa é você acompanhar as modas; isso não é cientificamente correto. Outra coisa é mudar por imperativo intelectual, porque seu crescimento profissional chegou a um ponto em que você está insatisfeito com as matrizes que orientam o seu trabalho. Quando isso acontece, buscamos outras matrizes, que nos dêem melhores respostas, ou, em muitos casos, integramos essas matrizes de forma coerente e não contraditória, se isto é possível. Mudar com densidade é uma atitude totalmente defensável e correta. Mas não tenho nada contra aqueles que se mantêm fiéis a suas antigas matrizes, a não ser quando se recusam a dialogar com os que pensam diferente. O importante é que você esteja bem com o que faz e que o faça com densidade.
Geosul - E hoje na geografia brasileira pode-se dizer que há uma escola de geografia histórica, do Mauricio de Abreu, que é extremamente importante, principalmente no Rio de Janeiro.
Prof. Maurício - Eu tive que aprender muitas coisas novas na vida. Todo o meu aprendizado de geografia histórica foi fruto de esforço próprio. Não aprendi nada disso na graduação ou na pós-graduação. Acho que a geografia tem muitas questões a fazer ao passado. E são questões geográficas, que ainda precisam de respostas, pois os historiadores não as formulam. Uma coisa que me incomodava até pouco tempo atrás é que eu não tinha quase diálogo com meus colegas. Todos achavam muito interessante o que eu fazia, mas era como se eu falasse grego. Em razão disso, ficávamos nos observando, nos admirando mutuamente, mas não havia muito debate. Agora as coisas estão mudando. Existe uma crescente massa crítica. Há quinze anos atrás, éramos quase que apenas dois geógrafos com interesse nessa área: Pedro Vasconcelos e eu. Hoje, basta ver os programas dos eventos científicos para verificar como o interesse pela geografia histórica é crescente, o que não quer dizer que haja um grande número de pesquisadores envolvidos. Quanto a “escolas”, elas definitivamente não existem. Não há escola de geografia histórica no Brasil e nem eu tenho pretensão de fundar qualquer uma. Apesar dos avanços, a geografia histórica brasileira ainda está engatinhando. De minha parte, apenas contribuo para que ela se afirme cada vez mais no país. Tenho a satisfação de já ter formado um Núcleo de Pesquisa de Geografia Histórica na UFRJ, que vem apresentando produção científica crescente.
Geosul - E tem também a sua participação em órgãos como a CAPES.
Prof. Maurício – A vida profissional geralmente exige que as pessoas assumam, de quando em quando, cargos de representação. Na maioria das vezes, são tarefas extremamente desgastantes, que pouco ou nada acrescentam ao seu currículo e que nem sempre são compreendidas pelos colegas, mas que precisam ser realizadas por profissionais experientes. Já fui representante da área de Geografia Humana no CNPq por duas vezes e, na Capes, fui representante da área de Geografia e da Grande Área de Ciências Humanas no último triênio de avaliação. Tenho a satisfação de dizer que minhas indicações para esses cargos de representação sempre foram produto de consulta aos meus pares, ou seja, fui eleito pelos colegas para exercer essas funções. A participação que tive na Capes exigiria outra entrevista, tantas foram as experiências que vivi ali. Só gostaria de dizer aqui que é uma função muito importante e que exige muita dedicação de quem a assume, pois as decisões ali tomadas afetam todo o corpo da pós-graduação brasileira. Enquanto fui representante de área – e mesmo antes, quando era apenas um membro da comissão presidida por Lucia Gerardi – tive a oportunidade de conhecer a fundo a pós-graduação brasileira de geografia. Devo dizer que fiquei surpreso ao ver quanta coisa boa se faz pelo Brasil a fora, quantos profissionais competentes e dedicados existem nas universidades brasileiras, quantos esforços são feitos para elevar a qualidade da docência e da pesquisa no país. Ao mesmo tempo, é inacreditável que os governos que sustentam os programas de pós-graduação permitam que a maioria das bibliotecas que servem a esses mesmos programas continuem a ser tão deficientes como são. Há certas bibliotecas que são um desastre em termos de qualidade do acervo, nem mesmo apropriadas para escolas de segundo grau. Mas isso é outra estória, que exigiria que enveredássemos por outros caminhos.
Geosul - A Comissão Editorial agradece a sua disposição em ceder algumas horas do seu tempo durante o encontro da ANPEGE para a realização desta entrevista. Muitíssimo obrigado.

Professor Titular de Geografia – UFRJ. Entrevista realizada por ocasião do Encontro da ANPEGE, em Fortaleza, em 29/09/05 e que teve a participação dos professores Luiz Fernando Scheibe, Ewerton Vieira Machado, Sandra M. de A. Furtado e Maria Dolores Buss. Texto revisado e autorizado pelo entrevistado (abreu@acd.ufrj.br).
Geosul, Florianópolis, v. 21, n. 41, p 193-225, jan./jun. 2006