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25 de mai. de 2014

O espaço e seus elementos: questões de método

Fica a dica e sugestão: Espaço e método do professor Milton Santos. 


O ESPAÇO E SEUS ELEMENTOS: QUESTÕES DE MÉTODO
por Milton Santos. Do livro: Espaço e Método.
Introdução 

O espaço deve ser considerado como uma totalidade, a exemplo da própria sociedade que lhe dá vida. Todavia, considerá-lo assim é uma regra de método cuja prática exige que se encontre paralelamente através da análise, a possibilidade de dividi-lo em partes. Ora, a análise é uma forma de fragmentação do todo que se caracteriza pela possibilidade de permitir, ao seu término, a reconstituição desse todo. Quanto ao espaço, sua divisão em partes deve poder ser operada segundo uma variedade de critérios. A que vamos aqui privilegiar e tentar, através do que chamamos "os elementos do espaço" é apenas uma dessas diversas possibilidades.

1 - O que é um elemento do espaço 

Antes mesmo de tentar definir o que é um elemento do espaço, valeria a pena, talvez, discutir a própria noção de elemento. Segundo os teóricos, os elementos seriam a "base de toda dedução"; "princípios óbvios, luminosamente óbvios, admitidas por todos os homens"' (Bertrand Russel). Essa definição equivale o elemento a uma categoria, a expressão categoria sendo tomada no sentido de verdade eterna, presente em todos os tempos, em todos os lugares, e da qual se parte para a compreensão das coisas num dado momento, desde que se tenha o cuidado de levar em conta as mudanças histéricas. No caso dos elementos, essa posição, segundo Russel, teria sido aceita através da Idade Wdia e, mesmo, depois, como no caso de Descartes. Leibniz, considera que a sua propriedade essencial é força e não extensão. Os elementos disporiam, então, de inércia, pela qual eles podem permanecer nos seus próprios lugares, enquanto, ao mesmo tempo, existem forças que buscam deslocá-los ou penetrar neles. Desse modo, sendo espaciais (pela fato de disporem de extensão) eles também são dotados de uma estrutura interna pela qual participam da vida do todo de que são parte e que lhes atribui um comportamento diferente (para cada qual), como reação ao próprio jogo das forças que os atingem. A definição do elemento iria, pois, além da sugestão de Harvey (1 969) sendo algo mais que "a unidade básica de um sistema em termos primitivos que, de um ponto de vista matemático, não necessita definição", da mesma forma que a concepção do ponto na Geometria. 

2 - Os Elementos do Espaço: Enumeração e Funções
Os elementos do espaço seriam os seguintes: os homens, as firmas, as instituições, o chamado meio ecológico e as infra-estruturas. Os homens são elementos do espaço na qualidade de fornecedores de trabalho ou de candidatos a isso, seja na qualidade de jovens, seja como desempregados. A verdade é que tanto os jovens, quanto os ocasionalmente sem emprego ou os já aposentados, não participam diretamente da produção, mas o simples fato de estarem presentes no lugar tem como conseqüência a demanda de um certo tipo de trabalho para outros. Esses diversos tipos de trabalho e de demanda são a base de uma classificação do elemento homem na caracterização de um dado espaço. A demanda de cada indivíduo como membro da sociedade total é respondida em parte pelas firmas e em parte pelas instituições. A firmas têm como função essencial a produção de bens, serviços e idéias. As instituições por seu turno produzem normas, ordens e legitimações. O meio ecológico é o conjunto de complexos territoriais que constituem a base física do trabalho humano. As infra-estruturas são o trabalho materializado e geografizado na forma de casas, plantações, caminhos, etc. 

3 - Os elementos do espaço, sua redutibilidade
A simples enumeração das funções que cabem a cada um dos elementos do espaço mostra que eles são, de certa forma, intercambiáveis e redutíveis uns aos outros. Essa intercambialidade e redutibilidade aumenta, na verdade, com o desenvolvimento histórico, é um resultado da complexidade crescente em todos os níveis da vida. Desse modo, os homens também podem ser tomados como firmas (o vendedor da força de trabalho) ou como instituições (no caso do cidadão, por exemplo), da mesma maneira que as instituições aparecem como firmas e estas como instituições. Este último é o caso das transnacionais ou das grandes corporações que não apenas se impõem regras internas de funcionamento, como intervêm na criação de normas sociais a um nível de amplitude maior que o da sua ação direta e até se tornam concorrentes das instituições e, mesmo, do Estado. A fixação do preço das mercadorias pelos monopólios dá-lhes uma atribuição que é própria às entidades de direito público, na medida em que interferem na economia de cada cidadão e de cada família, e mesmo de outras firmas, competindo com o Estado na arrecadação da poupança. É certo, porém, que, no momento atual, as funções das firmas e das instituições de alguma forma se entrelaçam e confundem, na medida em que as firmas também produzem direta ou indiretamente normas, e as instituições são, como o Estado, produtores de bens e de serviços. Ao mesmo tempo que os elementos do espaço se tornam mais intercambiáveis, as relações entre eles se tornam também mais íntimas e muito mais extensas. Dessa maneira, a noção de espaço como uma totalidade impõe de maneira mais evidente, porque mais presente; e pelo fato de resultar mais intrincada, torna-se mais exigente de análise. 

4. Os elementos do espaço, as interações
O estudo das interações entre os diversos elementos do espaço é um dado fundamental da análise. Na medida em que função é ação, a interação supõe interdependência funcional entre os elementos. Através do estudo das interações, recuperamos a totalidade social, isto é, o espaço como um todo, e, igualmente, a sociedade como um todo. Pois cada ação não constitui um dado independente, mas um resultado do próprio processo social. Falando do que antigamente se chamava região urbana, o geógrafo Haggett disse que em Geografia Humana a região nodal sugere um conjunto de objetos (cidades, aldeias, fazendas, etc.) relacionados através de movimentos circulatórios (dinheiro, mercadorias, migrantes, etc.) e a energia que lhes vem através das necessidades biológicas e sociais da comunidade. Ora, essas necessidades são todas satisfeitas através do ato de produzir. É dessa forma que se definem as formas de produzir e paralelamente as de consumir, as normas respectivas à divisão da sociedade em classes e a rede de relações que a preside. É também assim que se definem os investimentos a serem feitos. Tais investimentos, cuja tendência é dar-se, cada vez mais, em forma de capital fixo, modificam o meio ecológico através de sistemas de engenharia que se superpondo uns aos outros, total ou parcialmente, vão modificando o próprio meio ecológico, adaptado às condições emergentes da produção. Dessa forma, se opera uma evolução concomitante do homem e o que se poderia chamar de "natureza," através da intermediação das instituições e das firmas. Caberia, aliás, aqui, perguntar se é válida a distinção que de início fizemos entre o meio ecológico e as infra-estruturas como elementos do espaço. Na medida em que as infra-estruturas se somam e colam ao meio ecológico e se tornam na verdade uma parte inseparável dele, não seria uma violência considerá-los como elementos distintos? Ademais, a cada momento da evolução da sociedade o homem encontra um meio de trabalho já constituído sobre o qual ele opera e a distinção entre o que se chamaria de natural e não natural se torna artificial, como Ruy Moreira (1980) recentemente indicou. A expressão meio ecológico não tem a mesma significação dada à natureza selvagem ou natureza cósmica, como às vezes se tende a admitir. O meio ecológico já é meio modificado e cada vez mais é meio técnico. Dessa forma, o que em realidade se dá é um acréscimo ao meio de novas obras dos homens, a criação de um novo meio a partir daquele que já existia: o que se costuma chamar de "natureza primeira" para contrapor à "natureza segunda" já é natureza Segunda. A natureza primeira, como sinônimo de natureza natural, só existiu até o momento imediatamente anterior àquele em que o homem se transformou em homem social, através da produção social. A partir desse momento, tudo o que consideramos como natureza primeira já foi transformado. Esse processo de transformação, contínuo e progressivo, constitui uma mudança qualitativa fundamental nos dias atuais. E na medida em que o trabalho humano tem como base a ciência e a técnica, tornou-se por isso mesmo a historicização da tecnologia. 

5 - Do conceito à realidade empírica
Quando dizemos que os elementos do espaço são os homens, as firmas, as instituições, o suporte ecológico, as infra-estruturas, estamos aqui considerando cada elemento como um conceito. A expressão conceito é geralmente traduzida como significando uma abstração, extraída da observação de fatos particulares. Mas, como cada fato particular ou cada coisa particular só tem significado a partir do conjunto em que estão incluídos, essa coisa ou esse fato é que termina sendo abstrato, enquanto o real passa a ser o conceito. Mas o conceito só é real na medida em que é atual. Isso quer dizer que as expressões homem, firma, instituição, suporte ecológico, infra-estrutura, somente podem ser entendidos à luz de sua História e do presente. Ao longo da História, toda e qualquer variável se acha em evolução constante. Por exemplo, a variável demográfica está sujeita a evoluções e mesmo revoluções. Se considerarmos a realidade demográfica sob o aspecto do crescimento natural ou sob o das migrações, a cada momento da História suas condições respectivas variam. Assim, no curso da História humana, contam-se diversas revoluções demográficas, cada qual com um significado diferente. Da mesma maneira, os tipos e formas de migrações variam, assim como os respectivos significados. Se tomamos um outro exemplo, como o da energia, a cada fase a sua utilização toma aspectos diversos desde o uso, unicamente, da energia humana, ao da energia animal, ala que se descobriram formas de domar as fontes naturais de energia. Passamos, aqui, de uma fase em que a energia utilizada é a energia mecânica ou inanimada, como no caso do motor a explosão, ao uso da energia cinética e mais recentemente da energia atômica. O mesmo raciocínio se aplica a qualquer que seja a variável. O que nos interessa é o fato de que a cada momento histórico cada elemento muda seu papel e a sua posição no sistema temporal e no sistema espacial e, a cada momento, o valor de cada qual deve ser medido na sua relação com os demais elementos e com o todo. Desse ponto de vista, podemos repetir a expressão de Kuhn (1962) quando diz que os elementos ou variáveis "são estados ou condições de coisas, mas não coisas por elas próprias". Ele acrescenta: "em sistemas que envolvem pessoas não é a pessoa que é um elemento, mas os seus estados de fome, de desejo, de companheirismo, de informação ou um outro traço de qualidade relevante para o sistema". 

6 - Os elementos como variáveis
O que foi enunciado até agora permite pensar que os elementos do espaço estão submetidos a variações quantitativas e qualitativas. Desse modo, os elementos do espaço devem ser considerados como variáveis. Isto significa, como o nome indica, que eles variam e mudam de valor segundo o movimento da História. Se esse valor lhe vem das qualidades novas que adquirem, ele também representa uma quantidade. Mas a expressão real de cada quantidade é dada como um respirado das necessidades sociais e de sua gradação em um dado momento. Por isso mesmo, a quantificação correspondente a cada elemento não pode ser feita de forma apriorística, isto é, antes de captarmos o seu valor qualitativo. Neste caso, como, aliás, em qualquer outro, a posteriori. Isso é tanto mais verdadeiro porque cada elemento do espaço tem um valor diferente, segundo o lugar em que se encontra. A especificidade do lugar pode ser entendida também como uma valorização específica (ligada ao lugar) de cada variável. Por exemplo, duas fábricas montadas ao mesmo tempo por uma mesma firma, dotadas das mesmas qualidades técnicas, mas localizadas em lugares diferentes, atribuem aos seus proprietários resultados diferentes. Do ponto de vista puramente material, esses resultados podem ser os mesmos, por exemplo, uma certa quantidade produzida. Mas o custo dos fatores de produção, como a mão-de-obra, ou a água, ou a energia, pode variar, assim como a possibilidade de distribuir os bens produzidos pode não ser a mesma, etc. Por outro lado, ainda que as duas firmas, proprietárias das duas fábricas em questão, disponham do mesmo poder econômico e político, sua localização diversa constitui um dado que leva à diferenciação dos resultados. O mesmo se dá, por exemplo, com os indivíduos. Homens que tiveram a mesma formação e que têm as mesmas virtualidades mas estão situados em lugares diferentes, não tem a mesm condição como produtores, como consumidores e até mesmo como cidadãos. Dessa forma, cada lugar atribui a cada elemento constituinte do espaço um valor particular. Em um mesmo lugar, cada elemento está sempre variando de valor, porque, de uma forma ou de outra, cada elemento do espaço - homens, firmas, instituições, meio - entra em relação com os demais; e essas relações são em grande parte ditadas pelas condições do lugar. Sua evolução conjunta num lugar ganha, destarte, características próprias, ainda que subordinadas ao movimento todo, isto é, do conjunto dos lugares. Aliás, essa especificidade do lugar, que se acentua com a evolução própria das variáveis localizadas, é que permite falar de um espaço concreto. Desse modo, se cada elemento do espaço guarda o mesmo nome, seu conteúdo e sua significação estão sempre mudando. Cabe, então, falar de perecibilidade da significação de uma variável, e isso constitui uma regra de método fundamental. O valor da variável não é função dela própria mas do seu papel no interior de um conjunto. Quando este muda de significação, de conteúdo, de regras ou leis, também muda o valor de cada variável. A questão não é, pois, de levar em conta causalidades, mas contextos. A causalidade poria em jogo as relações entre elementos, ainda que essas relações fossem multilaterais. O contexto leva em conta o movimento todo. Em outras palavras, se nós estudamos ao mesmo tempo diversas relações bilaterais, como, por exemplo, entre homens e natureza; ou entre firmas e homens (capital e trabalho); ou entre firmas e Estado (poder econômico e poder político); ou entre o Estado e os cidadãos; estaremos fazendo uma análise multivariável e considerando, ao mesmo tempo, que cada variável tem um valor por si mesma; isso, porém, de fato, não se dá. Somente através do movimento do conjunto, isto é, do todo, ou do contexto, é que podemos corretamente valorizar cada parte e analisá-la, para, em seguida, reconhecer concretamente esse todo. Essa tarefa supõe um esforço de classificação. 

7 - Um esforço de classificação é necessário
Quando nos referimos a homens, estamos englobando nessa expressão o que poderia se chamar de população ou fração de uma população. Sabemos, porém, que uma população é formada de pessoas que se podem classificar segundo sua idade, sua raça, seu nível de instrução, seu nível de salário, etc. As características da população permitem o seu conhecimento mais sistemático e o mesmo se dá com as firmas, que podem ser individuais ou coletivas, estas últimas podendo ser sociedades anônimas ou sociedades limitadas ou ainda cooperativas, corporações nacionais ou firmas internacionais. E assim por diante. Ora, cada uma dessas parcelas ou frações de um determinado elemento formadores do espaço exerce uma função diferente e também mantém relações específicas com outras frações dos demais elementos. Por exemplo, numa sociedade avançada, as crianças e os velhos mereceriam a proteção do Estado, enquanto os adultos seriam chamados a trabalhar como um direito e um dever. Assim, as relações de cada tipo de homem com o Estado não são as mesmas. As relações de cada tipo de firma com o Estado também não são idênticas. Da mesma forma, em cada momento histórico os valores atribuídos a uma profissão ou a uma faixa de idade, a um nível de instrução, uma raça, não são os mesmos. Se considerássemos a população como um todo, as firmas como um todo, a nossa analise não levaria em conta as múltiplas possibilidades de interação. Ao contrário, quanto mais sistemática for a classificação, tanto mais claras aparecerão as relações sociais e, em conseqüência, as chamadas relações espaciais. 

8 - O exame das variáveis sob o ângulo das técnicas e da organização: a questão do "lugar.'
Em cada época os elementos ou variáveis tão portadores (ou são conduzidos) por uma tecnologia específica e uma certa combinação de componentes do capital e do trabalho. As técnicas são também variáveis, porque elas mudam através do tempo. Só aparentemente elas formam a um contínuo. Se, nominalmente, suas funções são as mesmas, a sua eficiência, todavia, não é a mesma. Em decorrência das técnicas utilizadas e dos diversos componentes de capital mobilizados, pode-se falar de uma idade dos elementos ou de uma idade das variáveis. Desse modo, cada variável teria uma idade diferente. O seu grau de modernidade só pode ser aferido dentro do sistema como um todo, seja do sistema local, em certos casos, seja do sistema nacional, e ainda, para outros, do sistema internacional. Um primeiro dado a levar em conta é que a evolução técnica e a do capital não se fazem paralelamente para todas as variáveis. Também, ela não se faz igualmente nos diversos lugares, cada lugar sendo uma combinação de variáveis de idades diferentes: cada lugar é marcado por uma combinação técnica diferente e por uma combinação diferente dos componentes do capital, o que atribui a cada qual uma estrutura técnica própria, específica, e uma estrutura de capital própria, específica, as quais corresponde uma estrutura própria, específica do trabalho. Como resultado, cada lugar é uma combinação de diferentes modos de produção particulares ou modos de produção concretos. Em cada lugar, as variáveis A, B e C... não têm a mesma posição no aparente contínuo, porque elas são marcadas por qualidades diversas. Isso resulta do fato de que cada lugar é uma combinação de técnicas qualitativamente diferentes, individualmente dotadas de um tempo específico - daí as diferenças entre lugares. Por isso mesmo a Geografia pode sr considerada uma verdadeira filosofia das técnicas. Dizer que a partir das técnicas e seu uso o geógrafo deve filosofar não equivale, porém, a dizer que tudo depende da tecnologia, nem da realidade nem na sua explicação. A presença de combinações particulares de capital e de trabalho são uma forma de distribuição da sociedade global no espaço, que atribui a cada unidade técnica um valor particular em cada lugar, conforme já vimos anteriormente. Lembremo-nos, igualmente, de que as variáveis ou elementos estão ligados entre si por uma organização. Tal organização é, às vezes, puramente local, mas pode funcionar em diferentes escalas, segundo os seus diversos elementos ou suas frações. A organização se definiria como o conjunto de normas que regem as relações de cada variável com as demais, dentro e fora de uma área. Em sua qualidade de normas, isto é, de regulamento, indiferente pois ao movimento espontâneo, sua duração efetiva não é a mesma que a da sua potencialidade funcional. A organização existe, exatamente, para prolongar a vigência de uma dada função, de maneira a lhe atribuir uma continuidade e regularidade que sejam favoráveis aos detentores do controle da organização. Isso se dá através de diversos instrumentos de efeito compensatório que, em face da evolução própria dos conjuntos locais de variáveis, exercem um papel de regulador, de forma a privilegiar um certo número de agentes sociais. A organização, por conseguinte, tem um papel de estruturação compulsória, que contraria as tendências do dinamismo próprio. Se a organização seguisse imediatamente a evolução propriamente estrutural, ela seria uma espécie de cimento moldável desfazendo-se ao impacto de uma variável nova ou importante, para se refazer cada vez que uma nova combinação se completasse. Na medida em que a organização se toma uma norma imposta ao funcionamento das variáveis, esse cimento se torna rígido.
É na medida em que a economia se complica que as relações entre variáveis se dão, não apenas localmente, mas em escalas espaciais cada vez mais amplas. O mais pequeno lugar, na mais distante fração do território, tem, hoje, relações diretas ou indiretas com outros lugares de onde lhe vêm matéria-prima, capital, mão-de-obra, recursos diversos e ordens. Desse modo, o papel regulador das funções locais tende a escapar, parcialmente ou no todo, menos ou mais, ao que ainda se poderia chamar de sociedade local, para cair nas mãos de centros de decisão longínquos e estranhos às finalidades próprias da sociedade local. 

9 - O espaço como um sistema de sistemas ou como um sistema de estruturas 
 Quando analisamos um dado espaço, se nós cogitamos apenas dos seus elementos, da natureza desses elementos ou das possíveis classes desses elementos, não ultrapassamos o domínio da abstração. É somente a relação que existe entre as coisas que nos permite realmente conhecê-las e defini-las. Fatos isolados são abstrações e o que lhes dá concretude é a relação que mantêm entre si. Kosik (1967, pg. 61) escreveu que "a interdependência e a mediação da parte e do todo significam, ao mesmo tempo, que os fatos isolados são abstrações, elementos artificialmente separados do conjunto e que unicamente por sua participação no conjunto correspondente adquirem veracidade e concretude. Da mesma forma, o conjunto no qual os elementos não são diferenciados e determinados é um conjunto abstrato e vazio".
Os diversos elementos do espaço estão em relação uns com os outros: homens e firmas, homens e instituições, firma e instituições, homens e infra-estrutura, etc. Mas, como já observamos, não são relações apenas bilaterais, uma a uma, mas relações generalizadas. Por isso se pode dizer que eles formam um verdadeiro sistema, também pelo fato de que essas relações não são entre as coisas em si ou por si próprias, mas entre as suas qualidades e os seus atributos. Tal sistema é comandado pelo modo de produção dominante nas suas manifestações na escala do espaço em questão. Isso coloca de imediato o problema histórico. Pode-se também falar na existência de subsistemas, formados exatamente pelos elementos dos modos de produção particulares. O sistema é comandado por regras próprias ao modo de produção dominante em sua adaptação ao meio local. Estaremos, então, diante de um sistema menor ou correspondente a subespaço e de um sistema maior que o abrange, correspondente ao espaço. Cada sistema funciona em relação ao sistema maior como um elemento, enquanto ele próprio é, em si mesmo, um sistema. Caso o subsistema a que referimos seja desdobrado em subsistemas, a mesma relação se repete, cada um dos subsistemas aparecendo como um elemento seu, ao mesmo tempo em que é também um sistema, se se consideram as suas próprias subdivisões possíveis. E cada sistema ou subsistema é formado de variáveis que, todas, dispõem de força própria na estruturação do espaço, mas cuja ação é de fato combinada com a ação das demais variáveis. As relações entre os elementos ou variáveis são de duas naturezas: relações simples e relações globais. Também se pode dizer, como Harvey (1964, pag. 455), que elas são: seriais, paralelas e em "feed-back". As relações seriais são sobretudo relações de causa e efeito, na medida em que um elemento é causa de uma modificação no outro e assim sucessivamente, até que ele próprio, o primeiro, seja também afetado. O que se cria é uma verdadeira série de ações. Mas, há também o caso de ações resultantes da ação de um elemento, por exemplo: aq afeta uma relação pré-existente aj-aj. Nesse caso se fala de relação paralela. Há um outro tipo de relações estudadas mais recentemente pela cibernética, isto é, a relação ai-ai na qual o movimento e as modificações de cada elemento (ou de cada variável ou sistema) se dão a partir de sua própria estrutura interna. Nos dois primeiros casos as ações são externas e no terceiro as mudanças se dão pela simples existência da variável: existir é mudar. No primeiro caso citado, ainda segundo Harvey, trata-se de uma relação simples, isto é, uma relação de causa e efeito, enquanto que as relações paralelas e de feed-back seriam relações globais. A verdade é que seja qual for a forma de ação entre as variáveis ou dentro delas, não se pode perder de vista o conjunto, o contexto. As ações entre as diversas variáveis estão subordinadas ao todo e aos seus movimentos. Se uma variável atua sobre uma outra, sobre um conjunto delas, ou, ainda, conhece uma evolução interna, ocorrem pelo menos dois resultados práticos, que são igualmente elementos constitutivos do método. Em primeiro lugar, quando uma variável muda o seu movimento, isso remete imediatamente ao todo, modificando-o, fazendo-o outro, ainda que, sempre e sempre, ele constitua uma totalidade. Sai-se de uma totalidade para chegar a outra, que, também, se modificará. É por isso que a partir desse impacto "individual" ou de urna série de impactos "individuais", o todo termina por agir sobre o conjunto dos elementos formados, modificando-os, Isso nos permite dizer que na verdade não há relação direta entre elementos dentro do sistema, exceto sob um ponto de vista puramente mecânico ou material. O valor real, isto é, o significado dessa relação é somente dado pelo todo. As relações entre as partes são mediadas pelo todo, como também as relações entre os elementos do espaço.
Desse modo, a noção de causa e efeito que permite uma simplificação das relações entre elementos é insuficiente para compreender e valorizar o movimento real. Assim, pode-se dizer que cada variável dispõe de duas modalidades de "valor": um que vem das suas características próprias, caracteres técnicos e técnico-funcionais e outro que é dado pelos característicos sistêmicos, isto é, pelo fato de que cada elemento ou variável pode ser encarado sob o ponto de vista sistêmico. Esses característicos são, em geral, comandados pelo modo de produção e em particular pelas condições próprias à atividade correspondente ao lugar. Ambas as condições são definidas para cada formação econômico-social, segundo os seus lugares geográficos e os seus momentos históricos. 

10 - Elementos e estruturas
Buscamos até agora uma definição do espaço como sendo um sistema. Todavia, esse modelo de espaço como sistema vem sendo rudemente criticado pelo fato de que a definição tradicional de sistema se tomou inadequada.
Na verdade, se os elementos do espaço são também sistemas (tanto quanto o espaço) eles são também verdadeiras estruturas. Nesse caso, o espaço é um sistema complexo, um sistema de estruturas, submetido, em sua evolução, à evolução das suas próprias estruturas.
Talvez não seja demais insistir no fato de que cada estrutura evolui quando o espaço total evolui e que a evolução de cada estrutura em particular afeta a da totalidade. Uma estrutura, segundo François Perroux se define por uma "rede de relações, uma série de proporções entre fluxos e estoques de unidades elementares e de combinações objetivamente significativas dessas unidades" (1969, pág. 371). Isso põe em evidência a noção de desigualdade de volume ou de desigualdade de força funcional de cada elemento. Em outras palavras, uma diferença na capacidade de criar estoques e de criar fluxos. Tais desigualdades no interior da estrutura, sem mesmo obrigatoriamente supor as noções de hierarquia e de dominação, criam condições dialéticas como um princípio de mudança. O espaço está em evolução permanente. Tal evolução resulta da ação de fatores externos e de fatores internos. Uma nova estrada, a chegada de novos capitais ou a imposição de novas regras (preço, moeda, impostos, etc.) levam a mudanças espaciais, do mesmo modo que a evolução "normal" das próprias estruturas, isto é, sua evolução interna conduz igualmente a uma evolução. Num caso como no outro o movimento de mudança se deve a modificações nos modos de produção concretos. As estruturas do espaço são formadas de elementos homólogos e de elementos não homólogos. Entre as primeiras estão as estruturas demográficas, econômicas, financeiras, isto é, estruturas da mesma classe e que, de um ponto de vista analítico, podem-se considerar como estruturas simples. As estruturas não homólogas, isto é, formadas de diferentes classes, interagem para formar estruturas complexas. A estrutura espacial é algo assim, uma combinação localizada de uma estrutura demográfica específica, de uma estrutura de produção específica, de uma estrutura de renda específica, de uma estrutura de consumo específica, de uma estrutura de classes específica e de um arranjo específico de técnicas produtivas e organizativas por aquelas estruturas e que definem as relações entre os recursos presentes. A realidade social, tanto quanto ao espaço, resultam da interação entre todas essas estruturas. Pode-se dizer também que as estruturas de elementos homólogos mantêm entre elas laços hierárquicos enquanto as estruturas de elementos heterogêneos mantêm laços relacionais. A totalidade social é formada da união desses dados contraditórios, da mesma maneira que o espaço total. As estruturas e os sistemas espaciais, da mesma forma que as demais estruturas e sistemas, evoluem segundo três princípios: 1 - O princípio da ação externa, responsável pela evolução exógena do sistema; 2 - O intercâmbio entre subsistemas (ou subestruturas) que permite falar de uma evolução interna do todo, uma evolução endógena, e; 3 - Uma evolução particular a cada parte ou elemento do sistema tomados isoladamente, evolução que é igualmente interna e endógena. Haveria, assim, um tipo de evolução por ação externa e dois outros por ação interna ao sistema, sendo que o último deles dever-se-ia ao movimento íntimo, próprio de cada parte do sistema. Todavia, não se deve perder de vista o fato de que a ação externa somente se exerce através dos dados internos. Nesse caso, ao mudarem as características próprias a cada elemento, o seu intercâmbio ou a sua forma de recepção ou reação a esforços externos já não é mais a mesma. A ação externa ou endógena é apenas um detonador, um vetor que traz para dentro do sistema um novo impulso, mas que por si só não tem as condições para valorizar esse impulso. O mesmo impulso externo tem uma repercussão diferente segundo o sistema em que se encaixou. Por exemplo, uma certa quantidade de crédito atribuído a uma atividade econômica em todo um país não vai ter as mesmas repercussões em todos os lugares; o aumento ou a diminuição do preço unitário de um bem também não repercute da mesma maneira em toda parte. O mesmo se pode dizer da abertura de uma estrada ou de sua promoção. As diferenças de resultado aqui sugeridas são dadas pelas condições locais próprias, que agem como um modificador do impacto externo. Nesse sentido podemos repetir a opinião de Godelier (1967, pag. 254-255) para quem "todo sistema e toda estrutura devem descrever-se como realidades "mistas" e contraditórias de objetos e de relações que não podem existir separadamente, isto é, de tal modo que sua contradição não exclua a sua unidade". Essa forma de ver o sistema ou a estrutura espacial a partir da qual os elementos são considerados como estruturas, leva também a admitir que cada lugar não é mais do que uma fração do espaço total. Vimos, poucas linhas acima, que o vetor externo só ganha um valor específico como conseqüência das condições do seu impacto, mas também sabemos que o chamado movimento interno das estruturas ou as relações entre elas não são independentes de leis mais gerais. É por essa razão que cada lugar constitui na verdade uma fração do espaço total, pois só esse espaço total é objeto da totalidade das relações exercidas dentro de uma sociedade, em um dado momento. Cada lugar é objeto de apenas algumas dessas relações "atuais" de uma dada sociedade e, através dos seus movimentos próprios, apenas participa de uma fração do movimento social total.
O movimento que estamos tentando explicitar nos leva a admitir que o espaço total, que escapa à nossa apreensão empírica e vem ao nosso espírito sobretudo como conceito, é que constitui o real, enquanto as frações do espaço que nos aparecem tanto mais concretas quanto menores, é que constituem o abstrato na medida em que seu valor sistêmico não está na coisa tal como a vemos, mas no seu valor relativo dentro de um sistema mais amplo. Quando nos referimos, por exemplo, àquela casa ou àquele edifício, àquele loteamento, àquele bairro, são todos dados concretos, - concretos por sua existência mas, na verdade, todos são abstrações, se não buscarmos compreender o seu valor atual em função das condições atuais da sociedade. Casa, edifício, loteamento, bairro, estão sempre mudando de valor relativo dentro da área onde se situam, mudança que não é homogênea para todos e cuja explicação se encontra fora de cada um desses objetos e só pode ser encontrada na totalidade de relações que comandam uma área bem mais vasta. Assim também é com os homens, as firmas, as instituições. A noção de estrutura aplicada ao estudo do espaço tem essa outra vantagem através da noção de sistema, analisamos os elementos, seus predicados e as relações entre tais elementos e tais predicados. Quando a preocupação é com as estruturas, sabemos que se essa noção de predicado é aliada a cada elemento (aqui subestrutura) sabemos antes que sua real definição depende sempre de uma estrutura mais ampla, na qual aquela se insere. 

11 - Uma observação final necessária: as questões práticas
Um esquema de método, por mais logicamente bem construído que seja, encontrará dificuldades em sua, realização. Um esquema de método pretende ser, também, uma hipótese de trabalho, aplicável: 1 - por uma equipe de pesquisadores; 2 - a uma realidade concreta; 3 - realidade que é reconhecível, a um dado momento, através de um certo número de fenômenos e dados que os representam. Cada um desse dados constitui uma limitação prática: a complexidade ou dinamismo da realidade a se analisar; o número e a representatividade dos dados disponíveis; a constituição da equipe de trabalho e sua formação anterior, profissional e teórica, sua disponibilidade na aceitação do tema e do esquema propostos. Tudo isso, além de outros fatores reconhecidos universalmente por quem já se envolveu ativamente em pesquisa. Quanto à formação da equipe de trabalho e à correspondente distribuição das tarefas, a divisão de trabalho assume uma feição crítica, na medida em que somente será válida - permitindo alcançar plenamente os objetivos buscados - caso o todo, assim dividido para efeitos práticos da análise, seja, depois, reconstituível, de modo a permitir uma definição aceitável da realidade e o reconhecimento dos seus processos fundamentais. É evidente que o resultado depende, igualmente, da prévia compenetração do grupo de trabalho, tarefa ativa cujo requerimento de base é a compreensão dos objetos de estudo e dos objetivos deste. É a partir dessa premissa que as tarefas individuais podem ser entendidas. Se o caminho escolhido for o contrário, a síntese não se fará jamais, seja qual for o tempo dedicado à pesquisa de dados e ao reconhecimento de fatos. Tal compenetração deve partir, também, da idéia de que o objeto de análise é o Presente, toda análise histórica sendo apenas o indispensável suporte à compreensão de sua produção. Nesse caso, é importante levar em conta que não se trata de efetuar uma prospecção arqueo16gica que seja, em si mesma, uma finalidade. Trata-se de um meio. Isso hão nos desobriga de buscar uma compreensão global e em profundidade, mas o tema de referência não é uma volta ao passado como dado autônomo na pesquisa, mas como maneira de entender e definir o Presente em vias de se fazer (o Presente já completado pertence ao domínio do Passado), permitindo surpreender o Processo e, por seu intermédio, ensejando a apreensão das tendências, que podem permitir vislumbrar o futuro possível e as suas linhas de força.

13 de abr. de 2011

Milton Santos: Há mesmo um espaço virtual?

Echer

Diante desta pergunta, a primeira reação de um geógrafo será responder que “se é espaço, não pode ser virtual”. Entretanto, como essa expressão hoje se tornou um lugar comum, vale a pena retomá-la e propor uma discussão, ainda que breve.

O vocábulo ‘espaço’ é polissêmico, utilizado na linguagem familiar e popular, assim como na de especialistas de diversas áreas do saber. Fala-se, desembaraçadamente, de espaço sideral para significar o conjunto de sistemas de astros, tanto quanto de espaço social (as relações que caracterizam a vida coletiva e o seu suporte) e de espaço econômico (a trama das relações que permitem ou resultam da respectiva atividade). Da mesma maneira, os psicólogos e psicanalistas freqüentemente se utilizam da expressão para significar os condicionamentos, materiais ou não, da atividade do espírito. Mesmo entre aqueles que se consideram os autênticos especialistas do espaço — tomado aqui como sinônimo de território e suas divisões — tais como os geógrafos, arquitetos, urbanistas e planejadores, a palavra, ainda que única, é representativa de realidades diversas. E os próprios geógrafos distinguem, dentre outros, um espaço físico, dado pela natureza; um espaço humano, marcado pelas culturas; um espaço de fluxos, formado pelos pontos criados pela produção e seu movimento; um espaço banal, que seria o mais verdadeiro e completo, por abranger todos os outros e conter, sem exceção, todo tipo de atores.

Enfim, a atitude é diversa, se quem se exprime apenas utiliza da palavra para designar uma realidade ou um seu atributo, ou se deve, também, enfrentar a difícil tarefa de analisar sua constituição. Para este, consciente do acerto de sua definição ou da precisão do vocabulário adotado, o que dizem as demais disciplinas constitui uma diversão, talvez um ato de lesa majestade, no mínimo uma metáfora. Esta, como se sabe, freqüentemente provém de outras esferas do fazer ou do saber. Nesse particular, a geografia é talvez a maior tomadora e a maior provedora, porque no Planeta cabem todos os objetos e relações que definem as diversas áreas de estudo.

Como o papel da metáfora não é bem o de definir analiticamente uma coisa ou uma relação, ela pode ser tomada apenas como uma acepção ou uma espécie de reforço da expressão que se quer atingir; e o seu uso forte se esgota no próprio domínio do estilo e da produção de imagens. Não sendo um conceito, a metáfora, tomada isoladamente, está longe de fornecer um guia de entendimento e, por não permitir um verdadeiro esforço analítico, sua aplicação também não faz sistema. Pode ser grave erro e fonte de confusão admitir num determinado campo definições já atribuídas em um outro com diferente intencionalidade. O século XX multiplicou os usos da palavra espaço e o mundo da globaliz ação com o qual convivemos também se caracteriza pela profusão das metáforas. Isso se deve, em primeiro lugar, ao fato de ser ele próprio marcado pelo reino da imagem, fenômeno que também se relaciona com a necessidade prática da economia e da política de chamar a atenção para uma coisa ou relação através apenas de um seu aspecto ou parte e não da totalidade da coisa. 

O objetivo é prender o observador, mesmo que superficialmente, acorrentando-o aos desígnios do  propagandista. Daí o papel dos imaginários na produção do mercado, quando o que se mostra, com luxo de exposição, para atrair clientes, é apenas um pedaço, às vezes, uma extremidade do todo. A “verdade” dessa ponta é utilizada para atribuir veracidade também ao resto.

Mas nem sempre há esse tipo de intenção no uso das metáforas e acreditamos ser esse o caso do uso indiscriminado da palavra espaço. Por isso, da mesma maneira que se fala em inteligência artificial, que seria a inteligência das máquinas, também se pode falar em espaço virtual. No primeiro caso, trata-se do  congelamento na máquina de um processo intelectual anterior. Não é esse o conteúdo e a definição de soft, isto é, do programa? Na verdade, o chamado “pensamento” da máquina já é uma repetição, já que é limitado por tal programação.  

Quanto ao espaço virtual, devemos nos lembrar de que a realidade do espaço supõe trabalho, por isso ele não é apenas material ou físico e está sempre ganhando novas definições substantivas com as mudanças históricas. Aliás, o espaço supõe um trabalho que é sempre multidimensional. O espaço virtual em si mesmo não é trabalho, mas pode ser uma sua condição. O espaço virtual apenas permite comunicar o resultado de um trabalho real, multidimensional. Condição imutável do trabalho, portanto unidimensional, apenas autoriza o trabalho, mas não o constitui. Sem dúvida, ele se apóia no espaço real, genuíno, de nossa definição como geógrafo, mas ele próprio não é espaço. Levando a discussão a um extremo, e como os adjetivos não sobrevivem sem os substantivos que modificam, nem mesmo é virtual. Mas não queremos ser extremistas. Não há como recusar a utilização de um vocábulo já antigo para exprimir uma nova situação. Mas é sempre prudente distinguir conceito de metáfora.

O uso da metáfora, da imagem, não pode ser vetado. Será bom, todavia, no mundo que é movido por tantos
enganos e percepções fragmentadas, que isto seja claramente entendido. 

Uma coisa é a importância dessas formas de ser da informação, tão úteis à construção cotidiana da história, cuja aceleração autoriza, como é o caso do espaço virtual. Outra coisa são suas denominações.

Fonte: SANTOS, Milton. Há mesmo um espaço virtual? Disponível na internet in http://www.hypertexto.com.br/publyhpertextopor/. Elaborado em 21/2/2000 e acessado em 10/2/2001.

1 de ago. de 2010

O espaço geográfico como categoria filosófica

O espaço geográfico como categoria filosófica

Milton Santos


Desde que se escreveram as primeiras filosofias, a noção de espaço e a noção de tempo constituíram uma preocupação dominante. Não foi Aristóteles quem escreveu que "aquilo que não está em nenhuma parte não existe?" Bem mais próximo de nós, Ernst Cassirer (1957, vol. 3, p. 150) considera que "não há uma só criação do espírito humano que não esteja, de alguma forma, relacionada com o mundo do espaço e que não busque, de alguma maneira, sentir-se à vontade dentro dele. Tentar conhecer este mundo e dar o primeiro passo no sentido da objetivação, através da apreensão e da determinação do ser".

Os primeiros geógrafos, isto é, aqueles que se ocupavam do espaço geográfico, antes de a geografia ser inventada como ciência, eram igualmente filósofos, tal como Estrabão, para quem, aliás, "a utilidade da geografia pressupõe que o geógrafo seja também um filósofo, o homem que se preocupa com a investigação da arte da vida, isto é, com a felicidade". Segundo Hegel (Enciclopédia, 246) "o que hoje se chama Física chamava-se antigamente Filosofia da Natureza". E Bertrand Russel no seu ABC da Relatividade (1974, p. 209) lembra que a geografia fora incluída como uma parte da física. Para o filósofo inglês, "pode-se dizer, falando de uma forma geral, que a física tradicional se divide em duas partes: verdades evidentes c geografia".

Desde, porém, que a natureza é uma natureza humanizada, a explicação não é física, mas social. A geografia deixa de ser urna parte da física, uma filosofia da natureza, para ser uma filosofia das técnicas. As técnicas são aqui consideradas como o conjunto dc meios de toda espécie dc que o homem dispõe, cm um dado momento, c dentro dc uma organização social, econômica e política, para modificar a natureza, seja a natureza virgem, seja a natureza já alterada pelas gerações anteriores.

Cada coisa é um modo de produção e os modos dc produção se realizam por intermédio das técnicas, cujo número é grande: técnicas produtivas, técnicas sociais, técnicas políticas, etc. Mas, nenhuma sociedade utiliza técnicas que sejam exclusivamente originárias de um só momento histórico. Não vemos, a cada dia, em nossas ruas, o transporte dc mercadorias no lombo dc burros ou utilizando caminhões do último modelo? Não utilizamos meninos de recado paralelamente ao telex? Não se fabricam ainda hoje - e felizmente - de forma artesanal, alimentos que datam dos princípios dc nossa história como povo, c ao mesmo tempo nos utilizamos dc enlatados cujo preparo e cujo gosto são semelhantes aos dos países mais avançados neste assunto?

As técnicas devem ser estudadas na sua coabitação em um lugar, mas também na sua sucessão. Aqui, uma vez mais, as noções de espaço e de tempo se conjugam. Isto é fundamental para podermos interpretar a seqüência das relações entre o homem e a natureza, as formas de sucessão das forças produtivas e das relações de produção ligadas à história de uma determinada área: esse método é o único que nos permite definir corretamente uma sociedade e um espaço.

Uma leitura "geográfica" dc certas obras filosóficas (não apenas marxistas) seria rica de ensinamentos: por exemplo, certos textos de Cassirer, mas também d'Arcy-Thompson, Jakubowsky, Lukáes, Kuber etc. Damos um lugar a parte a Lefébvre. Para ajudar-nos na formulação teórica e epistemológica do espaço humano, a quase tudo o que ele escreveu recentemente com referencia explícita ao espaço, preferimos sua
Critique de la Vie Quotidienne, escrita há quase trinta anos. Este trabalho, de resto, aproxima-se do estudo de Sartre sobre a Crítica da Razão Dialética ou mesmo sobre O Ser e o Nada. É difícil dizer (e aliás desnecessário) qual dos dois poderá contribuir mais de perto para a elaboração de uma filosofia e uma epistemologia do espaço humano. Não se trata, de fato, de esperar que os filósofos profissionais digam o que é preciso fazer em filosofia da geografia. Como Sartre nos lembra, é chegado o tempo cm que cada disciplina constrói sua própria filosofia. Esta será talvez menos uma filosofia espontânea dos sábios, na concepção de Althusser, do que uma epistemologia-filosofia, segundo Piaget.

Mas a geografia deve ser pensada de dentro, isto e, a partir do espaço. Por isso, a aplicação de conceitos filosóficos exteriores ao fato que se quer pensar não pode ajudar-nos. Um exemplo dessa utilização de conceitos buscados no discurso filosófico, mas cuja aplicação ao real deixa a desejar, é dado por Amadeo e Golledge (1975) no capítulo consagrado aos objetivos da pesquisa geográfica. O correto e partir da própria realidade e não buscar legitimar conceitos empírico-abstratos, cujo uso, aliás, e já antigo em geografia, trazendo-lhes a ajuda de conceitos filosóficos claramente expressos pelos seus autores, mas criados para situações diferentes c enunciados em um contexto diverso. A teoria geográfica tem de ser buscada nó seu domínio próprio: o espaço. A filosofia pode ser um guia, mas os filósofos não nos oferecem respostas a priori, como aqueles dois autores erroneamente pensaram.

A falta de "prática" das disciplinas particulares é, tal como Foucault escreveu no número inaugural de Hérodote, um obstáculo a que os filósofos "generalistas" possam verdadeiramente guiar os geógrafos em suas análises do espaço. E talvez a principal dificuldade quando se lêem trechos de Bachelard ou mesmo de Lefebvre (exemplo: A Produção do Espaço, 1975). Não se pode pedir ao filósofo para escrever em um jargão de geógrafo. Mas Lefebvre fez sugestões bem explícitas: ver por exemplo em seu livro Le Temps des Méprises (1975) sua proposição de um espaço-análise.

Sem dúvida a palavra filosofia assusta, de um lado porque ela é, numa acepção pejorativa, freqüentemente confundida com a metafísica: entre os que se dizem preocupar com o concreto das coisas, muitos imaginam que o esforço dc abstração pode ser feito fora do concreto e mesmo contra o concreto. E a concretude da abstração está na base mesma da realização dos nossos mínimos atos como ser social. Sem abstraçãonão poderia haver linguagem nem produção. Quando falamos nas coisas mais triviais, não estamos adjetivando as infinitas modalidades, mas nos referimos ao gênero. Não fora assim e seríamos incapazes de comunicar o nosso pensamento ao vizinho.

A filosofia, assim considerada, nem e mesmo, na verdade, um privilégio dos filósofos (profissionais), porque assim como A. Gramsci nos recorda, ela é, também, elaborada pelo povo. "li preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil por ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de especialistas ou de filósofos profissionais e sistemáticos. Por conseguinte é preciso começar demonstrando que todos os homens são filósofos, defendendo os limites dessa filosofia espontânea, própria de lodo mundo, ou seja, a filosofia contida: a) na própria linguagem que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não só arrumação de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; b) no senso comum e no bom senso; c) na religião popular e, conseqüentemente, em todo o sistema de crenças, de superstições, de opiniões, de modos de ver e de atuar, que se incluem no que, em geral, se chama de folclore" (A. Gramsci, 1972, p. 11). A filosofia que nos devia preocupar é aquela autoconsciência da época histórica, à qual se referiu Th. Oizerman (1973, ch. 6).

O espaço resultado da produção, e cuja evolução é conseqüência das transformações do processo produtivo em seus aspectos materiais ou imateriais, é a expressão mais liberal e também mais extensa dessa praxis humana, sem cuja ajuda a existência não pode ser entendida. Assim, o pensamento espacial não se pode fazer fora da busca de uma compreensão do fato tal qual se dá, mas uma busca que vai além da apresentação e nos permite chegar à representação.

Elementos para a construção de uma filosofia da geografia

Uma filosofia da geografia deve-se alimentar, em primeiro lugar, da noção de totalidade. Paul Vidal de La Blache, e Frederic Ratzel, vulgarizaram a noção de unidade terrestre, que Carl Ritter antes deles havia estabelecido. Trata-se, de fato, da noção filosófica de natureza como o conjunto de todas as coisas, conjunto coerente, onde ordem e desordem se confundem nesse processo de totalização permanente pelo qual uma totalidade evolui para tornar-se outra. O princípio da totalidade é básico para a elaboração de uma filosofia do espaço do homem. Ele envolve a noção de tempo e isso nos permite reconhecer a unidade de movimento, responsável pela heterogeneidade com que as coisas se apresentam diante de nós.

Desse modo, abarcamos a idéia de continuidade e descontinuidade e a idéia de unidade e multiplicidade. Assim abraçamos também a noção de passagem do presente ao futuro. O espaço humano, aliás, revela claramente, e ao mesmo tempo, o passado, o presente e o futuro. Passado e presente nele se dão as mãos, através de um funcionamento sincrônico que elimina a pseudocontradição entre história e estrutura. O futuro, para que se possa realizar, aproveita as condições preexistentes. Quanto à noção de escala, ela se impõe porque a Natureza não se apresenta, jamais, dc forma homogênea c deixa perceber suas frações: território nacional, região, lugar. Sem a noção de escala e sua base epistemológica que tanto deve à idéia dc tempo, não saberíamos o que fazer diante do todo social espacializado e que nos chega todavia em forma fraccionada, como sub-espaços.

Desse modo, suscitamos o problema da subdivisão da totalidade em suas partes e temos dc encontrar os instrumentos de trabalho adequados, para dar conta da parte sem desintegrar a totalidade. As noções de estrutura, processo, função e forma, essas velhas categorias filosóficas e velhas categorias analíticas devem ser retrabalhadas para que, neste particular, possam prestar novos serviços à compreensão do espaço humano e à constituição adequada de sua respectiva ciência. Ademais, esses instrumentos nos permitem tomar como ponto de partida o concreto das coisas, sem nos deixar todavia ofuscar pelos nossos sentidos. Da forma à estrutura e desta, de novo, à forma, temos o caminho que conduz a uma fenomenologia do espaço e à sua construção teórica. A forma nos apresenta a coisa, o objeto geográfico; sua função atual nos leva ao processo que lhe deu origem; e este, o processo, nos conduz à totalidade social, a estrutura social que desencadeou e dá ao objeto uma vida social.

Desse modo, exorcisamos o grave risco do empiricismo, sem, todavia, deixar de partir do empírico. Chegamos, assim, à abstração sem partir de nossa razão individual, mas do concreto das coisas realmente existentes. E nesse caminhar sem fim, do lugar ao conjunto dos lugares, e da natureza como um todo a cada uma de suas frações, seguimos o curso do tempo e podemos, desse modo, interpretar, em seu justo valor atual, cada pedaço do espaço. Ficando só com a coisa, o objeto geográfico, em sua aparência imediata, damos somente conta de processos passados que exigiram aquela forma. Esta, porém, subsistiu para acolher novos processos e funções, emanações de uma sociedade ativa e em movimento, da qual advêm a significação e o valor atual de cada objeto isolado.

Do visível ao invisível

Não é aceitável, aliás, fazer como Grano (1929, p. 38) para quem, apesar da unidade dos fenômenos de ordem material e de ordem imaterial em um pedaço qualquer do espaço, a geografia pára no domínio do estritamente material, cabendo à sociologia encarregar-se das determinações sociais, culturais e políticas.

Não podemos nos contentar com representações concretas, diz J.W.Watson (in G. Taylor, 1951, p. 468-469), quando escreve que "o fator humano e alguma coisa a mais que as obras do homem. Inclui as ideologias tanto quanto as tecnologias, pois, freqüentemente a força não-material que é o dado verdadeiramente significativo na geografia de uma região, aquilo que lhe dá um caráter particular e a distingue de outras.

Mesmo que a paisagem não ofereça evidências concretas, seu interprete deverá, entretanto, saber o que faz dela algo de específico". Tambem H. Bobck e J. Schimitusen escreviam, em 1949, que a geografia não se limita à descrição e à determinação do visível. Esses autores não estão sozinhos. "Se o objetivo do geógrafo é a explicação da paisagem", diz H.C. Darby (1953), "está claro que ele não pode confiar somente no que vê. A cena visível não nos pode oferecer a soma total dos fatores que a afetam". E Pierre George, mais recentemente (1974, p. 9), sustenta o mesmo ponto de vista quando diz que "hoje, o invisível, muito mais que o visível, questiona a estabilidade das construções dos séculos passados".


Levando em conta cada pedaço do espaço em particular, muitos fatores de sua evolução não são perceptíveis imediatamente, nem diretamente. O papel de explicação cabe, freqüentemente, ao que não é imediatamente sensível, ou seja, aos fatores "invisíveis". As formas modernas de acumulação do capital, as relações sociais cada vez mais complexas e mundializadas e tantas outras realidades que não se podem perceber sem um esforço de abstração, tudo isso exige do pesquisador a necessidade dc buscar decifrar, e para isso encontrar instrumentos novos de análise para aplicá-los a uma realidade que, à primeira vista, e de fato, encobre uma parte considerável de suas determinações.

É evidente que tais determinações não poderão ser analisadas a partir de relações de causa e efeito, onde aparecem apenas os laços de imediatidade. Assim, tudo que não é contíguo, nem consecutivo, escapa à definição do universo bem mais vasto de acontecimentos que criam uma situação. Somente o contexto, quer dizer, a teia unitária, que é mais do que a síntesetotal das variáveis, pode fornecer os elementos de explicação que se buscam.

Ora, o contexto e sempre mutável. Por isso, a cada dia se inventam novas formas de analisar o passado e o presente. Cada explicação é sempre a crítica da explicação precedente. Como para os demais aspectos da totalidade, uma teoria do espaço que deseje ser válida deve levar em conta que a realidade se renova cotidianamente. Conseqüentemente, devemos nos apresentar com novas interpretações para fenômenos que aparentemente são os mesmos.

Ser e existência, sociedade e espaço

A evolução do espaço se faz pela inscrição da sociedade renovada na paisagem pre-existente. Ela se submete à "escravidão" das circunstâncias precedentes, assim como John Stuart Mill (A. Gerschenkron, 1952, p. 3) dissera em relação à História. O espaço não é um pano de fundo impassível e neutro. Assim, este não e apenas um reflexo da sociedade nem um lato social apenas, mas um condicionante condicionado, tal como as demais estruturas sociais. O espaço e uma estrutura social dotada de um dinamismo próprio e revestida de uma certa autonomia, na medida em que sua evolução se faz segundo leis que lhe são próprias. Existe uma dialética entre forma e conteúdo, que é responsável pela própria evolução do espaço.

Para Windelband (in Lukaes, 1960, p. 153), o ser é definido como "independência do conteúdo em relação à forma". Pode-se, todavia, falar de um conteúdo que seja independente da forma? Mas, cada forma não apenas contém uma fração do ser. Essa fração é, também, um conjunto particular de determinações (do ser). E é pela forma, isto é, pelo seu casamento com ela, que o ser se objetiva e se torna existência.

Para que o ser pudesse existir como um conteúdo independente da forma, seria necessário que ele fosse indiferente à totalidade das formas existentes. Se isso fosse possível, o ser seria uma unidade indivisível.

Para que ele se torne a unidade da diversidade, da qual já falava Heráclito e à qual, mais próximo de nós, Antônio Labriola e Emilio Sereni se referiram, o ser deve se metamorfosear em existência, mediante os processos impostos pelas suas próprias determinações e que, transformando a potência em ato, fazem que cada forma apareça como um indivíduo separado.

Uma fenomenologia do espaço?

Cabe aqui citar Kant, na Crítica da Razão Pura, quando se referindo à existência, afirmou: ".. . a totalidade e a pluralidade considerada como unidade". Esta "unidade" vem, nada mais, do fato dc que uma essência nova, ou renovada, tem vocação a tornar-se ato. Tal conteúdo - a essência - pode ser comparado a uma sociedade em marcha, em evolução, em movimento, isto é, no seu presente, ainda não encarnado todavia.

O conteúdo corporificado, já transformado em existência, é a sociedade já distribuída dentro das formas geográficas, a sociedade que se tornou espaço. A fenomenologia do espírito de Hegel seria assim a transmutação da sociedade total em espaço total. Este é um movimento permanente e por intermédio deste processo infinito é que a sociedade e espaço evoluem.

O espaço deve ser considerado como um conjunto indissociável do qual participam, de um lado, um certo arranjo de objetos geográficos, objetos naturais e objetos sociais e, de outro lado, a vida que os anima ou aquilo que lhes dá vida. Isto é a sociedade em movimento.

A sociedade em movimento pode, a um dado momento, dar-se como se fosse estática; as formas aparecem, então, como o continente dc uma parcela da sociedade, o instrumento de distribuição da sociedade no espaço. Por isso, o valor se distribui diferentemente no espaço e cada lugar tem um valor diferente. Mas, como a sociedade não é estática - mas sim dinâmica - a cada movimento da sociedade corresponde uma mudança de conteúdo das formas geográficas c uma mudança na distribuição do valor no espaço. Em resumo: as estruturas espaciais são, ao mesmo tempo, um estado - o que é provisório - e são o objeto de um movimento que modifica seu conteúdo - o que é permanente.

O movimento do espaço isto é, sua transformação, constitui, na realidade, uma modalidade de transformação de uma multiplicidade, quer dizer, da sociedade global, objeto real mas abstrato, em objetos concretos, fruto de sua própria determinação. De fato, as determinações não se podem fazer independentemente dos objetos sociais pré-existentes, aos quais se devem adaptar cada vez que elas - as determinações sociais - não podem criar novas formas nem renovar formas antigas.

A sociedade total, isto é, a formação social é, ao mesmo tempo o real-abstrato, essência ainda sem forma, e o real-concreto, a forma povoada por uma essência. A sociedade, pois, existe em uma situação de movimento perpetuo, que é o próprio movimento da História. Da mesma maneira, as formas-conteúdo, cuja totalidade constitui o espaço humano, influenciam a evolução social.

O movimento de ambas é contraditório e esta dialética os enriquece mutuamente.

A essência da sociedade se revivifica ela própria por esta contradição, sem a qual estaria desprovida de movimento dialético e revivifica, também, os objetos geográficos, através da renovação que lhes traz com as mutações de sua importância.

Assim, a cada nova evolução da totalidade social corresponde uma modificação paralela do espaço e de sua organização, e sua apreensão não exige que o geógrafo disponha de um conhecimento enciclopédico, como queria Estrabão, mas que se arme de um sistema de referência, a partir de um esforço filosófico fundado na compreensão unitária do mundo.

A idéia de uma metageografia, tal como W. Bunge (1962) sugeriu. E James Anderson (1973) chama a nossa atenção para os perigos dc uma ciência espacial elaborada sem uma filosofia adequada. Trata-se de descobrir o que está por detrás da aparência, isto é, a estrutura profunda das coisas, a partir de "um esforço sistemático e crítico tendente a captar a própria coisa, a sua estrutura oculta, e descobrir a forma de ser do que existe". (Karel Kosik, 1967, p. 30).e em um lugar determinados. O conhecimento do espaço, portanto, não poderá constituir-se sem uma base filosófica.

C. Ritter (1974, p. 65), um dos precursores da geografia teórica, já o reconhecia e o aconselhava, como forma de evitar uma interpretação parcial dos fatos.

As preocupações filosóficas se impõem também ao pensamento geográfico se considerarmos a ciência como uma área particular do saber precipuamente interessada pelo homem e pelo seu futuro, se, como cientistas e como cidadãos, desejamos contribuir para a implantação de uma ordem social mais justa que restaure as relações harmoniosas entre o homem e a Natureza

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Fonte: SANTOS, Milton. O espaço geográfico como categoria filosófica.In: O espaço em questão. São Paulo, Marco Zero/AGB(Associação dos. Geógrafos Brasileiros), 1988.

25 de abr. de 2010

Textos curtos: O papel ativo da Geografia. Um manifesto

O PAPEL ATIVO DA GEOGRAFIA: UM MANIFESTO
Estudos Territorais Brasileiros
(Adriana Bernardes, Adriano Zerbini, Cilene Gomes, Edison Bicudo, Eliza Almeida, Fabio Betioli Contel, Flávia Grimm, Gustavo Nobre, Lídia Antongiovanni, Maíra Bueno Pinheiro, Marcos Xavier, María Laura Silveira, Marina Montenegro, Marisa Ferreira da Rocha, Milton Santos, Mónica Arroyo, Paula Borin, Soraia Ramos, Vanir de Lima Belo).


Palabras clave: geografía/ objetivos de la geografía/ espacio banal/ territorio usado
Key-words: geography/ objectives of the geography/ banal space/ used territory

1
O papel atribuido à geografia e a possibilidade de uma intervenção válida dos geógrafos no processo de transformação da sociedade são interdependentes e decorrem da maneira como conceituamos a disciplina e seu objeto.
Se tal conceitaução não é abrangente de todas as formas de relação da sociedade com seu meio, as intervenções serão apenas parciais ou funcionais, e sua eficácia será limitada no tempo.
É verdade que, na linguagem comum e no entendimento de outros especialistas, assim como de políticos e administradores, a geografia é frequentemente considerada como a disciplina que se preocupa com localizações. Aliás, um bom número de geógrafos trabalha com essa visão.
A geografia considerada como disciplina das localizações, posição aceita durante largo tempo, mostra-se todavia limitante do rol de relações que se dão entre o homem e o meio e, por essa razão, revela-se insuficiente.
Mas esse não é o único enfoque simplificador e deformador.
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Foi por isso que propusemos considerar o espaço geográfico não como sinônimo de território, mas como território usado: e este é tanto o resultado do processo histórico quanto a base material e social das novas ações humanas. Tal ponto de vista permite uma consideração abrangente da totalidade das causas e dos efeitos do processo socioterritoral.
 
Essa discussão deve estar centrada sobre o objeto da disciplina - o espaço geográfico, o território usado - se nosso intuito for construir, a um só tempo uma teoria social e propostas de intervenção que sejam totalizadoras Entre os geógrafos, incluindo aqueles convidados para trabalhar com toda sorte de questões voltadas ao planeamento, o problema do espaço geográfico como ente dinamizador da sociedade é raramente levado em consideração. Ora, se as bases do edifício epistemológico são frouxas, as práticas políticas almejadas serão, no mínimo, enviesadas. A compreensão do espaço geográfico como sinônimo de espaço banal obriga-nos a levar em conta todos os elementos e a perceber a inter-relação entre os fenômenos. Uma perspectiva do território usado conduz à idéia de espaço banal, o espaço de todos, todo o espaço. Trata-se do espaço de todos os homens, não importa suas diferenças; o espaço de todas as instituições, não importa a sua força; o espaço de todas as empresas, não importa o seu poder. Esse é o espaço de todas as dimensões do acontecer, de todas as determinações da totalidade social. É uma visão que incorpora o movimernto do todo, permitindo enfrentar corretamente a tarefa de análise. Com as noções de território usado e de espaço banal, saltam aos olhos os temas que o real nos impõe como objeto de pesquisa e de intervenção. Mas tal constatação não é suficiente. É indispensável afinar os conceitos que tornem operacional o nosso enfoque. A riqueza da geografia como província do saber reside, justamente no fato de que podemos pensar, a um só tempo os objetos (a materaalidade) e as ações (a sociedade) e os mútuos condicionamentos entretecidos com o movimento da história. As demais ciências humanas não dominam esse rico veio epistemológico.
O território usado constitui-se como um todo complexo onde se tece uma trama de relações complementares e conflitantes. Daí o vigor do conceito, convidando a pensar processualmente as relações estabelecidas entre o lugar, a formação sociocespacial e o mundo.

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Cada vez que, em lugar de considerar o movimento comum da sociedade como um todo e do território como um todo, partimos de um dos seus aspectos, acabamos encontrando lineamentos que apenas são aplicáveis a uma determinada área de atuação - uma instância da vida social -, sem todavia autorizar uma intervenção realmente eficaz para o conjunto da sociedade. Em outras palavras, tais soluções são ocasionais, mas não duradouras, remédios parciais, mas não globais.
Qualquer proposta de análise e interpretação que pretenda inspirar ou guiar uma intervenção endereçada ao conjunto da sociedade não pode prescindir, então, de uma visão desse todo. Incapazes de gerar mudanças que englobem a totalidade do território e da sociedade, as intervencões parciais atendem a interesses particulares ou apresentam resultados efêmeros e inoperantes. Uma posição parcial da geografia frente ao seu objeto encontra abrigo nas fragmentações e dicotomias presentes em seu próprio seio, o que a torna teoricamente frágil. Conhecimentos operatórios e parcelares podem tornar-se entraves ao desenvolvimento da disciplina e de seu papel como ramo do conhecimento, particularmente quando parecem tomar o lugar da geografia ou justificar autonomamentesua existência.

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Por vezes é a própria formação do geógrafo que se torna um convite à fragmentação do conhecimento e do trabalho.
Quando se toma apenas urna parte do corpus da disciplina e assim mesmo o trabalho se torna exitoso, há nas pessoas um reforço à crença numa disciplina parcializada. É comum a opinião de que propor intervenções é possível àqueles enfoques fundados em visões parciais, ainda que essas intervenções amiúde sejam funcionais à política das grandes empresas. Será esse o êxito que buscamos?
No ensino da geografia é menos freqüente do que seria desejável a consideração da totalidade do conhecimento geográfico. A geografia é quase sempre apresentada ao estudante, desde o primeiro momento, de forma segmentada dificultando a apreensão de uma abordagem essencialmente geográfica e comprometendo a formação do profissional e o futuro da própria disciplina. Como resultado, muitas vezes o geógrafo especializa-se em um ramo operacional voltado ao restrito mercado de trabalho. Acreditamos poder escapar à "parcialização" da disciplina (e, destarte, das intervenções a partir dela), com a busca firme e continuada de uma ontologia do espaço geográfico. Esta busca pode ser entendida como a construção de um conjunto de proposições epistemológicas que, formando um sistema lógico coerente, e sendo fundada nos avançosmetodológicos já conseguidos pela disciplina no século XX, aprimoraria o que se pode chamar de "núcleo duro" da geografia, desembocando, necessariamente numa visão geográfica totalizadora.
Conseguiríamos, desse modo, um rechaço à "indolência epistemológica" (situação que, aliás, não é só brasileira) na produção do conhecimento geográfico.

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O espaço é freqüentemente considerado como espaço político, espaço econômico, espaço antropológico, espaço turístico. E esse é um grande problema para a disciplina.
Fragmentada, a geografia não oferece uma explicação do mundo e portanto passa a precisar cada vez mais, de adjetivos que expliquem a sua finalidade. Ela perde substância e corre sérios riscos de não ser mais necessária nos curriculos escolares. Tal fragmentação é decorrente, de um lado, da crescente impossibilidade, socialmente gestada, de percebermos que todos os elementos agem conjuntamente (e separações podem ser feitas apenas para fins analíticos). Soma-se a isto a consagração da fragmentação no ensino em todos os planos (nas aulas, nos livros, nas grades curriculares). A situação é agravada, ainda, quando no ensino superior - público e privado - adota-se uma especialização cujo fim é atender a umacerta política e ao mercado.

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Tanto o mercado como a política às vezes inspiram soluções desse tipo. Não será o caso de certas propostas fundadas por exemplo nas geografias do turismo, do meio ambiente, da cultura, dos SIG's, ou de sugestões ditas de planejamento regional mas que, na verdade, beneficiam uma ou poucas atividades em um dado momento?
Não é demais assimilar estas proposições a uma fragmentação da disciplina geográfica em outras tantas geografias, que desejam, na prática, impor-se como autônomas, quando seu papel auxiliar apenas as qualifica como ramos operacionais de uma geografia mais complexa e unitária. Esta parece mais possível de alcançar através de uma perspectiva do território usado, uma vez que estamos levando em conta todos os atores.
Buscando atender às exigências na formação de profissionais para o mercado de trabalho, cursos de graduação têm privilegiado a especialização do saber em detrimento do conhecimento abrangente, afastando o profissional do cidadão. Por outro lado, políticas restritivas de financiamento provocam um distanciamento entre as várias áreas do saber, privilegiando-se àquelas que possibilitam investigações aplicadas, consideradas da maior relevância econômica ou política. Nesse contexto muitos geógrafos procuraram adaptar-se às novas exigências por meio de saídas particularistas no ensino e na pesquisa, enfatizando aspectos da realidade social como se fossem a totatidade do fenômeno geográfico. Em nome de uma modernização utilitária e produtivista, certos cursos de geografia correm o risco de jogar fora principios que deveriam balizar e singularizar esta área do saber.
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Na evolução do pensamento geográfico, a vontade de totalização e a formulação dos respectivos enfoques têm sido presentes, ainda que contrariadas sempre por uma tendência à segmentação.
Vejamos um exemplo. Na época de Vidal de la Blache, a possibilidade de totalização às vezes concretizada com a ajuda da política de um Estado necessitado de um conhecimento geográfico, não sofria as investidas do mercado tal como as conhecemos hoje. Desse modo opunha-se um dique à fragmentação do saber geográfico e das suas propostas de ação.
Enfoques totalizadores tendem a buscar uma correspondência à unidade do mundo real. Todavia, no caso particular da geografia, essa idéia de unidade da Terra é contraposta por aqueles que se apoiam em realidades parcais para fundamentar argumentações também parcais ou redutoras. Assim, a geografia foi se firmando ao longo de sua história à base desse confronto entre duas vocações bem distintas. No plano do conhecimento ou das propostas de ação, a verdade teria sido tomada por diversas formas de engano. E hoje? Quando a própria globalização é vista como um resultado da vontade de integrar mercados segundo um discurso único, ela não permite o reencontro de enfoques mais abrangentes.

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O problema central é como utilizar os conhecimentos sistematizados por uma disciplina no delineamento de soluções práticas e caminhos frente aos problemas concretos da sociedade. Dependendo das filiações teórico-ideológicas dos autores, isso parece ter sido possível a especialistas da ciência política, da economia etc., cuja tarefa ultrapassa, sem maiores dificuldades, o limite da simples interpretação dos fenômenos para sugerir mudanças, isto é, para se eregir como uma política.
Quando o esquema interpretativo da sociedade próprio à nossa província do saber dá conta da realidade concreta em sua totalidade ele pode ser o fundamento da construção de um discurso novo para a ação política dos atores sociais responsáveis por sua prática, tais como partidos políticos, movimentos sociais, instituições etc. Um discurso socialmente eficaz pode ser o conteúdo, a base de intervenções "sistêmicas" na sociedade, em diferentes níveis do exercício da política, entre os quais, o mais abrangente seria a contribuição para a elaboração de um projeto nacional, comprometido com a transformação da sociedade em benefício da maioria da população do país. A idéia de intervenção supõe um interesse político, entendido como interpretação histórica mais ampla, que implica um ideal de futuro como espaço de resolução de problemas supostamente arraigados nas sociedades.

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Não se trata de impor uma definição única. O conteúdo de uma geografia compreensiva pode certamente responder a uma entre várias lihnas teóricas, segundo a escolha do autor. Mas, a partir daí, é indispensável dispor de um conjunto coerente de proposições, onde todos os elementos em jogo sejam considerados em sua integração e em seu dinamismo.
A geografia deve estar atenta para analisar a realidade social total a partir de sua dinâmica territorial, sendo esta proposta um ponto de partida para a disciplina, possível a partir da um sistema de conceitos que permita compreender indissociavelmente objetos e ações. O território usado, visto como uma totalidade, é um campo prvilegiado para a análise na medida em que, de um lado, nos revela a estrutura global da sociedade e, de outro lado, a própria complexidade do seu uso.
Para os atores hegemônicos o território usado é um recurso, garantia da realização de seus interesses particulares. Desse modo, o rebatimento de suas ações conduz a uma constante adaptação de seu uso, com adição de uma matenalidade funcional ao exercício das atividades exógenas ao lugar, aprofundando a divisão social e territorial do trabalho, mediante a seletividade dos investimentos econômicos que gera um uso corporativo do território. Por outro lado, as situações resultantes nos possibilitam a cada momento, entender que se faz mister considerar o comportamento de todos os homens, instituições, capitais e firmas. Os distintos atores não possuem o mesmo poder de comando levando a uma multiplicidade de ações fruto do convívio dos atores hegemônicos com os hegemonizados. Dessa combinação temos o arranjo singular dos lugares.
Os atores hegemonizados têm o território como um abrigo, buscando constantemente se adaptar ao meio geográfico local, ao mesmo tempo que recriam estratégias que garantam sua sobrevivência nos lugares. É neste jogo dialético que podemos recuperar a totalidade.

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Somente assim responderemos à questão crucial de saber como e porquê se dão as relações entre a sociedade como ator e o território como agido e, ao contrário, entre o território como ator e a sociedade como objeto da ação. É essa, ao nosso ver, a maneira de encontrar um enfoque totalizador, que autorize uma intervenção interessando à maior parte da população.
 



1. Apresentado pelo grupo Estudos Territorais Brasileiros, do Laboplan (Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial e Ambiental) do Departamento de Geografia - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP) no XI Encontro Nacional de Geógrafos. Florianópolis, Brasil, Julho de 2000.

Fonte: http://www.ub.es/geocrit/b3w-270.htm

24 de abr. de 2010

Textos curtos: Nova onda de violência e devastação no campo brasileiro vista a partir da Geografia

Nova onda de violência e devastação no campo brasileiro vista a partir da Geografia

Carlos Walter Porto-Gonçalves

A concentração da propriedade da terra se constitui num dos pilares da concentração de poder não só no Brasil como em toda a América Latina. Desde o início da invasão dos territórios dos povos originários pelos europeus que o domínio e controle da terra e de suas riquezas minerais se configuraram como o principal objetivo dos invasores. Para isso, os invasores conformaram um conjunto de justificativas que teve na idéia de raça (Aníbal Quijano) um elemento central para legitimar esse controle dos recursos e da riqueza por parte dos fidalgos, ou seja, dos fi´d´alguém, já que os filhos de ninguém, isto é, os povos originários e os negros não eram considerados humanos. 

Assim, a estrutura assimétrica das relações sociais e de poder tem no controle dos recursos e da riqueza e nessa distinção/discriminação social com base na raça a base da constituição da formação das classes sociais no Brasil e na América Latina. Por isso a questão fundiária associada à questão étnico-racial se constitui num dos temas mais explosivos de nossa formação social. Até recentemente essas questões se mantiveram dissociadas no debate político em parte graças à eficácia da ideologia da mestiçagem e da democracia racial e, em parte, pela ideologia da vanguarda da classe operária que obscurecia outras formas possíveis de classificação social. Todavia, nos últimos anos esse quadro vem se modificando com a emergência de movimentos sociais que trazem para o debate político o elemento étnico-racial constitutivo das nossas relações sociais e de poder desde sempre. Estamos, pois, diante da negação da negação da condição de humanidade por parte dos negros e dos povos originários que, assim, se apresentam afirmando ter direito a instituir direitos. 

Desde o início do período colonial que se conformou no Brasil e na América Latina duas geografias antagônicas: (1) uma geografia marcada por assimétricas relações sociais e de poder étnico-racializadas, (1.1) seja por meio do cativeiro dos homens (escravidão) e (1.2) à violência contra as mulheres (haja vista o fato de a maioria dos colonos que vieram para o Brasil não ter vindo para cá com suas esposas e, assim, violar as mulheres indígenas e as negras eram práticas comuns), (1.3) seja por meio do cativeiro da terra (latifúndio) que destina os nossos melhores recursos, tanto técnicos (dos engenhos dos séculos XVI e XVII, aliás, as mais modernas manufaturas que então o mundo conhecia, aos atuais tratores-computadores com seus plantios diretos de monoculturas transgênicas), (1.4) como naturais (os melhores solos, nossas energias e águas, nossas matas queimadas para fazer ferro-gusa limpo para o primeiro mundo e a contaminação e a devastação a isso associado que fica para nós) para a exportação e; (2) uma geografia da liberdade que se conformou por meio de  quilombos, nos refúgios dos indígenas e no apossamento de terras pelos camponeses (“homens livres”), onde a diversidade dos cultivos e o aproveitamento do potencial que a natureza com sua produtividade primária (fotossíntese) oferece, conformaram modos de vida e de produção marcados por uma riquíssima culinária e uma medicina criativa e eficaz cujos conhecimentos são, hoje, objeto de intensa luta por apropriação (etnobiopirataria) e que é responsável por grande parte do nosso alimento de cada dia.

A julgar pelos dados recém divulgados pela Comissão Pastoral da Terra, em seu Caderno de Conflitos 2007, essas duas geografias parecem atualizar a contraditória história de nossa formação territorial. De 2006 para 2007 houve um espraiamento dos assassinatos no campo brasileiro [Mapa 1]: de oito estados com registro de assassinatos em 2006 passou-se para quatorze, ainda que tenha havido um decréscimo no número total de assassinatos no país, de 39 para 28, fruto da expressiva queda dos assassinatos no estado do Pará que de 24, em 2006, passou a 5, em 2007. De dez estados com registro de famílias expulsas em 2006 passou-se também a 14, em 2007 [Mapa 2]. O número total de famílias expulsas aumentou 140% de um ano para outro; em 15 unidades da federação houve aumento do número de pessoas envolvidas em conflitos de 2006 para 2007 [Mapa 3]; aumentou também o número de trabalhadores em situação análoga à de escravo: em 2006 foram 6.930 casos denunciados com o resgate de 3.633 trabalhadores em 16 estados; em 2007 foram 8.653 casos com o resgate de 5.974 em 18 unidades da federação. Esses últimos dados são ainda confirmados em matéria publicada pela Folha de São Paulo, em 17 de fevereiro de 2008 (FSP, Caderno B: 04), que informa que os grupos móveis do Ministério do Trabalho resgataram em propriedades do setor sucro-alcooleiro 3.117 pessoas submetidas à condição análoga à de escravo, o que correspondia a 53% do total de casos registrados no país. Os demais casos foram registrados, principalmente nas atividades de carvoejamento e de pecuária. Observemos que assassinatos, expulsão de famílias e trabalho escravo são ações que revelam práticas de fazer justiça com as próprias mãos. Por outro lado, o número de famílias despejadas também aumentou na região sudeste, isto é, na região onde estão os estados de maior desenvolvimento capitalista do país, aqui indicando que além da violência com as próprias mãos do poder privado acima indicada, o poder público também vem contribuindo com suas ordens de despejo para consagrar a apropriação concentrada da terra. 

Considere-se que desde 2004 quando o n° de ocupações atingiu seu máximo (508) que esse n° vem caindo tendo passado de 384, em 2006, para 364, em 2007. O mesmo vem ocorrendo com os acampamentos que foram 284, em 2003, e baixaram para 67, em 2006, e 48, em 2007.

Quando se observa as categorias sociais evolvidas nos conflitos [Mapas 4, 5 e 6] por terra no ano de 2007 vemos que os Sem Terra correspondem a 44% do total e as Populações Tradicionais a 41%! Assim, vemos que os conflitos envolvendo trabalhadores rurais sem terra e trabalhadores com terra, mas sem reconhecimento formal da sua condição de apossamento praticamente se equivalem, já que as Populações Tradicionais implicam os Posseiros, os Remanescentes de Quilombos, os Faxinaleses, os Ribeirinhos, os Pescadores, os Seringueiros, os Castanheiros, as Mulheres Quebradeiras de Coco, os Geraizeiros. Esses dados indicam que está em curso um intenso processo de expropriação camponesa no Brasil. 

O que estaria engendrando tamanho agravamento da violência no campo brasileiro, sobretudo quando se registram também uma diminuição significativa dos acampamentos, das ocupações e demais ações dos movimentos sociais? Há, de um lado, razões de “longa duração”, como diria Fernand Braudel, haja vista que a violência com as próprias mãos por parte das nossas oligarquias moderno-coloniais, os números confirmam amplamente, sempre aumenta quando existe algum avanço no sentido da democratização da sociedade brasileira e o poder público passa a agir de modo republicano e não como soe acontecer nos períodos de normalidade patrimonialista onde impera a vontade dos “donos de poder”, conforme a precisa caracterização de Raimundo Faoro. Foi assim no período da Constituinte, nos finais dos anos oitenta, quando a sociedade brasileira via avançar um conjunto de movimentos sociais que pautavam o debate da Reforma Agrária e, com ela, buscavam conformar uma democracia substantiva democratizando o acesso à terra e demais recursos necessários à saúde, educação, meio ambiente, apoio à infância, à adolescência e à terceira idade. 

Seringueiros, atingidos por barragem, remanescentes de quilombos, mulheres quebradeiras de coco babaçu, geraizeiros, retireiros, faxinaleses, castanheiros, ribeirinhos, pescadores, e demais formações sociais camponesas começaram a constituir um novo léxico político, diversificando e complexificando o debate da reforma agrária no país. As expectativas de democratização que se fizeram com a eleição do Sr. Lula da Silva também fizeram aumentar os índices de violência no campo por parte das oligarquias preocupadas com a possibilidade que o governo avançasse na política de reforma agrária. O aumento dos assassinatos, do n° de famílias expulsas e de famílias despejadas no primeiro ano do governo do Sr. Lula da Silva foi uma clara demonstração de força por meio da violência por parte das oligarquias empresariais latifundiárias. 

O fato do governo do Sr. Lula da Silva não ter avançado no sentido de mexer na estrutura de poder do latifúndio e, ainda, apostar numa nova onda de avanço moderno-colonial não tem sido suficiente para arrefecer a violência do poder dos “grandes latifúndios empresariais monocultores de exportação”, eis o verdadeiro nome dos agronegociantes. Hoje, são enormes as oportunidades que se abrem para a exportação de commoditties, só comparáveis às oportunidades que se abriram nos séculos XVI e XVII quando também uma verdadeira revolução tecnológica se deu na produção, com os engenhos, e na circulação, com a navegação. O capitalismo de estado monopolista, sob o comando do Partido Comunista Chinês, tem demonstrado sua superioridade sobre o capitalismo monopolista de estado, sob a hegemonia neoliberal da banca de Wall Street e suas instituições globalitárias (FMI, Banco Mundial, G-7+1, OMC), ativando a demanda de matérias primas agrícolas, minerais e de energia e oferecendo oportunidades enormes, sobretudo para países que dispõem amplas reservas de terra e seus recursos, como é o caso do Brasil.

O avanço do cultivo da cana de açúcar, sobretudo nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, vem se fazendo sobre áreas de pastagens principalmente e, assim, o gado vem avançando sobre as áreas de cerrado e floresta, seja no Mato Grosso, no Tocantins, no Pará, no Maranhão, no Piauí e oeste baiano. O mesmo vem acontecendo com a ampliação da área de soja, de milho e de monocultivos de madeiras exóticas (eucalipto e pinnus eliotis). Numa espiral virtuosa de voiolência e devastação, esse avanço do gado e desses monocultivos de exportação, ao exercer pressão sobre essas áreas de cerrado e de florestas oferecem oportunidades que viabilizam os grileiros de terras, os madeireiros que se apresentam como moderno-colonizadores, as empresas de carvão que oferecem matéria prima para purificar o ferro a ser exportado por modernas e coloniais infra-estruturas de estradas de ferro e portos. Grilada a terra, retirada as madeiras nobres, queimadas as madeiras para fazer o carvão é chegada a hora dos pecuaristas e de outros agronegociantes completarem esse tragicamente dinâmico Complexo de Violência e Devastação.

São essas amplas expectativas de negócios que estão subjacentes às ações de violência que aumentam no país. Os dados dessa geografia da violência permanecem incontestados pelas entidades do bloco de poder técnico-científico-agroindustrial-financeiro-midiático diretamente ligado a essa problemática, bloco de poder esse conformado por entidades como a Associação Brasileira de Agrobusiness – ABAG, a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação – ABIA, a Associação da Indústria de Açúcar e Álcool – AIAA, a Rede Globo Comunicações e Participações, Agência Estado, entre outras, conforme se pode consultar no sítio http://www.abag.com.br/

A violência se mostra, assim, como componente estruturante das relações sociais e de poder de nossa história territorial de ontem e de hoje e, tal como ontem e hoje, sempre esteve associada ao avanço do que havia de mais moderno nos colonizando.
Fonte: http://alainet.org/active/23787〈=es