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1 de abr. de 2013

Número especial: Juventudes e cidade

EDITORIAL
Número especial da Revista de Geografia da UFJF

É com alegria que disponibilizamos o primeiro número especial da Revista de Geografia da UFJF que congrega parte dos trabalhos apresentados no I Seminário de pesquisa juventudes e cidade, ocorrido na cidade de Juiz de Fora em outubro de 2011. O evento foi uma realização do Núcleo de Pesquisa Geografia, Espaço e Ação (NuGea), do Departamento de Geociências da UFJF, do PPGEO/UFJF, do Departamento de Serviço Social do Pólo Universitário de Campos dos Goytacazes da UFF e do curso de Geografia da UNESP/Presidente Prudente e contou com o financiamento da Propesq/UFJF e da FAPEMIG.

O Seminário teve como objetivo estimular a construção coletiva de apontamentos para uma agenda de pesquisa sobre a temática Juventudes e cidades, buscando destacar a importância de se considerar a instância espacial nos estudos sobre os jovens e sobre as juventudes.

O primeiro artigo, Ser jovem na cidade: uma experiência marcada pela inserção social, de autoria de Carolina de Sá Pereira Martins, Mariana de Souza Monteiro e Mariângela Nicolau Ângelo dos Santos, é o resultado de pesquisa desenvolvido com jovens da cidade de Campos dos Goytacazes. Nele as autoras discutem o uso e apropriação do espaço urbano pelos jovens pobres da cidade a partir do entendimento da juventudes como categoria sócio histórica e do conceito de território proposto por Milton Santos.

O artigo Organização e identidade juvenil, práticas violentas e território: a necessidade de um olhar especial para o jovem, de autoria de Carolina Morais Simões de Melo trata da influência do território na organização juvenil e nas práticas violentas. Tendo como foco os adolescentes infratores de Juiz de Fora o artigo procura d desconstruir o senso comum de que o jovem é violento e se organiza em gangues estruturadas e ligadas à práticas criminosas.

O terceiro texto, de Elaine Oliveira, intitula-se Um outro mundo no mundo da escola: escolarização e vulnerabilidade social de jovens, filhos de catadoras de um lixão da região metropolitana do Rio de Janeiro. Nele, a autora apresenta os resultados de pesquisa sobre a relação entre escolarização e vulnerabilidade social nas trajetórias escolares de 09 jovens de 15 a 18 anos, a partir dos depoimentos de suas mães, catadoras do lixão de São Gonçalo.

O trabalho de Juliano Fortunato Vieira, Jovens do Projovem urbano na aproprição da espacialidade da cidade de Juiz de Fora ao utilizarem seu tempo livre. Em seu texto o autor afirma o intuito de contribuir sobre uma apreensão da apropriação do espaço urbano Juiz de Fora por jovens da classe popular. Para tanto, parte de pesquisa que aponta como em seu tempo livre os jovens pobres se apropriam dos espaços da cidade para o lazer e práticas culturais.

No artigo, Uma análise do uso do tempo livre dos jovens do bairro Santo Antônio (Juiz de Fora - MG): da ameaça social à possibilidade do encontro das diferenças, de autoria de Mariana Vilhena de Farias e Nathan Zanzoni Itaborahy, a discussão passa pela forma pela quais os jovens do bairro Santo Antonio, em Juiz de Fora, se apropriam de seu bairro durante o tempo livre. Assim, a partir da análise dos discursos dos jovens o trabalho visa afirmar “uma visão cotidiana e democrática da política que acontece no encontro dos sujeitos no espaço público”.

O texto Juventude e experimentação do tecido urbano, de autoria de Michelle Neves Capuchinho e Leticia Barros, apresenta uma breve discussão a respeito da relação da juventude com a cidade, tendo como mediação a categoria território e a ocupação do tecido urbano pelas diferentes classes sociais. Para tanto, parte da analise das falas de jovens a fim de perceber como os mesmos se apropriam do espaço da cidade. 

Nécio Turra Neto, em seu artigo Movimento hip-hop do mundo ao lugar: difusão e territorialização, nos mostra como pela conexão a uma rede de sociabilidade juvenil associada a cultura Hip Hop, os jovens da periferia de Guarapuava, ultrapassam os limites impostos dos seus territórios periféricos e incorporam-se em tramas territoriais mais amplas e complexas na cidade.

Por fim, o trabalho de Rafael Santos Silva e Clarice Cassab, Juventudes, bairro e cotidiano em Juiz de Fora, apresenta as formas pelas quais jovens de dois grupos de bairros, de perfis econômicos distintos, na cidade de Juiz de Fora, constroem as imagens e estabelecem os usos de seus locais de residência.

Os 08 artigos aqui reunidos foram selecionados por pareceristas de diferentes instituições de ensino do Brasil e apresentam um amplo panorama das diferentes temáticas possíveis no estudo sobre a espacialidade juvenil nas cidades. Muitos outros temas ainda são possíveis de serem abordados rumo a construção de uma agenda de pesquisa sobre juventudes e espaço.

Por fim, o texto da fala de abertura do evento, proferida pelo prof. Jorge Barbosa, do curso de Geografia da UFF, coroa esse número. Esperamos que ele possa ser mais um passo na direção da construção de uma rede de pesquisadores preocupados com essa temática.

Boa leitura!

Acesse a revista.

9 de set. de 2012

FOI ASSIM

Posto vídeo produzido no âmbito da disciplina Laboratório em Áreas de Intervenção do Serviço Social, ministrada pela profa. Cida Cassab, do curso de Serviço Social da UFJF.

Sua postagem pretende reforçar a possibilidade de construirmos outras formas de ver e viver os jovens.


6 de set. de 2012

EM DEFESA DOS JOVENS E DAS JUVENTUDES

EM DEFESA DOS JOVENS E DAS JUVENTUDES

Ontem, dia 05 de setembro de 2012, foi vinculada no MGTV a reportagem “Ocorrências envolvendo jovens são cada vez mais frequentes em Juiz de Fora, MG” (http://g1.globo.com/videos/minas-gerais/triangulo-mineiro/mgtv-2edicao/t/zona-da-mata-e-vertentes/v/ocorrencias-envolvendo-jovens-sao-cada-vez-mais-frequentes-em-juiz-de-fora-mg/2124992/). Cheia de preconceitos, senso comum e ódio em relação aos jovens.

A violência é atribuída única e exclusivamente ao jovem e a sua índole naturalmente violenta. Ou então se culpa a família. Diz o PM: “quando se tem uma família bem estruturada, com educação, com imposição de limites, com imposição de respeito às autoridades e a comunidade de uma forma geral, isso tende a ser evitado”. E completa sentenciando e ao mesmo tempo apontando o culpado: “Então, a questão familiar é um dos problemas maiores”. A solução? Os programas da PM que ensinam a importância de estar longe das drogas e, principalmente, o respeito às autoridades.

Posição também defendida pelo Secretário Geral da OAB que nos ensina: “concordamos que o problema vem da família, (…) mas precisamos também de uma polícia militar mais ostensiva. (…) e de uma polícia civil com mais policiamentos, para que possa investigar esses crimes, esses delitos”. E completa: “porque o problema é da família, mas é também do tráfico de drogas”.

E a repórter dá sua opinião de autoridade. “A família também é importante”. Claro, lembra o secretário da OAB: “Precisamos mexer com o pessoal da igreja católica, com os pastores, os evangélicos (…)”.

As autoridades nos apresentam os culpados: a família, o tráfico e o próprio jovem. E também nos apresentam a solução: ensinar aos jovens a rezar e o respeito à autoridade, além do policiamento ostensivo, de programas para retirarem os jovens das ruas, da punição exemplar para amedrontar os outros “menores”.

Infelizmente não posso dizer que tais falas tenham me surpreendido (embora ainda me indignem). Não é de hoje que tal discurso vem sendo reproduzido e difundido. Frequentemente são os jovens pensados como atores sem identidades, vontades, desejos e ações próprias. Nessa interpretação, são definidos pela ausência e pelo que não seriam. Sujeitos que precisam de constante vigilância, controle e tutela para que não se pervertam ou não se percam no mundo das drogas ou do crime.

Discurso que esquece sua real inserção socioeconômica. Sujeitos que experimentam um mundo cada vez mais marcado pela falta de horizontes profissionais, pelas altas taxas de desemprego, pela falta de equipamentos socioculturais, de acesso a uma educação de qualidade. Enfim, restrições materiais e simbólicas vividas cotidianamente pelos jovens pobres das cidades.

Não é possível falar dos jovens urbanos sem pensar nas suas condições de vida, suas atuais e futuras oportunidades e nos sonhos passíveis de se realizarem nessa cidade. Dividindo-se entre a necessidade de estudar e trabalhar, em querer ter lazer e não ter acesso a ele, de querer acompanhar a velocidade do mundo digital e não ter acesso a um computador, esse jovens vivem cotidianamente a cidade sem a ela pertencerem de fato.

A todas essas dificuldades se acresce uma posição cada vez mais intolerante e julgadora dos comportamentos e diferenças desses jovens, que são sistematicamente associados à ideia de violência e delinquência. São os jovens, especialmente quando pobres e negros e da periferia, os sujeitos perigosos. Sua reunião pelas ruas e seu movimento pela cidade, seja na busca de lazer ou mesmo na procura de emprego, é visto como potencialmente perigosa. A ocupação da cidade pelos jovens só é tolerada dentro dos limites da ordem imposta pelos adultos, o que significa de forma disciplinada, preferencialmente sozinhos e restrita a determinados bairros.

Sua invisibilidade manifesta à ausência de direitos corporificados por esses sujeitos. Presos em sua condição de desigualdade eles produzem e reproduzem sua condição de seres desiguais socioespacialmente.

“Analises” como as divulgadas por essa matéria desconsideram, por exemplo, que morar em um bairro periférico significa vivenciar de forma intensa as refrações da questão social geradas pelo capitalismo contemporâneo e que a dinâmica socioespacial interfere nas experiências socioculturais e nas interações que os jovens realizam com o outro.

Presos em seus bairros de origem, confinados no acesso aos bens materiais e simbólicos presentes na cidade, imersos em situações precárias de trabalho, alvo de políticas de contenção, vítimas da violência, os jovens pobres de nossas cidades tem sua existência cada vez mais presentificada.

Reportagens como essas, pretensamente informativas, apenas acirram o ódio e o preconceito sobre esses jovens, naturalizando sua condição desigual, negando ou limitando a estes jovens seu presente e seu futuro.

O desafio está em reconhece-los como sujeitos cujo movimento descortina estratégias que pretendem superar os limites impostos a eles e que afirmam sua visibilidade e sua presença na cidade como seres políticos. É dessa forma, portanto, que se crê ser possível pensar a juventude e a cidade como categorias políticas superando as leituras que tratam a primeira como abstração e a segunda como objeto.

Obrigando-nos a pensar a dimensão política da cidade, a cidade como polis, como dimensão espacial da cidadania. E os jovens como sujeitos. O que, evidentemente, nos força a pensar como a cidade pode ser espaço de convivência, de troca, de celebração a diferença. Espaço material e simbólico para e na construção de estratégias que projetam um presente e um futuro possível a esses jovens.

É mais do que hora de reconhecermos o quinhão de responsabilidade que temos com esses jovens. Somente assim, podemos nos reconhecer como sendo de fato, uma sociedade.


Juiz de Fora, 06 de setembro de 2012

Clarice Cassab

Profa. do curso de Geografia da UFJF
Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Geografia, Espaço e Ação