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3 de abr. de 2012

Resenha: Pelo Espaço

 Resenha publicada na Revista Formação, n.15 volume 1 – p.162-166,

 
MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2008. 312 p.

Nécio TURRA NETO*

 * Professor do Departamento de Geografia da UNICENTRO/Guarapuava-PR e Doutorando em Geografia pela UNESP/Presidente Prudente. Email: turraneto@yahoo.com.br.



Doreen Massey é uma autora que conhecemos apenas por alguns poucos artigos traduzidos para o português e publicados no Brasil. Finalmente, chega a tradução deste livro, Pelo Espaço, trabalho acompanhado por Rogério Haesbaert, que também faz a apresentação ao público brasileiro da autora, da sua obra e deste livro em especial.

É possível identificar facilmente no livro as idéias já esboçadas nesses conhecidos artigos, como: “Um Sentido Global do Lugar”, publicado no livro “Espaço e Diferença”; “Pensamentos Itinerantes”, publicado recentemente na Revista Terra Livre, n. 27 e, sobretudo, o artigo “Filosofia e Política da Espacialidade: algumas considerações”, publicado na Revista GEOgraphia, n. 6, da UFF. A leitura prévia destes textos contribui muito para um mergulho mais seguro no livro, visto que este parece estender e melhor fundamentar todos aqueles, inserindo-os e articulando-os dentro de um mesmo quadro teórico-conceitual.

O livro é dividido em cinco partes e em quinze capítulos, além de algumas inserções provocativas que ela chama de “Confiar na ciência? 1;... 2; ... 3”, nas quais Massey procura articular as imaginações sobre espaço no quadro de referências mais amplas do pensamento científico e suas transformações. Nesses pontos, a autora apresenta uma releitura de conhecidas associações (como a associação entre a imaginação de espaço da modernidade e a física Newtoniana) e questiona outras (como a euforia de pesquisadoras e pesquisadores diante das teorias da complexidade, para falarem de acaso e indeterminação do espaço).

O propósito central do livro é construir uma nova imaginação (e essa é a expressão da própria autora) de espaço, diferente daquelas construídas no pensamento Ocidental durante a modernidade – mas também agora, na pós-modernidade –, que sempre o viram como morto, fixo, atemporal. Retirado desse quadro conceitual que o associava a tudo que é estático, o espaço em Massey é pensado a partir de um outro conjunto de idéias, como inter-relação, contemporaneidade dinâmica, abertura radical, heterogeneidade.

Já na parte um (Proposições Iniciais), a autora apresenta sua proposta alternativa para conceituar espaço, em que ele é visto como “produto de inter-relações”, como “esfera da possibilidade de existência da multiplicidade”, e como sempre em construção e, portanto, aberto, inacabado. Para Massey, pensar o espaço dessa forma é muito mais do que afirmar que o espacial é político, é abrir a Geografia e a discussão espacial em direção a um diálogo com as principais vertentes da política progressista contemporânea, como as teorias feministas e queer e as teorias pós-coloniais. O que é um alívio para nós, geógrafos e geógrafas, acostumadas a ver essas discussões presentes apenas em outros campos das Ciências Sociais, como Antropologia, Educação, Sociologia... Assim, o livro de Massey pode nos oferecer uma bússola, uma referência da própria Geografia, para nos guiar no quadro desse debate teórico-político.

Para exemplificar essas articulações, vale a pena acompanhar um pouco do argumento da autora, para quem sua concepção de espaço dialoga bem com uma política antiessencialista em questões de identidade de grupos sociais e de lugares, enfatizando sua construção relacional. Emerge daí a questão da Geografia das relações na construção dessas identidades, pois o espaço é produto de inter-relações e elas só podem existir num espaço de multiplicidade, onde não há nada dado de forma definitiva.

Essa idéia do espaço como esfera de possibilidade da existência da multiplicidade articula-se com a idéia política que salienta a diferença e a heterogeneidade. Uma política que questiona as narrativas do Ocidente, do masculino e do branco.

Inspirando-se nas teorias pós-coloniais, a autora defende o reconhecimento da contamporaneidade de múltiplas trajetórias históricas, em substituição à idéia de uma única história universal, que colocou todas as diferenças numa mesma linha do tempo. Para ela, reconhecer a heterogeneidade e a multiplicidade à sério, só é possível pela consideração da espacialidade, que é a esfera que permite a contemporaneidade radical da diversidade e as suas relações. Trata-se de reconhecer a coexistência de outros, com trajetórias históricas próprias; trajetórias que se cruzam, se conectam e se desconectam, formando assim o espaço a partir dessas relações.

Por fim, imaginar o espaço como aberto e em processo, articula-se com a idéia política de abertura do futuro. O contraponto aqui é a idéia moderna de progresso, na qual o desenvolvimento histórico já estaria com o trajeto traçado e o destino acertado. Não só a história, mas também o espaço é aberto, pois há ainda muitas combinações relacionais possíveis a serem feitas. Nesse sentido, “conceituar o espaço como aberto, múltiplo e relacional, não acabado sempre em devir, é um pré-requisito para que a história seja aberta e, assim, um pré-requisito, também, para a possibilidade da política” (p. 95).

Há uma “pluralidade de trajetórias, uma simultaneidade de estórias-até-agora” (p. 33), cujas conexões são sempre cambiantes e conjunturais, o que faz com que o próprio lugar se forme como um feixe dessas articulações, um aqui-agora em que se encontram diversas trajetórias. O lugar seria, assim, também uma eventualidade, sempre aberto a novas conexões, desconexões...

Na parte dois do livro (Associações Pouco Promissoras), Massey apresenta algumas filosofias que, ao discutirem o tempo, acabaram definindo espaço. São as filosofias de Bergson, o estruturalismo e o desconstrucionismo Derridiano. Em todas essas filosofias, o espaço é visto como dissociado e oposto ao tempo; ele é o reino da fixação, da estase, do que precisa ser superado para o movimento libertador do tempo e da história.

Essa imaginação de espaço é amplamente criticada pela autora. Mas, como entende que espaço e tempo, apesar de distintos, são indissociáveis, Massey se apropria de algumas idéias dessas filosofias sobre o tempo (liberdade, desarticulação, surpresa), como características que também devem ser atribuídas ao espaço, reformulando o entendimento de ambos, por sua constituição conjunta.

Se o tempo se revela como mudança, então o espaço se revela como interação. Neste sentido, o espaço é a dimensão social não no sentido da sociabilidade exclusivamente humana, mas no sentido do envolvimento dentro de uma multiplicidade. Trata-se da esfera da produção contínua e da reconfiguração da heterogeneidade, sob todas as suas formas – diversidade, subordinação, interesses conflitantes. À medida que o debate se desenvolve, o que começa a ser focalizado é o que isso deve trazer à tona: uma política relacional para um espaço relacional (p. 97/98).

Mudança requer interação, e essa requer espaço. Assim, a multiplicidade é fundamental para a geração da temporalidade, para haver multiplicidade tem que ocorrer espaço. Assim, o espaço nos oferece a possibilidade da história.

A parte três do livro é uma pergunta: “Vivendo em Tempos Espaciais?”. Nela, a preocupação da autora continua sendo a “desconstrução” de imaginações “pouco promissoras” e tendencialmente conservadoras de espaço, surgidas em tempos de globalização.

As teorias pós-coloniais informam-na em sua reconstrução da espacialidade da modernidade. Dentro da imaginação moderna, sociedades, comunidades, nações, eram tidas como tendo relações com espaços delimitados, internamente coerentes e diferenciados uns dos outros pela separação. Para Massey, essa foi uma forma de imaginar o espaço que, mais do que representar a realidade como um espelho, serviu para construí-la. Assim, a modernidade viu a forma do Estadonação ser difundida, todo o espaço ser dividido/regionalizado e as sociedades localizadas, com mitos de origem telúrica e de coerência interna, com fronteiras tidas como intransponíveis.

É essa imaginação de espaço que também hoje é reavivada em muitos movimentos contrários à globalização, reclamando a perda das “velhas coerências espaciais”, numa espécie de “nostalgia por uma coisa que nunca existiu”; movimentos aprisionados à uma visão reacionária do lugar como fechado, coerente, com uma história construída a partir de dentro.

O argumento forte dessa parte (Capítulo 6) é que as especificidades no espaço resultam muito mais do contato, do que do isolamento espacial. Nesse sentido, o lugar deve ser pensado também como produto de inter-relações, de forma que não há um ponto de partida original a ser recuperado, uma posição que seja anterior à relação. Argumento que já se encontra esboçado no artigo “Um sentido global do lugar”.

Também na parte três, Massey questiona o discurso da instantaneidade em tempos de globalização, que forja uma imagem de espaço como pura horizontalidade, sem profundidade. Nessa imaginação, o temporal é oposto à conectividade instantânea do espaço global, como se os elementos em contato não fossem eles mesmos portadores de história. A figura central das críticas é Jameson e sua idéia de “presente perpétuo”, pela qual viveríamos agora na era do espaço, um espaço que é sem tempo. Também problematiza os discursos que hoje falam da vitória do espaço sobre o tempo e, ao mesmo tempo, do seu aniquilamento. A lógica é a passagem de uma imaginação moderna para uma pós-moderna, em que o espaço visto como um “mundo de lugares” delimitados é tido agora como “mundo de fluxos”.

Na modernidade, os espaços separados eram colocados numa mesma linha histórica. A preocupação era com o tempo, com o progresso dos “atrasados”. Na pós-modernidade, a globalização, o espaço de fluxos, a ampliação da conexão entre os lugares (que seria a vitória do espaço sobre o tempo, ou do tempo pelo espaço, dependendo do autor que se considere), apagou as diferenças históricas, colocando todos no mesmo presente. Aqui também trata-se de um espaço sem tempo. Uma simultaneidade estática em que a liberdade de futuro é também aniquilada. Para Massey é fundamental que reconheçamos a multiplicidade de estórias-até-então, e que, na verdade, o que está sendo conectado, não são elementos estáticos, mas trajetórias históricas em processo que, por isso, articulam-se agora, mas podem seguir suas trajetórias e desarticularem-se adiante.

Nesse ponto, retoma mais uma vez o argumento pós-colonial. A história Ocidental de conquista da Europa dos outros continentes e povos dispõem o tempo como uma linha única que articulou os outros que estavam lá, parados a espera desse acontecimento. Os outros não são vistos como portadores de histórias próprias e esse contato não é visto como um encontro entre diferentes trajetórias. As diferenças espaço-temporais são reduzidas a diferenças no tempo de uma mesma história, a história da Europa. Fecha-se assim, a possibilidade de construção de histórias alternativas.

Na época atual, também a diversidade espacial é reduzida a uma diferença temporal, ou seja, a Geografia mais uma vez é reduzida à História. Quando se fala da inevitabilidade da globalização, e de que todos os povos vivem num mesmo mundo de presente, temos também uma negação da abertura da história. A atenção com esses discursos não deve ser apenas no sentido de que eles não espelham a realidade, mas também com o fato de que a realidade a partir deles está sendo assim construída.

A parte três se encerra com um capítulo no qual Massey rechaça o discurso da aniquilação do espaço pelo tempo, novamente chamando a atenção para a indissociabilidade de ambos, e outro capítulo em que começa a esboçar alternativas à essa imaginação. Para ela, mesmo no que se refere ao ciberespaço, a questão central “[...] não é se o espaço será aniquilado ou  não, mas que tipo de multiplicidades (padrões de unicidade) e relações serão co-construídas com esses novos tipos de configurações espaciais” (p. 139).

As partes quatro e cinco, respectivamente, “Reorientações” e “Uma Política Relacional do Espacial”, são os momentos em que a autora, dando por encerrada a sua “desconstrução” das problemáticas imaginações de espaço, aprofunda seu trabalho de (re)construção de uma imaginação alternativa do espaço, com vistas a chamar a atenção para o desafio político que ele nos coloca.

 Na parte quatro também podemos encontrar, de forma concentrada, sua discussão sobre o conceito de lugar, que é um importante terreno para a política. “[...] O que é especial sobre o lugar é, precisamente, esse acabar-juntos, o inevitável desafio de negociar um aqui-e-agora [...]” (p. 203). Uma negociação que deve acontecer não só entre os humanos, mas também entre esses e aquilo que no lugar é o não-humano, a natureza. Uma ponte promissora com a Geologia é realizada em algumas partes do livro, em que as próprias trajetórias da natureza se encontram com as múltiplas trajetórias humanas, para formar espaço e lugar.

O lugar, assim, é compreendido como um encontro de trajetórias em processo (naturais e humanas). Um encontro que não é definitivo, mas conjuntural e que o movimento pode conduzir à dispersão, à novas conexões e desconexões. As trajetórias em processo que se encontram no aquiagora vão se contaminar, uma passando a fazer parte da constituição da outra, mas nunca vão chegar a formar um todo coerente e estável, mesmo porque, o lugar nunca é fechado ao que vem da sua relação com outros lugares. A abertura para a política não poderia ser mais explícita, no sentido em que somos forçados a reconhecer que o aqui-agora é sem precedentes na história e está totalmente aberto ao futuro. Daí a nossa “responsabilidade”.

Para a autora,

[...] todas as negociações de lugar acontecem no movimento entre identidades que estão se movendo. Significa, também, [...] que qualquer política que apreenda as trajetórias em pontos diferentes está tentando articular ritmos que pulsam em diferentes compassos. Este é outro aspecto do caráter elusivo do lugar que torna a política tão difícil (p. 225).

O lugar para Massey não é entendido, como normalmente se encontra nos discursos contrários à globalização, como uma vítima de processos globais, mas como também implicado nos processos de produção do mundo (capítulo 10). Assim, é preciso contextualizá-lo no quadro das geometrias de poder globais em que cada lugar ocupa posição diferenciada, antes de sair em defesa do local contra o global.

Dizer que o local participa da construção do global significa que políticas locais referendam as políticas e práticas produzidas pelos agentes da globalização. Não se pode defender o local contra o global simplesmente, mas procurar alterar os efeitos e mecanismos do próprio global localmente. Essa é uma questão da responsabilidade do local pelo global. Mas, tanto as possibilidades de intervenção, quanto sua natureza e potencial variam também de acordo com a posição relacional de cada lugar.

A maior parte da literatura de defesa do lugar vem do Sul e isso não é por acaso, pois ali a globalização parece chegar com força avassaladora [talvez nesse contexto pudéssemos situar inclusive a discussão de lugar apresentada por M. Santos (2002)]. Mas em outros pontos, pode ser que uma defesa do lugar não seja politicamente defensável.

Levar a sério a construção relacional de espaço e lugar significa considera o contexto em que as relações se dão, para aí pensar nas desiguais articulações de cada lugar em particular  dentro das geometrias de poder. Não há regra única a ser seguida.

A relação local com o global irá variar e, em conseqüência, também irão variar as coordenadas de qualquer política local com potencial de desafiar a globalização. Sem dúvida, argumentar pela defesa do lugar, de uma maneira indiferenciada, significa, de fato, manter [...] [a] associação do local com o bom e o vulnerável [...] (p. 153).

Para ela (Capítulo 14), o debate não deveria ser colocado em termos de “formas espaciais abstratas” (lugar fechado/espaço aberto; lugar concreto, espaço abstrato), o que seria cair no “fetichismo espacial”, mas sempre considerar as relações pelas quais a abertura ou o fechamento são constituídos como estratégias móveis das relações (também móveis) de poder. Nesse sentido, é preciso considerar o contexto e o conteúdo, mais que formas abstratas estabelecidas a priori.

Como últimas palavras do livro, a autora apresenta o que poderíamos entender como uma definição de espaço, que sintetiza um pouco o seu argumento: O espaço é tão desafiador quanto o tempo. Nem o espaço nem o lugar podem fornecer um refúgio em relação ao mundo. Se o tempo nos apresenta as oportunidades de mudança e (como alguns perceberiam) o terror da morte, então o espaço nos apresenta o social em seu mais amplo sentido: o desafio de nossa interrelacionalidade constitutiva – e, assim, a nossa implicação coletiva nos resultados dessa inter-relacionalidade, a contemporaneidade radical de uma multiplicidade de outros, humanos e não-humanos, em processo, e o projeto sempre específico e em processo das práticas através das quais essa sociabilidade está sendo configurada (p. 274).

Esperamos, com essas poucas palavras, ter dado conta da complexidade do pensamento de Massey e estimular outros/as colegas da Geografia a conhecerem o pensamento dessa geógrafa, abrindo-se assim também para outras referências da Geografia anglo-saxônica, cuja produção tem estimulado um repensar da própria Geografia e do conceito de espaço.

O livro de Massey, além disso, permite importantes interlocuções com autores brasileiros, tensionando-os e enriquecendo-os. O próprio Haesbaert sugere uma aproximação do seu conceito de multiterritorialidade com o conceito de lugar de Massey. Também é possível vislumbrar diálogos com o pensamento de Milton Santos, sobretudo no que se refere à sua ontologia do espaço, a sua proposta de método e ao seu debate sobre o lugar, apresentados no livro “A Natureza do Espaço...”.

REFERÊNCIAS CITADAS:

MASSEY, D. Pensamentos Itinerantes. Terra Livre, São Paulo, ano 22, v. 2, n. 27, p. 93 – 100, jul./dez.
2006.
__________. Filosofia e política da espacialidade: algumas considerações. GEOgraphia, Rio de Janeiro,
ano6, n. 12, p. 7 – 23, 2004.
__________. Um sentido global do lugar. In: ARANTES, A. A. (org.). O espaço da diferença. Campinas:
Papirus, 2000. p. 176 – 185.
SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: EDUSP, 2002.

11 de jun. de 2011

Uma homenagem ao mestre...

Estive lá ontem para me despedir de meu professor, do meu mestre. Com Mauricio aprendi muitas coisas. A tristeza é pela perda de um homem jovem, de um professor que ainda tanto tinha para nos dar. Sua cerimônia foi bonita. Foi bonito ver todos lá, colegas de geografia, pesquisadores de seu laboratório, alunos e ex-alunos (muitos deles hoje professores em universidades federais), amigos, familiares. Todos lá juntos de um homem que soube, ao longo de sua vida, aglutinar, somar. Maurício era um homem inteligente, culto, refinado, tranquilo no trato. Maurício era o verdadeiro sentido das palavras professor e mestre. Ontem Maurício se foi (seu corpo, sua matéria. Era mesmo a hora de descansar após uma difícil e longa jornada) mas ele vive em cada um dos seus alunos e amigos. Sua geografia está aí para ser vista, lida e ensinada. Assim eu faço. Em minhas salas de aula homenageio meu professor.

Aqui, neste blog replico resenha de seu último trabalho em texto originalmente publicado na Geocrítica. E não deixem de conhecer um pouco de sua geografia. No menu ao lado há alguns links para seus trabalhos. E ao final dessa postagem uma rica bibliografia de sua obra. Boa leitura!

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ABREU, Mauricio de Almeida. Geografia Histórica do Rio de Janeiro (1502-1700), 2 vols. Rio de Janeiro: Andrea Jakobsson Estúdio & Prefeitura do Município do Rio de Janeiro, 2010, 420 p. + 484 p.; il. color. ISBN: 978-85-88742-45-1 (vol. 1); ISBN: 978-85-88742-46-8 (vol. 2)



Francisco Roque de Oliveira
Centro de Estudos Geográficos, Universidade de Lisboa
f.oliveira@campus.ul.pt


Recibido: 15 de abril de 2011. Aceptado: 30 de abril de 2011


Palavras-chave: Geografia Histórica, Rio de Janeiro, cidades coloniais portuguesas, séculos XVI e XVII

Key words: Historical Geography, Rio de Janeiro, Portuguese colonial cities, 16th and 17th centuries



A oficina do geógrafo

Mais de quatro décadas dedicadas à investigação académica e à Geografia aplicada ao planeamento urbano e regional fazem de Mauricio de Almeida Abreu um dos mais completos e originais geógrafos brasileiros da sua geração. Apesar da variedade de interesses que têm preenchido o seu percurso intelectual, arriscamos fixar duas constantes ao longo de todos estes anos. Por um lado, uma clara preferência pelo estudo das cidades, de que o livro que hoje recenseamos constitui apenas o exemplo mais recente. Por outro lado, o permanente exercício de uma reflexão crítica sobre as várias agendas teóricas e metodológicas que têm ocupado a ciência geográfica desde que esta superou a matriz hegemónica da Escola Francesa, facto acompanhado por uma consciência muito aguda sobre a necessidade de harmonizar a aparelhagem conceptual com as particularidades de cada objecto de estudo seleccionado: como o próprio lembra amiúde, é tão equívoco tratar o empírico sem bagagem teórica, como forçá-lo a uma qualquer moldura epistemológica definida de antemão[1].

Licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mauricio Abreu reconhece no magistério e nas principais publicações produzidas na década de 1960 por Maria Therezinha de Segadas Soares a génese do seu interesse duradouro pela Geografia Urbana[2]. Sintomaticamente, “As causas do crescimento urbano recente de Itaboarí-Venda das Pedras” (1970), constituirá o seu artigo de estreia[3]. Escrito em parceria com Maria do Socorro Diniz, este texto partia já do renovado modelo de trabalho que a Associação de Geógrafos Brasileiros ia difundindo em substituição da monografia urbana tradicional de modo a integrar questões como a da área de influência da cidade[4]. Pela mesma época, Abreu estagia no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), onde participa na realização de estudos de desenvolvimento urbano e regional que ensaiavam a transposição da teoria dos pólos de crescimento formalizada por economistas como François Perroux no contexto europeu pós-1945 para o cenário do Nordeste do país[5]. Entre 1970 e 1979, esteve vinculado ao Centro de Pesquisas Urbanas do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM), instituição privada para a qual realizou estudos como “A geografia e os problemas urbanos” (1970)[6] e o livro Sistema Urbano de Conservação do Meio Ambiente (1971)[7] – pesquisas que tanto confirmavam a sua atenção às questões de planeamento urbano, como abriam à temática ainda embrionária dos problemas ambientais. Com o patrocínio do IBAM e da Fundação Ford, realiza uma estada de cinco anos na Ohio State University, num dos departamentos de Geografia mais neo-positivistas dos Estados Unidos[8], onde obtém o mestrado (1973) e o doutoramento (1976) enquanto lecciona World Regional Geography a alunos de licenciatura. Na sua tese de mestrado, Abreu tratará do desenvolvimento regional no Brasil, sendo a tese de doutoramento sobre migrações e absorção de força de trabalho migrante e não-migrante nas áreas metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo[9].     

Entre os primeiros estudos que Mauricio Abreu foi incumbido de realizar para o IBAM uma vez regressado ao Brasil contou-se um trabalho sobre a distribuição da população à escala metropolitana que ambicionava definir o “modelo metropolitano” surgido no país. O ponto de partida para esta pesquisa, muito devedor do paradigma crítico cultivado em Social justice and the city de David Harvey e La question urbaine de Manuel Castells, interrogava o impacto das políticas públicas no processo de estruturação interna das cidades – e, em concreto, no processo de segregação urbana na área metropolitana do Rio. Desta pesquisa resultou o importante livro Evolução Urbana do Rio de Janeiro, escrito em 1978, mas que apenas teve a sua primeira edição em 1987[10]. Ora, para além do tratamento das questões de relegação espacial a partir da análise dos mecanismos de decisão e dos jogos de poder[11], a realização desta pesquisa mobilizou o autor para uma investigação alargada sobre os fundamentos históricos do processo de produção do espaço urbano carioca.

Tal constituiu a génese da sua transformação em geógrafo urbano histórico, algo que Mauricio Abreu tem datado do início da década de 1980, coincidindo com o seu ingresso no Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no preciso momento em que intuiu que apenas uma investigação fundada na pesquisa de fontes primárias permitiria sustentar as considerações gerais expostas na versão preliminar desse trabalho. A partir daí, vemo-lo afastar-se progressivamente do tratamento das questões associadas à cidade actual, para abraçar os grandes temas da segregação física e social caros à Geografia Histórica contemporânea[12]. A escala temporal também vem sendo dilatada. Assim, tendo começado por centrar a sua atenção no Rio de Janeiro do século XIX, Abreu investiga hoje os primórdios da cidade colonial, na primeira metade do século XVI. A Geografia Histórica do Rio de Janeiro confirma-nos esta verticalização gradual dos seus inquéritos, a qual foi entretanto amparada pela formação do Núcleo de Pesquisas de Geografia Histórica da UFRJ, coordenado pelo próprio[13].

Oficiante de um campo de estudos minoritário na Geografia de qualquer parte do mundo, Mauricio de Almeida Abreu conhece bem as dificuldades que uma aproximação retrospectiva ao espaço tem que enfrentar num meio académico que parece ter herdado do século XIX uma necessidade de demarcação face à História, quando não uma aversão pela própria dimensão temporal dos fenómenos, que se traduz numa indiferença recorrente pelas análises que não privilegiam o presente e as formas geográficas actuais. Pelo mesmo motivo, sabe também que a generalidade daqueles que se aventuram no terreno híbrido da Geografia Histórica valorizam a reconstituição das formas morfológicas, desatendendo, em contrapartida, os processos e normas sociais, jurídicas e culturais que estão na sua génese. No domínio específico da Geografia Urbana histórica, esta propensão tende a traduzir-se em estudos focados naqueles aspectos que permitem recuperar os traços de paisagem entretanto desaparecidos: evolução dos planos das cidades, conversão do solo rural em solo urbano, loteamento e suas escalas, sistema viário, muralhas, edificações ou a marcação das antigas linhas de litoral, para citar apenas os mais trabalhados[14]. Face a isto, a proposta que Abreu subscreve, visando analisar as “formas não espaciais que dão conteúdo às morfologias” (vol. 1, p. 19), não apenas alarga a interpretação sobre a memória da cidade eleita pela pesquisa, como resulta na opção metodológica mais ajustada para concretizar comparações pertinentes nos domínios da história social e urbana do período colonial[15].

O processo de produção do território que esteve sob jurisdição da cidade e da capitania do Rio de Janeiro nos séculos XVI e XVII define o ambicioso objecto das mais de 900 páginas de Geografia Histórica do Rio de Janeiro (1502-1700). O intervalo cronológico considerado para este livro estende-se entre o momento em que aparecem as primeiras informações sobre a baía de Guanabara e a transição do século XVII para o século XVIII, quando a cidade que fora fundada em 1565 adquiriu uma centralidade indiscutível no contexto do espaço e da economia colonial brasileira, em consequência dos fluxos de ouro e escravos que a passaram a cruzar por efeito da emergência de Minas Gerais. O ajuste gradual da escala abrangida pelo estudo – que começou por se restringir ao actual território municipal do Rio de Janeiro, mas terminou por abranger toda a antiga capitania fluminense – traduz uma preocupação paralela em encontrar uma coerência geográfica para o estudo ditada pela leitura dos mecanismos de apropriação territorial em presença (vol. 1, p. 19-26)[16].

Ensaios já hoje clássicos como Royal Government in Colonial Brazil de Dauril Alden constituem um ponto de partida confesso deste inquérito (vol. 1, p. 23). Em qualquer caso, o principal feito de Mauricio Abreu resulta de ter sabido acrescentar à literatura disponível sobre o tema uma investigação assente num extenso conjunto de fontes primárias inéditas. A destruição de muitos dos fundos documentais relativos ao período colonial, que sucedeu aquando do incêndio do arquivo da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em 1790, constituía um obstáculo aparentemente intransponível para a concretização desta tarefa. Abreu soube contornar essa dificuldade e reconstituir boa parte do puzzle a partir dos materiais escritos e iconográficos que levantou sobretudo em fundos alternativos: uma ciclópica descida aos arquivos, que abrangeu a documentação colonial sobrevivente no Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, os cerca de 500 livros cartoriais que integram o espólio reservado do Arquivo Nacional da mesma cidade (onde leu dezenas de milhares de escrituras de venda, aforamento ou troca de imóveis) e os largos milhares de “documentos avulsos” da capitania do Rio de Janeiro guardados no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa; foram identificados ainda inúmeros materiais complementares noutros fundos existentes fora do Brasil, como o Arquivo Nacional da Torre do Tombo e a Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, o Archivum Historicum Societatis Iesu, em Roma, e a Bibliothèque nationale de France, em Paris (vol. 1, p. 24-27)[17].


O Rio do açúcar

Dezoito capítulos distribuídos por quatro partes dão forma aos dois volumes de Geografia Histórica do Rio de Janeiro de Mauricio de Almeida Abreu. A Parte I, sobre “O processo de conquista”, centra-se no século XVI e articula a fundação do Rio de Janeiro com a etapa inaugural da colonização portuguesa do Brasil. São revistas questões recorrentes nas historiografias brasileira e portuguesa, como o início do reconhecimento dos litorais, a interpretação das primeiras representações cartográficas, a fixação da toponímia, a chegada da primeira expedição exploradora, a implantação da primeira feitoria e as primeiras décadas da disputa luso-francesa pelo comércio do Atlântico, que haveria de desembocar nos conflitos da década de 1550 pelo controlo da baía de Guanabara (Cap. 1, “Contatos e aproximações”). A malograda aventura da “França Antárctica”, concebida por Nicolas Durand de Villegagnon e tentada por Gaspard de Coligny (1555-1560), merece um capítulo autónomo, que inclui um ensaio sobre o contributo indígena à sustentação do projecto colonial francês e a reconstituição do território da ilha e da fortaleza de Coligny. Este capítulo também retoma as principais conclusões que Luciana de Lima Martins e Frank Lestringant formularam a propósito das imprecisões e manipulações simbólicas do “Brasil francês” na cartografia renascentista[18], assim como aquelas que Lestringant apresentou sobre a função instrumental de La vrai pourtraict de Geneure et du Cap de Frie – o mapa da região da Guanabara esboçado por Jacques de Vau de Claye, em 1579, quando a França refez o sonho de uma implantação duradoura na América do Sul (Cap. 2, “A França Antártica: um território que não foi”)[19]

A conquista portuguesa da baía de Guanabara, ao longo das primeiras décadas do século XVI, e o seu significado no âmbito do processo de colonização do Brasil levam o autor a rever as várias fases e modalidades da participação dos indígenas no estabelecimento das primeiras povoações e engenhos de açúcar, assim como a natureza específica dessas relações no palco da capitania de São Vicente. Envolvendo o plano militar que visou e logrou pôr termo à “França Antárctida”, a conquista e a consolidação do território luso na Guanabara são ainda lidas em consonância com o projecto missionário da Companhia de Jesus e o impulso que os jesuítas deram ao combate à colónia financiada pelos huguenotes no rio de Janeiro. Não sem deixar de anotar várias das dúvidas que permanecem por resolver sobre os sucessos militares do início de 1560 que ditaram a derrota dos franceses (do saldo em vidas humanas do combate aos contornos da participação dos indígenas nessa guerra), Abreu sintetiza, de seguida, os principais pontos que permitem compreender a fundação e as especificidades da cidade real do Rio de Janeiro: a qualidade estratégico-militar do sítio original, a fisionomia desse lugar, as relações com o hinterland e as outras capitanias para o provimento de reforços e mantimentos, a precoce adopção das estruturas sociais e jurídicas portuguesas, a primeira concessão de terras, os primeiros povoadores e as razões locativas que determinaram a transferência da povoação primitiva para o sítio elevado do morro de São Januário, depois chamado do Castelo, que acolheu o seu assento definitivo, em 1567 (Cap. 3, “A conquista da Guanabara”). O complexo tema dos aldeamentos indígenas fluminenses e a importância que tiveram no demorado processo de colonização são analisados no capítulo seguinte, onde também se detalha a progressão do povoamento português do litoral e dos baixos vales dos rios da margem ocidental da baía de Guanabara na direcção do cabo Frio, sucessivamente desafiado pela presença dos tamoios, franceses e goitacás, tal como pelas ambições inglesas e holandesas na costa sudeste do Brasil (Cap. 4, “A submissão do indígena e a consolidação da conquista”).

Nos seis capítulos que compõem a Parte II do seu livro, Mauríco Abreu disseca os agentes, ritmos e conflitos que acompanharam a apropriação do território e a formação da sociedade colonial da capitania fluminense entre a segunda metade do século XVI e o termo do século seguinte. O primeiro aspecto tratado prende-se com a transferência para o Brasil da prática de repartição de terras em regime de sesmaria vigente em Portugal, análise que atende às especificidades deste sistema em solo brasileiro, designadamente pelas implicações resultantes da coexistência de “sesmarias de terras” e de “sesmarias de chão”. Seguindo de perto o que o próprio autor já expusera no artigo “A apropriação do território no Brasil colonial”[20], ensaia-se aqui a periodização da matéria em causa nas terras da Guanabara, junto com a identificação das formas jurídicas, materiais e, finalmente, espaciais que a apropriação adquiriu. Neste caso, a elaboração de seis mapas conjecturais sobre a concessão de sesmarias na capitania real do Rio de Janeiro constitui um auxiliar precioso para a visualização de todo este processo (Cap. 5, “Concessão de sesmarias e expansão do povoamento”).

Confere-se, a seguir, o papel exercido por dois dos protagonistas centrais da fase inicial deste mesmo processo de apropriação e modelação do espaço da colónia, a Câmara do Rio de Janeiro e as ordens religiosas regulares – jesuítas, beneditinos e carmelitas (Cap. 6, “As terras da Câmara e sua ocupação”; Cap. 7, “O crescente patrimônio territorial das religiões”). Um capítulo intitulado “Os conflitos de apropriação territorial” (Cap. 8) oferece uma panorâmica sobre as disputas pela propriedade das terras da Guanabara geradas pela imprecisão das doações e pela ausência quase generalizada de demarcações judiciais. É dado destaque ao litígio territorial que se prolongou por mais de dois séculos envolvendo a Companhia de Jesus e a Câmara, os beneficiários de duas das maiores sesmarias concedidas nas proximidades da cidade pelo seu fundador, Estácio de Sá, em 1565. Na ausência de dados precisos sobre o crescimento demográfico da cidade e capitania do Rio de Janeiro, Abreu busca também reconstituir os ritmos de adensamento populacional verificados nas diversas partes do termo da cidade através de testemunhos como a difusão de capelas e a criação de paróquias e de circunscrições militares no território da capitania durante o século XVII. Dados complementares sobre o progresso dos mecanismos de controlo do território e das populações são recuperados a partir da análise dos escassos testemunhos seiscentistas que reportam a actuação dos juízes da vintena, capitães de estradas e assaltos (“capitães do mato”) e quadrilheiros urbanos, tal como com base nas informações sobre os novos corpos militares constituídos no final do século XVII, no contexto da descoberta do ouro de Minas Gerais (Cap. 9, “As malhas do controle territorial”). O último capítulo desta série retoma as estimativas sobre o crescimento da população da capitania ao longo dos séculos XVI e XVII, ao mesmo tempo que nos concede uma aproximação ao heterogéneo corpo social que a compunha: dos degredados e homiziados que as fontes destacam para os primórdios da colonização do território à “nobreza da terra”, dos oficiais mecânicos aos senhores de engenho e mercadores, passando pelos cristãos-novos, categoria transversal à generalidade das anteriores (Cap. 10, “A formação da sociedade colonial fluminense”).              

Para a Parte III do seu trabalho, Mauricio Abreu propõem-se articular o Rio de Janeiro com o “sistema atlântico”, oferecendo uma ampla perspectiva sobre as relações estabelecidas entre a cidade e a capitania do Rio, Buenos Aires, África e o restante império marítimo português. Análise focada na economia do açúcar e nas sucessivas conjunturas económicas fluminenses, toma como ponto de partida o processo de progressiva incorporação do Rio na rede mercantil já constituída nas capitanias mais antigas, junto com o impulso conseguido pelo estabelecimento de relações comerciais com a cidade platina que decorre da instituição da União Ibérica, em 1580. Uma vez caracterizada a falência do sistema de comércio triangular que unia Angola, as capitanias brasileiras e o Prata, a qual ditou o fim da prosperidade que o Rio conseguira para si nas quatro primeiras décadas do século XVII, analisam-se as consequências da reconquista de Angola (1648) e da fundação da Colónia do Sacramento (1679) no tráfego africano e no contrabando com o Prata. A partir da minuciosa análise de fontes primárias que atrás se sumariou, Abreu prossegue com uma cuidada análise do mundo do açúcar fluminense do século XVII, cujo objectivo final consiste na reconstituição da geografia e da tipologia dos engenhos da capitania, assim como do conjunto da paisagem rural organizada em torno dos complexos agro-industriais açucareiros (Cap. 11, “A inserção do Rio de Janeiro na economia-mundo”; Cap. 12, “O antigo mundo fluminense dos engenhos”). Encerra esta Parte um capítulo que passa em revista os principais conflitos sobrevindos no Rio de Janeiro a partir da terceira década do século XVII e que, ainda e sempre associados à utilização da força de trabalho indígena pelos interesses coloniais e às vicissitudes da legislação indigenista, não deixaram de reflectir quer a parcial ocupação holandesa do Nordeste brasileiro (1630-1654), quer as turbulências do trato africano ditadas pela ocupação de Luanda pelos holandeses, em 1641, quer ainda a entrada das Antilhas no mercado açucareiro, a partir da década de 1650 (Cap. 13, “Turbulências seiscentistas”).              


Morfologias pretéritas

Um dos principais resultados que Mauricio de Almeida Abreu nos oferece em Geografia Histórica do Rio de Janeiro corresponde à referida radiografia da economia do açúcar no Rio que preenche boa parte do capítulo 12, a qual inclui a identificação de 162 engenhos que aí funcionaram entre 1571 e 1700, junto com a respectiva localização e a análise da evolução das suas dimensões – um impressionante conjunto de dados que, entre o mais, obriga a uma reavaliação dos impactos da crise europeia do século XVII na economia regional fluminense[21]. Outro tanto pode ser dito sobre a generalidade das questões associadas ao exercício de reconstituição da morfologia urbana, tema de eleição da Geografia Histórica que Abreu, como vimos, insiste em tratar de forma articulada com o conjunto mais vasto de processos e normas sociais que induzem e conferem sentido à estrutura física da cidade e à respectiva dinâmica ao longo do período considerado. Estas questões vêm agrupadas nos cinco capítulos que integram a quarta e última Parte deste livro, dada sob o título “A cidade de São Sebastião”. 

Desde a década de 1960, um conjunto de estudos de referência permitem realizar uma ideia razoavelmente clara sobre a evolução da forma urbana do Rio de Janeiro entre o momento em que o núcleo original do povoamento se transferiu do sopé dos morros Cara de Cão e Pão de Açúcar para o morro de São Januário/Castelo e a altura em que se iniciou a urbanização da várzea. É o caso dos trabalhos de Eduardo Canabrava Barreiros (1965), Paulo Santos (1968) e Giovanna Rosso Del Brenna (1990, 2001) ou, ainda, do “Curso sobre a fundação da cidade do Rio de Janeiro” publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1967)[22]. A compreensão deste processo entronca na discussão mais geral sobre os modelos das cidades coloniais brasileiras e os padrões que o urbanismo português assumiu no território americano, definidos entre a perfeita irregularidade e a perfeita regularidade[23]. Tal análise começou por explorar uma leitura demasiado simplista – e entretanto superada – que forçava a antinomia entre o urbanismo português e o urbanismo castelhano na América. Hoje, a mesma análise tanto tende a sublinhar as preocupações precoces com a ordenação ou a regularização dos espaços urbanos que se detectam no Brasil, como a aplicação – igualmente precoce – de planos ortogonais ou quase-ortogonais, por vezes lidos como reflexo do trabalho executado pelos engenheiros militares durante a dinastia filipina (1580-1640)[24]. Ora, a cidade real do Rio de Janeiro é um dos exemplos emblemáticos de construção urbana que dá a ver um claro traçado regular a partir do momento em que a urbe inicia a ocupação do território situado entre o perímetro amuralhado original, de feição medieval, e a orla da baía de Guanabara[25].       

À semelhança do que ocorre nos restantes capítulos deste livro, Mauricio Abreu não só domina e discute a bibliografia fundamental sobre estas matérias, como retoma algumas das sínteses que o próprio apresentara em anos recentes[26], ampliando o nosso conhecimento sobre a morfologia original do Rio de Janeiro. Com base num notável investimento em investigação histórica, logo o primeiro dos capítulos desta Parte (Cap. 14, “Reencontrando a antiga cidade de São Sebastião”) recolhe os escassos indícios disponíveis relativos ao processo de materialização inicial da cidade a partir de alguns fragmentos de livros de registos de cartas de sesmarias, de cartas de chãos transcritas nos livros de tombo das ordens religiosas e de outra documentação esparsa – nenhuma da qual cartográfica, dado não ter sobrevivido qualquer material deste tipo contemporâneo dos primeiros tempos da cidade. Como adverte, daqui resulta, uma vez mais, um mapeamento acima de tudo conjectural do espaço que se tenta apreender.

Metodicamente, Abreu indaga as características do sítio alcandorado que acolheu o primeiro assentamento da cidade, a geografia dos caminhos que estruturaram a progressiva ocupação da zona baixa, a localização da sesmaria jesuítica – a primeira sesmaria da cidade –, o significado do arcaísmo “trasto” associado ao sistema defensivo, a localização dos baluartes, muros e portas da cidade, assim como a morfologia da “cidade alta”; ao recuperar o processo de distribuição de terrenos e parcelamentos pela área alodial da cidade, percebe que a rápida apropriação da “cidade baixa” foi quase concomitante à ocupação do núcleo situado no alto da colina; anota a origem e a evolução da toponímia e da malha da “cidade baixa” e discute os escassos elementos que permitem elucidar sobre a fisionomia das moradias; destaca o conjunto de disposições legais que condicionaram, desde o início, a hierarquia e o traçado dos arruamentos e das construções; enfim, tomando de empréstimo de Walter Rossa a expressão “urbanismo regulado português” (vol. 2, p. 250), vê nestas últimas disposições um conjunto de normas urbanísticas modernas e razoavelmente rígidas, firmadas no começo da história do Rio de Janeiro pelos governadores e, a partir do século XVII, pela municipalidade.

As principais conclusões desta série de inquéritos aparecem expostas nos três mapas que oferecem outras tantas hipóteses de representação gráfica para a localização do muro e das portas da cidade quinhentista (vol. 2, p. 235, Mapas 17-19), no mapa que procura fixar a mancha urbana no final do século XVI (vol. 2, p. 241, Mapa 20) e naquele que reconstrói o plano urbano do Rio por volta de 1680 (vol. 2, p. 261, Mapa 21). À parte isto, Abreu destrinça das múltiplas referências topográficas e toponímicas dispersas pela documentação consultada os elementos que permitem associar o penoso processo de drenagem da várzea alagadiça e pantanosa, que decorreu durante os séculos XVI e XVII, à construção da forma urbana carioca. O progressivo despovoamento da “cidade alta”, que aconteceu em paralelo à expansão para a proximidade da baía, é descrito no último ponto deste capítulo, com indicação dos sucessivos equipamentos urbanos transferidos do berço original para a cidade nova, com destaque para a casa da Câmara, a Cadeia e a Sé.

Como para o estudo do processo de crescimento e estruturação da generalidade das cidades, também o cabal entendimento da identidade morfológica do Rio de Janeiro e das primeiras fases do seu urbanismo requer a reconstituição dos espaços livres públicos e o modo como estes se articularam com as edificações envolventes. De entre a grande família de espaços urbanos que integra praças, largos, terreiros e adros, os rossios – também designados como campos ou pastos – definem um lugar específico na transição entre a cidade e o espaço rural[27]. Mauricio de Almeida Abreu procede à leitura do modo como decorreu a instituição de rossios no Rio de Janeiro, como foram integrados na vida urbana e como interferiram no processo de produção do espaço carioca. A síntese de tudo isso resulta na elaboração de um novo mapa conjectural, o qual agrupa os rossios dos séculos XVI e XVII (vol. 2, p. 300, Mapa 22) (Cap. 15, “Os rossios da cidade”).      

Segue-se a discussão das transformações operadas na fisionomia da cidade no decorrer do século XVII, a qual, para lá da acção directa ou indirecta da Coroa, destaca o papel determinante que a iniciativa particular reservou para si em todo este processo: a marca impressa pelas ordens religiosas, com a construção de mosteiros e conventos; as igrejas, capelas e ermidas impulsionadas pela devoção popular; as disposições camarárias que condicionaram o alinhamento e normalizaram a largura dos logradouros públicos; a invenção da toponímia urbana, suas lógicas e sortes diferenciadas; as características internas das edificações e os materiais de construção empregues; o aparecimento das primeiras provas de verticalização urbana e a difusão das construções em altura pelos distintos sectores da cidade, tema rematado com a identificação dos poucos casos de residências nobres de que há notícia (Cap. 16, “A construção do espaço urbano no século XVII”).

A estrutura urbana do Rio e o papel preponderante que os mercadores exerceram na cidade durante o século XVII são tratados no penúltimo capítulo deste livro (Cap. 17, “O Rio de Janeiro do século XVII: economia urbana e organização interna”). Nestas páginas, Mauricio Abreu recria o funcionamento das relações campo-cidade, assinalando os interesses envolvidos e os conflitos que geraram, ao mesmo tempo que tenta reencontrar a sua expressão espacial. A análise parte do inventário dos monopólios comerciais sucessivamente estabelecidos e das tensões que estes suscitaram: o monopólio do sal, o contrato para a actividade baleeira, a pesagem do açúcar, o comércio de carnes, para além da especulação praticada com diversas outras mercadorias, como o peixe, o vinho e os escravos africanos. A partir daí, analisa-se a distribuição das funções urbanas no interior do Rio seiscentista, tentando verificar-se a existência, ou não, de um padrão espacial para a presença dos ofícios mecânicos no espaço urbano. As conclusões retiradas a propósito são confrontadas com aquelas que se observam para as residências urbanas dos senhores do engenho e, finalmente, para as residências dos marranos, sempre em busca de ver confirmado se os cristãos-novos reproduziam na cidade a tendência à formação de unidades de vizinhança que apresentavam no campo.

No último capítulo de Geografia Histórica do Rio de Janeiro, Abreu retoma o estudo dos espaços livres públicos onde se realizavam as actividades quotidianas e rituais, tal como a circulação em geral: as ruas, mercados, praças e praias da cidade, os controlos impostos às várias actividades comerciais realizadas nas ruas, a vigilância exercida sobre certos hábitos e comportamentos verificados no espaço colectivo, o lugar do pelourinho e da forca na paisagem urbana, terminando com a exame dos lugares de realização de actividades de carácter mais excepcional, como as festas e as procissões (Cap. 18, “A vida urbana nos espaços coletivos: comércio, controle e festa”). A imagem da “cidade de São Sebastião” que daqui resulta concorda com a impressão geral que o livro veio construindo de uma cidade ainda secundária no contexto colonial, apenas animada nas curtas semanas que mediavam entre a chegada e a partida das frotas do açúcar. 

Não faltará acrescentar que estamos diante de uma obra de fôlego, leitura obrigatória para a compreensão da génese e da forma da que veio a ser a segunda capital do Brasil e, pouco mais de um século depois de fechada a cronologia estudada por Mauricio Abreu, capital efémera do próprio império português (1808-1821). Acresce o bom gosto gráfico dos dois volumes, a qualidade das figuras e o cuidado posto na reprodução dos numerosos documentos escritos, cartográficos e iconográficos que a enriquecem. Diante disto, são mínimos os reparos que anotamos, os quais, pelo menos num caso, traduzem meros lapsos de ordem tipográfica.

Assim, sugerimos que uma próxima edição possa incluir a cartografia das distintas etapas de conquista territorial descritas nos capítulos 3 e 4, desde logo útil para quem se aproxima da história do Rio de Janeiro e do Brasil coloniais sem dispor da capacidade de visualizar de forma automática os cenários em causa. Notamos a necessidade de rever a ortografia moderna na palavra “concelho” no início dos capítulos 5 e 15. Sugerimos também uma maior precisão conceptual a propósito do emprego quase sinónimo dos conceitos de “território” e “lugar” que ocorre no ponto da Introdução onde se definem os objectos espacial e temporal visados pelo trabalho. No mesmo sentido, será útil pontualizar o emprego da expressão “investigação geo-histórica”, que ocorre no ponto da mesma Introdução onde se expõem as opções metodológicas seguidas. Ainda que se depreenda que esta última ocorrência decorra da discussão sobre os termos de referência da Geografia Histórica que procede dos parágrafos anteriores, não só não há como evitar associá-la ao neologismo equivalente adoptado por Fernand Braudel, como é possível ser-se tentado a ler aí um reflexo das propostas de historicização das categorias geográficas apresentadas pela Geohistória contemporânea, tal como estas vêm sendo sistematizadas por autores como Alan Reynaud, Géraldine Djament, Christian Grataloup ou Martine Droulers, por exemplo[28].

O excelente livro que Mauricio de Almeida Abreu nos oferece não esgota nem podia esgotar um tema virtualmente inesgotável. Com o rigor que o caracteriza, o autor assume à partida a fragilidade de todas aquelas reconstituições que têm a apoiá-las um escasso conjunto de provas documentais, boa parte das quais resgatada com o maior dos méritos de arquivos repartidos pelos dois lados do Atlântico, com catalogação deficiente, colecções truncadas e até condições de acesso que testam a resistência do mais empenhado dos investigadores. Mas, por cima de qualquer uma destas contingências, Geografia Histórica do Rio de Janeiro (1502-1700) tanto constrói o mais completo retrato disponível sobre a formação territorial da cidade e do seu hinterland durante o período considerado, como abre novas oportunidades de pesquisa comparada sobre as práticas urbanas adoptadas num conjunto de cidades costeiras do império português cuja génese e evolução tantos aspectos apresentam em comum com as aparentes especificidades do Rio – para além de Lisboa e Porto, desde logo as cidades da Horta, Angra, Funchal e Luanda.      

Notas

[1] Abreu, 1998, p. 88.
[2] Rua & Abreu, 2004, p. 196; Scheibe et al., 2006, p. 198-199.
[3] Abreu, 1970a.
[4] Abreu, 2006a, p. 149-51; Scheibe et al., 2006, p. 198-199.
[5] Bailly, 1998, p. 78-79; Rua & Abreu, 2004, p. 197-200; Scheibe et al., 2006, p. 199-202.
[6] Abreu, 1970b.
[7] Abreu, 1971.
[8] Scheibe et al., 2006, p. 203.
[9] Rua & Abreu, 2004, p. 201-203; Scheibe et al., 2006, p. 202-213.
[10] Abreu, 1987.
[11] Ver, inter alia, Bailly, 1998, p.132-137; Pumain, Paquot & Kleinschmager, 2006, p. 254-256.
[12] Ver, inter alia, Butlin, 1993, p. 222-223.
[13] Rua & Abreu, 2004, p. 208-210; Scheibe et al., 2006, p. 214-223.
[14] Abreu, 1998, p. 92-94.
[15] Ver, inter alia, Brockey, 2008, p. 1-14.
[16] Ver também Conde & Abreu, 2011.
[17] Ver também Rua & Abreu, 2004, p. 210.
[18] Ver Lestringant, 1981, p. 205-256; Martins, 1997, p. 141-155; Martins, 2001.
[19] Lestringant, 1981, p. 237, 243-247. A propósito deste mapa, ver também Mollat du Jourdin & La Roncière, 1984, pl. 61, p. 240-241.
[20] Abreu, 1997.
[21] Sínteses preliminares sobre o mesmo assunto em: Abreu 2006b; Abreu, 2010.
[22] Ver Rossa, 1998, p. 531.
[23] Santos, 1968, p. 50; Pessôa, 2000, p. 74. 
[24] Rossa, 1995, p. 286; Teixeira & Valla, 1999, p. 224-316.
[25] Azevedo, 1998, p. 58-59.
[26] Abreu, 2005; Abreu, 2008.
[27] Ver Teixeira, 2001, p. 9; Vaz, 2001, p. 139-141.
[28] Ver, inter alia, Ciattoni, Beucher & Reghezza, 2005, p. 73-75.


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Ficha bibliográfica:
OLIVEIRA, Francisco Roque de. Abreu, Mauricio de Almeida. Geografia Histórica do Rio de Janeiro (1502-1700). Biblio 3W. Revista Bibliográfica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de Barcelona, Vol. XVI, nº 924, 25 de mayo de 2011. <http://www.ub.es/geocrit/b3w-924.htm>. [ISSN 1138-9796].