28 de mai de 2009

Sugestões...

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A alma encantadora das ruas (João do Rio)
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CARLOS, Ana Fani Alessandri. O espaço urbano: novos escritos sobre a cidade. São Paulo: Contexto, 2004.
______. Espaço-tempo na metrópole: a fragmentação da vida cotidiana. São Paulo: Contexto, 2001

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Sobre espaço e política:
A produção do espaço (Henri Lefebvre)
Espaço e política (Henri Lefebvre)
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Crises da república (H. Arendt)
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Paul Vidal de La Blache


Dando continuidade aos Clássicos da Geografia segue um fragmento de texto de Vidal de La Blache. Considerado o fundador da Geografia francesa. Em 1872 foi convidado pelo governo francês para fundar uma Geografia acadêmica. Obras: Quadro da natureza da França (1903), A França do Leste (1917)e Princípios de geografia humana (1922). Na primeira, considerada a obra seminal da Geografia lablachiana está a base do conceito de REGIÃO e deste conceito deriva o método regional.

Na segunda, La Blache se debruça sobre a região da Alsácia-Lorena. O intuito é chamar a atenção para o aspecto estratégico de uma região de grande riqueza e recursos industriais.

O Princípios da Geografia Humana,divide-se em três grandes partes: 1. Estudo da distribuição do homem na Terra; 2. Estudo das civilizações segundo sua cultura e assentamentos no espaço; 3. Analise do impacto da tecnologia moderna sobre as civilizações da história.

O texto abaixo é uma reflexão desse geógrafo (de formação historiador) sobre as características próprias da Geografia. Vale a pena a leitura.

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AS CARACTERÍSTICAS PRÓPRIAS DA GEOGRAFIA
Paul Vidal de La Blache

Chamado a falar de Geografia perante um auditório de futuros professores formados nos métodos científicos, mas se preparando ao ensino de diversas disciplinas, meio embaraçado indaguei-me sobre qual seria, entre as questões que esse tema sugere, aquela que melhor convinha em tais circunstâncias. Ao refletir, fiquei impressionado pelos mal-entendidos que reinam sobre a própria idéia da Geografia. No grupo das Ciências Naturais, ao qual sem nenhuma dúvida se integra, ela possui um lugar a parte. Suas afinidades não excluem sensíveis diferenças. Ora, é sobretudo a respeito dessas diferenças que as idéias são pouco precisas. Pareceu-nos que tentando colocar alguma luz nesse lado das coisas, isto é, propondo-me a especificar o que distingue a Geografia, eu me ajustarei à intenção que preside estas conferencias. A Pedagogia é uma obra de coordenação e de relações: será que ela não deveria ser considerada como uma espécie de filosofia abraçando tudo aquilo que contribui à formação do espírito?
A Geografia é considerada como se alimentando nas mesmas fontes de fatos da Geologia, da Física, das Ciências Naturais e, de certa forma, das Ciências Sociológicas. Ela serve-se de noções, sendo que algumas delas são o objeto de estudos aprofundados nas ciências vizinhas: daí vem, então, a crítica que se faz às vezes à Geografia, a de viver de empréstimos, a de intervir indiscretamente no campo de outras ciências, como se houvesse compartimentos reservados no domínio da ciência. Na realidade, como veremos, a Geografia possui seu próprio campo. O essencial é considerar qual uso ela faz dos dados sobre os quais se exerce. Será que ela aplica métodos que Ihe pertencem? Será que traz novos horizontes, de onde as coisas possam aparecer em perspectiva especial, que os mostra sob angulo novo? Todo o problema é este que está aí. Na complexidade dos fenômenos que se entrecruzam na natureza não se deve ter uma única maneira de abordar o estudo dos fatos; é útil que sejam observados sob ângulos diferentes. E se a Geografia retoma certos dados que possuem um outro rótulo, não há nada para que se possa taxar essa apropriação de anticientifica.
1 - A unidade terrestre A Geografia compreende, por definição, o conjunto da Terra. Este foi o mérito dos matemáticos-geógrafos da antigüidade (Eratóstenes, Hiparco, Ptolomeu), o de colocar em princípio a unidade terrestre, o de fazer prevalecer esta noção acima das descrições empíricas das regiões. É nesta base que a Geografia pôde-se desenvolver como ciência A idéia de correspondência, de solidariedade entre os fenômenos terrestres, penetrou e tomou corpo, muito lentamente na verdade, porque se tratava de apoiá-la sobre fatos e não sobre simples hipóteses. Assim, quando no inicio do Século XIX Alexandre von Humboldt e Karl Ritter se fizeram os iniciadores do que se chamava então de geografia comparada, eles se orientavam de acordo com uma visão geral do globo; e foi por aí que sua impulsão foi fecunda. Todos os progressos posteriormente obtidos, no conhecimento da Terra, foram atribuídos a melhor esclarecer esse princípio de unidade. Se existe um domínio onde ele se manifesta muito claramente, então é o domínio das massas líquidas que cobrem 3/4 do globo e do oceano atmosférico que o envolve. Nos movimentos da atmosfera, escreve o meteorologista Dove, "não se pode isolar nenhuma parte, pois cada parte age sobre sua vizinha". É assim que, se propagando, as borrascas formadas nas proximidades da Terra Nova atingem as costas da Europa Ocidental e, evidentemente, do Norte do Mediterrâneo; e se as perde de vista a seguir e se sua marcha escapa dos observatórios, não há dúvida de que a série das repercussões continua. As partes do oceano estão em comunicação íntima por uma circulação de fundos e de superfície. Bernard Varenius já escrevia que Quum ocesnus movetur, totus movetur. A parte sólida do globo também sofre a participação de uma dinâmica geral. O conjunto de fatos tectônicos, que as explorações feitas nas diversas regiões da Terra coletaram, contribuiu para que Eduard Suez pudesse edificar sobre eles uma síntese, cuja própria idéia poderia ter parecido anteriormente como ilusória. O conhecimento das regiões polares promete-nos, enfim, novos exemplos de correspondência e de correlação que esclarecerão, sem dúvida, a gênese dos fenômenos. Esta idéia de unidade é comum, sem dúvida, a todas as ciências que tocam a física terrestre, assim como as que estudam a repartição da vida. A insolação, a evaporação, o calor específico da terra e da água, as mudanças de estado do vapor da água etc., se esclarecem pela comparação recíproca das diversas partes do globo. A lei da gravidade domina toda a diversidade das formas de erosão e de transporte, e se manifesta assim na sua plenitude. Toda espécie viva está em perpétua tensão de esforços para adquirir ou defender um espaço que Ihe permite subsistir, e isto serve de guia ao naturalista. O conhecimento destes fatos que, em ordem diversa e em graus diferentes, contribuem para fixar a fisionomia da Terra, resulta de um conjunto de observações onde cada parte do globo deve, tanto quanto possível, trazer o seu testemunho. Cada ciência realiza, neste sentido, a tarefa que Ihe é própria; mas não se pode dizer, por isso, que ela preenche o papel da Geografia: é este papel que se deve precisar.
2 - A combinação dos fenômenos Cabe-me emprestar do autor de uma das melhores obras já publicadas sobre a climatologia, o professor J. Hann, os termos dos quais ele se serve para estabelecer a distinção entre a meteorologia e o estudo dos climas. "Esta distinção (diz ele) é de natureza mais descritiva; ela tem por objeto fornecer ao leitor uma imagem tão viva quanto possível da ação combinada de todos os fenômenos atmosféricos sobre uma parte da Terra." Pode-se dizer, generalizando esta anotação, que a geografia, inspirando-se como as ciências vizinhas na idéia de unidade terrestre, tem por missão especial procurar como as leis físicas ou biológicas, que regem o globo, se combinam e se modificam aplicando-se às diversas partes da superfície. Ela as segue em suas combinações e suas interferências. A Terra Ihe oferece, para isso, um campo quase inesgotável de observações e de experiências. Ela tem por objetivo principal estudar as expressões mutáveis que revestem, conforme os lugares a fisionomia da Terra. Antes de prosseguir, notemos que esta combinação é a própria forma sob a qual os fenômenos se oferecem em todos os lugares na natureza. A Geografia é solicitada para as realidades. Disse-nos Buffon: "Na natureza a maioria dos efeitos depende de várias causas diferentemente combinadas." Com maior precisão ainda, o pensador Henry Poincaré assim se exprime em um dos seus últimos trabalhos: "O estado do mundo, e mesmo de uma muito pequena parte do mundo, é qualquer coisa extremamente complexa e que depende de um grande número de elementos." A justeza dessas noções nos choca, qualquer que seja a parte da Geografia que considerarmos. O modelado do solo resulta do conflito entre as energias, que se desdobram para o ataque dos agentes meteóricos, e a força de resistência, que Ihes opõem as rochas; mas este conflito se exerce em um campo que já foi remanejado no decorrer dos tempos e que ainda o é incessantemente seguindo as modificações dos níveis de base e as oscilações do clima. O que se chama de clima de uma região é uma média na qual contribuem a temperatura, a umidade, a luminosidade, os ventos; mas a avaliação destes diversos elementos somente daria uma idéia muito incompleta, se não se procurasse saber como eles se combinam, não somente entre eles, mas também com o relevo, a orientação, as formas do solo, a vegetação e mesmo as culturas. Vê-se, por exemplo, o máximo da estação de calor coincidir com o máximo de umidade? Todas as características de certo tipo de clima, o do Sul do Mediterrâneo, surgem diante do espírito. Outros tipos, com múltiplas nuanças, correspondem, ao contrário, aos diversos regimes de chuvas de verão. A diversidade dos elementos a considerar também se encontra no domínio dos seres vivos. A vegetação de uma região é um conjunto heterogêneo, no qual se distinguem plantas de diversas proveniências: umas invasoras, outras refugiadas, outras que são legadas de climas anteriores, outras que acompanharam as culturas dos homens. Tudo indica também, à medida que se avança no exame e na análise das faunas regionais, o seu caráter heterogêneo. As migrações, cujo sentido e datas nos escapam freqüentemente, misturaram as tribos de seres vivos, compreendendo também os homens; e é de seus resíduos que se formaram os ocupantes sobre as diversas regiões, onde eles puderam concentrar-se. Enquanto as classificações lingüisticas nos fornecem a ilusão de grandes grupos humanos, os índices que fornecem a antropologia e a pré-história concordam em mostrar a diversidade das raças que, como aluviões sucessivas, formaram a maioria de nossos povoamentos.
A análise desses elementos, o estudo de suas relações e de suas combinações compõem a trama de toda a pesquisa geográfica. Não se pode mais questionar, segundo este ponto de vista, uma antinomia de princípio entre duas espécies de Geografia: uma que sob o nome de Geografia Geral seria a parte verdadeiramente científica e a outra que se aplicaria, tendo como fio condutor somente uma curiosidade superficial, na descrição das regiões. De qualquer maneira que se enfoque, são os mesmos fatos gerais, nos seus encadeamentos e na sua correlação, que se impõem à atenção. Estas causas, se é permitido usar esta palavra ambiciosa, ao se combinar originam as variedades sobre as quais o geógrafo trabalha: seja quando ele se propõe a determinar os tipos de clima, formas de solos, de habitat etc., como faz quando trata de Geografia Geral; seja quando ele se esforça para caracterizar as regiões, até mesmo de as pintar, pois o pitoresco não Ihe é proibido.
3 - As superfícies O campo de estudo, por excelência, da Geografia é a superfície; este é o conjunto dos fenômenos que se produzem na zona de contato entre as massas sólidas, liquidas e gasosas, que constituem o planeta. Este contato é o princípio de fenômenos inumeráveis, sendo que apenas alguns estão definidos; ele age como um reativo para colocar em evidência as energias terrestres. A coluna de ar modifica-se sem cessar no contato com as superfícies solidas ou líquidas; e o vapor d'água, transportado em seguida a essas oscilações, cresce, se condensa ou se precipita conforme o estado térmico das superfícies que encontra. O solo está exposto aos meteoros, não somente a ataques de força ativa, mas também a ataques por infiltração. Sua epiderme se endurece ou, então, se decompõe ao seu contato. O ar e a água penetram então na sua textura porosa; e a terra torna-se, conforme a expressão de Berthelot, alguma coisa viva. Os fermentos e as bactérias entram em movimento; o ácido carbônico dissolve os fosfatos, a cal, o potássio e outros ingredientes que entram nos corpos das plantas, ou que se elaboram, sob a ação da luz, para servir de alimento aos outros seres vivos. Sem dúvida o interior da Terra é a sede de outros fenômenos de transformação, de uma incalculável grandeza. A Geografia, entretanto, neles está apenas indiretamente interessada. Se está quase certo que os dobramentos e os acavalamentos, que tomam um aspecto tão saliente em certas cadeias montanhosas, se formaram em profundidade sob o esforço de pressões e de contrações enormes, esta obra subterrânea só se torna um objeto geográfico porque, pela ação combinada dos soerguimentos e das desnudações, ela aparece na superfície. Ela toma, então, lugar no relevo, associa-se às outras formas do solo, influi sobre o modelado que a envolve; e torna-se um dos mais poderosos centros de ação sobre o clima, a hidrografia, a vegetação e os homens. Entre as superfícies que estuda a Geografia, as da litosfera têm a vantagem de conservar mais ou menos a impressão das modificações que elas sofreram desde a sua emersão. Elas apresentam, por isso, um interesse particular e abrem uma nova fonte de ensinamentos. É como um quadro registrador, sobre o qual o estado presente das formas se revela em continuação dos estados anteriores. Através das formas que pertencem ao ciclo atual de evolução, distinguem-se lineamentos das que as precederam. Estas formas subsistem, às vezes, tão claramente, que se pode distinguir até o grau de evolução atingido pelas formas do solo, devido às ações de natureza semelhante às que trabalham sob nossos olhos, quando um novo ciclo de erosão é aberto. Na cadeia das idades, é naturalmente o anel mais próximo, o antecedente imediato que menos sofreu desgaste. Ele se transforma mais do que é abolido. A obra do passado persiste através do presente como a matéria sobre a qual se exercem as forças atuais. A partir daí, estamos em plena Geografia.
Nas regiões que sofreram as invasões das geleiras quaternárias, os cursos d'água não terminaram de transportar os detritos que elas acumularam. Alguns ainda procuram o seu leito através desses materiais, no qual formam aluviões. Os vales originados por um clima mais úmido no Saara são, aparentemente, formas fósseis: exercem uma influência sensível sobre as fontes, os poços, a vegetação, e o vento, apoderando-se de suas aluviões arenosas, encontra aí os materiais das dunas que ele edifica. O aspecto da superfície sólida revela-se, assim, como o resultado, de modificações incessantemente remanejadas de época em época; ele representa uma seqüência e não um estado uma vez dado e atingido de repente. As formas atuais só são inteligíveis se se as focaliza na sucessão das quais fazem parte. Como explicar, por exemplo, sem recorrer à consideração de um regime de declividades anteriores, a direção tão paradoxal, na aparência, desses rios que atravessam, ao invés de os contornar, os obstáculos que parecem se opor à sua passagem? Tudo isso continuaria sendo um enigma se não tivesse penetrado na ciência, com a ajuda da comparação e da análise, esta noção de evolução das formas que é a chave. Pode-se dizer que atualmente ela domina qualquer pesquisa.
4 - A força do meio e a adaptação
Se desejarmos nos colocar no espírito de um geógrafo, ou seja, analisarmos os fatos como um geógrafo, estaremos ligados a fatores de ordem diversos de proveniência heterogênea, e formando entre si combinações múltiplas; sentiremos que o equilíbrio resultante dessas combinações não tem absolutamente nada de estável, que ele está à mercê de modificações cuja multiplicidade dos fatores abre uma ampla margem. Pode-se perguntar onde está o princípio diretor que permite edificar, nesse terreno aparentemente móvel, métodos que se mantêm, e tentar experiências coordenadas de descrições terrestres. Recorramos ainda à observação. O que a observação e a análise encontram nessas superfícies onde se imprimem os fenômenos, não são casos isolados, traços incoerentes, mas grupos de formas obedecendo a uma ação de conjunto, ligadas por afinidades, e trabalhando em comum para eliminar da superfície o que não convém mais às condições atuais. Lá onde os cursos d'água não possuem mais a força para carregar os detritos de destruição das rochas, todo o aspecto do modelado recebe a impressão desta impotência: estreitas margens terrosas encaixando os talvegues, grandes superfícies unidas acima das quais emergem aqui e acolá picos cônicos, compõem uma diversidade de traços que, entretanto, convergem para o conjunto clássico da paisagem da região árida. O contraste é completo com o mundo das formas que povoam a superfície, quando a obra de um desgaste avançado modelou os flancos dos vales, colocando a nu as vertentes das montanhas, dissecando e diversificando os planos. Lá onde as geleiras passaram subsiste, ao menos provisoriamente, esse conjunto caótico de montículos e de lagos que se chama paisagem morênica. O nome de aparelho litorâneo caracteriza uma afluência de formas que, variadas em si mesmas, não aparecem uma sem a outra: aqui fjords, com lagos interiores e prolongando-se em direção ao mar por orla recortada de ilhas e de recifes que os escandinavos chamaram skiargaard; em outros lugares, a fileira uniforme das lagunas, das barras fluviais e dos cordões litorâneos. Cada um destes tipos se compõe de formas em dependência recíproca.
Assim também é a fisionomia da vegetação. Não é só a oliveira que personifica a vegetação mediterrânea e muito menos uma andorinha não faz verão. O que evoca esta expressão do Mediterrâneo é uma enorme quantidade de plantas, cujas formas tem por sua variedade excitado a imitação artística, mas que coexistem num conjunto que a linguagem popular designa sob os nomes de maquis, guarrigues ou outros. É uma das associações características que distingue a ciência botânica. Por todos os lados encontraremos expressões coletivas, algumas populares, outras científicas, correspondendo a estes fatos de observação. Estas expressões coletivas serviriam para nos dizer que um elo comum existe entre os diversos elementos que reconhecemos a complexidade. Do que é formado este elo? É por esta questão que somos levados à noção de meio; noção cuja aparência vaga levou ao abuso que dela se fez, mas que por menos que se a pesquise, mostra-se cheia de ensinamentos. É o clima, pode-se dizer, que decide sobre a preponderância das formas de entulhamento ou de desnudação. Mas esta explicação é muito sumária e esta palavra não expressa de maneira adequada e completa os fenômenos. No entanto, vemos que as próprias formas procuram organizar-se entre si, a realizar certo equilíbrio. Aqui com a ajuda do vento, acolá com a ajuda das águas correntes, trabalham de acordo com um plano e para um fim determinado; pouco importa se atingem ou não esse fim. As dunas e as areias alinham-se seguindo uma geometria; concluem uma obra de nivelamento. Cada flecha se estende na direção de sua vizinha, e tende a juntar-se com aquela que Ihe faz face. A ravina que, nascida de uma valeta, entalha o flanco de uma montanha, abastece-se de um conjunto de valetas semelhantes; e quando desse conjunto é formado um curso d'água, este trabalha, de acordo com seus irmãos, para adaptar o seu perfil conforme um nível de base comum. Se no mundo das formas inanimadas os traços se coordenam, esta adaptação reciproca não é menos sensível entre os seres vivos, mas se exerce diferentemente. As plantas que povoam uma região, os animais aos quais essas plantas servem de alimento, e até certo ponto os próprios grupos humanos que encontram neste meio ambiente o princípio de um gênero de vida, são compostos por elementos díspares. Entram, dissemos, nas associações vegetais as mais diversas espécies de proveniência e de forma. Mas acima dessas diferenças uma tonalidade geral domina; as plantas organizam-se fisiologicamente, revestem, para se acomodar às influências ambientais, uma aparência comum, de acordo com a altitude, as intempéries, a seca, o calor úmido. Não somente modificam seguindo procedimentos diversos e às vezes muito inesperados, os seus órgãos exteriores, mas também se combinam entre si de maneira a se repartirem no espaço. Nesses agrupamentos, que são aspectos normal sob o qual se apresenta e se grava nos nossos olhos fisionomia da paisagem, cada planta está organizada com as suas vizinhas para ter sua parte de solo, de luz e de alimento. Os seres vêm-se associar e se unir "encontrando vantagem e proveito nas condições determinadas pela presença dos outros". Uma floresta é uma espécie de ser coletivo onde coexistem, numa harmonia provisória e não à prova de mudanças, arvores, vegetais do tipo rasteiro, cogumelos e uma multidão de hóspedes igualmente subordinados, insetos, térmitas, formigas. Assim, as coisas se apresentam a nós em grupos organizados, em associações regidas por um equilíbrio que o homem perturba incessantemente ou, conforme os casos, retifica colocando a mão. A idéia de meio, nessas diversas expressões, se precisa como correlativo e sinônimo de adaptação. Ela manifesta-se através das séries de fenômenos que se encadeiam entre si e são postos em movimento por causas gerais. É por essas causas que incessantemente retornamos às causas de clima, de estrutura. de concorrência vital, que impulsionam muitas atividades especiais das formas e dos seres.5. O método descritivo Pode-se julgar, pelo que acabou de ser dito, o papel capital que desempenha a descrição. A Geografia distingue-se como ciência essencialmente descritiva. Não seguramente que renuncie à explicação: o estudo das relações dos fenômenos, de seu encadeamento e de sua evolução são também caminhos que levam a ela. Más esse objeto mesmo a obriga mais que em outra ciência, a seguir minuciosamente o método descritivo. Uma dessas tarefas principais não é localizar as diversas ordens de fatos que a ela concernem, determinar exatamente a posição que ocupam, as áreas que abrangem? Nenhum índice, mesmo nenhuma nuança não poderia passar despercebida; cada uma tem seu valor geográfico, seja como dependência, seja como fator, no conjunto que se trata de analisar. É preciso, então, tomar sobre o fato cada uma das circunstancias que o caracterizam, e estabelecer exatamente o resultado. No rico teclado de formas que a natureza expõe a nossos olhos, as condições são tão diversas, tão intercruzadas, tão complexas, que elas arriscam escapar a quem acredita tê-las cedo demais. Há dois obstáculos que devem particularmente ser levados em consideração: o das fórmulas muito simples e rígidas entre as quais deslizam os fatos e o das fórmulas multiplicadas a tal ponto que se acrescentam mais à nomenclatura e não à clareza. Descrever, definir e classificar além de deduzir são as operações que logicamente se mantém; mas os fenômenos naturais de ordem geográfica não se curvam com uma solicitude sempre dócil às categorias do espírito. A descrição geográfica deve ser maleável e variada como seu próprio objeto. Freqüentemente, é proveitoso para ela servir-se da terminologia popular; esta sendo formada diretamente em contato com a natureza, tal designação apreendida sobre o atual, tal máxima rural ou provérbio podem abrir uma luz sobre um relatório, uma periodicidade, uma coincidência, qualquer coisa que se reclama diretamente da Geografia. Não é sem razão que nos livros ou memórias geográficas as representações figuradas aparecem cada vez mais. O desenho e a fotografia entram a titulo de comentários na descrição. As figuras esquematizadas tem sua utilidade como instrumento de demonstração. Mas nada vale o desenho como meio de análise para captar de perto a realidade, e como controle dessas observações diretas, que encontram hoje nas excursões geográficas a ocasião freqüente de se exercer. O hábito dessas lições itinerantes é, para nós, um dos mais notáveis ganhos pedagógicos desses últimos anos. É a escola ao ar livre, mais higiênica e mais eficaz que qualquer outra. Ela escolhe antecipadamente os seus textos, isto é, as paisagens onde se junta, numa perspectiva mais fácil a apreender, este conjunto de traços característicos que gravam no espírito do geógrafo a idéia de região.
6 - A Geografia e a História É preciso dizer que nesta fisionomia o homem se impõe, direta ou indiretamente por sua presença, por suas obras ou conseqüência de suas obras. Ele também é um dos agentes poderosos que trabalham para modificar a superfície. Coloca-se por isso entre os fatores geográficos de primeira ordem. Sua obra sobre a Terra já é longa; há poucas partes que não levam seus estigmas. Pode-se dizer que dele depende o equilíbrio atual do mundo vivo. É uma outra questão aquela de saber qual influencia as condições geográficas exerceram sobre seus destinos e particularmente sobre sua história. Não posso deixar de abordar aqui este ponto importante. A História e a Geografia são companheiras antigas por há muito tempo caminharam juntas e que como acontece com os velhos conhecimentos perderam o hábito de discernir as diferenças que as separam. Longe de mim a intenção de atrapalhar a harmonia deste arranjo. É útil no entanto que, continuando a prestar serviços recíprocos, elas tenham nítida consciência das divergências que existem nos seus pontos de partida e nos seus métodos. A Geografia é a ciência dos lugares e não dos homens ela se interessa pelos acontecimentos da História à medida que acentuam a esclarecem, nas regiões onde eles se produzem, as propriedades, as virtualidades que sem eles permaneceriam Iatentes. A história da Inglaterra é insular, a da França é sacudida entre o mar e o continente; o dedo da Geografia está marcado sobre cada uma delas. Estes encadeamentos históricos têm seu lugar na evolução dos fatos terrestres; mas quanto é limitado o período de tempo que eles abrangem! É uma espécie de truísmo opor a brevidade da vida humana à duração que exige a natureza para suas mínimas mudanças: mas, enfim, quão poucas gerações seriam necessárias para colocar de ponta a ponta, para tocar no ponto além do qual não há mais testemunho histórico, e mesmo, já que a História se resume em grandes esforços coletivos, onde não há mais história! O estudo da evolução dos fenômenos terrestres supõe o emprego de uma cronologia que difere essencialmente daquela da História. Somos, muitas vezes, levados a esquecê-Ia. É o que acontece, por exemplo, quando diante do espetáculo de civilizações decadentes, mencionamos a explicação dessas decadências e dessas ruínas às das mudanças de climas. Seguramente, houve tais mudanças desde a época quaternária; mas podemos aplicar seus efeitos à História humana? Ficamos inquietos diante de tais hipóteses, cujo menor defeito não é contornar a questão e fechar a porta às pesquisas que tomam a História por base, que não teriam sem dúvida dito sua última palavra. É tempo de concluir: conhecemos há muito tempo a Geografia incerta de seu objeto e de seus métodos, oscilando entre a Geologia e a História. Esses tempos passaram. O que a geografia em troca do auxilio que ela recebe das outras ciências. pode trazer para o tesouro comum é a aptidão para não dividir o que a natureza juntou, para compreender a correspondência e a correlação dos fatos, seja no meio terrestre que envolve a todos, seja nos meios regionais onde eles se localizam. Há aí, sem dúvida nenhuma, um beneficio intelectual que pode estender-se a todas as explicações do espirito. Retraçando as vias pelas quais a Geografia chegou a esclarecer seu objetivo e a fortalecer seus métodos, reconhecemos que ela foi guiada pelo desejo de observar cada vez mais diretamente, cada vez mais atentamente, as realidades naturais. Esse método trouxe seus frutos: o essencial é agarrar-se a eles.

24 de mai de 2009

Jean Jacques Elisée Reclus


Nesta sessão serão publicados fragmentos de algumas obras dos clássicos do pensamento geográfico. Iniciamos com um texto de Elisée Reclus. Geógrafo francês, nascido em 1830. Sua vinculação ao anarquismo influenciou fortemente seu pensamento e suas obras. Para este geógrafo, o papel da Geografia é o de "compreender e conhecer a natureza para compreender, conhecer e fazer aflorar a natureza do homem, um ser que nasce racional e livre e que só as cadeias da sujeição social aprisionam e escravizam" (Moreira, 2008).

Muito ainda é preciso aprender com este geógrafo tão pouco lido e estudado em nossas universidades.

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A COMPLEXIDADE DA PRODUÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO

Élisée Reclus

É indispensável, sem dúvida, estudar à parte e de forma detalhada a ação especial de cada elemento do meio, frio ou calor, montanha ou planície, estepe ou floresta, rio ou mar, sobre tal povo determinado; mas é pó puro esforço de abstração que se tenta apresentar em separado esse fato particular do meio e que se procura isola-lo de todos os demais a fim de estudar sua influencia essencial.

Mesmo onde essa influência se manifesta de forma absolutamente preponderante nos destinos materiais e morais de uma sociedade humana, ela não deixa de se mesclar a uma série de outros estímulos, concomitantes ou contrários em seus efeitos. Sendo o meio infinitamente complexo, em conseqüência o homem é solicitado por milhares de forças diversas, que se movem em todos os sentidos, unindo-se umas às outras, algumas diretamente, outras segundo ângulos mais ou menos oblíquos, ou opondo-se umas à ação das outras.

Assim, a vida do insular não é determinada unicamente pela imensidão das ondas que o cercam: é necessário considerar também o grau de latitude em que ele passa sua existência, o deslocamento anual do Sol que o ilumina, as oscilações da temperatura, a direção e o ritmo dos ventos, a ação menos conhecida mas não menos real das correntes magnéticas, com todos os seus fenômenos de declinação, inclinação e intensidade; convém também verificar, em volta do grupo social que se estuda, a estrutura das rochas, a consistência e a cor do solo, o aspecto e a variedade das plantas e dos animais, o conjunto das paisagens que o cercam, em suma, tudo aquilo que, na natureza exterior, pode agir sobre os sentidos. Cada um de nós é, na realidade, um resumo de tudo aquilo que viu, ouviu, viveu, de tudo aquilo que pôde assimilar pelas sensações.

E ainda assim esse meio primitivo, constituído pelas coisas circundantes, é apenas uma tênue parte do conjunto das influências às quais o homem está sujeito. As necessidades da existência determinam um modo de alimentação que varia segundo as regiões; da mesma forma, a nudez ou o vestuário, o acampamento ao ar livre ou os diversos tipos de habitações – grutas e tetos de folhas, cabanas e casas – agem e reagem sobre a maneira de sentir e de pensar, criando assim em grande parte, aquilo que se chama “civilização”, estado ininterruptamente modificado por novas aquisições, entremeadas de sobrevivências mais ou menos persistentes. Além disso, o gênero de vida, combinado com o meio, se complica com numerosas doenças, de contágios repentinos, que variam de acordo com regiões e latitudes e se propagam, ao infinito, no conjunto das forças que determinam a humanidade.

Ao meio-espaço, caracterizado por mil fenômenos exteriores, é preciso acrescentar o meio-tempo, com suas transformações contínuas, suas repercussões sem fim. Se a História começa primeiro por ser “toda geografia”, como disse Michelet, a geografia se torna gradualmente “história” pela reação contínua do homem sobre o homem. Cada novo indivíduo que se apresenta, com atitudes que surpreendem com uma inteligência inovadora, com pensamentos contrários à tradição, se torna um herói criativo ou um mártir: mas, feliz ou infeliz, ele age, e o mundo se transforma. A humanidade se forma e se reforma com suas alternâncias de progressos, de recuos e de estados mistos, das quais cada uma contribui diversamente para formar, modelar e remodelar a raça humana.

Como enumerar todos esses fatos cuja ação se sucede com as sociedades e as renova constantemente? As migrações, os cruzamentos de população, as vizinhanças dos povos, o vaivém do comércio, as revoluções políticas, as transformações da família, da propriedade, das religiões, da moral, o aumento ou diminuição do saber são forças que modificam o ambiente e influem, ao mesmo tempo, sobre a parte da humanidade mergulhada nesse novo meio. Mas nada se perde: as causas antigas, embora atenuadas, ainda agem de modo secundário, e o pesquisador pode encontra-las nas correntes ocultas do movimento contemporâneo, da mesma forma que a água, desaparecida do leito primitivo da superfície, volta a ser encontrada nas galerias das cavernas profundas. Por isso pôde-se dizer, sinceramente, que os “mortos governam os vivos”. “O morto apodera-se do vivo”. Segundo um provérbio cafre[1], que serve tanto aos brancos como aos negros, “o fato é filho de um outro fato, e não se deve nunca esquecer sua genealogia”.

Assim, o meio geral se decompõe em elementos inumeráveis: uns pertencem à natureza exterior, designada freqüentemente como o “meio” por excelência, o ambiente propriamente dito; outros são de ordem diferente, uma vez que decorrem da própria marcha das sociedades e se produziram sucessivamente, aumentando ao infinito – por multiplicação – a complexidade dos fenômenos ativos.

Esse segundo meio dinâmico, acrescentado ao meio estático primitivo, constitui um conjunto de influencias no qual é sempre difícil, muitas vezes impossível, reconhecer as forças preponderantes, tanto mais que a importância respectiva dessas forças, primeiras ou segundas, puramente geográficas ou já históricas, varia segundo os povos e os séculos. Aqui, são os frios intensos que causam o despovoamento duma região, a morte da raça, ou que, obrigando os homens a se esforçarem para se acomodarem a um meio bem rude, contribuem indiretamente para o progresso; acolá, o mar ou o rio é o agente principal da civilização; mais além, é o contato repentino com povos desconhecidos, de cultura diferente, a causa determinante do avanço.

O cruzamento de um povo já muito avançado na ciência e nas artes com elementos de outra procedência e de cultura inferior é, necessariamente, o ponto de partida de um novo impulso progressivo ou regressivo: viu-se isso no caso de Roma sob a influencia dos gregos e, de forma geral, em todas as tribos do mundo bárbaro que entraram em contato com civilizados.

De qualquer forma, as adaptações diversas dos povos, sempre complicadas com lutas e combates, não devem ser contudo consideradas resultado da guerra contra a natureza ou contra outros homens. Quase sempre ignorando totalmente o sentido da vida, falamos naturalmente do progresso como sendo o resultado da conquista violenta: sem dúvida, a força do músculo sempre acompanha a força da vontade, mas não pode substituí-la. Em linguagem comum empregam-se as palavras luta, vitória, triunfo, como se fosse possível utilizar uma outra vida e não da natureza para conseguir modificar as formas exteriores: é preciso saber acomodar-se a esses fenômenos, aliar-se intimamente a suas energias e associar-se a um número crescente de companheiros que a compreendam para fazer obra permanente.

Mas todas as forças variam de lugar para lugar e de época para época: portanto, foi em vão que os geógrafos tentaram classificar, numa ordem definitiva, a série dos elementos do meio que influem no desenvolvimento de um povo – os fenômenos múltiplos e entrecruzados da vida não se deixam classificar numa ordem metódica. A tarefa já é bem difícil, e só tem valor convencional e de apreciação pessoal quando se trata de um único indivíduo. Evidentemente, este deve procurar “conhecer a si próprio”, como lhe ensinaram e repetiram os filósofos; mas, para se conhecer, é necessário também conhecer as influencias exteriores que o modelaram, estudar a história de seus ascendentes, perscrutar em detalhe os meios anteriores de sua raça, descobrir-se no estado subconsciente, rememorar as palavras ou as ações decisivas que o fizeram escolher, como Hércules, entre os dois, ou melhor, entre os mil caminhos da vida. E quão maiores ainda são as dificuldades de estudo quando o pensamento abarca vastas comunidades, nações inteiras, que até mudaram de nome, de senhores, de fronteiras e de domínios no decorrer do tempo, e que se enganam radicalmente sobre a origem de seus antepassados.

Por isso os historiadores, até mesmo investigadores com Taine, tão notável por sua penetrante sagacidade, limitam-se comumente a descrever os meios e as épocas imediatamente próximas para interpretar os fatos e os caracteres, método parcialmente bom para dar idéias gerais e médias, mas bem perigoso quando se estudam talentos originais, isto é, precisamente aqueles cujo caráter, determinado por elementos distintos dos do meio banal, reage contra o seu ambiente. Tão difíceis são os problemas da História relativos à sucessão dos meios, que comumente são afastados sumariamente, sendo atribuídos a uma pretensa diferença essencial daquilo que se chama as “raças”. Apos ter procurado compreender as influencias imediatas que agem de modo evidente, facilmente atribuem-se todos os outros traços do caráter nacional à raça presumida. Mas o que é de fato a raça, com todas as suas características de estatura, de proporções, de traços, de capacidade craniana, senão o produto dos meios anteriores que multiplicam ao infinito, durante todo o período que decorreu desde o aparecimento dos troncos iniciais do gênero humano? Aquilo que se chama “hereditariedade dos caracteres adquiridos” nada mais é do que essa ação sucessiva dos ambientes. A raça, como o indivíduo, é determinada, mas para isso ela emprega o tempo necessário.

A história da humanidade, no seu conjunto e nas suas partes, só pode pois ser explicada pela adição dos meios aos “juros compostos” durante a sucessão dos séculos; mas, para bem compreender a evolução que foi realizada, é preciso avaliar também em que medida os próprios meios evoluíram, em virtude da transformação geral, e modificaram, em conseqüência, sua ação. Assim, tal montanha, da qual outrora deslizavam longas geleiras para as planícies e cujas formidáveis escarpas ninguém escalava, cessou de ser barreira para o movimento das nações, quando largas gargantas, mal obstruídas pela neve ou até mesmo completamente livres, abriram um caminho entre os picos, e quando vias subterrâneas as atravessaram, percorridas por viaturas ocupadas por ociosos e dorminhocos. Do mesmo modo, tal rio, que era poderoso obstáculo para tribos fracas, inaptas para a navegação, se tornou mais tarde a grande artéria de vida para os canoeiros de suas margens.

À beira do oceano, tal “Finisterra” como o promontório de Sagres se transformou em ponto de partida para a descoberta de continentes desconhecidos. A planície constitui, para o movimento da civilização, um mundo bem diferente quando está recoberta de árvores e ali crescem gramíneas naturais ou há colheitas, e quando as estradas nela se entrecruzam e existem habitações humanas.

O mesmo se pode dizer dos traços da natureza que, sem nada mudarem, não deixam de exercer ação bem diferente, por influência da história geral que modifica o valor relativo de todas as coisas. Assim a forma da Grécia permaneceu a mesma, salvo por alguns detalhes, devidos às erosões e acumulações. Mas esses mesmos contornos e relevos adquiriram um significado bem diferente quando o movimento da civilização se dirigia para a Grécia, vindo de Chipre, da Fenícia, do Egito, ou, mais tarde, quando o centro da gravidade da história de deslocou para Roma! Produziu-se então um contraste dos acontecimentos, comparável ao contraste da luz que se espalha na aurora sobre uma vertente de montanha e da sombra que a invade no crepúsculo. E a vizinhança de uma capital, de um porto, de uma mina ou de uma camada de hulha não fazem surgir a vida da natureza sombria, aparentemente inerte? O próprio desenvolvimento das nações implica essa transformação do meio: o tempo modifica continuamente o espaço.

ANDRADE, Manuel Correia de. Élisée Reclus. São Paulo: ed. Ática, 1985.


Obras de E. Reclus:

La Terre, description des phénomènes de la vie du globe, 2 volumes, 1857;
Géographie universelle (19 volumes), 1875-1894;
L'Afrique australe (em colaboração com seu irmão, Onésime) (Orthez 1837 - Paris 1916), 1901;
L'empire du milieu, id., 1902;
L'home et la terre (6 volumes), 1905-1908;
A Evolução, a Revolução e o Ideal Anarquista;