23 de out de 2012

BANCO DE DADOS DA ESTRUTURA FUNDIÁRIA DO RECÔNCAVO DA GUANABARA SÉCS. XVII E XVIII

Tenho orgulho de ter participado desse projeto. Dessa participação construí as bases sobre as quais, ainda hoje, ergo todo o edifício da minha trajetória acadêmica. Tive muitos mestres nesse caminho. Maurício foi um deles.

Vale conhecer esse trabalho.

http://www.mauricioabreu.com.br/escrituras/search.php

Uma rica fonte de dados para todos aqueles interessados na Geografia Urbana da cidade do Rio de Janeiro.



11 de set de 2012

SEMINÁRIO CONTAMINAÇÃO DE SOLOS: Características e consequências no meio antrópico

O Programa de Posgraduação em Geografia da UFJF está promovendo o SEMINÁRIO CONTAMINAÇÃO DE SOLOS: Características e consequências no meio antrópico.

O evento acontecerá em Juiz de Fora no Anfiteatro I do Instituto de Ciências Humanas / Campus da UFJF, no dia 4 de outubro de 2012.

Mais informações clique aqui.

9 de set de 2012

David Harvey e O Capital

Primeiras cinco aulas sobre “O Capital” de Karl Marx, por David Harvey, com legendas em português

Clicar na barra horizontal inferior em CC e escolher o idioma desejado para a legenda.

Acesse aqui

Fonte: Agência Imediata, 2012. 

FOI ASSIM

Posto vídeo produzido no âmbito da disciplina Laboratório em Áreas de Intervenção do Serviço Social, ministrada pela profa. Cida Cassab, do curso de Serviço Social da UFJF.

Sua postagem pretende reforçar a possibilidade de construirmos outras formas de ver e viver os jovens.


Sobre o "ranking" das Universidades publicado pela Folha

Sinceramente nunca (ou quase nunca) vi uma coisa tão ridícula e desrespeitosa com a Universidade Pública como esse "ranking" inédito recentemente divulgado pela Folha de São Paulo.

Não dá nem para levar a sério uma coisa dessa. Basicamente a metodologia consistiu em perguntar a pesquisadores do CNPq e a figuras do mercado (gerentes de RH de empresas) quais as universidades eles apontariam como a melhor.

Pergunte ao pesquisador classe A do CNPq da USP qual a universidade qu
e ele considera melhor? Pergunte ao gerente de RH de uma empresa de Belo Horizonte, qual ele considera melhor? Será que essas figuras conhecem a existência e a qualidade de universidades que estão fora do eixo do Sul Maravilha?

Mas não apenas isso. Será que podemos comparar kibe com Kiwi? Como vamos avaliar sobre os mesmos critérios universidades já consolidadas com aquelas ainda em processo de consolidação ou mesmo novíssimas universidades? Ou ainda, como vamos comparar universidades que tem acesso a maiores e melhores investimentos em pesquisa, ensino e extensão com aquelas que não tem?

Será uma tremenda coincidência que a maioria das universidades no topo do "ranking" esteja localizada no Sul-Sudeste?

Ainda, será coincidência que esse "ranking" apareça agora, quando da maior greve do ensino superior federal?

Esse "ranking" apenas reflete o que tem sido a intenção e o projeto de universidade desse país. Um pequeno número de universidades onde residem um número ainda menor de intelectuais de ponta. Esses sim com acesso e incentivos reais. Definidos por critérios de avaliação fundamentados em princípios produtivistas, competitivos e de mercado.

E as demais? São apenas as OUTRAS. Se transformam em "escolões" para garantirem o mínimo de acesso ao ensino superior. Apenas isso.

Surpreende alguém levar isso a sério!

6 de set de 2012

EM DEFESA DOS JOVENS E DAS JUVENTUDES

EM DEFESA DOS JOVENS E DAS JUVENTUDES

Ontem, dia 05 de setembro de 2012, foi vinculada no MGTV a reportagem “Ocorrências envolvendo jovens são cada vez mais frequentes em Juiz de Fora, MG” (http://g1.globo.com/videos/minas-gerais/triangulo-mineiro/mgtv-2edicao/t/zona-da-mata-e-vertentes/v/ocorrencias-envolvendo-jovens-sao-cada-vez-mais-frequentes-em-juiz-de-fora-mg/2124992/). Cheia de preconceitos, senso comum e ódio em relação aos jovens.

A violência é atribuída única e exclusivamente ao jovem e a sua índole naturalmente violenta. Ou então se culpa a família. Diz o PM: “quando se tem uma família bem estruturada, com educação, com imposição de limites, com imposição de respeito às autoridades e a comunidade de uma forma geral, isso tende a ser evitado”. E completa sentenciando e ao mesmo tempo apontando o culpado: “Então, a questão familiar é um dos problemas maiores”. A solução? Os programas da PM que ensinam a importância de estar longe das drogas e, principalmente, o respeito às autoridades.

Posição também defendida pelo Secretário Geral da OAB que nos ensina: “concordamos que o problema vem da família, (…) mas precisamos também de uma polícia militar mais ostensiva. (…) e de uma polícia civil com mais policiamentos, para que possa investigar esses crimes, esses delitos”. E completa: “porque o problema é da família, mas é também do tráfico de drogas”.

E a repórter dá sua opinião de autoridade. “A família também é importante”. Claro, lembra o secretário da OAB: “Precisamos mexer com o pessoal da igreja católica, com os pastores, os evangélicos (…)”.

As autoridades nos apresentam os culpados: a família, o tráfico e o próprio jovem. E também nos apresentam a solução: ensinar aos jovens a rezar e o respeito à autoridade, além do policiamento ostensivo, de programas para retirarem os jovens das ruas, da punição exemplar para amedrontar os outros “menores”.

Infelizmente não posso dizer que tais falas tenham me surpreendido (embora ainda me indignem). Não é de hoje que tal discurso vem sendo reproduzido e difundido. Frequentemente são os jovens pensados como atores sem identidades, vontades, desejos e ações próprias. Nessa interpretação, são definidos pela ausência e pelo que não seriam. Sujeitos que precisam de constante vigilância, controle e tutela para que não se pervertam ou não se percam no mundo das drogas ou do crime.

Discurso que esquece sua real inserção socioeconômica. Sujeitos que experimentam um mundo cada vez mais marcado pela falta de horizontes profissionais, pelas altas taxas de desemprego, pela falta de equipamentos socioculturais, de acesso a uma educação de qualidade. Enfim, restrições materiais e simbólicas vividas cotidianamente pelos jovens pobres das cidades.

Não é possível falar dos jovens urbanos sem pensar nas suas condições de vida, suas atuais e futuras oportunidades e nos sonhos passíveis de se realizarem nessa cidade. Dividindo-se entre a necessidade de estudar e trabalhar, em querer ter lazer e não ter acesso a ele, de querer acompanhar a velocidade do mundo digital e não ter acesso a um computador, esse jovens vivem cotidianamente a cidade sem a ela pertencerem de fato.

A todas essas dificuldades se acresce uma posição cada vez mais intolerante e julgadora dos comportamentos e diferenças desses jovens, que são sistematicamente associados à ideia de violência e delinquência. São os jovens, especialmente quando pobres e negros e da periferia, os sujeitos perigosos. Sua reunião pelas ruas e seu movimento pela cidade, seja na busca de lazer ou mesmo na procura de emprego, é visto como potencialmente perigosa. A ocupação da cidade pelos jovens só é tolerada dentro dos limites da ordem imposta pelos adultos, o que significa de forma disciplinada, preferencialmente sozinhos e restrita a determinados bairros.

Sua invisibilidade manifesta à ausência de direitos corporificados por esses sujeitos. Presos em sua condição de desigualdade eles produzem e reproduzem sua condição de seres desiguais socioespacialmente.

“Analises” como as divulgadas por essa matéria desconsideram, por exemplo, que morar em um bairro periférico significa vivenciar de forma intensa as refrações da questão social geradas pelo capitalismo contemporâneo e que a dinâmica socioespacial interfere nas experiências socioculturais e nas interações que os jovens realizam com o outro.

Presos em seus bairros de origem, confinados no acesso aos bens materiais e simbólicos presentes na cidade, imersos em situações precárias de trabalho, alvo de políticas de contenção, vítimas da violência, os jovens pobres de nossas cidades tem sua existência cada vez mais presentificada.

Reportagens como essas, pretensamente informativas, apenas acirram o ódio e o preconceito sobre esses jovens, naturalizando sua condição desigual, negando ou limitando a estes jovens seu presente e seu futuro.

O desafio está em reconhece-los como sujeitos cujo movimento descortina estratégias que pretendem superar os limites impostos a eles e que afirmam sua visibilidade e sua presença na cidade como seres políticos. É dessa forma, portanto, que se crê ser possível pensar a juventude e a cidade como categorias políticas superando as leituras que tratam a primeira como abstração e a segunda como objeto.

Obrigando-nos a pensar a dimensão política da cidade, a cidade como polis, como dimensão espacial da cidadania. E os jovens como sujeitos. O que, evidentemente, nos força a pensar como a cidade pode ser espaço de convivência, de troca, de celebração a diferença. Espaço material e simbólico para e na construção de estratégias que projetam um presente e um futuro possível a esses jovens.

É mais do que hora de reconhecermos o quinhão de responsabilidade que temos com esses jovens. Somente assim, podemos nos reconhecer como sendo de fato, uma sociedade.


Juiz de Fora, 06 de setembro de 2012

Clarice Cassab

Profa. do curso de Geografia da UFJF
Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Geografia, Espaço e Ação

27 de mai de 2012

EDUCA, DILMA!

"(...) não se pode estabelecer com o professor uma relação de atrito quando o professor pede melhores salários, recebê-los com cassetete ou interromper o diálogo. O diálogo é fundamental no respeito a essa profissão".

Fala da atual presidente durante debate eleitoral.

A fala completa pode ser escutada aqui: https://www.youtube.com/watch?v=5ThtUMN39K8&feature=player_embedded

EDUCA, DILMA!

Se recusar a negociar com os sindicatos, fingir que a greve não está acontecendo, que não atinge mais de 44 IFES, que estudantes de diferentes universidades não estão entrando em greve em apoio ao movimento docente, que reitorias não estão divulgando o apoio ao movimento, chamar os professores de irresponsáveis e a greve de precipitada, não é valorizar os professores e a educação. Queremos respeito e valorização do nosso trabalho!


Professores em greve, professores em luta!

21 de mai de 2012

Sobre a greve dos professores/as das IFES

Reproduzo aqui nota da professora da Faculdade de Educação da UFRJ. São questões que precisam ser pensadas e respondidas por cada um de nós e por todos nós.

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 Faz quase três anos que ingressei como professora do quadro efetivo da UFRJ. Considero-me uma professora novata e essa é a primeira vez que irei enfrentar um período de greve, agora ocupando um novo lugar social. Essa também é a primeira vez que quase a totalidade de nossos alunos irá encarar uma greve. Com esse relato, que compartilho com vocês colegas, procuro narrar e, dessa forma, tentar organizar algumas das reflexões e sentimentos diante dessa nova experiência. Minha intenção é principalmente buscar apoio e, quem sabe, oferecer algum para o enfrentamento dessa greve que se configura. Hoje, em minha trajetória recente como professora da UFRJ, o que tenho observado são os espaços coletivos de luta esvaziados, como as assembleias organizadas pelo nosso sindicato. Em uma universidade que enfrenta um evidente processo de renovação de seus quadros, sempre me pergunto porque tantos dos meus colegas, que considero grandes professores e pesquisadores, não estão ai, porque eu mesma não me sinto motivada a participar de forma mais orgânica e quais serão as consequências desse hiato para o futuro da universidade. Será que o espaço do coletivo sindical na universidade parece não ser valorizado por conta do volume de trabalho que somos obrigados a dar conta? Pela lógica produtivista que cada vez mais orienta nosso trabalho? Em função das formas operantes muitas vezes acusadas de caducas de nossos dirigentes sindicais? De nossa relação com o trabalho como uma esfera de atuação e realização individual e imediata e não como produção social e histórica? Em função de nossa crença na importância do conhecimento e no valor de nossas pesquisas que nos impele a acreditar que a defesa pela universidade pública se faz eminentemente na cotidianidade de nossas ações engajadas e compromissadas com a pesquisa? Por que não nos reconhecemos como trabalhadores que precisam enfrentar as forças de exploração do sistema capitalista? Por que nosso compromisso com o futuro e com o outro está relegado apenas ao plano do discurso?
Vejo que na atualidade enfrentamos, no trabalho na universidade, muitas dificuldades, todavia, considero que esse quadro poderia ainda ser mais severo se não fosse a resistência de professores organizados em um coletivo durante o período FHC. Como aluna da UFRJ, que fui durante a gestão PSDB, recordo-me, por exemplo, do quanto eram escassas ou ausentes bolsas e editais para pesquisa e extensão. Como eram carentes às políticas de auxílio estudantil. Da ausência de concursos públicos, do arroxo salarial dos professores e das greves frequentes e longas dos docentes na luta por salários dignos e melhores condições de trabalho. A universidade de hoje não é resultado apenas da ação de governantes (mais sensíveis ou menos a importância da universidade pública de qualidade e democrática), mas da luta política entre os atores sociais. Assim, a luta empreendida por um coletivo organizado não pode ser invisibilizada, desqualificada ou mitificada, mas deve configurar-se como objeto de reflexão crítica. Afinal, se acreditamos que é nesse espaço coletivo que temos mais força de resistência e de ação, parece que o momento histórico exige a reflexão acerca do porque do seu enfraquecimento e do que é preciso fazer para reverter esse quadro. Como cultivar as sensibilidades a seu favor? Acredito que a defesa pela carreira docente e pela universidade pública se realiza, sim, no nosso trabalho individual ancorado no compromisso com nossas ações de ensino, pesquisa, extensão e administração, mas também no reconhecimento de que as condições de realização dessas ações não são dadas e nem naturais, pelo contrário, são objetos de luta política. Apesar de considerar pertinentes e legítimas, não me parece prudente apoiarmos nossas posições favoráveis ou contrárias à greve no plano de nossas questões individuais. É inexorável que a defesa pela universidade pública, de qualidade e democrática nos exija sacríficos pessoais em alguma medida. Em função disso, também, é tão importante que não nos sentemos sozinhos, que não estejamos isolados, que não permaneçamos calados.

Mariana Cassab
(Professora da Faculdade de Educação da UFRJ)

13 de mai de 2012

Chamada aberta para publicação

DIVULGANDO:


"Será lançada, no segundo semestre de 2012, a Revista Élisée, publicação editorada pela Universidade Estadual de Goiás. O nome da revista foi escolhido em homenagem a Élisée Reclus (1830-1905), importante nome na história do pensamento geográfico. Sua política editorial foi elaborada seguindo os padrões Capes de qualidade para periódicos e tem com principal objetivo ser mais um meio de divulgação da produção acadêmico-científica das diferentes áreas da Geografia, além de possibilitar uma ampla divulgação dos materiais publicados, para isso contamos com um conselho editorial e científico formado por renomados professores e pesquisadores em âmbito nacional e internacional".  

8 de mai de 2012

Entrevista: Bertha Becker

ENTREVISTA COM A PROFA. BERTHA BECKER
Originalmente publicada em: http://oglobo.globo.com/blogs/razaosocial
Em 27 de abril de 2012


Há mais de 40 anos, a geógrafa Bertha Becker viaja para realizar pesquisas na Amazônia. Professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ela conhece a região na palma da mão a ponto de ser consultora do governo federal para os temas relativos ao bioma. Por isso mesmo, foi convidada para ser debatedora em dos painéis da programação oficial da Rio + 20. Vai falar sobre florestas, assunto que escolheu como objeto de pesquisa em 1970 quando pisou pela primeira vez na Floresta Amazônica. Nesta entrevista ela faz uma crítica ao Rascunho Zero. Diz que ele favorece a iniciativa privada e não aborda como o atual sistema econômico gera problemas ambientais sério, como a perda da biodiversidade. Ela também faz uma crítica ao termo Economia Verde, por ser genérico demais.

A senhora faz uma crítica ao Rascunho Zero, documento preparatório das Organização das Nações Unidas (ONU) para a Rio + 20. Por que?

BERTHA BECKER - O texto defende a mercantilização da natureza. É a lógica capitalista transposta para a natureza. Teremos mais um mercado, dos produtos e serviços da natureza, mas não vamos discutir novas formas de desenvolvimento. É mais uma tentativa para sair da crise econômica e não um novo mecanismo de desenvolvimento, mais responsável, como precisamos. Também acho que o rascunho não aborda, por exemplo, de que forma o atual sistema econômico gera problemas ambientais, como a destruição da biodiversidade. Temos que debater isto para criar novos mecanismos de desenvolvimento. O documento fortalece a iniciativa privada. Favorece a criação, por exemplo, de mercados de carbono e não trata de sistemas de regulação. Nós precisamos da iniciativa privada, mas não podemos ficar submetidos a ela. Porque favorecer a criação de mercados de carbono privados e não criar bolsas de carbono nos estados reguladas pelo poder público? Imgine Manaus com uma bolsa de carbono? É importante favorecer a iniciativa privada, mas a Ciência e o Estado devem estar também a serviço de um novo modelo de desenvolvimento.

A senhora também faz críticas ao conceito de Economia Verde, não é?

BERTHA BECKER - Sim. O que é Economia Verde? Como se pode falar em apenas uma Economia Verde. O que é bom para a Europa não é bom para o Brasil. São muitas Economias Verdes, pois as realidades dos países são diferentes. O termo é genérico demais e não dá conta das diferenças regionais. Também não entendo a associação de Economia Verde com redução de pobreza, pois como já disse ela (a Economia Verde) se baseia na lógica capitalista de produção que promove exclusão. Não sei, por exemplo, como a venda de créditos de carbono por empresas privadas pode ajudar a reduzir a pobreza. Esta relação para mim não é clara.

O que seria Economia Verde para a realidade brasileira?

BERTHA BECKER - Somos um país que desperdiça. Desperdiçamos recursos naturais, alimentos, energia. Desmatamos mais do que devíamos e do que podíamos. E exportamos sem agregar valor aos produtos. De modo que Economia Verde para o Brasil significa reduzir o desperdício, como, por exemplo, investir em eficiência energética; reduzir o desmatamento, criando uma indústria madeireira responsável; e criar indústrias de beneficiamento para os produtos e não mais exportá-los in natura, o que geraria empregos.

O que está em jogo, hoje, na Rio + 20?

BERTHA BECKER - Durante a ECO 92 o que estava em jogo era a preservação da Amazônia. Era uma questão internacional. Hoje são muitos os problemas. Há os países insulares que vão sofrer com o auamento do nível do mar. Há a questão da distribuição de alimentos. No Brasil, temos que vencer a luta contra a pobreza, combater o desmatamento, criar uma indústria de beneficiamento, ter um olhar atento para a classe C, que acaba de ascender a condição de consumidor.  Enfim, são muitas as questões em jogo na Rio + 20.

1 de mai de 2012

Dia Internacional do Trabalhador

 1º de Maio 

Em primeiro de maio de 1886, no bairro de Heymarket, em Chicago - EUA, milhares de trabalhadores foram as ruas lutarem por melhores condições de trabalho, dentre elas, pela redução da jornada para 8 horas semanais. A manifestação foi acompanhada por uma grande greve geral e dias sucessivos de luta e confronto com a polícia, resultando na morte de 12 trabalhadores e o julgamento e de alguns dos líderes do movimento. 

Em 9 de outubro foi dada a sentença: Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados à morte na forca; Fieldem e Schwab, à prisão perpétua e Neeb a quinze anos de prisão.

Em 1889, pela realização da Segunda Internacional Socialista o 1º de maio ficou definido como sendo o Dia Internacional do Trabalhador.

E neste dia não celebramos o trabalho - menos ainda a este trabalho alienante que diariamente realizamos - nem mesmo ao trabalhador - este sujeito amorfo e apolitico que tentam nos vernder - mas sim a luta dos trabalhadores. Estes sim, sujeitos políticos que realizam um trabalho transformador. Trabalho que é "antes de tudo um processo entre o homem e a natureza, um processo no qual o homem por sua atividade realiza, regula e controla suas trocas com a natureza. Ele põe em movimento as forças naturais que pertencem à sua natureza corporal, braços e pernas, cabeças e mãos, para se apropriar das substanciais naturais sob uma forma utilizável para sua própria vida. Agindo assim, por seus movimentos sobre a natureza exterior e transformando-a, o homem transforma ao mesmo tempo a sua natureza” (K. Marx).

Sendo assim: "Viva nós, trabalhadores e sua luta!"


Trechos das falas de Spies e Parsons quando de seu julgamento:


"Se com o nosso enforcamento vocês pensam em destruir o movimento operário - este movimento de milhões de seres humilhados, que sofrem na pobreza e na miséria, esperam a redenção – se esta é sua opinião, enforquem-nos. Aqui terão apagado uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não poderão apagá-lo!" (Spies)

"Arrebenta a tua necessidade e o teu medo de ser escravo, o pão é a liberdade, a liberdade é o pão".

"A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos, o monopólio das mesmas, eis aquilo contra o que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, que todas as forças sociais, que essa força gigantesca, produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas, sejam postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este e não outro é o objetivo do socialismo" (Parson)

Geografia em quadrinhos




10 de abr de 2012

Evento: Seminário de História da Cidade e do Urbanismo

XII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo.

O evento acontecerá em Porto Alegre entre os dias 15 a 18 de Outubro.

Este ano o tema do Seminário será  A CIRCULAÇÃO DAS IDEIAS NA CONSTRUÇÃO DA CIDADE: UMA VIA DE MÃO DUPLA

Maiores informações no site

Estrutura Fundiária do Recôncavo da Guanabara - Banco de dados da pesquisa do Prof. Maurício de Almeida Abreu

Uma linda homenagem ao prof. Mauricio Abreu. Mas mais do que isso. Um banco de dados de uma vida inteira de pesquisa. Importantíssimo para quem estuda o processo de formação e evolução da cidade do Rio de Janeiro.

Fica a dica e a sugestão.

Maurício de Almeida Abreu

3 de abr de 2012

Resenha: Pelo Espaço

 Resenha publicada na Revista Formação, n.15 volume 1 – p.162-166,

 
MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2008. 312 p.

Nécio TURRA NETO*

 * Professor do Departamento de Geografia da UNICENTRO/Guarapuava-PR e Doutorando em Geografia pela UNESP/Presidente Prudente. Email: turraneto@yahoo.com.br.



Doreen Massey é uma autora que conhecemos apenas por alguns poucos artigos traduzidos para o português e publicados no Brasil. Finalmente, chega a tradução deste livro, Pelo Espaço, trabalho acompanhado por Rogério Haesbaert, que também faz a apresentação ao público brasileiro da autora, da sua obra e deste livro em especial.

É possível identificar facilmente no livro as idéias já esboçadas nesses conhecidos artigos, como: “Um Sentido Global do Lugar”, publicado no livro “Espaço e Diferença”; “Pensamentos Itinerantes”, publicado recentemente na Revista Terra Livre, n. 27 e, sobretudo, o artigo “Filosofia e Política da Espacialidade: algumas considerações”, publicado na Revista GEOgraphia, n. 6, da UFF. A leitura prévia destes textos contribui muito para um mergulho mais seguro no livro, visto que este parece estender e melhor fundamentar todos aqueles, inserindo-os e articulando-os dentro de um mesmo quadro teórico-conceitual.

O livro é dividido em cinco partes e em quinze capítulos, além de algumas inserções provocativas que ela chama de “Confiar na ciência? 1;... 2; ... 3”, nas quais Massey procura articular as imaginações sobre espaço no quadro de referências mais amplas do pensamento científico e suas transformações. Nesses pontos, a autora apresenta uma releitura de conhecidas associações (como a associação entre a imaginação de espaço da modernidade e a física Newtoniana) e questiona outras (como a euforia de pesquisadoras e pesquisadores diante das teorias da complexidade, para falarem de acaso e indeterminação do espaço).

O propósito central do livro é construir uma nova imaginação (e essa é a expressão da própria autora) de espaço, diferente daquelas construídas no pensamento Ocidental durante a modernidade – mas também agora, na pós-modernidade –, que sempre o viram como morto, fixo, atemporal. Retirado desse quadro conceitual que o associava a tudo que é estático, o espaço em Massey é pensado a partir de um outro conjunto de idéias, como inter-relação, contemporaneidade dinâmica, abertura radical, heterogeneidade.

Já na parte um (Proposições Iniciais), a autora apresenta sua proposta alternativa para conceituar espaço, em que ele é visto como “produto de inter-relações”, como “esfera da possibilidade de existência da multiplicidade”, e como sempre em construção e, portanto, aberto, inacabado. Para Massey, pensar o espaço dessa forma é muito mais do que afirmar que o espacial é político, é abrir a Geografia e a discussão espacial em direção a um diálogo com as principais vertentes da política progressista contemporânea, como as teorias feministas e queer e as teorias pós-coloniais. O que é um alívio para nós, geógrafos e geógrafas, acostumadas a ver essas discussões presentes apenas em outros campos das Ciências Sociais, como Antropologia, Educação, Sociologia... Assim, o livro de Massey pode nos oferecer uma bússola, uma referência da própria Geografia, para nos guiar no quadro desse debate teórico-político.

Para exemplificar essas articulações, vale a pena acompanhar um pouco do argumento da autora, para quem sua concepção de espaço dialoga bem com uma política antiessencialista em questões de identidade de grupos sociais e de lugares, enfatizando sua construção relacional. Emerge daí a questão da Geografia das relações na construção dessas identidades, pois o espaço é produto de inter-relações e elas só podem existir num espaço de multiplicidade, onde não há nada dado de forma definitiva.

Essa idéia do espaço como esfera de possibilidade da existência da multiplicidade articula-se com a idéia política que salienta a diferença e a heterogeneidade. Uma política que questiona as narrativas do Ocidente, do masculino e do branco.

Inspirando-se nas teorias pós-coloniais, a autora defende o reconhecimento da contamporaneidade de múltiplas trajetórias históricas, em substituição à idéia de uma única história universal, que colocou todas as diferenças numa mesma linha do tempo. Para ela, reconhecer a heterogeneidade e a multiplicidade à sério, só é possível pela consideração da espacialidade, que é a esfera que permite a contemporaneidade radical da diversidade e as suas relações. Trata-se de reconhecer a coexistência de outros, com trajetórias históricas próprias; trajetórias que se cruzam, se conectam e se desconectam, formando assim o espaço a partir dessas relações.

Por fim, imaginar o espaço como aberto e em processo, articula-se com a idéia política de abertura do futuro. O contraponto aqui é a idéia moderna de progresso, na qual o desenvolvimento histórico já estaria com o trajeto traçado e o destino acertado. Não só a história, mas também o espaço é aberto, pois há ainda muitas combinações relacionais possíveis a serem feitas. Nesse sentido, “conceituar o espaço como aberto, múltiplo e relacional, não acabado sempre em devir, é um pré-requisito para que a história seja aberta e, assim, um pré-requisito, também, para a possibilidade da política” (p. 95).

Há uma “pluralidade de trajetórias, uma simultaneidade de estórias-até-agora” (p. 33), cujas conexões são sempre cambiantes e conjunturais, o que faz com que o próprio lugar se forme como um feixe dessas articulações, um aqui-agora em que se encontram diversas trajetórias. O lugar seria, assim, também uma eventualidade, sempre aberto a novas conexões, desconexões...

Na parte dois do livro (Associações Pouco Promissoras), Massey apresenta algumas filosofias que, ao discutirem o tempo, acabaram definindo espaço. São as filosofias de Bergson, o estruturalismo e o desconstrucionismo Derridiano. Em todas essas filosofias, o espaço é visto como dissociado e oposto ao tempo; ele é o reino da fixação, da estase, do que precisa ser superado para o movimento libertador do tempo e da história.

Essa imaginação de espaço é amplamente criticada pela autora. Mas, como entende que espaço e tempo, apesar de distintos, são indissociáveis, Massey se apropria de algumas idéias dessas filosofias sobre o tempo (liberdade, desarticulação, surpresa), como características que também devem ser atribuídas ao espaço, reformulando o entendimento de ambos, por sua constituição conjunta.

Se o tempo se revela como mudança, então o espaço se revela como interação. Neste sentido, o espaço é a dimensão social não no sentido da sociabilidade exclusivamente humana, mas no sentido do envolvimento dentro de uma multiplicidade. Trata-se da esfera da produção contínua e da reconfiguração da heterogeneidade, sob todas as suas formas – diversidade, subordinação, interesses conflitantes. À medida que o debate se desenvolve, o que começa a ser focalizado é o que isso deve trazer à tona: uma política relacional para um espaço relacional (p. 97/98).

Mudança requer interação, e essa requer espaço. Assim, a multiplicidade é fundamental para a geração da temporalidade, para haver multiplicidade tem que ocorrer espaço. Assim, o espaço nos oferece a possibilidade da história.

A parte três do livro é uma pergunta: “Vivendo em Tempos Espaciais?”. Nela, a preocupação da autora continua sendo a “desconstrução” de imaginações “pouco promissoras” e tendencialmente conservadoras de espaço, surgidas em tempos de globalização.

As teorias pós-coloniais informam-na em sua reconstrução da espacialidade da modernidade. Dentro da imaginação moderna, sociedades, comunidades, nações, eram tidas como tendo relações com espaços delimitados, internamente coerentes e diferenciados uns dos outros pela separação. Para Massey, essa foi uma forma de imaginar o espaço que, mais do que representar a realidade como um espelho, serviu para construí-la. Assim, a modernidade viu a forma do Estadonação ser difundida, todo o espaço ser dividido/regionalizado e as sociedades localizadas, com mitos de origem telúrica e de coerência interna, com fronteiras tidas como intransponíveis.

É essa imaginação de espaço que também hoje é reavivada em muitos movimentos contrários à globalização, reclamando a perda das “velhas coerências espaciais”, numa espécie de “nostalgia por uma coisa que nunca existiu”; movimentos aprisionados à uma visão reacionária do lugar como fechado, coerente, com uma história construída a partir de dentro.

O argumento forte dessa parte (Capítulo 6) é que as especificidades no espaço resultam muito mais do contato, do que do isolamento espacial. Nesse sentido, o lugar deve ser pensado também como produto de inter-relações, de forma que não há um ponto de partida original a ser recuperado, uma posição que seja anterior à relação. Argumento que já se encontra esboçado no artigo “Um sentido global do lugar”.

Também na parte três, Massey questiona o discurso da instantaneidade em tempos de globalização, que forja uma imagem de espaço como pura horizontalidade, sem profundidade. Nessa imaginação, o temporal é oposto à conectividade instantânea do espaço global, como se os elementos em contato não fossem eles mesmos portadores de história. A figura central das críticas é Jameson e sua idéia de “presente perpétuo”, pela qual viveríamos agora na era do espaço, um espaço que é sem tempo. Também problematiza os discursos que hoje falam da vitória do espaço sobre o tempo e, ao mesmo tempo, do seu aniquilamento. A lógica é a passagem de uma imaginação moderna para uma pós-moderna, em que o espaço visto como um “mundo de lugares” delimitados é tido agora como “mundo de fluxos”.

Na modernidade, os espaços separados eram colocados numa mesma linha histórica. A preocupação era com o tempo, com o progresso dos “atrasados”. Na pós-modernidade, a globalização, o espaço de fluxos, a ampliação da conexão entre os lugares (que seria a vitória do espaço sobre o tempo, ou do tempo pelo espaço, dependendo do autor que se considere), apagou as diferenças históricas, colocando todos no mesmo presente. Aqui também trata-se de um espaço sem tempo. Uma simultaneidade estática em que a liberdade de futuro é também aniquilada. Para Massey é fundamental que reconheçamos a multiplicidade de estórias-até-então, e que, na verdade, o que está sendo conectado, não são elementos estáticos, mas trajetórias históricas em processo que, por isso, articulam-se agora, mas podem seguir suas trajetórias e desarticularem-se adiante.

Nesse ponto, retoma mais uma vez o argumento pós-colonial. A história Ocidental de conquista da Europa dos outros continentes e povos dispõem o tempo como uma linha única que articulou os outros que estavam lá, parados a espera desse acontecimento. Os outros não são vistos como portadores de histórias próprias e esse contato não é visto como um encontro entre diferentes trajetórias. As diferenças espaço-temporais são reduzidas a diferenças no tempo de uma mesma história, a história da Europa. Fecha-se assim, a possibilidade de construção de histórias alternativas.

Na época atual, também a diversidade espacial é reduzida a uma diferença temporal, ou seja, a Geografia mais uma vez é reduzida à História. Quando se fala da inevitabilidade da globalização, e de que todos os povos vivem num mesmo mundo de presente, temos também uma negação da abertura da história. A atenção com esses discursos não deve ser apenas no sentido de que eles não espelham a realidade, mas também com o fato de que a realidade a partir deles está sendo assim construída.

A parte três se encerra com um capítulo no qual Massey rechaça o discurso da aniquilação do espaço pelo tempo, novamente chamando a atenção para a indissociabilidade de ambos, e outro capítulo em que começa a esboçar alternativas à essa imaginação. Para ela, mesmo no que se refere ao ciberespaço, a questão central “[...] não é se o espaço será aniquilado ou  não, mas que tipo de multiplicidades (padrões de unicidade) e relações serão co-construídas com esses novos tipos de configurações espaciais” (p. 139).

As partes quatro e cinco, respectivamente, “Reorientações” e “Uma Política Relacional do Espacial”, são os momentos em que a autora, dando por encerrada a sua “desconstrução” das problemáticas imaginações de espaço, aprofunda seu trabalho de (re)construção de uma imaginação alternativa do espaço, com vistas a chamar a atenção para o desafio político que ele nos coloca.

 Na parte quatro também podemos encontrar, de forma concentrada, sua discussão sobre o conceito de lugar, que é um importante terreno para a política. “[...] O que é especial sobre o lugar é, precisamente, esse acabar-juntos, o inevitável desafio de negociar um aqui-e-agora [...]” (p. 203). Uma negociação que deve acontecer não só entre os humanos, mas também entre esses e aquilo que no lugar é o não-humano, a natureza. Uma ponte promissora com a Geologia é realizada em algumas partes do livro, em que as próprias trajetórias da natureza se encontram com as múltiplas trajetórias humanas, para formar espaço e lugar.

O lugar, assim, é compreendido como um encontro de trajetórias em processo (naturais e humanas). Um encontro que não é definitivo, mas conjuntural e que o movimento pode conduzir à dispersão, à novas conexões e desconexões. As trajetórias em processo que se encontram no aquiagora vão se contaminar, uma passando a fazer parte da constituição da outra, mas nunca vão chegar a formar um todo coerente e estável, mesmo porque, o lugar nunca é fechado ao que vem da sua relação com outros lugares. A abertura para a política não poderia ser mais explícita, no sentido em que somos forçados a reconhecer que o aqui-agora é sem precedentes na história e está totalmente aberto ao futuro. Daí a nossa “responsabilidade”.

Para a autora,

[...] todas as negociações de lugar acontecem no movimento entre identidades que estão se movendo. Significa, também, [...] que qualquer política que apreenda as trajetórias em pontos diferentes está tentando articular ritmos que pulsam em diferentes compassos. Este é outro aspecto do caráter elusivo do lugar que torna a política tão difícil (p. 225).

O lugar para Massey não é entendido, como normalmente se encontra nos discursos contrários à globalização, como uma vítima de processos globais, mas como também implicado nos processos de produção do mundo (capítulo 10). Assim, é preciso contextualizá-lo no quadro das geometrias de poder globais em que cada lugar ocupa posição diferenciada, antes de sair em defesa do local contra o global.

Dizer que o local participa da construção do global significa que políticas locais referendam as políticas e práticas produzidas pelos agentes da globalização. Não se pode defender o local contra o global simplesmente, mas procurar alterar os efeitos e mecanismos do próprio global localmente. Essa é uma questão da responsabilidade do local pelo global. Mas, tanto as possibilidades de intervenção, quanto sua natureza e potencial variam também de acordo com a posição relacional de cada lugar.

A maior parte da literatura de defesa do lugar vem do Sul e isso não é por acaso, pois ali a globalização parece chegar com força avassaladora [talvez nesse contexto pudéssemos situar inclusive a discussão de lugar apresentada por M. Santos (2002)]. Mas em outros pontos, pode ser que uma defesa do lugar não seja politicamente defensável.

Levar a sério a construção relacional de espaço e lugar significa considera o contexto em que as relações se dão, para aí pensar nas desiguais articulações de cada lugar em particular  dentro das geometrias de poder. Não há regra única a ser seguida.

A relação local com o global irá variar e, em conseqüência, também irão variar as coordenadas de qualquer política local com potencial de desafiar a globalização. Sem dúvida, argumentar pela defesa do lugar, de uma maneira indiferenciada, significa, de fato, manter [...] [a] associação do local com o bom e o vulnerável [...] (p. 153).

Para ela (Capítulo 14), o debate não deveria ser colocado em termos de “formas espaciais abstratas” (lugar fechado/espaço aberto; lugar concreto, espaço abstrato), o que seria cair no “fetichismo espacial”, mas sempre considerar as relações pelas quais a abertura ou o fechamento são constituídos como estratégias móveis das relações (também móveis) de poder. Nesse sentido, é preciso considerar o contexto e o conteúdo, mais que formas abstratas estabelecidas a priori.

Como últimas palavras do livro, a autora apresenta o que poderíamos entender como uma definição de espaço, que sintetiza um pouco o seu argumento: O espaço é tão desafiador quanto o tempo. Nem o espaço nem o lugar podem fornecer um refúgio em relação ao mundo. Se o tempo nos apresenta as oportunidades de mudança e (como alguns perceberiam) o terror da morte, então o espaço nos apresenta o social em seu mais amplo sentido: o desafio de nossa interrelacionalidade constitutiva – e, assim, a nossa implicação coletiva nos resultados dessa inter-relacionalidade, a contemporaneidade radical de uma multiplicidade de outros, humanos e não-humanos, em processo, e o projeto sempre específico e em processo das práticas através das quais essa sociabilidade está sendo configurada (p. 274).

Esperamos, com essas poucas palavras, ter dado conta da complexidade do pensamento de Massey e estimular outros/as colegas da Geografia a conhecerem o pensamento dessa geógrafa, abrindo-se assim também para outras referências da Geografia anglo-saxônica, cuja produção tem estimulado um repensar da própria Geografia e do conceito de espaço.

O livro de Massey, além disso, permite importantes interlocuções com autores brasileiros, tensionando-os e enriquecendo-os. O próprio Haesbaert sugere uma aproximação do seu conceito de multiterritorialidade com o conceito de lugar de Massey. Também é possível vislumbrar diálogos com o pensamento de Milton Santos, sobretudo no que se refere à sua ontologia do espaço, a sua proposta de método e ao seu debate sobre o lugar, apresentados no livro “A Natureza do Espaço...”.

REFERÊNCIAS CITADAS:

MASSEY, D. Pensamentos Itinerantes. Terra Livre, São Paulo, ano 22, v. 2, n. 27, p. 93 – 100, jul./dez.
2006.
__________. Filosofia e política da espacialidade: algumas considerações. GEOgraphia, Rio de Janeiro,
ano6, n. 12, p. 7 – 23, 2004.
__________. Um sentido global do lugar. In: ARANTES, A. A. (org.). O espaço da diferença. Campinas:
Papirus, 2000. p. 176 – 185.
SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: EDUSP, 2002.

16 de mar de 2012

Homenagem ao prof. Aziz Ab' Saber

Registro aqui minha homenagem ao professor e geógrafo Aziz Ab´Saber, falecido na manhã de hoje. A Geografia perde, o mundo perde.
 


ENTREVISTA COM AZIZ AB'SABER
Questão hídrica: necessidade de estudos e soluções mais eficazes

Geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, autor de diversas teorias e projetos inovadores na geografia brasileira, tendo recebido o Prêmio Santista e o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, oferecido pelo CNPq, o prof. Aziz Ab'Saber demonstra grande preocupação com meio ambiente.

Em abril deste ano, Ab'Saber declarou que a frase mais triste que já ouviu ao longo de sua vida foi "Mãe, nós não temos mais nada nesse mundo". A frase foi proferida por uma criança para sua mãe, cujo barraco havia desmoronado após um temporal. À época, o professor afirmou que gostaria de repetir tal frase a FHC, ACM, Covas e outros políticos no poder. "As autoridades têm que aprender a complexidade do metabolismo urbano para dar uma solução à cidade", disse. Ab'Saber referia-se a conhecimentos básicos, como quantidades de lixo e esgoto produzidas pela população.

Antes de autoridades se darem conta, Ab'Saber já afirmava que despoluir o rio Tietê é uma grande utopia. "Não adianta querer limpar o rio, pois seus afluentes, pré-poluídos, continuarão nutrindo a insalubridade", afirmou.
Como os grandes geógrafos, Ab'Saber não consegue discorrer sobre a questão hídrica de forma isolada. Tudo no meio ambiente interage, e o papel que se joga no chão hoje, pode ser a gota d'água para inundar as cidades amanhã.

Com Ciência - O Brasil pode ser considerado um país rico em mananciais?
Ab'Saber
- O Brasil, por sua extensão territorial e sua posição predominantemente entre os trópicos, com "pequena grande" área subtropical, é um dos países mais beneficiados por rios perenes do mundo. Ainda assim, há uma área de cerca de 750 mil km2 - o nordeste seco -, em que as drenagens são intermitentes. Trata-se de uma região grande, cerca de três vezes o estado de São Paulo. Observado em seu conjunto, o Brasil tem riquezas de recursos hídricos importantíssimos, atingindo seu ápice na Amazônia.

CC- A Amazônia possui reservas de água gigantescas - o suficiente para abastecer 500 milhões de pessoas durante cem anos. Que condições favorecem essa riqueza de recursos?
Ab'Saber
- As precipitações dentro do território brasileiro são suficientes para garantir a perenidade de quase 7,5 milhões de espaços territoriais, sobretudo na Amazônia, onde as chuvas anuais variam entre 1600 e 3500 mm por quase 4 milhões de km2. Há regiões mais chuvosas, como Baixo-Amazonas e noroeste da Amazônia, e menos chuvosas, como a faixa transversal que vai de Roraima até as proximidades do Araguai. Mesmo assim, não houve impecilhos para se formar a floresta contínua, devido à colaboração do clima quente e úmido.

CC - Esse fenômeno não ocorre em regiões próximas à Amazônia, como nordeste seco e Brasil central. Quais as diferenças essenciais entre o cerrado (Brasil central) e a caatinga (nordeste seco)?
Ab'Saber
- As variedades climáticas em regiões próximas apresentam características próprias. O nordeste seco apresenta drenagens intermitentes sazonais e abertas ao mar e o Brasil central caracteriza-se por clima tropical com uma estação chuvosa e outra relativamente seca, mas rios perenes - essa é a grande diferença entre os domínios dos cerrados e o das caatingas. As médias anuais de chuva no cerrado chegam a ser de duas a três vezes mais que as da caatinga. Para comparar, a região que recebe menos chuva no nordeste seco possui média pluvial anual de 268mm, sendo 850mm o máximo registrado.

CC - Como se comportam as chuvas na região tropical atlântica?
Ab'Saber
- No Brasil tropical atlântico, que começa na faixa dos climas tropicais úmidos, na região costeira do nordeste, e vai se alargando na direção da Bahia, os rios são longos e muitas vezes nascem em climas secos e passam para o úmido. A partir do sul de Minas Gerais, essa área se interioriza muito, passando pelo Estado de São Paulo e do Paraná - viabilizando o clima subtropical e úmido deste estado e encerrando-se na porção oriental de Santa Catarina. Quando chega no planalto das araucárias, continua havendo chuva suficiente para manter cursos d'água importantes e perenes.

CC - O Sr. acha que, entre outros motivos, a riqueza hídrica da Amazônia é pólo de atração de interesses estrangeiros?
Ab'Saber
- Sim. Uma das razões por que existe grande interesse em fazer o Brasil perder sua soberania sobre a Amazônia é essa. Muitos países não têm mais recursos hídricos disponíveis e, não sei porquê, acham que poderiam transportar para suas terras as águas da Amazônia - o que implicaria um custo imenso.

CC - Mas se há tanta água no Brasil, por que estamos passando por problemas tão sérios, como o racionamento de água da cidade de São Paulo?
Ab'Saber
- Não basta verificar as condições de existência de águas em função da natureza climática e da perenidade das drenagens. O problema é mais sério. Trata-se da questão da distribuição de populações urbanas, indústrias, e espaços agrícolas mais importantes, que precisam de água natural e de água para realizar pivô para irrigação em terras mais secas, tornando-as produtivas. Essa distribuição anômala faz com que falte água em muitos lugares, sobretudo nas áreas metropolitanas. A grande São Paulo, por exemplo, tem cerca de 17 milhões de habitantes, enquanto Cuba e outros países têm por volta de 3 milhões. São Paulo, então, requereu, requer e requererá tanta água, que é difícil pensar em uma solução adequada.

CC - Por que o racionamento de água foi adotado? Quais os problemas que o Centro-Sul enfrenta que levaram a essa medida emergencial?
Ab'Saber
- As águas nessa região destinam-se a quatro campos: água potável, água para fins industriais, água para serviços e limpeza pública e água para atender ao período de estiagem - entre agosto e setembro. Em função da grandiosidade espacial da região metropolitana e da exeqüibilidade de recursos locais - cabeceiras e manaciais que são diversos, mas não muito importantes -, toda a região está ameaçada. São Paulo nasceu na cabeceira do rio Tietê, mas de repente a cidade estorou e até a Cantareira corre perigo, devido à má administração e ao mal gerenciamento da serra tombada. Pessoas ricas estão subindo de Mairiporã para a Cantareira, de forma a olhar para São Paulo como se fosse um belvedere. No entanto, a única vista que terão será a da poluição. O problema hídrico deixou de ser uma questão associada apenas às taxas de precipitações, mas ao balanço entre as precipitações e a quantidade de água necessária para manter a população metropolitana, as indústrias, os serviços etc. Assim, São Paulo vai buscar água em locais cada vez mais distantes. É o caso de águas em regiões além-Cantareira, como Campinas, que já precisam capturar recursos de Minas Gerais, pois as águas disponíveis nas regiões mais próximas já foram capturadas pela Grande São Paulo. De modo geral, as capturas de água foram feitas das aguadas da Cantareira e do Alto Rio Grande e nas cabeceiras dos rios Pinheiros e Tietê. Mas isso é insuficiente para atender às necessidades da metrópole. Estamos, portanto, em um impasse: temos que buscar água além da bacia de São Paulo, mas muitos casos exigem altos custos e energia para fazer a transposição de águas de terrenos mais baixos para a cidade.

CC - O Sr. disse certa vez que despoluir o rio Tietê é uma prática inviável. Por quê?
Ab'Saber
- As águas que são fundamentais para abastecimento são poluídas devido ao crescimento urbano caótico e envolvimento de algumas áreas de represamento de água que deveriam doar água permanentemente para São Paulo e, hoje, são poluídas antes de ser tratadas. O próprio tratamento tem muitos problemas - excesso de cloro e outras substâncias, principalmente no período em que as águas começam a secar - e a qualidade do recurso cai muito. Sendo os afluentes poluídos previamente, é impossível despoluir um rio como o Tietê.

CC - A situação de emergência em relação à poluição de recursos hídricos é uma questão apenas brasileira?
Ab'Saber
- Em algumas partes do mundo a situação é até pior. Em certas cidades da Europa ocidental, os chafarizes históricos tradicionais estão soltando águas com espuma. Mas se levarmos em conta o volume de espumas que sai do Tietê a partir do alto vale do Tietê até pouco depois da cidade de Salto, tem-se um dos maiores valores de poluição hídrica do mundo. São águas fora de qualquer possibilidade de uso. Isso ocorre porque a drenagem tropical é muito densa e tem muitos córregos que estão entremeados por vida urbana, favelas e bairros carentes etc, e recebem, então, uma carga poluente que desemboca nos rios Tietê e Pinheiros.

CC - Como São Paulo deve pensar o futuro para solucionar essa questão?
Ab'Saber
- A cidade deve pensar em muitas estratégias para resolver o problema. Água subterrânea é muito pouco. Serviria para um ou outro lugar na bacia de São Paulo, oferecendo poucos metros cúbicos por segundo de água. O lençol de água subterrânea mais importante hoje é o chamado lençol Guarani, mas esse lençol começa bem para dentro da depressão periférica, dirigindo-se à bacia do Paraná, ao oeste, o que é longe de São Paulo. Talvez algum dia haja uma idéia tecnocrática de fazer perfurações no lençol Guarani para trazer água a São Paulo sem grandes gastos de energia. A situação é altamente preocupante e pede estudos permanentes e soluções com hierarquia de prioridades.
ComCiência
Revista Eletrônica de Jornalismo Científico

15 de mar de 2012

Evento: Seminário Estado, território e desenvolvimento: contradições, desafios e perspectivas

Divulgando:

1º Seminário Internacional Estado, Território e Desenvolvimento: contradições, desafios e perspectivas


EIXOS TEMÁTICOS
  1. Estado e ordenamento do território no contexto da globalização
  2. Estado, geopolítica e o significado da fronteira
  3. O Estado e as transformações socioterritoriais em áreas de fronteira
  4. Geopolítica, meio ambiente e desenvolvimento no contexto do neoliberalismo
  5. Políticas Públicas, movimentos sociais e desenvolvimento
  6. Transformações e conflitos territoriais no campo e na cidade
  7. Descentralização, Região Metropolitana e gestão do território: impasses e perspectivas
  8. Desigualdades socioterritoriais e desenvolvimento contemporâneo
  9. Descentralização, federalismo e dinâmicas locais e regionais
  10. Descentralização, federalismo e gestão ambiental
  11. Estado, fragmentação do território e desenvolvimento: a criação de novos estados no Brasil
  12. Estado, fragmentação do território e desenvolvimento: a criação de novos municípios no Brasil.
Informações clique aqui

20 de fev de 2012

Evento: Palestra David Harvey

 Vale a pena!

O geógrafo britânico David Harvey acaba de confirmar visita ao Brasil, a convite da Boitempo Editorial, para a realização de conferências de lançamento do livro "O enigma do capital e as crises do capitalismo". Serão três dias de eventos em universidades de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Todos os eventos são gratuitos e não há necessidade de inscrição prévia.

Nos locais haverá venda dos livros da Boitempo com descontos especiais.

Saiba mais informações sobre o livro: http://bit.ly/AedJWd
Saiba mais sobre os eventos: http://bit.ly/xAxKPt

Programação completa:

27/02 | Segunda-feira | 19h30 - São Paulo (SP)
Teatro TUCA (PUC-SP)

Rua Monte Alegre, 1024 - CEP 05014-001, Perdizes - Tel. (11) 3670-8458

Com a presença de Leda Paulani (FEA/USP) e João Ildebrando Bocchi (FEA, PUC-SP)
Realização: APROPUC, Núcleo de Estudo de História: Trabalho, Ideologia e Poder (NEHTIPO), Departamento de História da PUC-SP, Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP e Boitempo Editorial
Apoio: PUC-SP e Teatro TUCA.

***

28/02 | Terça-feira | 18h30 - São Paulo (SP)
Auditório da FAU/USP

Rua do Lago, 876 - CEP 05508-900, Cidade Universitária - Tel. (11) 3091-4801

Com a presença de Ermínia Maricato (FAU/USP) e Mariana Fix (LabHab)
Realização: FAU/USP, Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da FAU (LabHab), Pós-Graduação FAU/USP e Boitempo Editorial.

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29/02 | Quarta-feira | 18h - Rio de Janeiro (RJ)
Salão Nobre do IFCS da UFRJ

Largo de São Francisco, 01 – 2º Andar – CEP 20051-070 – Centro
Com a presença de Marco Aurelio Santana (PPGSA-IFCS-UFRJ)
Realização: Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA-IFCS/UFRJ), Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) Núcleo de Estudos Trabalho e Sociedade (NETS-IFCS/UFRJ) e Boitempo Editorial.

Entrevista: Roberto Lobato

Abaixo reproduzo parte da entrevista com o Prof. Roberto Lobato, originalmente publicada na revista  Espaço Aberto, PPGG - UFRJ, V. 1, N.1, p. 155-160, 2011.

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Quem são os Clássicos da Geografia Brasileira? E Por Que Lê-los?

Entrevista com o Prof. Dr. Roberto Lobato Azevedo Corrêa

A intenção da presente seção é apontar – a partir de vários pontos de vista obtidos em entrevistas com geógrafos renomados – os autores clássicos que não só foram de fundamental importância na formação dos geógrafos brasileiros como também deram dignidade à nossa profissão, auxiliando a construir a imagem respeitável e o reconhecimento à nossa expertise. Para tanto, nessa seção é sempre reproduzida uma entrevista realizada com um geógrafo reconhecido regional ou nacionalmente.

Sua origem está na leitura da obra “Por que ler os clássicos?”, de Ítalo Calvino, publicada em 1994. Em seu texto, o autor brinca ao descrever o clássico como a obra que todos se envergonham de ainda não terem lido e, por esse motivo, está sempre sendo relida. Ler os clássicos é melhor do que não lê-los, afinal invariavelmente acabamos aprendendo algo com essas obras. Enfim, nós lemos os clássicos em benefício da nossa educação. 

A produção geográfica brasileira, apesar do meio século de existência, pode ser considerada ainda relativamente recente. O geógrafo brasileiro Milton Santos, por sua vez, esclareceu:

A ambição de uma obra que procura apresentar um corpo de ideias elaboradas de modo pioneiro é provocar um debate teórico e encorajar estudos empíricos que confirmarão ou não a idéia geral e ajudarão a reformulá-la. (Palestra proferida na UFRJ, 1980.)

Por tudo isto e por muitos outros motivos também importantes, talvez aqui esquecidos, a leitura das obras que nos antecederam foram e são fundamentais à produção renovada do conhecimento e à explicação do espaço brasileiro. Não se trata apenas de sua abordagem puramente descritiva. É a partir das leituras dos clássicos, embora não só deles,  que os pesquisadores antigos e os atuais formam o capital intelectual específico e coletivo.

Seria desnecessário detalhar a trajetória de nosso entrevistado do mês, contudo vamos recordar sua brilhante e rica trajetória. O Prof. Roberto Lobato Azevedo Correa nasceu em 5 de novembro de 1939, no Rio de Janeiro. Formou-se em geografia no ano de 1969, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Obteve o título de mestre em geografia pela University of Chicago, nos Estados Unidos, em 1974, com a dissertação “Variations in Central Place Systems: An Analysis of the Effects of Population Density and Income Level”. Em 2000, concluiu o doutorado na UFRJ. Sua tese, orientada por Maurício de Almeida Abreu, resultou no livro “Trajetórias Geográficas”.

Trabalhou na Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no período de 1959 a 1993,  tendo sido diretor do Departamento de Geografia (DEGEO). Em 1972, foi convidado a atuar como professor na UFRJ e, desde então, tornou-se pesquisador do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-graduação em Geografia (PPGG Aposentado do IBGE, foi aprovado no concurso para professor adjunto da UFRJ, integrando-se ao corpo docente do Departamento de Geografia no ano de 1995. Em sua função administrou disciplinas como Geografia Regional do Brasil, Análises Regionais, Organiza ção Interna das cidades e Redes Urbanas. Elaborou e desenvolveu na UFRJ os seguinte projetos de pesquisa: “Formas simbólicas e espacialidades”, “Áreas sociais: uma avalia ção crítica”, “Estudos comparativos sobre a rede urbana, espaço e cultura” e “Organiza ção interna da cidade”. Geografia Urbana e Geografia Cultural são as duas áreasde destaque em suas pesquisas, sendo que nos últimos anos o Prof. Roberto se tornou um expressivo proponente da Geografia Cultural contemporânea no Brasil. Aposentou-s como professor adjunto do Departamento de Geografia da UFRJ em 2009. Atualmente participa como professor colaborador voluntário do PPGG.

1. O que é uma obra clássica da Geografia brasileira?
Resposta: – Livro ou artigo escrito por um(a) geógrafo(a) (falecido(a), que atravessou gerações e períodos da história do pensamento geográfico, tendo percorrido uma longa trajetória:
- Introduz um novo modo de ver as coisas, um avanço na teoria geográfica.
- Sintetiza um amplo campo da Geografia, oferecendo uma visão complexa que é ou foi referência básica.
- É ou foi objeto de debates no campo específico ou em campos vizinhos, tendo sido analisado e reanalisado por inúmeros autores durante um período relativamente longo.
- Gera “discípulos”, que produzem outros textos a partir do clássico.
- Lido por todos ou quase todos.
- Tem duas ou mais edições, algumas com comentários adicionais feitos por terceiros.
- O campo específico tem a sua própria trajetória marcada pelo clássico.
2. Quais são os critérios para considerar um(a) autor(a) como clássico(a)?
Resposta: – Os critérios estão especificados nos pontos indicados na resposta anterior.
3. Cite alguns clássicos da Geografia brasileira.
Resposta: – Nilo Bernardes; Lysia Bernardes; Manoel Correia de Andrade; Aroldo de Azevedo; Pierre Monbeig; Milton Santos.

4. E por que ler os clássicos da Geografia brasileira?
Resposta: – Porque a obra deles contribuiu para fundar ou dar continuidade ao conhecimento do espaço brasileiro. A obra deles marcou um período ou causou uma ruptura na história da geografia brasileira, tendo repercussões que atravessaram um largo período.

Foram marcos de períodos ou ruptura entre períodos.
Um clássico deve ser leitura obrigatória na formação do geógrafo brasileiro.

5. Cite obras dos autores mencionados.
Resposta: – Obras importantes que devem ser lidas:
a) MILTON SANTOS
-  Por uma Geografia Nova (1978)
Livro que rompe com as perspectivas tradicionais e da geografia teorético-quantitativa. É o marco inicial de uma geografia crítica, com reflexões sobre o espaço e as relações com a sociedade.
- O Espaço Dividido (1ª edição, 1979; 2ª edição, 2004)
Fundamental para a compreensão das espacialidades nos países subdesenvolvidos, apresentando e discutindo os circuitos inferiores e superiores da economia.
- A Natureza do Espaço: Razão, Técnica, Tempo e Emoção (1996)
Trata-se de obra que sintetiza o pensamento de Milton Santos na década de 1990. O espaço é o objeto do livro, tema central na trajetória de Milton Santos.

b) MANOEL CORREIA DE ANDRADE
- O Homem e a Terra no Nordeste Trata-se de um clássico, produzido na primeira metade dos anos 1960. O Nordeste é apresentado por meio de seus quadros regionais e de sua problemática.

c) AROLDO DE AZEVEDO
- A Cidade de São Paulo – Estudos Geográficos.
Com alguns volumes, o livro, publicado nos anos 1950, é uma descrição e interpretação da cidade de São Paulo.

6. Cite alguns brasilianistas.
Resposta: – É um termo utilizado sem muito rigor. São eles:
a) Pierre Monbeig
- Pioneirs et planteurs de São Paulo. Paris, A. Colin, 1952, 376p.
- Estudos de Geografia Humana
- O Estudo Geográfico da Cidade
b) Pierre Deffontaines
c) Leo Waibel
d) Pierre Denis
- Le Brésil au XXéme Siécle, publicado nos anos 1920
e) Pierre Gourou

Nem todos podem ser definidos como brasilianistas (aqueles que se dedicaram a estudar o Brasil), mas trata-se de geógrafos que durante certo tempo dedicaram-se a estudar o Brasil. Pierre Monbeig talvez seja o único brazilianista de fato.

Literatura e ciência

Diálogo Filosófico

Carlos Drummond de Andrade

- As coisas não são o que são, mas também não são o que não são - disse o professor suíço ao estudante brasileiro.
- Então, que são as coisas? - inquiriu o estudante.
- As coisas simplesmente não.
- Sem verbo?
- Claro que sem verbo. O verbo não é coisa.
- E que quer dizer coisas não?
- Quer dizer o não das coisas, se você for suficientemente atilado para percebê-lo.
- Então as coisas não têm um sim?
- O sim das coisas é o não. E o não é sem coisa. Portanto, coisa e não são a mesma coisa, ou o mesmo não.

O professor tirou do bolso uma não-barra de chocolate e comeu um pedacinho, sem oferecer outro ao aluno, porque o chocolate era não.

Contos Plausíveis, in Andrade, C. D. (1992): Poesia e Prosa, Rio de Janeiro: Aguilar, pg. 1261.