25 de nov de 2010

Resenha: A justiça Social e a cidade

A justiça social e a cidade: uma resenha
Doreen Massey* 1974

Tradução de Csaba Deák
1989

David Harvey (1973) Social justice and the city Edward Arnold, Londres
(Hucitec, São Paulo, 1980)


No momento em que escrevo esta resenha, já é evidente que A justiça social e a cidade é um livro importante. Trata-se de uma coleção de seis ensaios -- dos quais quatro já publicados e dois inéditos--, montados para ilustrar a evolução de um ponto de vista teórico, desde uma formulação liberal (os três primeiros artigos) até uma formulação um tanto ambiguamente denominada de 'socialista'. São todos estudos dentro do campo do urbanismo, e não colocações sobre a natureza da própria formulação teórica nessa área de estudo. Os leitores são, portanto, como que convidados a fazer sua própria teorização acerca da evolução que acompanham. No entanto, um capítulo introdutório, um apêndice no Capítulo 4, e o capítulo final fornecem uma base para tanto, pinçando filões particularmente importantes e estruturando o argumento.

A importância do livro deriva de três ordens de idéias. Primeiro, lança um desafio aos modos usuais de teorização em estudos urbanos e ciência regional.+ Segundo, esboça uma colocação dos termos de uma formulação alternativa. Em ambos os aspectos, a linha seguida por Harvey é sujeita a crítica, tanto de dentro como de fora de seu próprio campo. Mas não pode haver dúvida quanto a sua terceira contribuição: perguntas foram formuladas, e um espaço foi aberto para a discussão de questões que simplesmente não podiam sequer emergir dentro do quadro usual da ciência regional anglo-saxônica.

Os primeiros três capítulos, portanto, versando sobre processos sociais e formas espaciais, e sobre justiça social e sistemas espaciais, são os representantes do liberalismo. O fato de serem os mesmos formulações muito superiores a muitas das tentativas de teorização dentro dessa problemática1 só faz ressaltar o impasse que tal problemática representa. A linguagem e impenetrável, refletindo exatamente o que Harvey chama de 'inevitável relativismo informe' da respectiva posição; nós nos deparamos constantemente com a 'cidade como um sistema dinâmico complexo' e o 'sistema complexo que é a cidade' (ambos na p.46),++ como se o reconhecimento da complexidade pudesse substituir sua análise. Pior ainda, há a posição usual às voltas com 'o problema da justiça social' e o dualismo que surge entre teoria abstrata e ética. Harvey proporciona uma boa crítica desses aspectos da formulação liberal, especialmente em sua seção sobre as teorias de justiça social na Introdução. No entanto, o que é realmente grave são os efeitos teóricos dessa formulação. Em toda a extensão dos três primeiros capítulos, as questões de distribuição são abordadas dentro do âmbito da distribuição, a única indicação da consciência de um contexto mais amplo em que são inseridas sendo dada por dúvidas preocupadas acerca do fato de que o significado de 'nível de renda' depende, na verdade, de uma determinação a nível social. Lá pelo fim do Capítulo 3 desponta a descoberta de que distribuição não pode ser separada de produção, e desse ponto em diante a crítica começa a ser formulada em termos realmente claros. Uma outra consequência do liberalismo, ao nível teórico, e a exclusiva ênfase dada à análise ao nível do individual. Temos um exemplo perfeito disso na p.34: O espaço social, portanto, é composto por um complexo de sensações e imagens do indivíduo, e suas reações, sobre um simbolismo espacial que envolve esse mesmo indivíduo. Cada pessoa -- assim parece-- vive em sua própria teia de relações espaciais, por ele mesmo (sic)+ construída, e como que contida em seu próprio sistema geométrico.
A questão é, naturalmente, que direção tomar a partir desse ponto...

Tudo isso comporia um quadro deprimente, do ponto de vista analítico, não fosse o fato de que grupos de indivíduos parecem identificar imagens essencialmente similares acerca do espaço que os envolve, e também parecem elaborar modos semelhantes de julgamento dos significados e comportamentos no espaço (...)
O que não é bem uma resposta. Em outras palavras, a insistência em manter a análise ao nível do indivíduo conduz a 'explicar' semelhanças ou como acaso ou por uma asserção. Além disso, tal abordagem é necessariamente alicerçada em uma concepção essencialista/idealista da realidade daqueles indivíduos: A evidência está longe de ser segura, mas, a essa altura, parece razoável adotar como hipótese preliminar a visão de que os indivíduos tem uma certa proporção (que ainda não foi determinada) de 'imagem comum' derivada de normas de grupo (e provàvelmente de algumas normas de conduta em relação àquela imagem), e uma proporção de 'imagem única' fortemente idiossincrática e imprevisível. E a parte comum da imagem espacial deve ser considerada primeiro, se o objetivo for extrair alguns detalhes da natureza real do espaço social.

Harvey não desenvolve suficientemente a crítica e as implicações desse tipo de abordagem. Aliás, o fato de, mais adiante (p.197) citar a carta de Engels a Bloch como refutação, é um sinal de que a crítica pode não estar plenamente elaborada, já que o argumento de Engels é o mesmo que o de Harvey acima citado. Mas a verdadeira razão da falta de uma crítica rigorosa reside provàvelmente no argumento que segue.

A crítica explícita aos modos de teorização usuais, assim como a construção de uma alternativa, surge e ressurge ao longo do livro, sendo abordada na Introdução, no apêndice ao Capítulo 4, e na conclusão. A mesma inclui toda uma teia de argumentos entrelaçados e coloca (a mim certamente) algumas dificuldades sérias. O melhor talvez seja começar com alguns dos comentários sobre a natureza 'correta' da verificação.

Em muitos pontos do livro afirma-se que em 'teorias revolucionárias' a verificação só pode proceder através da 'prática'. O que é, no entanto, 'prática'? Em vários pontos ela e identificada como 'prática humana' ou 'prática social', mas isso não esclarece a definição. O que se torna claro, no entanto, é que prática -- o que quer que esta seja -- se coloca em oposição a teoria. Em alguns pontos essa oposição é explìcitamente negada, como na pág. 12: "Verificação se dá através da prática, o que significa que, num sentido muito importante, teoria é prática". Mas logo a frase seguinte reza que o conceito de sua oposição se mantém na nova abordagem teórica: "Quando teoria se torna prática atravès de seu uso então, e sòmente então, é ela realmente verificada" (grifo meu). Uma linha de argumento bem mais satisfatória pareceria decorrer de uma definição correta de prática como modo diferenciável, uma de suas formas sendo a prática teórica. O relacionamento da verificação no interior de estruturas teóricas pode então ser associado às diferentes formas de prática, incluindo prática teórica. Assim, Althusser escreve em Reading Capital: prática teórica é de fato seu próprio critério e contém em si protocolos bem definidos com os quais pode validar a qualidade de seu produto, isto é, o critério de cientificidade dos produtos de prática científica (p. 59).

O verdadeiro problema de procurar uma garantia de verificação fora da prática teórica, como o faz Harvey, é que a mesma acaba se transformando também em critério para testar a cientificidade entre práticas 'teóricas'. A verificação acaba se igualando à tarefa de efetuar distinções entre teorias 'revolucionária', status quo, e 'contra-revolucionária' -- os termos são de Harvey, e seu uso (como oposto à distinção ciência/ideologia) faz diferença significativa. Essa confusão remete a um outro problema, pois a distinção entre os referidos tipos de estrutura teórica coloca-se agora inteiramente em termos de seu 'potencial de ação revolucionária'. Assim, na p.150, 'teoria do status quo' é definida como sendo: Uma teoria alicerçada na própria realidade que pretende retratar e que representa corretamente o fenômeno considerado em um momento específico no tempo. Mas, ao delegar o status de verdade universal às suas proposições, ela se habilita a fornecer políticas prescritivas cujo resultado só pode ser a perpetuação do status quo.

Teoria revolucionária, por outro lado, é: uma teoria firmemente alicerçada na realidade que pretende representar, cujas proposições individuais são investidas de status de verdade contingente (estão no processo de se tornarem verdadeiras ou falsas dependendo das circunstâncias). Uma teoria revolucionária é formulada dialeticamente e é capaz de abarcar em si o conflito e a contradição. Uma teoria revolucionária oferece escolhas efetivas para momentos futuros atravès da identificação de escolhas imanentes em uma situação presente. A efetiva implementação de tais escolhas serve para validar a teoria e para estabelecer uma base para a formulação de uma nova teoria. Uma teoria revolucionária, consequentemente, oferece a perspectiva de criar verdade em vez de encontrà-la.

Quais são as diferenças cruciais? Ambas as teorias são 'alicerçadas na realidade' (presumivelrnente não deveriamos atribuir demasiado significado ao fato de a teoria revolucionária ser ali 'firmemente' alicerçada) e nisso elas são distintas da teoria contrarevolucionária. Segundo, afirmações de verdade derivadas de uma teoria de status quo são investidas de status 'universal', aquelas de uma teoria revolucionária são apenas contingentes. Isso é importante, mas, como veremos, seu significado é subestimado. Terceiro, há distinção entre a natureza das ações produzidas. Não estou tentando dizer que isso não tem importância. Certamente há uma relação entre 'teoria revolucionária' -- ou marxismo -- e ação revolucionária. Também é crucial identificar formulações ideológicas por suas funções predominantemente pratico-sociais. Porém um enfoque exclusivo sobre esse terceiro ponto leva Harvey às seguintes asserções: Proposições individuais e, até mesmo, '' estruturas teóricas como um todo não pertencem necessariamente, por si só, a qualquer uma das categorias anteriores. Elas entram em uma categoria ou outra no processo de seu uso em uma situação social específica e uma formulação teórica pode, com a alteração das circunstâncias e de acordo com sua aplicação, passar ou ser transferida de uma categoria a outra (p. 151 ).

Essa conclusão me parece insustentavelmente relativista, e alcançada através da não consideração suficiente da segunda das distinções enumeradas acima. Poderia o materialismo histórico, apesar da natureza contingente de suas afirmações de verdade, produzir políticas prescritivas que resultem na perpetuação do status quo? Até certo ponto, a resposta depende do nível de generalidade atribuída a 'formulações teóricas', mas ainda assim, a armadilha é perigosa. Estruturas teóricas podem, por si só, ser de status quo! Harvey lança mão de um conceito de 'cooptação contra-revolucionária -- a perversão de uma teoria de um estado revolucionário para outro contra-revolucionário'. Isso eu não entendo. Economismo e algumas formas de humanismo, por exemplo, podem ter nascido de perversões do marxismo, mas o fato crucial a seu respeito é que eles são não marxistas, eles são não aquilo que acontece ao materialismo histórico se a gente o deixa abandonado por muito tempo.O que está sendo descrito sob a rubrica 'teoria revolucionária' e de 'status quo' não é um inventário de características, senão 'marxismo' e positivismo lógico e seus derivados. A natureza das afirmações de verdade é essencial à definição desses corpos de teoria, e a uma crítica dos mesmos. Ainda mais: o status de afirmações de verdade implica uma conceituação da própria realidade. A universalidade de afirmações de verdade, derivadas a partir de um arcabouço positivista lógico, implica necessariamente uma visão idealista da realidade. Nesse sentido, é difícil entender como pode Harvey escrever que tal formulação pode "representar corretamente o fenômeno considerado", mesmo "em um momento específico no tempo" e em que sentido, afinal, pode ela ser "alicerçada na realidade".

Parte do problema talvez decorra de uma confusão entre ação no interior de uma luta ideológica, por um lado, e prática teórica real, por outro, em que conhecimento novo pode ser produzido. Mais uma vez, uma conceituação mais elaborada de 'prática' poderia ter ajudado a evitar o problema. É, talvez, nesse contexto que podemos entender 'reformulação revolucionária', elaborada na p.152 como sendo "tomar formulações de status quo ou contra-revolucionárias, colocá-las em movimento ou dar-lhes conteúdo real, e utilizá-las para identificar escolhas reais imanentes no presente" . Assim o conceito de homo economicus e as teorias construídas em torno dele podem ser úteis na luta, mas ainda assim o conceito continua sendo idealista, e como tal não poderá estritamente produzir conhecimento novo.

Finalmente nessa longa discussão, a natureza 'móvel' dos limites das várias categorias de teoria significa que a verdadeira crítica não está plenamente elaborada em termos de estruturas de 'status quo' e 'contra-revolucionárias'. Além disso, a inconsistência da posição é revelada nas conclusões, onde Harvey (com muita razão) tenta desenvolver algumas asserções normativas acerca da natureza da boa teorização. É difícil entender como isso combina com o status mutável das estruturas teóricas. Nos termos da crítica, 'teoria contra-revolucionária' parece, pela descrição, representar o humanismo liberal. A certa altura a mesma é criticada por levar à inação, sendo portanto nisso diferenciàvel de 'teoria revolucionária' . Infelizmente ela não tem sido sempre tão improdutiva -- um exemplo extremo é a moda 'de volta à natureza' nos Estados Unidos. O próprio Harvey escreve: "Ela pode também funcionar como suporte e legitinação espúrios a ações contra-revolucionárias concebidas para frustrar mudanças necessárias" (p.151). Então como faremos a distinção entre isso e ações 'corretas'? A própria teoria não pode deixar de estar presente no processo.

Um dos outros filões principais do livro é uma discussão sobre a 'natureza do urbanismo'. Um esboço geral da mudança de enfoque é dado na Introdução; o volumoso último capítulo é inteiramente dedicado ao assunto; e a discussão é retomada nas Conclusões. Numa primeira leitura eu achei o progresso geral das idéias, e particularmente o capítulo "Urbanismo e cidade" ao mesmo tempo difícil de desvendar e um tanto insatisfatório, mas ainda assim a discussão tem seu valor por introduzir conceitos e maneiras de pensar que nunca foram antes abordados pela ciência regional. Apesar da natureza muito preliminar de sua apresentação, os mesmos representam os primórdios de um desafio às formulações abstratas dessa disciplina.

Duas mudanças consideráveis que o livro encaminha quanto à natureza da conceituação de cidade são o abandono de sua consideração como 'coisa em si' e o enfoque exclusivo sobre os aspectos de distribuição. Esses dois movimentos são obviamente interligados, sendo a formação social o arcabouço mais amplo em que o processo de urbanização é situado, e o modo de produção dominante naquela formação social o determinante da estrutura de distribuição. O Capítulo 6 contém longas discussões introdutórias do significado de alguns conceitos necessários para tratar a urbanização dessa maneira: modos de produção, o conceito de excedente e a natureza de sua apropriação, as origens urbanas e a natureza da urbanização, e as mudanças no papel econômico da cidade em diferentes modos de produção. Na última seção, o autor coloca as questões cruciais da natureza do urbanismo como uma estrutura dentro de um arcabouço estrutural mais amplo. Ele também oferece um cursório, porem estimulante passeio histórico. Toca em algumas questões vitais -- o grau de especificidade da estrutura urbana, a medida em que a urbanização possui dinamismo próprio, as contradições criadas pelo processo urbano, e a estruturação de contradições pela urbanização. Partes da discussão começam aqui a ser realmente úteis. No entanto, surgem alguns problemas que vale a pena considerar.

Entre estes está uma tendência, repetida também em outras partes do livro, de ligar conceitos uns aos outros de uma maneira entusiástica, porém um tanto superficial. É notável que na segunda metade do livro isso implique frequentemente substituição de formulações desenvolvidas por Marx. Os conceitos introduzidos não são, via de regra, não-marxistas como tais, mas as substituições emprestam à análise, mais de uma vez, um grau preocupante de abstração a-histórica -- e frequentemente, de complexidade desnecessária. No caso da discussão do urbanismo,++++ é o conceito 'modo de produção' que é substituído por 'modo de integração social, política e econômica' . Esse último conceito é então ilustrado por três 'tipos' -- reciprocidade, redistribuição e mercado de trocas -- elaborados até em bastante detalhe. O propósito da introdução desses termos é possibilitar uma dissecação da relação entre sociedade e urbanismo (p.206), e é possivel vislumbrar que naquele contexto a abordagem tem certo potencial.

Algumas reservas, no entanto, devem ser feitas, particularmente a seu tratamento no caso em questão. Em primeiro lugar, em termos de análise histórica -- como oposto a um sistema de categorização -- a substituição parece ser inteiramente desnecessária. Quando o conceito de modo de integração é introduzido pela primeira vez (p. 206), seu proposito é 'substituir' o conceito de modo de produção. Já ao fim do capítulo, no entanto, os problemas de definição de períodos históricos são os mesmos que aqueles que surgem da utilização do conceito 'modo de produção'. Ainda mais: as referências da p.240 remetendo de volta ás p.199 e 202 deixam claro que os conceitos 'modo de integração econômica' e 'modo de produção' são vistos como sendo, ao nível descritivo, exatamente o mesmo. Em segundo lugar, a verdadeira diferença entre os dois conceitos reside na derivação de 'tipos' a partir deles. No caso de 'modos de produção' derivam-se 'feudalismo', 'capitalismo' etc, nomes de períodos de história concretos. De 'modos de integração' temos como derivados reciprocidade, redistribuição e mercado de trocas -- nomes de 'tipos ideais' que, pela descrição apresentada, não se limitam a épocas históricas determinadas. Assim, na p.265 os termos reciprocidade e redistribuição são utilizados como análise da intervenção estatal na sociedade capitalista-monopolista urbanizada. Parece-me que uma análise da intervenção estatal como tal teria sido bem mais esclarecedora, e evitaria aquele formalismo abstrato espúrio que pode resultar do uso de 'tipos ideais' dessa maneira. Além disso, a introdução de tais termos 'trans-históricos' afasta mais um pouco a análise do processo histórico, por serem os primeiros essencialmente descrições de formas assumidas por diversos períodos históricos e como tais são resultado, em última análise, do modo de produção dominante. E o modo de produção que produz tanto esses padrões de distribuição quanto imprime a dinâmica da transição de uma forma a outra.

Nesse contexto, é significativo que uma grande parte do capítulo final seja dedicado a Lefèbvre, e particularmente à Revolução Urbana (Lefèbvre, 1970). Assim como Harvey, também Lefèbvre centra sua análise sobre categorias trans-históricas -- no caso, rural, industrial e urbano. A confusão que isso gera emerge no argumento. Ao longo da maior parte da discussão, Harvey está de acordo com a analogia de Lefebvre entre urbanismo e conhecimento científico. Ambos possuem estruturas distintivas com sua dinâmica interna própria. Ambos podem alterar ocasionalmente a estrutura da base econômica de uma maneira fundamental. No entanto ambos são canalizados e submetidos a restrições pelas forças e influências oriundas da base econômica e em última instância, devem ser relacionados à produção e reprodução da existência material para poderem ser apreendidos (p. 307).

Em uma análise marxista esta é uma asserção bastante geral e virtualmente incontestável, mas vale lembrar que em nenhum outro lugar na geografia 'inglesa' são tais conceitos utilizados, mesmo a um tal nível de generalidade. 0 ponto de discórdia de Harvey em relação a Lefèbvre é a asserção deste último de que "o urbanismo hoje domina a sociedade industrial". Entendida em certos sentidos, essa questão é crucial. O problema consiste em ser preciso em sua formulação, Por exemplo, o que significa 'sociedade industrial', e qual sua relação com um modo de produção? Harvey escreve: "Dizer que o urbanismo hoje domina a sociedade industrial é dizer que as contradições -- entre, de um lado, urbanismo como uma estrutura no processo de transformação, e de outro, a dinâmica interna da sociedade industrial anterior -- são geralmente resolvidas a favor do primeiro".

Dois pontos devem aqui ser assinalados.' Em primeiro lugar, sociedade 'urbana' e 'industrial' parecem ser concebidas como descrições suficientes, com um nível de abstração significante. Apesar de o fato ser admitido alhures no livro, não está explicitado a essa altura que 'industrial' e 'urbano' somente adquirem significado quando inseridos no contexto de uma formação social especifica. Segundo, o autor fala da "dinâmica interna da sociedade industrial anterior". Aqui também, isso implica que a dinâmica de uma sociedade como um todo pode ser analisada em termos de industrialização como tal, quando na verdade o próprio processo de industrialização e seus efeitos são subordinados a sua própria articulação atravès do modo de produção dominante. Harvey parece empenhado em responder uma questão cujos próprios termos de referência deveriam ser rejeitados. É verdade que no curso de sua resposta fica claro que ele mantém a discussão estritamente no contexto de uma sociedade na qual predomina o modo de produção capitalista. No entanto, a confusão persiste. Por exemplo, ao avaliar a eficácia relativa dos efeitos do urbanismo e da industrialização, ele escreve: "A produção, apropriação e circulação da mais-valia não chegaram a ser subordinadas à dinâmica interna do urbanismo, senão que continuam a ser reguladas por condições derivadas da sociedade industrial".

Assim, o urbanismo e rejeitado, mas a favor da industrialização, quando o que é de fato a determinante crucial é a natureza capitalista da sociedade em discussão. Pode ser que eu esteja interpretando Harvey erroneamente nessa questão, mas o uso de expressões como 'sociedade urbana' e 'sociedade industrial' presta-se inegàvelmente a tal interpretação, e facilmente desvia a análise para uma abordagem descritiva de forma, em que a dinâmica do modo de produção se perde, e onde, consequentemente, a natureza de classe da estrutura da sociedade pode ser completamente soterrada.

E no entanto, há algumas questões estreitamente correlacionadas ainda que diversamente formuladas, que exigem respostas urgentes. Elas dizem respeito à análise do processo de urbanização enquanto origem e causa de contradições na estrutura global da formação social, e também enquanto locus específico de contradições, no interior da mesma formação social. De especial interesse no contexto de tais questões, vem o significado da irracionalidade espacial na estrutura urbana resultante, e os requisitos de intervenção do Estado e de planejamento espacial exigidos pelo processo de urbanização.

Muitos outros tópicos do livro poderiam ser tomados como potencial para novos debates. Há, por exemplo, um fio condutor de discussão sobre a natureza do espaço em termos de várias forrnas de análise. Um debate qve o livro jà estimulou entre os geógrafos diz respeito à natureza da renda do solo nas cidades em economias capitalistas monopolistas. Além de introduzir conceitos marxistas de renda, e provocar o retorno ao 'original' no Volurne 3 de O capital, Harvey também tenta estabelecer sua própria posição teórica sobre a natureza da renda do solo urbano. Sua interpretação de que ela contém uma parcela consideravel da renda absoluta é objeto de acalorado debate entre geógrafos e planejadores. O raciocínio de Harvey a esse respeito é sujeito a criticas muito específicas (seu conceito de classe, por exemplo, e sua discussão inacabada da fundamentação problemática de Marx da possibilidade de renda absoluta sobre diferenças intersetoriais na composição orgânica de capital), mas sua corajosa tentativa deve pelo menos sacudir um bom número de geógrafos-economistas para abandonarem seus pressupostos implícitos e tautológicos de que tudo pode ser explicado em termos de renda diferencial.

Esse livro e uma intervenção no debate sobre urbanismo, e como tal deve ser levado a sério. Na verdade ele deixa a impressão de que a ruptura com a problemática inicial de liberalismo e humanismo não foi inteiramente consumada. A terceira e última parte é denominada, à maneira de um compromisso, de 'Sintese', e o último parágrafo do livro refere-se a um "urbanismo genuinamente humanizante" e a "um urbanismo apropriado à espécie humana" -- frases essas que me parecem constituir uma aproximação excessiva do campo inimigo, mesmo sob a garantia de se tratar de uma missão de conversão. Deve-se enfatizar, no entanto, que as críticas levantadas, nessa resenha, o foram de dentro da aceitação do ponto de vista teórico que Harvey tenta estabelecer. Como tal, elas são parte do resultado que o livro pretendia alcançar: a abertura de uma nova estrutura de debate para o estudo do processo urbano.



Bibliografia
Althusser, Louis A & Balibar, Étienne (1970) Reading capital New Left Books, London
Lefèbvre, Henri (1970) La révolution urbaine Gallimard. Paris
Doreen Massey é geógrafa, professora e chefe do Departamento de Ciências Sociais da Open University em Milton Keynes.


* Este artigo resulta de uma solicitação do editor de Environment & Planning A por uma resenha de Social justice and the city, David Harvey, Edward Arnold, London, 1973, 336p.

+ Ciência regional: geografia, em seu sentido mais lato (N. do T.).

1 A definição de 'problemática' aqui utilizada é aquela dada no glossário de Althusser & Balibar (1970).-- [Em termos sintéticos: uma palavra ou conceito só adquire significado dentro do arcabouço teórico ou ideológico em que é utilizado: sua problemática (N.do T.).]

++ A numeração de páginas citadas refere-se à edição inglesa (N. do T.).

+++ A ironia refere-se à expressão considerada sexista -- que utiliza o plural e a indefinição do gênero no masculino-- por uma reação contra a discriminação sexual que na década de 70 já tinha força expressiva na Inglaterra (N. do T.).

30 de set de 2010

Clássicos da Geografia: Piort Kropotkin

Piort Kropotkin nasceu na Rússia czarina no ano de 1842. Geógrafo anarquista, Kropotkin realizou uma longa viagem a Sibéria, quando então participava do exército do czar Nicolas I. Esta viagem foi essencial para definir tanto sua posição política como também sua geografia. Durante sua vida, este geógrafo se comprometeu com seus ideais libertários. Sua contribuição para a Geografia perpassa o campo da geografia física e da geografia humana.

O que apresentamos hoje é a introdução daquela que talvez seja sua principal obra: A Ajuda Mútua. Obra, publicada em 1902, teve como principal alvo os "neo-darwinistas que transportaram para o campo social as idéias naturalistas da obra de Darwin como forma de legitimar o imperialismo de países europeus na época". Para isso, afirma que mais do que a luta entre espécies, é a ajuda mútua o elemento de maior importância na evolução das espécies. Isto porque seria pela ajuda mutua que garante a proteção e sobrevivência dos mais fracos. Em 8 de fevereiro de 1921 deixando uma rica contribuição à Geografia.

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INTRODUÇÃO
Dois aspectos característicos da vida animal da Sibéria Oriental e do Norte de Manchuria chamaram poderosamente minha atenção durante as viagens que, em minha juventude, realizei por essas regiões do Ásia Oriental.

Me chamou a atenção, por uma parte, a extraordinária dureza da luta pela existência que devem sustentar a maioria das espécies animais contra a natureza inclemente, bem como a extinção de grandes quantidades de indivíduos, que ocorria periodicamente, em virtude de causas naturais, devido ao qual se produzia extraordinária pobreza de vida e despopulação na superfície dos vastos territórios onde realizava eu minhas investigações.

A outra particularidade era que, ainda naqueles poucos pontos isolados onde a vida animal aparecia em abundância, não encontrei, apesar de ter procurado seus rastos, aquela luta cruel pelos meios de subsistência entre os animais pertencentes a uma mesma espécie que a maioria dos darwinistas (ainda que não sempre o mesmo Darwin) consideravam como o rasgo predominante e característica da luta pela vida, e como a principal força ativa do desenvolvimento gradual no mundo dos animais.

As terríveis tormentas de neve que açoitam a região norte de Ásia ao final do inverno, e o congelamento que com freqüência sucede à tormenta; as geadas, as nevascas que se repetem todos os anos na primeira quinzena de maio quando as árvores estão em plena floração e a vida dos insetos em seu apogeu; as ligeiras geadas temporãs e, as vezes, as nevascas abundantes que caem já em julho e em agosto, ainda nas regiões dos prados da Sibéria Ocidental, aniquilando, repentinamente, não só miríadas de insetos, senão também a segunda nidada das aves; as chuvas torrenciais, devidas as monções, que caem em agosto nas regiões temperadas do Amur e do Usuri, e se prolongam semanas inteiras e produzem inundações nas terras baixas do Amur e do Sungari em proporções tão grandes como só se conhece em América e Ásia Oriental, e, nos planaltos, grandíssimas extensões se transformam em pântanos comparáveis, por suas dimensões, com Estados europeus inteiros, e, por último, as abundantes nevascas que caem as vezes a princípios de outubro, devido às quais um vasto território, igual por sua extensão a França ou Alemanha, faz-se completamente inabitável para os ruminantes que perecem, então, por milhares; estas são as condições em que se sustenta a luta pela vida no reino animal do Ásia Setentrional.

Estas difíceis condições da vida animal já então atraíram meu atendimento para a extraordinária importância, na natureza, daquelas séries de fenômenos que Darwin chama “limitações naturais à multiplicação em comparação com a luta pelos meios de subsistência. Esta última, naturalmente, produz-se não só entre as diferentes espécies, senão também entre os indivíduos da mesma espécie, mas jamais atinge a importância dos obstáculos naturais à multiplicação A escassez da população, não o excesso, é o rasgo característico daquela imensa extensão do balão que chamamos Ásia Setentrional.

Portanto, já desde então comecei a abrigar sérias dúvidas, que mais tarde não fizeram senão confirmar-se, com respeito a essa terrível e suposta luta pelo alimento e a vida dentro dos limites de uma mesma espécie, que constitui um verdadeiro credo para a maioria dos darwinistas.

Exatamente do mesmo modo comecei a duvidar com respeito à influência dominante que exerce esta classe de luta, segundo as suposições dos darwinistas, no desenvolvimento das novas espécies.

Ademais, onde quer que atingia a ver a vida animal abundante e borbulhante como, por exemplo, nos lagos, onde, em primavera dezenas de espécies de aves e milhões de indivíduos se reúnem para chocarem suas crianças ou nas populosas colônias de roedores, ou bem durante a migração das aves que se produzia, então, em proporções puramente “americanas” ao longo do vale do Usuri, ou durante uma enorme emigração de gamos que tive oportunidade de ver no Amur, em que dezenas de milhares destes inteligentes animais fugiam de um território imenso, procurando salvar-se das abundantes neves caídas, e se reuniam em grandes rebanhos para atravessar o Amur no ponto mais estreito, no Pequeno Jingan; em todas estas cenas da vida animal que se desenvolvia ante meus olhos, via eu a ajuda e o apoio mútuo levado a tais proporções que involuntariamente me fez pensar, na enorme importância que deve ter na economia da natureza, para a manutenção da existência de cada espécie, sua conservação e seu desenvolvimento futuro.

Por último, tive oportunidade de observar entre o gado cornúpeta semi-selvagens e entre os cavalos na Transbaikalia, e em todas partes entre os esquilos e os animais selvagens em general, que quando os animais tinham que lutar contra a escassez de alimento devida a uma das causas já indicadas, então todo a parte da espécie a quem afetava esta calamidade saía da prova experimentada com uma perda de energia e saúde tão grande que nenhuma evolução progressista das espécies podia basear-se em semelhantes períodos de luta aguda. Devido às razões já expostas, quando mais tarde as relações entre o darwinismo e a sociologia atraíram meu atendimento, não pude estar de acordo com nenhum dos numerosos trabalhos que julgavam de um modo ou outro uma questão extremamente importante. Todos eles tratavam de demonstrar que o homem, graças a sua inteligência superior e a seus conhecimentos pode suavizar a dureza da luta pela vida entre os homens mas ao mesmo tempo, todos eles reconheciam que a luta pelos meios de subsistência de cada animal contra todos seus congêneres, e de cada homem contra todos os homens, é uma “lei natural”.

No entanto , não podia estar de acordo com este ponto de vista já que me tinha convencido antes de que, reconhecer a cruel luta interior pela existência nos limites de cada espécie, e considerar tal guerra como uma condição de progresso, significaria aceitar algo que não só não foi demonstrado ainda, senão que de nenhum modo é confirmado pela observação direta.

Por outra parte, tendo chegado a meu conhecimento a conferência “Sobre a lei da ajuda mútua”, do professor Kessler, então decano da Universidade de São Petersburgo, que pronunciou num Congresso de naturalistas russos, em janeiro de. 1880, vi que arrojava nova luz sobre toda esta questão. Segundo a opinião de Kessler, além da lei de luta mútua, existe na natureza também a lei de ajuda mútua, que, para o sucesso da luta pela vida e, particularmente, para a evolução progressiva das espécies desempenha um papel bem mais importante do que a lei da luta mútua.

Esta hipótese, que não é em realidade mais do que o desenvolvimento máximo das idéias anunciadas pelo mesmo Darwin em sua Origem do homem, pareceu-me tão justa e tinha tão enorme importância, que, desde que tive conhecimento disso (em 1883 , comecei a reunir materiais para o máximo desenvolvimento desta idéia que Kessler mal tocou, em seu discurso, e não teve tempo de desenvolver já que morreu em 1881.

Somente num ponto não pude estar completamente de acordo com as opiniões de Kessler Mencionava este os “sentimentos familiares” e os cuidados da descendência (veja-se capítulo 1) como a fonte das inclinações mútuas dos animais. Mas creio que o determinar quanto contribuíram realmente estes dois sentimentos ao desenvolvimento dos instintos sociais entre os animais e quanto os outros instintos atuaram no mesmo sentido constitui uma questão aparte, e muito complexa, à qual mal estamos, agora, em condições de responder.

Só depois que estabeleçamos bem os fatos mesmos da ajuda mútua entre as diferentes classes de animais e sua importância para a evolução poderemos determinar que parte do desenvolvimento dos instintos sociais corresponde aos sentimentos familiares e daí parte à sociabilidade mesma; e a origem da última, evidentemente, tem-se de procurar nos estádios mais elementares de evolução do mundo animal até, quiçá, nos “estádios coloniais”.

Devido a isto, dediquei todo meu atendimento a estabelecer antes de mais nada, a importância da ajuda mútua como fator de evolução, especialmente da progressiva, deixando para outros pesquisadores o problema da origem dos instintos de ajuda mútua na Natureza, A importância do fator da ajuda mútua -“se tão só pudesse demonstrar-se sua generalidade”- não escapou ao atendimento de Goethe, em quem de maneira tão brilhante se manifestou o gênio do naturalista. Quando, certa vez, Eckerman contou a Goethe -sucedia isto no ano 1827- que dois pichoncillos de “reyezuelo”, que se lhe tinham escapado quando matou à mãe, foram achados por ele, ao dia seguinte, num ninho de ruivos que os alimentavam asa par dos seus, Goethe se emocionou muito por este relato. Viu em isso a confirmação de suas opiniões panteístas sobre a, natureza e disse: “Se resultasse, verdade que alimentar aos estranhos é inerente à natureza toda, como algo que tem caráter de lei geral, muitos enigmas ficariam então resolvidos. Voltou sobre esta questão ao dia seguinte, -e rogou a Eckerman (quem, como é sabido, era zoólogo) que fizesse um estudo especial dela, agregando que Eckerman, sem dúvida, poderia obter “resultados valiosos e inapreciáveis” (Gespráche, edit. 1848, -tomo III, págs. 219, 221). <

Por desgraça, tal estudo nunca foi empreendido, ainda que é muito provável que Brehm, que reuniu em suas obras materiais tão ricos sobre a ajuda mútua entre os animais, poderia ter sido levado a esta idéia pela observação citada de Goethe. durante os anos 1878-1886 se imprimiram várias obras volumosas sobre a inteligência e a vida mental dos animais (essas obras se citam nas notas do capítulo I deste livro), três das quais têm uma relação mais estreita com a questão que nos interessa, a: saber: Lhes Sociétés animais, de Espinhas (Paris, 1887); A lutte pour I’existence et l’association pour a lutte, conferência de Lanessan (abril 1881); e o livro, cuja primeira edição apareceu no ano 1881 ou 1882, e a segunda, consideravelmente aumentada, em 1885.

Mas, apesar da excelente qualidade de cada uma, estas obras deixam, no entanto, ampla margem para uma investigação na que a ajuda mútua fora considerada não somente em qualidade de argumento em favor da origem prehumano dos instintos morais, senão também como uma lei da natureza e um fator de evolução.

Espinhas chamou especialmente o atendimento sobre as sociedades de animais (formigas, abelhas) que estão fundadas nas diferenças fisiológicas de estrutura dos diversos membros da mesma espécie e a divisão fisiológica do trabalho entre eles, e ainda que sua obra traz excelentes, indicações em todos os sentidos possíveis, foi escrita numa época em que o desenvolvimento das sociedades humanas, não podia ser examinado como podemos fazê-lo agora, graças ao volume de conhecimentos acumulado desde então.

A conferência de Lanessan tem mais bem o caráter de um plano geral de trabalho, brilhantemente exposto, como uma obra na qual fora examinado o apoio mútuo começando desde as rochas a orlas do mar, e passando ao mundo dos vegetais dos animais e dos homens.

Quanto à obra recém editada de Büchner, apesar de que induz à reflexão sobre o papel da ajuda mútua na natureza, e de que é rica em fatos, não estou de acordo com sua idéia dominante. O livro se inicia com um hino ao amor, e quase todos os exemplos são tentativas para demonstrar a existência do amor e a simpatia entre os animais. Mas, reduzir a sociabilidade dos animais ao amor e à simpatíasignifica restringir sua universalidade e sua importância, exatamente o mesmo que uma ética humana baseada no amor e a simpatia pessoal conduz nada mais que a restringir a concepção do sentido moral em sua totalidade.

De nenhum modo me guia o amor para o dono de uma determinada casa a quem muito com freqüência nem sequer conheço quando, vendo sua casa presa das chamas, tomo um cubo com água e corro para ela, ainda que não tema pela minha. Guia-me um sentimento mais amplo, ainda que é mais indefinido, um instinto, mais exatamente dito, de solidariedade humana; isto é, de caução solidária entre todos os homens e de sociabilidade.

O mesmo se observa também entre os animais. Não é o amor, nem sequer a simpatia (compreendidos no sentido verdadeiro destas palavras) o que induz ao rebanho de ruminantes ou cavalos a formar um círculo com o fim de defender-se das agressões dos lobos de nenhum modo é o amor o que faz que os lobos se reúnam em manadas para caçar; exatamente o mesmo que não é o amor o que obriga aos corderillos e aos gatinhos a entregar-se a seus jogos, nem é o amor o que junta as crianças outonais das aves que passam juntas dias inteiros durante quase todo o outono.

Por último também não pode atribuir-se ao amor nem à simpatia pessoal o fato de que muitos milhares de gamos, disseminados por territórios de extensão comparável à de França, reúnam-se em dezenas de rebanhos isolados que se dirigem, todos, para um ponto conhecido, com o fim de atravessar o Amur e emigrar a uma parte mais temperada da Manchuria. Em todos estes casos, o papel mais importante o desempenha um sentimento incomparavelmente mais amplo do que o amor ou a simpatia pessoal. Aqui entra o instinto de sociabilidade, que se desenvolveu lentamente entre os animais e os homens em decorrência de um período de evolução extremamente longo, desde os estádios mais elementares, e que ensinou por igual a muitos animais e homens a ter consciência dessa força que eles adquirem praticando a ajuda e o apoio mútuos, e também a ter consciência do prazer que se pode achar na vida social. <

Uma importância desta distinção poderá ser apreciada facilmente por tudo aquele que estude a psicologia dos animais, e mais ainda, a ética humana. O amor, a simpatia e o sacrifício de si mesmos, naturalmente, desempenham um papel enorme no desenvolvimento progressivo de nossos sentimentos morais. Mas a sociedade, na humanidade, de nenhum modo lhe criou sobre o amor nem também não sobre a simpatia.

Criou-se sobre a consciência -ainda que seja instintiva- da solidariedade humana e da dependência recíproca dos homens. Criou-se sobre o reconhecimento inconscientes semiconsciente da força que a prática comum de dependência estreita da felicidade de cada indivíduo da felicidade de todos, e sobre os sentimentos de justiça ou de equidade que obrigam ao indivíduo a considerar os direitos de cada um dos outros como iguais a seus próprios direitos.

Mas esta questão ultrapassa os limites do presente trabalho, e eu me limitarei mais do que a indicar minha conferência “Justiça e Moral”, que era contestação à Etica de Huxley , e na qual me referia esta questão com maior detalhe.

Devido a tudo, o dito anteriormente, Pensei que um livro sobre “A ajuda mútua como lei da natureza e fator de evolução” poderia encher uma lagoa muito importante. Quando Huxley publicou, no ano 1888 seu “manifesto” sobre a luta pela existência (“Struggle for Existence and its Bearing upon Man”) o qual, desde meu ponto de vista, era uma representação completamente infiel dos fenômenos da natureza, tais como os vemos nas taigas e as estepes, dirigi-me ao redator da revista Nineteenth Century rogando dar localização nas páginas, da revista que ele dirigia a uma critica cuidadosa das opiniões de um dos mais marcantes darwinistas, e Mr. James Knowles acolheu meu propósito com a maior simpatia por este motivo falei também, com W. Bates, com o grande “naturalista do Amazonas”, quem reuniu, como é sabido, os materiais para Wallace e Darwin, e a quem Darwin, com perfeita justiça, qualificou em sua autobiografia como um dos homens mais inteligentes que tinha encontrado. “sim, por verdadeiro; isso é verdadeiro darwinismo exclamou Bates, o que fizeram de Darwin é singelamente indignante. Escreva esses artigos e quando estejam impressos lhe enviarei uma carta que poderá publica.

Por desgraça, a composição destes artigos me ocupou quase sete anos, e quando o último foi publicado, Bates já não estava entre os vivos.

Depois de ter examinado a importância da ajuda mútua para o sucesso e desenvolvimento das diferentes classes de animais, evidentemente, estava obrigado a julgar a importância daquele mesmo fator no desenvolvimento do homem. Isto era ainda mais indispensável, porque existem evolucionistas dispostos a admitir a importância da ajuda mútua entre os animais, mas, ao mesmo tempo, como Herbert Spencer, negando-a ao com respeito ao homem. Para os selvagens primitivos -afirmam- a guerra de um contra todos era a lei dominante do a vida. Tratei de analisar neste livro, nos capítulos dedicados aos selvagens e bárbaros, até onde esta afirmação que com excessiva complacência repetem todos sem a necessária comprovação desde a época de Hobbes, coincide com o que conhecemos com respeito aos graus mais antigos do desenvolvimento do homem.

O número e a importância das diferentes instituições de ajuda mútua que se desenvolveram na humanidade obrigado ao gênio criador as massas selvagens e semi-selvagens, já durante o período seguinte da comuna aldeana, e também a imensa influência que estas instituições antigas exerceram sobre o, desenvolvimento posterior da humanidade até os tempos modernos, induziram-me a estender o caminho de minhas investigações aos períodos dos tempos históricos mais antigos. Especialmente me detive no período de maior interesse, o das cidades repúblicas, livres, da Idade Média, cuja universalidade e cuja influência sobre nossa civilização moderna não foi suficientemente apreciada até agora.

Por último, também tratei de indicar brevemente a enorme importância que têm ainda os costumes de apoio mútuo transmitidas em herança pelo homem através de um período extraordinariamente longo de seu desenvolvimento, sobre nossa sociedade contemporânea, apesar de que se pensa e se diz que descansa sobre o princípio: “cada um para si e o Estado para todos”, princípio que as sociedades humanas nunca seguiram por inteiro e que nunca será levado à realização, integralmente.

Quiçá se me objetará que neste livro tanto os homens como os animais estão representados desde um ponto de vista demasiado favorável: que suas qualidades sociais são marcantes em excesso, enquanto suas inclinações antisociais, de afirmação de si mesmos, mal estão marcadas. No entanto, isto era inevitável. Nos últimos tempos ouvimos falar tanto de “a luta dura e cruel pela vida que aparentemente sustenta cada animal contra todos os outros, cada selvagem contra todos os demais selvagens, e cada homem civilizado contra todos seus concidadinos semelhantes opiniões se converteram numa espécie de dogma, de religião da sociedade, que foi necessário, antes de mais nada opor uma série ampla de fatos que mostram a vida dos animais e dos homens completamente desde outro ângulo.

Era necessário mostrar, em primeiro lugar, o papel predominante que desempenham os costumes sociais na vida da natureza e na evolução progressiva, tanto das espécies animais como igualmente dos seres humanos.

Era necessário demonstrar que os costumes de apoio mútuo dão aos animais melhor proteção contra seus inimigos, que fazem menos difícil obter alimentos (provisões invernais, migrações, alimentação sob a vigilância de sentinelas, etc.), que aumentam o prolongamento da vida e devido a isto facilitam o desenvolvimento das faculdades intelectuais; que deram aos homens, aparte das vantagens citadas, comuns com as dos animais, a possibilidade de formar aquelas instituições que ajudaram à humanidade a sobreviver na luta dura com a natureza e a aperfeiçoar-se, apesar de todas as vicisitudes da história. Assim o fiz. E por isto o presente livro é livro da lei de ajuda mútua considerada como uma das principais causas ativas do desenvolvimento progressivo, e não a investigação de todos os fatores de evolução e seu valor respectivo. Era necessário escrever este livro antes de que fuer a possível pesquisar a questão da importância respectiva dos diferentes agentes da evolução.

E menos ainda, naturalmente, estou inclinado a menosprezar o papel que desempenhou a autoafirmação do indivíduo no desenvolvimento da humanidade.

Mas esta questão, segundo minha opinião, exige um exame bastante mais profundo que o que achou até agora. Na história da humanidade a autoafirmación do indivíduo com freqüência representou, e continua representando, algo perfeitamente marcante, e algo mais amplo e profundo do que essa mesquinha e irracional estreiteza mental do que a maioria dos escritores apresentam como “individualismo” e “autoafirmação”.

De modo semelhante, os indivíduos impulsores da história não se reduziram somente àqueles que os historiadores nos descrevem em qualidade de heróis. Devido a isto, tenho o propósito, sempre que seja possível, de analisar em detalhe, posteriormente, o papel que desempenhou a autoafirmación do indivíduo no desenvolvimento progressivo da humanidade Por agora, limito-me a fazer nada mais que a observação geral seguinte:

Quando as instituições de ajuda mútua isto é, a organização tribal, a comuna aldeana, as guildas, a cidade da idade média começaram a perder em decorrência do processo histórico seu caráter primitivo, quando começaram a aparecer nelas as excrecências parasitarias que lhes eram estranhas, devido ao qual estas mesmas instituições se transformaram em obstáculo para o progresso, então a rebelião dos indivíduos na contramão destas instituições tomava sempre um caráter duplo.

Uma parte dos rebeldes se começava em purificar as velhas instituições dos elementos estranhos a ela, ou em elaborar formas superiores de livre convivência, baseadas uma vez mais nos princípios de ajuda mútua; trataram de introduzir, por exemplo, no direito penal, o princípio de compensação (multa), em lugar da lei do Talión, e mais tarde, proclamaram o “perdão das ofensas”, isto é, um ideal ainda mais elevado de igualdade ante a consciência humana, em lugar da “compensação” que se pagava segundo o valor de classe do danificado.

Mas ao mesmo tempo, a outra parte desses indivíduos, que se rebelaram contra a organização que se tinha consolidado, tentavam simplesmente destruir as instituições protetoras de apoio mútuo a fim de impor, em lugar destas, sua própria arbitrariedade, acrescentar deste modo suas riquezas próprias e fortificar seu próprio poder.

Nesta tríplice luta entre as duas categorias de indivíduos, os que se tinham rebelado e os protetores do existente, consiste toda a verdadeira tragédia da história. Mas, para representar esta luta e estudar honestamente o papel desempenhado no desenvolvimento da humanidade por cada uma das três forças citadas, fará falta, pelo menos, tantos anos de trabalho como tive de dedicar a escrever este livro. Das obras que examinam aproximadamente o mesmo problema, mas aparecidas já depois da publicação de meus artigos sobre a ajuda mútua entre os animais, devo mencionar The Lowell Lectures on the Ascent of Man, por Henry Drummond, Londres, 1894, e The Origin and Growth of the Moral Instinct, por A. Sutherland, Londres, 1898. Ambos livros estão concebidos, em grau considerável, segundo o mesmo plano do livro citado de Büchner, e no livro de Sutherland lhe consideram com bastante detalhes os sentimentos paternais e familiares corno único fator no processo de desenvolvimento dos sentimentos morais. A terceira obra desta classe que trata do homem e está escrita segundo o mesmo plano é o livro do professor americano F. A. Giddings, cuja primeira edição apareceu no ano 1896, em Nova York e em Londres, sob o título The Principles of Sociology, e cujas idéias dominantes tinham sido expostas pelo autor num folheto, no ano 1894.

Devo, no entanto, deixar por completo à crítica literária o exame das coincidências similitudes e divergências entre as duas obras citadas e a minha.

Todos os capítulos deste livro foram publicados primeiramente na revista Nineteenth Century (“A ajuda mútua entre os animais”, em setembro e novembro de 1890; “A ajuda mútua entre os selvagens”, em abril de 1891; “ajuda mútua entre os bárbaros”, em janeiro de 1892; “A ajuda mútua na Cidade Medieval”, em agosto e setembro de 1884, e “A ajuda mútua na época moderna”, em janeiro e junho de 1896 . Ao publicá-los em forma de livro, pensei, num princípio, incluir em forma de apêndices a massa de materiais reunidos por mim que não pude aproveitar para os artigos que apareceram na revista, bem como o juízo sobre diferentes pontos secundários que tive que omitir.

Tais apêndices teriam duplicado o tamanho do livro, e me vi obrigado a renunciar a sua publicação ou, pelo menos, a adiá-la.

Nos apêndices deste livro está incluído somente o juízo sobre algumas poucas questões que foram objeto de controvérsia científica no curso destes últimos anos; do mesmo modo no texto dos artigos primitivos intercalei só o pouco material adicional que me foi possível agregar sem alterar a estrutura geral desta obra.

Aproveito esta oportunidade para expressar ao editor de Nineteenth Century, James Knowles, meu agradecimento, tanto pela amável hospitalidade que mostrou para a presente obra, mal se inteirou de sua idéia geral, como por sua amável permissão para a reimpressão deste trabalho

Bromley, Kent, 1902

23 de set de 2010

Clássicos da Geografia: Albert Demangeon




Geógrafo francês e aluno de Vidal de La Blache, Demangeon publicou em 1905 seu primeiro trabalho de geografia regional sobre a Picardía.  Em dezembro de 1925 torna-se professor titular da cátedra de geografia econômica na Sobornne. Junto com Lucien Febvre fundou os Annales d´histoire économique et sociale.
Para este geógrafo, a Geografia Humana deveria estudar os homens em sua relação com o meio, englobando tanto as influências naturais como as do homem sobre a natureza. Afim de atingir este objetivo, a Geografia não deveria estabelecer relações causais simples entre os fenômenos. Isso porque, segundo Demageon, o espaço geográfico é complexo, multiescalar, cujos elementos possuem interrelações mútuas.
Tendo iniciado seus trabalhos no campo da Geografia Regional, ao longo de sua trajetória foi se aproximando do campo da geografia econômica e da geografia política. Também realizou estudos sobre o hábitat e a moradia rural.

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Uma definição da Geografia Humana
Albert Demangeon

Desde a Antigüidade muitos escritores, de espíritos curiosos e observadores, constataram na superfície da Terra diferenças entre os costumes dos homens. Muitos viajantes, desde Heródoto, as têm descrito; muitos historiadores e moralistas, desde Tucídides, as têm tomado como base de suas reflexões filosóficas. Porém, a idéia de constituir uma ciência, isto é, em procurar a explicação, veio muito mais tarde e só apareceu a partir do fim do Século XVIII. Até então, o estudo dos fatos que agrupamos sob o nome de Geografia Humana: modos de vida dos homens na superfície da Terra, modos de grupamentos, consistia em uma simples descrição olhada sobretudo como um conhecimento de caráter utilitário e prático ou como uma imagem pitoresca dos costumes e das diferentes maneiras de ser dos povos. Eram relatórios de informações destinados a guiar os viajantes, eram narrações freqüentemente romanceadas de aventuras maravilhosas feitas sobretudo para agradar a imaginação; eram enumerações de lugares e de distâncias, todas entremeadas de recordações históricas; eram, por vezes, considerações arqueológicas e genealógicas; noções de estatística e de administração. Estes trabalhos visavam, certamente, satisfazer a curiosidade que todos os espíritos, mesmo os mais humildes, sentem por aquilo que se relaciona com os povos estrangeiros e com as paisagens exóticas. Porém, de fato, este conjunto de conhecimentos era apenas um caos desordenado, sem esforço construtivo, sem luz explicativa, isto é, sem característica científica.
O progresso da Geografia Humana como ciência remonta ao progresso do nosso conhecimento do globo, efetuado sobretudo em conseqüência de viagens de descobertas e de colonização do Século XVIII; viagens efetuadas sobretudo por cientistas e por exploradores animados de curiosidade científica. Eles obtiveram através do mundo elementos de comparação entre as sociedades humanas situadas em diferentes graus de civilização; ora, o espírito de comparação desperta o espírito científico, porque cria o sentido da generalidade dos fatos.
Vidal de La Blache, que foi o iniciador da Geografia Humana na França, mostrou que o caráter científico desta geografia remonta a dois geógrafos alemães: Alexandre von Humboldt (1769-1859) e Karl Ritter (1779-1859), quando os dois demonstraram que entre os fenômenos físicos e os fenômenos da vida há relações constantes de causa e efeito, mas cada um deles trouxe sua maneira original de conceber esta conexão. Autor do Cosmos, Humboldt, sobretudo naturalista, interessou-se em estudar os fenômenos físicos e a mostrar, por exemplo, a influência dos fatores como a altitude, a temperatura, a umidade, a seca sobre as formações vegetais. Autor de Allgemeine vergleichende Geographie, provido de uma forte cultura histórica, K. Ritter mostra que em Geografia Humana a natureza não é o único poder causal e que o próprio homem é, na superfície da Terra, um agente de transformação e de vida. Dessa maneira, a natureza e o homem, Natur und Geschichte, como dizia Ritter, são "os dois termos perpetuamente associados" entre os quais deve gravitar o pensamento do geógrafo.
É neste caminho que a Geografia Humana permaneceu, com dois mestres de escola, Ratzel na Alemanha e Vidal de La Blache na França. Suas doutrinas e seus ensinamentos foram divulgados em quase todos os países, inspirando aqui e acolá obras que contribuíram para vulgarizar a nova ciência e em fazer penetrar os princípios e as lições fora dos meios intelectuais, até nas esferas de ampla cultura. Pode-se citar na França: J. Brunhes; na Alemanha: Philippson; na Inglaterra: Mackinder e Herbertson; nos Estados Unidos: Miss Semple; na lugoslávia: Cvijic; na Itália: Marinelli; na Rússia: Woeikof.
1. Definição e objeto da Geografia Humana
Se tentarmos precisar o espírito que domina os trabalhos de Geografia Humana e procurar aquelas tendências comuns às quais obedecem podemos chegar, por aproximações sucessivas, a definir o objeto desta ciência.
De início, a Geografia Humana aparece-nos como o estudo das relações dos homens com o meio físico. Esta noção nos vem sobretudo da Geografia Botânica, por intermédio de Humboldt e de Berghans e, particularmente, dessa ciência botânica chamada Ecologia, que estuda até que ponto os fatores do clima e do solo determinam a vida das plantas. Da mesma forma, eles podem em uma grande escala determinar a vida dos homens. Uma das primeiras preocupações do geógrafo é colocar os fatos humanos em relação com a série de causas naturais que podem explicá-los e recolocá-los, desta maneira, no encadeamento do qual faz parte. O entendimento dessas causas nos esclarece sobre os modos de vida e os hábitos materiais dos homens. Esta influência do meio físico ambiental, como dizem certos americanos, manifesta-se em toda a parte, em todos os domínios da atividade humana, em exemplos entre os quais o geógrafo só tem o embaraço da escolha. É numa dependência causal que se encontram, frente a frente, os três termos de uma associação que une estreitamente uma planta, um animal doméstico e um modo de vida, isto é, o líquen, a rena e o Lapão. A influência soberana do meio conduziu os indígenas da floresta da África Central a uma vida de caçador e de coletor, àquelas das estepes da Ásia Central a uma vida de nômades e de pastores. Nos países áridos existe uma estreita conexão entre as fontes e a posição das aldeias; nas altas montanhas, entre as raras manchas de boa terra bem exposta e o habitat humano. Não houve do ponto de vista do desenvolvimento da civilização uma profunda diferença entre a Europa, localizada no coração do hemisfério ocidental e a Austrália, isolada no meio de mares imensos? As penínsulas e as ilhas não contribuíram para a formação de individualidades humanas, de Estados? A separação de Portugal em relação à Espanha não se explica, em parte, do lado do Oeste por sua posição oceânica, do lado do Leste pelo relevo acidentado e as gargantas selvagens que o isolam da Espanha?
Porém, ao levar até o fim esta primeira definição da Geografia Humana, percebe-se que ela não poderia abranger todo o estudo das relações humanas com o meio físico. A definição logo aparece muito ampla, porque muitas dessas relações escapam certamente à competência da Geografia Humana e se ligam a ciências bem definidas. Em seu livro sobre La Terre et l'Evolution humaine, L. Febvre marcou fortemente essas zonas interditas à Geografia Humana. Por exemplo, embora certas raças humanas pareçam ligadas a um domínio geográfico bem limitado, não cabe à Geografia Humana explicar as diferenças que existem entre as raças do ponto de vista de suas reações em face da cor de sua pele, em face dos fatores do clima. Deixemos, então, a outros o estudo dos elementos fisiológicos da natureza humana. Não esqueçamos que o homem tem uma anatomia, uma fisiologia, uma patologia que derivam de caracteres hereditários e cujo estudo constitui a Antropologia e a Medicina. Tratemos de retificar nossa primeira definição.
Pode-se, portanto, dar uma segunda definição: a Geografia é o estudo dos grupamentos humanos em suas relações com o meio físico. Renunciemos a considerar os homens como indivíduos. Pelo estudo de um indivíduo, a Antropologia e a Medicina podem chegar a resultados científicos; a Geografia Humana não. O que ela estuda são os homens como coletividades e grupamentos: são as ações dos homens como sociedades. Devemos partir em nossas pesquisas, não do indivíduo, mas do grupo. Desde os tempos mais distantes vemos em ação não homens isolados, mas grupamentos de homens. Tão longe quanto se possa recuar ao passado, constatamos que viver em sociedades, viver com os semelhantes que têm os mesmos modos de viver é um estado inseparável da natureza humana. Esses grupamentos são, às vezes, pequenos como são as numerosas aldeias neolíticas, cujos restos foram encontrados. Elas são às vezes imensas como essas sociedades da época paleolítica, cujas ferramentas se assemelham através do mundo. Dessa forma, é pelos seus grupamentos que a humanidade mesmo primitiva entra em contato com o meio físico. É um esforço de cooperação que vemos na origem das civilizações e de suas conquistas materiais sobre a natureza. Os esforços como a construção dos dolmens, a organização da irrigação na Mesopotâmia e no Egito, como a domesticação dos animais, só poderiam ser empreendimentos coletivos. Mas esta definição ainda não é suficiente para envolver todo o conceito de Geografia Humana, e há uma última correção que nos aproxima definitivamente da realidade.
A Geografia Humana é o estudo dos grupamentos humanos em suas relações com o meio geográfico. A expressão de meio geográfico é mais compreensiva que a de meio físico; ela engloba não somente as influências naturais que podem-se exercer, mas ainda uma influência que contribui para formar o meio geográfico, o ambiente total, a influência do próprio homem. No início de sua existência, a Humanidade foi certamente escrava, pela sua dependência da natureza. Porém, o homem nudus et inermis não tardou a tornar-se, graças à sua inteligência e à sua iniciativa, um elemento que exerce sobre o meio uma ação poderosa. Torna-se um agente da natureza transformando a fundo a paisagem natural, criando associações novas de plantas e animais, os oásis para as culturas de irrigação, as formações vegetais como o matagal e a charneca em detrimento da floresta. E essas transformações se estenderam por diversas regiões porque há, de grupo para grupo de homens, as migrações, os empréstimos, as imitações. E essa ação das sociedades humanas sobre a natureza é tanto mais rica e mais forte quando as suas iniciativas as têm tornado mais capazes de ampliar seu raio de ação, de alcançar mais. Há tais dados da natureza que o homem tem, por sua ação, profundamente perturbado: na Antigüidade, as ilhas Britânicas eram a extremidade do mundo conhecido, numa posição excêntrica; na época moderna, a partir da descoberta e do povoamento do Novo Mundo, elas ocupam uma posição central. Em nossos dias, a ação do homem sobre a natureza está-se ampliando ainda mais em razão das armas que a ciência Ihe tem dado e do domínio que os transportes Ihe asseguram sobre as distâncias. Dessa maneira, as obras humanas oriundas de todo o passado da Humanidade contribuem para constituir o meio, o ambiente, o meio geográfico que condiciona a vida dos homens. Assim, podemos adotar como definição da Geografia Humana o estudo das relações dos grupamentos humanos com o meio geográfico.
Esta definição da Geografia Humana permite-nos conceber de maneira concreta qual é seu objeto e determinar os quadros e os limites. Ela compreende quatro grandes grupos de problemas que resultam precisamente das relações das sociedades humanas com o meio geográfico.
Em primeiro lugar é a valorização feita pelas sociedades humanas dos recursos que a natureza fornece ou o que elas conquistaram sobre ela; são modos de vida tais como os modelam as grandes zonas naturais: a vida humana nas regiões frias; a vida humana nas regiões temperadas; a vida humana nas regiões áridas; a vida humana nas regiões quentes, comparando-se cada uma dessas zonas, seu contingente de plantas cultivadas e de animais domésticos; a vida humana na montanha; a vida humana no litoral.
Em segundo lugar é a elaboração progressiva pelas sociedades, ao correr dos tempos e através do espaço, dos diferentes procedimentos pelos quais elas têm, para sua subsistência, tirado partido dos recursos naturais, desde os mais elementares até os mais complexos: quer se trate da colheita, da caça e da pesca ou da agricultura e da criação, quer da indústria ou do comércio, das trocas e dos transportes. Trata-se, em suma, da evolução de um tipo de civilização.
Em terceiro lugar é a distribuição dos homens em função mesmo das condições da natureza e dos recursos criados pela sua exploração: a extensão da Humanidade, seu efetivo e sua densidade, seus movimentos e suas migrações.
Em quarto lugar são as instituições humanas, isto é, os modos de ocupação da terra desde as formas mais simples até os grupamentos mais complicados, desde a casa e a aldeia até as cidades e os Estados.
Eis aí o que parece ser o conteúdo próprio da Geografia Humana. É nestes quadros que se divide todo o trabalho de pesquisas, toda a sua obra.
2. O Método da Geografia Humana
Conceber e limitar o conteúdo e o objeto da Geografia Humana não basta. É preciso princípios de método, seja para melhor entendê-la, seja para não se afastar dela. Eis os princípios essenciais desse método.
Primeiro princípio: Não se deve crer em Geografia Humana numa espécie de determinismo brutal, numa fatalidade resultante dos fatores naturais. A causalidade em Geografia Humana é muito complexa. Com sua vontade e suas iniciativas o próprio homem é uma causa que traz perturbações àquilo que poderia parecer a ordem natural. Por exempto, uma ilha não está necessariamente destinada à vida marítima. O nascimento de uma vida marítima procede muitas vezes dos contatos de civilização. Assim, os ingleses tornaram-se marinheiros somente com a escola de mercadores escandinavos e hanseáticos. Da mesma forma, a agricultura não é somente função das qualidades da terra; há terras férteis que não são cultivadas; há terras pouco férteis que o são. Tudo depende do estágio de civilização da sociedade agrícola. O homem é, às vezes, o responsável pela fertilidade do solo, por exemplo, praticando a irrigação. A antiga extensão das vinhas na Europa Ocidental até a Bélgica, a Inglaterra e o Norte da França fez-se em contradição com as exigências naturais de sua vegetação; se ela pôde avançar tão longe nesses países frios e pouco ensolarados é porque nesses países havia necessidade do vinho para celebrar a missa e que não se podia, por falta de transporte barato, recebê-lo dos países mais meridionais; porém, à medida que esses transportes se tornaram menos onerosos, a cultura da vinha recuou em direção ao Sul, em sítios mais favoráveis e mais de acordo com as suas necessidades de vegetação e maturidade. O mesmo pays pode modificar profundamente de valor pela ocupação humana, conforme o grau de civilização das sociedades humanas que o povoam. Antes da chegada dos europeus, a Austrália estava ainda num estágio de vida selvagem; não havia grandes animais para caçar, salvo o canguru que era raro; uma pobre caça de marsupiais, de serpentes, de insetos; não havia animais a domesticar; poucas plantas selvagens a consumir; indígenas famélicos nômades em busca de uma pobre alimentação. Chegam os europeus com suas plantas cultiváveis e seus animais domésticos e, depois, com seus poderosos meios de arar e circular, e fizeram deste continente muito tempo atrasado, um país de grande cultura e de criação intensiva, uma terra de civilização progressiva e de conforto humano. Portanto, nada de determinismo absoluto, mas somente possibilidades colocadas em uso pela iniciativa humana; nada de fatalidade, mas de vontade humana.
Segundo princípio: A Geografia Humana deve trabalhar apoiando-se sobre uma base territorial. Em todos os lugares onde vive o homem, seu modo de existência implica uma relação necessária entre ele e o substrato territorial. É precisamente a consideração deste laço territorial que diferencia a Geografia Humana da Sociologia. Os sociólogos têm tendência a perceber apenas os aspectos psicológicos dos grupamentos humanos, a esquecer as relações dos homens com a terra, a tratar do homem como se ele estivesse desligado da superfície terrestre. Não se poderia desconhecer, aliás, que existem outros cimentos sociais que a terra, em particular aqueles que repousam sobre os princípios de natureza psicológica, tais como o parentesco e a religião, e seu estudo pertence não aos geógrafos, porém aos sociólogos.
Todavia, o próprio da Geografia Humana é constatar que o homem não pode ser estudado sem o solo que ele habita e que o solo é o fundamento de qualquer sociedade. Pode-se mesmo dizer que quanto mais esta base é larga e rica mais profundas são as relações entre ela e seus habitantes. Mais forte é a densidade da população e mais intensiva a exploração da terra mais esses laços se tornam estreitos.
Pode-se dizer com Sanderson que, mesmo nas tribos de caçadores, a utilização do mesmo território cria uma solidariedade social, independente dos laços sangüíneos e mais forte que eles. Entre os Algonquinos da América do Norte, povo caçador, o território de cada tribo era dividido em setores atribuídos desde tempos imemoriais às mesmas famílias; esses grupos de família constituíam a verdadeira unidade social; o cimento desta unidade não era o laço de parentesco mas a comunidade de poder do mesmo território, do mesmo setor. Esses setores tinham entre os Algonquinos uma média de 200 a 400 milhas quadradas por família, no território central da tribo, e duas a quatro vezes mais sobre a fronteira desse território. Sobre esse território a família caça. A caça é regulamentada de tal maneira que apenas o crescimento natural dos animais é consumido; tem-se o cuidado de deixar após cada estação muitos animais para assegurar as provisões do ano seguinte: sabe-se que um massacre indiscriminado exporá a família à fome. Em todos os domínios de caça da América pré-colombiana (caribu, bisão, guanaco) existia a mesma organização. Entre os povos inferiores da Austrália, a tribo tinha os mesmos direitos de coleta e de caça sobre um território devidamente limitado; no interior mesmo do território da tribo cada unidade familiar possuía direitos semelhantes. Com mais forte razão entre os povos agrícolas, a base territorial leva vantagem como cimento social sobre os princípios de natureza psicológica. Todas as comunidades agrícolas têm uma estrutura determinada pelos laços que as prendem ao solo; grupamento das habitações em aldeias, dada a necessidade de defenderem-se e sobretudo às necessidades do trabalho em comum; a organização extremamente regulamentada pela posse das terras cultivadas e baseada na rotação de culturas de uma parte a outra do território; caráter permanente dos limites da terra; em certos países, as obras de irrigação cuja localização comanda a repartição territorial dos campos cultivados. Diz ainda Sanderson: "A comunidade da aldeia foi o meio de dar à humanidade um governo local baseado sobre o princípio territorial, de preferência ao princípio de parentesco." Substituindo a organização tribal por esta organização territorial, há uma base geográfica que, desde uma alta antigüidade, a maior parte das civilizações deu aos grupamentos rurais. Esses habitats onde os homens se agrupam, onde eles trabalham, são de dimensões muito desiguais que podem ir da localidade elementar ao grande território. Eles formam os quadros no interior dos quais se distribuem os fatos geográficos e, por seus caracteres próprios, imprimem uma originalidade para a Humanidade que aí se concentra. Compreender e descrever essas unidades regionais é uma das funções primordiais da Geografia, porque cada uma delas forma freqüentemente uma espécie de personalidade que é preciso reviver. Esta Geografia Regional constitui um dos pontos de apoio essenciais do trabalho da Geografia Geral, porque geralmente só se consegue conceber os grandes conjuntos pela análise de pequenos pays que a compõem; para melhor abranger os fatos gerais é bom partir do particular, do localizado, do regional, observar o que a região contém de particular em seus horizontes, suas plantas, seus habitantes e definir alguma coisa de animado que resulta da união de um fragmento de terra com um grupo humano. Somos levados, dessa maneira, invencivelmente ao ponto de partida do nosso conhecimento do mundo, ao substrato imediato de nossa existência material. É freqüentemente pela análise dos caracteres que compõem a fisionomia de uma região que se pode melhor compreender as relações que unem os homens a seu meio.
Terceiro princípio: Para ser compreensiva e explicativa, a Geografia Humana não pode ater-se somente à consideração do estado atual das coisas. É preciso encarar a evolução dos fatos, remontar ao passado, isto é, recorrer à História. Muitos fatos que, considerados em função das condições presentes, nos aparecem como fortuitos se explicam desde que se os considere em função do passado. A História abre vastos horizontes sobre o passado que viu suceder tantas experiências humanas. Esta noção de idade, de evolução, é indispensável. Sem ela a razão do que existe nos escaparia freqüentemente. Como, por exemplo, a Geografia Urbana poderia dispensar a História? Como explicar Roma, Paris, Londres, sem conhecer seu passado? Como compreender a população de um velho país como a França, se não conhecemos a história do plantio, do desflorestamento, da partilha dos campos, dos trabalhos de drenagem e de represamento? Todo o estudo desta conquista do solo é feito com base na História. Eis por que os trabalhos de Geografia Humana contêm sempre muito de pesquisas históricas, e por que os geógrafos se encontram freqüentemente nos depósitos de arquivos, com os historiadores. Para explicar os fatos que observa, o geógrafo não deve contentar-se de situá-los racionalmente no espaço; é preciso também que ele os projete no passado. Também deve saber servir-se dos documentos históricos e saber também onde encontrá-los. Para tomar somente o exemplo da França, existem grandes depósitos de arquivos: os Arquivos Nacionais de Paris, que possuem para as diferentes séries ao menos um inventário sumário; os Arquivos Departamentais, que não estão de todo inventariados; os Arquivos Comunais, muito desigualmente acessíveis. Muitas bibliotecas possuem depósitos de documentos inéditos, desde a Biblioteca Nacional de Paris até as das grandes cidades da França e as dos estabelecimentos públicos, como a École des Ponts et Chaussées. Em seguida, há os arquivos nas administrações públicas: Ministérios de Obras Públicas, do Comércio, da Agricultura; cadastro, sem talar nos arquivos da Câmara de Comércio, da Rede Ferroviária, Companhias de Mineração, Companhias de Navegação, Sociedades Agrícolas e Industriais, e mesmo dos arquivos dos tabeliães tão interessantes a pesquisar para o estudo das propriedades e explorações. Pode dar, enfim, como exemplo de uma massa de documentos à disposição de pesquisadores a coleção de documentos inéditos sobre a história econômica da Revolução Francesa, rica já de mais de uma centena de volumes, e que projetam uma viva luz sobre tantos fatos da Geografia Humana: a exploração das culturas de charnecas, bens comunais, direitos de percursos e de terrenos cuja pastagem é livre, oficinas rurais e indústrias domiciliares; a metalurgia e as florestas, os inícios do maquinismo, a rede das estradas e das vias navegáveis, o movimento da população, a evolução da agricultura, os regimes agrários. Portanto, o estudo do passado é necessário á explicação dos fatos da Geografia Humana. A Humanidade evolui no tempo. Para compreender esta evolução o testemunho da História é tão necessário como o conhecimento das leis naturais.


Transcrito do livro Problèmes de Géogrephie Humaine (Paris, Librairie Armand Colin, 1952), p. 25-34. 
Tradução de Jaci Silva Fonseca.

13 de set de 2010

Núcleo de pesquisa Geografia, Espaço e Ação

O NuGEA se concentra no entendimento do espaço como importante elemento nas práticas dos sujeitos sociais. O foco consiste em compreender como o espaço, através de sua apropriação, pode ser visto como categoria central na construção da ação política dos sujeitos.

As pesquisas desenvolvidas no laboratório tem como objeto a relação dos sujeitos com o espaço e as formas de uso e apropriação que fazem dele.


www.ufjf.br/nugea

23 de ago de 2010

Sugestão: pesquisa

Algumas sugestões para pesquisas:

1. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)
www.ipea.gov.br
www.ipea.gov.br/geo (O programa permite ao usuário ordenar e visualizar dados em seu contexto geográfico, seja por região, estado, município, ou área do mapa)

2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísitca (IBGE)
www.ibge.gov.br

3. Departamento Intesindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese)
http://www.dieese.org.br/

4. Ministério do Trabalho e emprego
www.mte.gov.br

5. Banco de dados do Sistema Único de Saúde - DataSus
www.datasus.gov.br

6. Banco de Dados da Luta pela Terra - DATALUTA
www.fct.unesp.br/nera

7. Relação Anual de Informações Sociais - RAIS
http://www.rais.gov.br/

8. Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA
http://www.incra.gov.br/portal/

9. Fundação Getúlio Vargas
www.fgv.gov.br

10. Núcleo de Estudos e Modelos Espaciais Sistêmicos - Nemesis
http://www.nemesis.org.br/

11. Fundação Sistema Estadual de Análises de Dados - Seade
http://www.seade.gov.br/

12. Fundação João Pinheiro (MG)
http://www.fjp.gov.br

13. Centro de Pesquisas Sociais da UFJF 
http://www.cps.ufjf.br/wpcps/

14. Instituto Polis
www.polis.org.br

15. Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas - Ibase
www.ibase.br

16. Observatório dos conflitos urbanos do Rio de Janeiro
http://www.observaconflitos.ippur.ufrj.br/novo/ajax/indexajax2.asp

17. Observatório das metrópoles
http://web.observatoriodasmetropoles.net/

18. Instituto Pereira Passos - Rio de Janeiro
http://www.rio.rj.gov.br/ipp/

15 de ago de 2010

Cinema e Geografia: "Que viva México!"

Que viva México é o filme não concluido do cineasta soviético Sergei Eisenstein. O filme, cujas gravações ocorreram no início da década de 1930 no México, pretendia ser o retrato daquele país desde a época pré-hispânica até à revolução mexicana. Em 1973, anos após a morte do cineasta, o filme foi montado. São "quatro episódios mais um prólogo e um epílogo. O prólogo apresenta imagens alegóricas ao México pré-hispânico. O episódio "Sandunga" recria os preparativos de uma boda indígena em Tehuantepec. "Fiesta" aborda o ritual da "fiesta brava", enquanto "Maguey" encena a tragédia de um camponês vitimado por se rebelar contra o seu patrão. "Soldadera" (episódio não filmado) apresentaria o sacrifício de uma mulher revolucionária. O epílogo, também conhecido como "Dia de mortos", refere-se ao sincretismo das diversas visões que coexistem no México à volta do tema da morte".

4 de ago de 2010

Apresentação - Pensamento geográfico brasileiro v.3

Pensamento geográfico brasileiro v. 3
Ruy Moreira

Apresentação

Com este volume se completa a trilogia – na verdade, uma tetralogia que se inicia com Para onde vai o pensamento geográfco? – com a qual pretendemos formar um quadro analítico da evolução do pensamento geográfco brasileiro. A difculdade de montar esse painel pode ser observada ao longo do livro. Todo trabalho de epistemologia crítica supõe uma base de história das ideias que não se dispõe para o pensamento geográfco brasileiro. Há estudos parciais, voltados para a reconstituição da evolução de setores, que o leitor encontra na bibliografa.
Todo o suporte que utilizamos foi, assim, a própria literatura geográfca brasileira. E isso exigiu um enorme esforço de sistematização. Mas, sobretudo, uma pertinaz atenção para não confundirmos o livro com um estudo da Geografa do Brasil, que em geral forma o conteúdo de quase todos os textos encontrados. Veríssimo Pereira advertia para a necessidade de traçar essa diferença. O que nos obrigou a uma peranente vigilância de fronteira entre um tema e outro. Mesmo assim, foi impossível não ultrapassar a linha. O leitor perceberá isso em várias passagens do livro. Em consequência, uma massa de anotações sobre a Geografa do Brasil contida nos textos lidos se acumulou em paralelo. Fruto do método de seleção de conteúdo adotado. E do projeto de um outro livro que, no decurso da elaboração deste, acabou surgindo.
Toda uma atenção particular foi dada também ao critério de seleção das leituras. A literatura geográfca brasileira é maior do que supomos, além de absolutamente heterogênea e dispersa. Acresce que resolvemos nela incluir também a vasta literatura de viajantes, cronistas e naturalistas, para cuja contemplação mais criteriosa fomos levados ao recurso de estabelecer previamente uma distinção entre Geografa informal e formal que fzesse valer para as obras da literatura colonial o mesmo campo de fundamento epistemológico que o conceito acadêmico estabelece como válido paraconsiderar as obras do saber especializado. Foi com base nesse conceito e critério distintivos que incorporamos as obras da primeira ao lado da segunda. Deixamos ao leitor o julgamento.
Optamos por contemplar no livro os textos que melhor abrigassem em suas análises a tese da herança discursiva dos problemas provindos dos embates que envolveram a Geografa e a Sociologia no ambiente intelectual francês do começo do século xx, que permeia a refexão crítica de toda a trilogia. E, entre eles, particularmente os que se defrontaram com os efeitos epistemológicos desse bloqueio diante da tarefa
de a Geografa brasileira oferecer à sociedade nacional uma teoria de Brasil explicada geografcamente. Muitos livros e textos de periódicos fcaram, assim, excluídos. Provavelmente alguns foram inadequadamente incluídos. Seja como for, também deixamos o julgamento para o leitor.
O livro está dividido em cinco partes. Na primeira fazemos o retrospecto da herança intelectual de nossas relações com a Geografa mundial da qual viemos e que analisamos nos dois primeiros volumes. Na segunda analisamos as obras que espelham aquilo que poderíamos chamar de um pensamento geográfco brasileiro.
Na terceira buscamos mostrar sete livros centrados na questão de teorizar o geral, dos quais se pode apreender o miolo criativo do pensamento brasileiro. Na quarta mostramos os entrecruzamentos da literatura aqui analisada entre si e com a literatura mundial, abordada nos volumes anteriores. A quinta e última parte é o capítulo conclusivo da trilogia.
Com esta tetralogia, o leitor brasileiro dispõe de um painel analítico o mais amplo possível sobre nossas origens discursivas nacionais e mundiais e o modo como delas temos sido também sujeitos. E se através dela for possível aumentarmos esse compartilhamento mundial e brasileiro de compreender o mundo com os olhos da Geografa, teremos atingido nosso propósito.

Sumário - Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica

Geografias pós-modernas: a reafirmação do espaço na teoria social crítica
Edward W. Soja

SUMÁRIO

1. História: Geografia: Modernidade
1.1. Localizando as origens das geografias pós-modernas
1.2. A desconstrução e a reconstituição da modernidade
2. Espacializações: a Geografia marxista e a Teoria Social Crítica
2.1.Descobrindo as raízes: a espacialiade na tradição marxista francesa
2.2. Acrescentando Marx à geografia moderna: a primeira crítica
2.3. A inversão provocadora: acrescentando uma geografia ao marxismo ocidental
2.4. Passagens para a pós-modernidade: a reconstrução da geografia humana crítica

3. A dialética sócio-espacial
3.1. Espacialidade: a organização do espaço como produto social
3.2. A definição da problemática espacial

4. Debates urbanos e regionais: a primeira rodada
4.1. A problemática espacial urbana
4.2. A problemática espacial regional e internacional

5. Reafirmações: rumo a uma ontologia espacializada
5.1. Materialidade e ilusão na conceituação do espaço
5.2. De volta à ontologia: da espacialidade existencial do ser

6. Espacializações: uma crítica da versão Giddensiana
6.1. Duplicando a hélice: o espaço-tempo e Anthony Giddens
6.2. A constituição da sociedade e a reconstituição da teoria social

7. A Geografia histórica da restruturação urbana e regional
7.1. Observações sobre o conceito de reestruturação
7.2. As regiões no contexto: da "reestruturação" e da "questão regional"
7.3. A reestruturação e a evolução da forma urbana
7.4. Algumas conclusões e continuidades contemporâneas

8. Tudo se junta em Los Angeles
8.1. O cenário contemporâneo
8.2. Uma breve referência histórica
8.3. A reestruturação espacial de Los Angeles
8.4. Encontrar outros espaços?

9. Decompondo Los Angeles: Rumo a uma Geografia Pós-moderna
9.1. Um giro por Los Angeles
9.2. De volta ao centro
9.3. Posfácio

Bibliografia

Índice remissivo

1 de ago de 2010

O espaço geográfico como categoria filosófica

O espaço geográfico como categoria filosófica

Milton Santos


Desde que se escreveram as primeiras filosofias, a noção de espaço e a noção de tempo constituíram uma preocupação dominante. Não foi Aristóteles quem escreveu que "aquilo que não está em nenhuma parte não existe?" Bem mais próximo de nós, Ernst Cassirer (1957, vol. 3, p. 150) considera que "não há uma só criação do espírito humano que não esteja, de alguma forma, relacionada com o mundo do espaço e que não busque, de alguma maneira, sentir-se à vontade dentro dele. Tentar conhecer este mundo e dar o primeiro passo no sentido da objetivação, através da apreensão e da determinação do ser".

Os primeiros geógrafos, isto é, aqueles que se ocupavam do espaço geográfico, antes de a geografia ser inventada como ciência, eram igualmente filósofos, tal como Estrabão, para quem, aliás, "a utilidade da geografia pressupõe que o geógrafo seja também um filósofo, o homem que se preocupa com a investigação da arte da vida, isto é, com a felicidade". Segundo Hegel (Enciclopédia, 246) "o que hoje se chama Física chamava-se antigamente Filosofia da Natureza". E Bertrand Russel no seu ABC da Relatividade (1974, p. 209) lembra que a geografia fora incluída como uma parte da física. Para o filósofo inglês, "pode-se dizer, falando de uma forma geral, que a física tradicional se divide em duas partes: verdades evidentes c geografia".

Desde, porém, que a natureza é uma natureza humanizada, a explicação não é física, mas social. A geografia deixa de ser urna parte da física, uma filosofia da natureza, para ser uma filosofia das técnicas. As técnicas são aqui consideradas como o conjunto dc meios de toda espécie dc que o homem dispõe, cm um dado momento, c dentro dc uma organização social, econômica e política, para modificar a natureza, seja a natureza virgem, seja a natureza já alterada pelas gerações anteriores.

Cada coisa é um modo de produção e os modos dc produção se realizam por intermédio das técnicas, cujo número é grande: técnicas produtivas, técnicas sociais, técnicas políticas, etc. Mas, nenhuma sociedade utiliza técnicas que sejam exclusivamente originárias de um só momento histórico. Não vemos, a cada dia, em nossas ruas, o transporte dc mercadorias no lombo dc burros ou utilizando caminhões do último modelo? Não utilizamos meninos de recado paralelamente ao telex? Não se fabricam ainda hoje - e felizmente - de forma artesanal, alimentos que datam dos princípios dc nossa história como povo, c ao mesmo tempo nos utilizamos dc enlatados cujo preparo e cujo gosto são semelhantes aos dos países mais avançados neste assunto?

As técnicas devem ser estudadas na sua coabitação em um lugar, mas também na sua sucessão. Aqui, uma vez mais, as noções de espaço e de tempo se conjugam. Isto é fundamental para podermos interpretar a seqüência das relações entre o homem e a natureza, as formas de sucessão das forças produtivas e das relações de produção ligadas à história de uma determinada área: esse método é o único que nos permite definir corretamente uma sociedade e um espaço.

Uma leitura "geográfica" dc certas obras filosóficas (não apenas marxistas) seria rica de ensinamentos: por exemplo, certos textos de Cassirer, mas também d'Arcy-Thompson, Jakubowsky, Lukáes, Kuber etc. Damos um lugar a parte a Lefébvre. Para ajudar-nos na formulação teórica e epistemológica do espaço humano, a quase tudo o que ele escreveu recentemente com referencia explícita ao espaço, preferimos sua
Critique de la Vie Quotidienne, escrita há quase trinta anos. Este trabalho, de resto, aproxima-se do estudo de Sartre sobre a Crítica da Razão Dialética ou mesmo sobre O Ser e o Nada. É difícil dizer (e aliás desnecessário) qual dos dois poderá contribuir mais de perto para a elaboração de uma filosofia e uma epistemologia do espaço humano. Não se trata, de fato, de esperar que os filósofos profissionais digam o que é preciso fazer em filosofia da geografia. Como Sartre nos lembra, é chegado o tempo cm que cada disciplina constrói sua própria filosofia. Esta será talvez menos uma filosofia espontânea dos sábios, na concepção de Althusser, do que uma epistemologia-filosofia, segundo Piaget.

Mas a geografia deve ser pensada de dentro, isto e, a partir do espaço. Por isso, a aplicação de conceitos filosóficos exteriores ao fato que se quer pensar não pode ajudar-nos. Um exemplo dessa utilização de conceitos buscados no discurso filosófico, mas cuja aplicação ao real deixa a desejar, é dado por Amadeo e Golledge (1975) no capítulo consagrado aos objetivos da pesquisa geográfica. O correto e partir da própria realidade e não buscar legitimar conceitos empírico-abstratos, cujo uso, aliás, e já antigo em geografia, trazendo-lhes a ajuda de conceitos filosóficos claramente expressos pelos seus autores, mas criados para situações diferentes c enunciados em um contexto diverso. A teoria geográfica tem de ser buscada nó seu domínio próprio: o espaço. A filosofia pode ser um guia, mas os filósofos não nos oferecem respostas a priori, como aqueles dois autores erroneamente pensaram.

A falta de "prática" das disciplinas particulares é, tal como Foucault escreveu no número inaugural de Hérodote, um obstáculo a que os filósofos "generalistas" possam verdadeiramente guiar os geógrafos em suas análises do espaço. E talvez a principal dificuldade quando se lêem trechos de Bachelard ou mesmo de Lefebvre (exemplo: A Produção do Espaço, 1975). Não se pode pedir ao filósofo para escrever em um jargão de geógrafo. Mas Lefebvre fez sugestões bem explícitas: ver por exemplo em seu livro Le Temps des Méprises (1975) sua proposição de um espaço-análise.

Sem dúvida a palavra filosofia assusta, de um lado porque ela é, numa acepção pejorativa, freqüentemente confundida com a metafísica: entre os que se dizem preocupar com o concreto das coisas, muitos imaginam que o esforço dc abstração pode ser feito fora do concreto e mesmo contra o concreto. E a concretude da abstração está na base mesma da realização dos nossos mínimos atos como ser social. Sem abstraçãonão poderia haver linguagem nem produção. Quando falamos nas coisas mais triviais, não estamos adjetivando as infinitas modalidades, mas nos referimos ao gênero. Não fora assim e seríamos incapazes de comunicar o nosso pensamento ao vizinho.

A filosofia, assim considerada, nem e mesmo, na verdade, um privilégio dos filósofos (profissionais), porque assim como A. Gramsci nos recorda, ela é, também, elaborada pelo povo. "li preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil por ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de especialistas ou de filósofos profissionais e sistemáticos. Por conseguinte é preciso começar demonstrando que todos os homens são filósofos, defendendo os limites dessa filosofia espontânea, própria de lodo mundo, ou seja, a filosofia contida: a) na própria linguagem que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não só arrumação de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; b) no senso comum e no bom senso; c) na religião popular e, conseqüentemente, em todo o sistema de crenças, de superstições, de opiniões, de modos de ver e de atuar, que se incluem no que, em geral, se chama de folclore" (A. Gramsci, 1972, p. 11). A filosofia que nos devia preocupar é aquela autoconsciência da época histórica, à qual se referiu Th. Oizerman (1973, ch. 6).

O espaço resultado da produção, e cuja evolução é conseqüência das transformações do processo produtivo em seus aspectos materiais ou imateriais, é a expressão mais liberal e também mais extensa dessa praxis humana, sem cuja ajuda a existência não pode ser entendida. Assim, o pensamento espacial não se pode fazer fora da busca de uma compreensão do fato tal qual se dá, mas uma busca que vai além da apresentação e nos permite chegar à representação.

Elementos para a construção de uma filosofia da geografia

Uma filosofia da geografia deve-se alimentar, em primeiro lugar, da noção de totalidade. Paul Vidal de La Blache, e Frederic Ratzel, vulgarizaram a noção de unidade terrestre, que Carl Ritter antes deles havia estabelecido. Trata-se, de fato, da noção filosófica de natureza como o conjunto de todas as coisas, conjunto coerente, onde ordem e desordem se confundem nesse processo de totalização permanente pelo qual uma totalidade evolui para tornar-se outra. O princípio da totalidade é básico para a elaboração de uma filosofia do espaço do homem. Ele envolve a noção de tempo e isso nos permite reconhecer a unidade de movimento, responsável pela heterogeneidade com que as coisas se apresentam diante de nós.

Desse modo, abarcamos a idéia de continuidade e descontinuidade e a idéia de unidade e multiplicidade. Assim abraçamos também a noção de passagem do presente ao futuro. O espaço humano, aliás, revela claramente, e ao mesmo tempo, o passado, o presente e o futuro. Passado e presente nele se dão as mãos, através de um funcionamento sincrônico que elimina a pseudocontradição entre história e estrutura. O futuro, para que se possa realizar, aproveita as condições preexistentes. Quanto à noção de escala, ela se impõe porque a Natureza não se apresenta, jamais, dc forma homogênea c deixa perceber suas frações: território nacional, região, lugar. Sem a noção de escala e sua base epistemológica que tanto deve à idéia dc tempo, não saberíamos o que fazer diante do todo social espacializado e que nos chega todavia em forma fraccionada, como sub-espaços.

Desse modo, suscitamos o problema da subdivisão da totalidade em suas partes e temos dc encontrar os instrumentos de trabalho adequados, para dar conta da parte sem desintegrar a totalidade. As noções de estrutura, processo, função e forma, essas velhas categorias filosóficas e velhas categorias analíticas devem ser retrabalhadas para que, neste particular, possam prestar novos serviços à compreensão do espaço humano e à constituição adequada de sua respectiva ciência. Ademais, esses instrumentos nos permitem tomar como ponto de partida o concreto das coisas, sem nos deixar todavia ofuscar pelos nossos sentidos. Da forma à estrutura e desta, de novo, à forma, temos o caminho que conduz a uma fenomenologia do espaço e à sua construção teórica. A forma nos apresenta a coisa, o objeto geográfico; sua função atual nos leva ao processo que lhe deu origem; e este, o processo, nos conduz à totalidade social, a estrutura social que desencadeou e dá ao objeto uma vida social.

Desse modo, exorcisamos o grave risco do empiricismo, sem, todavia, deixar de partir do empírico. Chegamos, assim, à abstração sem partir de nossa razão individual, mas do concreto das coisas realmente existentes. E nesse caminhar sem fim, do lugar ao conjunto dos lugares, e da natureza como um todo a cada uma de suas frações, seguimos o curso do tempo e podemos, desse modo, interpretar, em seu justo valor atual, cada pedaço do espaço. Ficando só com a coisa, o objeto geográfico, em sua aparência imediata, damos somente conta de processos passados que exigiram aquela forma. Esta, porém, subsistiu para acolher novos processos e funções, emanações de uma sociedade ativa e em movimento, da qual advêm a significação e o valor atual de cada objeto isolado.

Do visível ao invisível

Não é aceitável, aliás, fazer como Grano (1929, p. 38) para quem, apesar da unidade dos fenômenos de ordem material e de ordem imaterial em um pedaço qualquer do espaço, a geografia pára no domínio do estritamente material, cabendo à sociologia encarregar-se das determinações sociais, culturais e políticas.

Não podemos nos contentar com representações concretas, diz J.W.Watson (in G. Taylor, 1951, p. 468-469), quando escreve que "o fator humano e alguma coisa a mais que as obras do homem. Inclui as ideologias tanto quanto as tecnologias, pois, freqüentemente a força não-material que é o dado verdadeiramente significativo na geografia de uma região, aquilo que lhe dá um caráter particular e a distingue de outras.

Mesmo que a paisagem não ofereça evidências concretas, seu interprete deverá, entretanto, saber o que faz dela algo de específico". Tambem H. Bobck e J. Schimitusen escreviam, em 1949, que a geografia não se limita à descrição e à determinação do visível. Esses autores não estão sozinhos. "Se o objetivo do geógrafo é a explicação da paisagem", diz H.C. Darby (1953), "está claro que ele não pode confiar somente no que vê. A cena visível não nos pode oferecer a soma total dos fatores que a afetam". E Pierre George, mais recentemente (1974, p. 9), sustenta o mesmo ponto de vista quando diz que "hoje, o invisível, muito mais que o visível, questiona a estabilidade das construções dos séculos passados".


Levando em conta cada pedaço do espaço em particular, muitos fatores de sua evolução não são perceptíveis imediatamente, nem diretamente. O papel de explicação cabe, freqüentemente, ao que não é imediatamente sensível, ou seja, aos fatores "invisíveis". As formas modernas de acumulação do capital, as relações sociais cada vez mais complexas e mundializadas e tantas outras realidades que não se podem perceber sem um esforço de abstração, tudo isso exige do pesquisador a necessidade dc buscar decifrar, e para isso encontrar instrumentos novos de análise para aplicá-los a uma realidade que, à primeira vista, e de fato, encobre uma parte considerável de suas determinações.

É evidente que tais determinações não poderão ser analisadas a partir de relações de causa e efeito, onde aparecem apenas os laços de imediatidade. Assim, tudo que não é contíguo, nem consecutivo, escapa à definição do universo bem mais vasto de acontecimentos que criam uma situação. Somente o contexto, quer dizer, a teia unitária, que é mais do que a síntesetotal das variáveis, pode fornecer os elementos de explicação que se buscam.

Ora, o contexto e sempre mutável. Por isso, a cada dia se inventam novas formas de analisar o passado e o presente. Cada explicação é sempre a crítica da explicação precedente. Como para os demais aspectos da totalidade, uma teoria do espaço que deseje ser válida deve levar em conta que a realidade se renova cotidianamente. Conseqüentemente, devemos nos apresentar com novas interpretações para fenômenos que aparentemente são os mesmos.

Ser e existência, sociedade e espaço

A evolução do espaço se faz pela inscrição da sociedade renovada na paisagem pre-existente. Ela se submete à "escravidão" das circunstâncias precedentes, assim como John Stuart Mill (A. Gerschenkron, 1952, p. 3) dissera em relação à História. O espaço não é um pano de fundo impassível e neutro. Assim, este não e apenas um reflexo da sociedade nem um lato social apenas, mas um condicionante condicionado, tal como as demais estruturas sociais. O espaço e uma estrutura social dotada de um dinamismo próprio e revestida de uma certa autonomia, na medida em que sua evolução se faz segundo leis que lhe são próprias. Existe uma dialética entre forma e conteúdo, que é responsável pela própria evolução do espaço.

Para Windelband (in Lukaes, 1960, p. 153), o ser é definido como "independência do conteúdo em relação à forma". Pode-se, todavia, falar de um conteúdo que seja independente da forma? Mas, cada forma não apenas contém uma fração do ser. Essa fração é, também, um conjunto particular de determinações (do ser). E é pela forma, isto é, pelo seu casamento com ela, que o ser se objetiva e se torna existência.

Para que o ser pudesse existir como um conteúdo independente da forma, seria necessário que ele fosse indiferente à totalidade das formas existentes. Se isso fosse possível, o ser seria uma unidade indivisível.

Para que ele se torne a unidade da diversidade, da qual já falava Heráclito e à qual, mais próximo de nós, Antônio Labriola e Emilio Sereni se referiram, o ser deve se metamorfosear em existência, mediante os processos impostos pelas suas próprias determinações e que, transformando a potência em ato, fazem que cada forma apareça como um indivíduo separado.

Uma fenomenologia do espaço?

Cabe aqui citar Kant, na Crítica da Razão Pura, quando se referindo à existência, afirmou: ".. . a totalidade e a pluralidade considerada como unidade". Esta "unidade" vem, nada mais, do fato dc que uma essência nova, ou renovada, tem vocação a tornar-se ato. Tal conteúdo - a essência - pode ser comparado a uma sociedade em marcha, em evolução, em movimento, isto é, no seu presente, ainda não encarnado todavia.

O conteúdo corporificado, já transformado em existência, é a sociedade já distribuída dentro das formas geográficas, a sociedade que se tornou espaço. A fenomenologia do espírito de Hegel seria assim a transmutação da sociedade total em espaço total. Este é um movimento permanente e por intermédio deste processo infinito é que a sociedade e espaço evoluem.

O espaço deve ser considerado como um conjunto indissociável do qual participam, de um lado, um certo arranjo de objetos geográficos, objetos naturais e objetos sociais e, de outro lado, a vida que os anima ou aquilo que lhes dá vida. Isto é a sociedade em movimento.

A sociedade em movimento pode, a um dado momento, dar-se como se fosse estática; as formas aparecem, então, como o continente dc uma parcela da sociedade, o instrumento de distribuição da sociedade no espaço. Por isso, o valor se distribui diferentemente no espaço e cada lugar tem um valor diferente. Mas, como a sociedade não é estática - mas sim dinâmica - a cada movimento da sociedade corresponde uma mudança de conteúdo das formas geográficas c uma mudança na distribuição do valor no espaço. Em resumo: as estruturas espaciais são, ao mesmo tempo, um estado - o que é provisório - e são o objeto de um movimento que modifica seu conteúdo - o que é permanente.

O movimento do espaço isto é, sua transformação, constitui, na realidade, uma modalidade de transformação de uma multiplicidade, quer dizer, da sociedade global, objeto real mas abstrato, em objetos concretos, fruto de sua própria determinação. De fato, as determinações não se podem fazer independentemente dos objetos sociais pré-existentes, aos quais se devem adaptar cada vez que elas - as determinações sociais - não podem criar novas formas nem renovar formas antigas.

A sociedade total, isto é, a formação social é, ao mesmo tempo o real-abstrato, essência ainda sem forma, e o real-concreto, a forma povoada por uma essência. A sociedade, pois, existe em uma situação de movimento perpetuo, que é o próprio movimento da História. Da mesma maneira, as formas-conteúdo, cuja totalidade constitui o espaço humano, influenciam a evolução social.

O movimento de ambas é contraditório e esta dialética os enriquece mutuamente.

A essência da sociedade se revivifica ela própria por esta contradição, sem a qual estaria desprovida de movimento dialético e revivifica, também, os objetos geográficos, através da renovação que lhes traz com as mutações de sua importância.

Assim, a cada nova evolução da totalidade social corresponde uma modificação paralela do espaço e de sua organização, e sua apreensão não exige que o geógrafo disponha de um conhecimento enciclopédico, como queria Estrabão, mas que se arme de um sistema de referência, a partir de um esforço filosófico fundado na compreensão unitária do mundo.

A idéia de uma metageografia, tal como W. Bunge (1962) sugeriu. E James Anderson (1973) chama a nossa atenção para os perigos dc uma ciência espacial elaborada sem uma filosofia adequada. Trata-se de descobrir o que está por detrás da aparência, isto é, a estrutura profunda das coisas, a partir de "um esforço sistemático e crítico tendente a captar a própria coisa, a sua estrutura oculta, e descobrir a forma de ser do que existe". (Karel Kosik, 1967, p. 30).e em um lugar determinados. O conhecimento do espaço, portanto, não poderá constituir-se sem uma base filosófica.

C. Ritter (1974, p. 65), um dos precursores da geografia teórica, já o reconhecia e o aconselhava, como forma de evitar uma interpretação parcial dos fatos.

As preocupações filosóficas se impõem também ao pensamento geográfico se considerarmos a ciência como uma área particular do saber precipuamente interessada pelo homem e pelo seu futuro, se, como cientistas e como cidadãos, desejamos contribuir para a implantação de uma ordem social mais justa que restaure as relações harmoniosas entre o homem e a Natureza

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Fonte: SANTOS, Milton. O espaço geográfico como categoria filosófica.In: O espaço em questão. São Paulo, Marco Zero/AGB(Associação dos. Geógrafos Brasileiros), 1988.