30 de set de 2010

Clássicos da Geografia: Piort Kropotkin

Piort Kropotkin nasceu na Rússia czarina no ano de 1842. Geógrafo anarquista, Kropotkin realizou uma longa viagem a Sibéria, quando então participava do exército do czar Nicolas I. Esta viagem foi essencial para definir tanto sua posição política como também sua geografia. Durante sua vida, este geógrafo se comprometeu com seus ideais libertários. Sua contribuição para a Geografia perpassa o campo da geografia física e da geografia humana.

O que apresentamos hoje é a introdução daquela que talvez seja sua principal obra: A Ajuda Mútua. Obra, publicada em 1902, teve como principal alvo os "neo-darwinistas que transportaram para o campo social as idéias naturalistas da obra de Darwin como forma de legitimar o imperialismo de países europeus na época". Para isso, afirma que mais do que a luta entre espécies, é a ajuda mútua o elemento de maior importância na evolução das espécies. Isto porque seria pela ajuda mutua que garante a proteção e sobrevivência dos mais fracos. Em 8 de fevereiro de 1921 deixando uma rica contribuição à Geografia.

 ____________________________________________________________________

INTRODUÇÃO
Dois aspectos característicos da vida animal da Sibéria Oriental e do Norte de Manchuria chamaram poderosamente minha atenção durante as viagens que, em minha juventude, realizei por essas regiões do Ásia Oriental.

Me chamou a atenção, por uma parte, a extraordinária dureza da luta pela existência que devem sustentar a maioria das espécies animais contra a natureza inclemente, bem como a extinção de grandes quantidades de indivíduos, que ocorria periodicamente, em virtude de causas naturais, devido ao qual se produzia extraordinária pobreza de vida e despopulação na superfície dos vastos territórios onde realizava eu minhas investigações.

A outra particularidade era que, ainda naqueles poucos pontos isolados onde a vida animal aparecia em abundância, não encontrei, apesar de ter procurado seus rastos, aquela luta cruel pelos meios de subsistência entre os animais pertencentes a uma mesma espécie que a maioria dos darwinistas (ainda que não sempre o mesmo Darwin) consideravam como o rasgo predominante e característica da luta pela vida, e como a principal força ativa do desenvolvimento gradual no mundo dos animais.

As terríveis tormentas de neve que açoitam a região norte de Ásia ao final do inverno, e o congelamento que com freqüência sucede à tormenta; as geadas, as nevascas que se repetem todos os anos na primeira quinzena de maio quando as árvores estão em plena floração e a vida dos insetos em seu apogeu; as ligeiras geadas temporãs e, as vezes, as nevascas abundantes que caem já em julho e em agosto, ainda nas regiões dos prados da Sibéria Ocidental, aniquilando, repentinamente, não só miríadas de insetos, senão também a segunda nidada das aves; as chuvas torrenciais, devidas as monções, que caem em agosto nas regiões temperadas do Amur e do Usuri, e se prolongam semanas inteiras e produzem inundações nas terras baixas do Amur e do Sungari em proporções tão grandes como só se conhece em América e Ásia Oriental, e, nos planaltos, grandíssimas extensões se transformam em pântanos comparáveis, por suas dimensões, com Estados europeus inteiros, e, por último, as abundantes nevascas que caem as vezes a princípios de outubro, devido às quais um vasto território, igual por sua extensão a França ou Alemanha, faz-se completamente inabitável para os ruminantes que perecem, então, por milhares; estas são as condições em que se sustenta a luta pela vida no reino animal do Ásia Setentrional.

Estas difíceis condições da vida animal já então atraíram meu atendimento para a extraordinária importância, na natureza, daquelas séries de fenômenos que Darwin chama “limitações naturais à multiplicação em comparação com a luta pelos meios de subsistência. Esta última, naturalmente, produz-se não só entre as diferentes espécies, senão também entre os indivíduos da mesma espécie, mas jamais atinge a importância dos obstáculos naturais à multiplicação A escassez da população, não o excesso, é o rasgo característico daquela imensa extensão do balão que chamamos Ásia Setentrional.

Portanto, já desde então comecei a abrigar sérias dúvidas, que mais tarde não fizeram senão confirmar-se, com respeito a essa terrível e suposta luta pelo alimento e a vida dentro dos limites de uma mesma espécie, que constitui um verdadeiro credo para a maioria dos darwinistas.

Exatamente do mesmo modo comecei a duvidar com respeito à influência dominante que exerce esta classe de luta, segundo as suposições dos darwinistas, no desenvolvimento das novas espécies.

Ademais, onde quer que atingia a ver a vida animal abundante e borbulhante como, por exemplo, nos lagos, onde, em primavera dezenas de espécies de aves e milhões de indivíduos se reúnem para chocarem suas crianças ou nas populosas colônias de roedores, ou bem durante a migração das aves que se produzia, então, em proporções puramente “americanas” ao longo do vale do Usuri, ou durante uma enorme emigração de gamos que tive oportunidade de ver no Amur, em que dezenas de milhares destes inteligentes animais fugiam de um território imenso, procurando salvar-se das abundantes neves caídas, e se reuniam em grandes rebanhos para atravessar o Amur no ponto mais estreito, no Pequeno Jingan; em todas estas cenas da vida animal que se desenvolvia ante meus olhos, via eu a ajuda e o apoio mútuo levado a tais proporções que involuntariamente me fez pensar, na enorme importância que deve ter na economia da natureza, para a manutenção da existência de cada espécie, sua conservação e seu desenvolvimento futuro.

Por último, tive oportunidade de observar entre o gado cornúpeta semi-selvagens e entre os cavalos na Transbaikalia, e em todas partes entre os esquilos e os animais selvagens em general, que quando os animais tinham que lutar contra a escassez de alimento devida a uma das causas já indicadas, então todo a parte da espécie a quem afetava esta calamidade saía da prova experimentada com uma perda de energia e saúde tão grande que nenhuma evolução progressista das espécies podia basear-se em semelhantes períodos de luta aguda. Devido às razões já expostas, quando mais tarde as relações entre o darwinismo e a sociologia atraíram meu atendimento, não pude estar de acordo com nenhum dos numerosos trabalhos que julgavam de um modo ou outro uma questão extremamente importante. Todos eles tratavam de demonstrar que o homem, graças a sua inteligência superior e a seus conhecimentos pode suavizar a dureza da luta pela vida entre os homens mas ao mesmo tempo, todos eles reconheciam que a luta pelos meios de subsistência de cada animal contra todos seus congêneres, e de cada homem contra todos os homens, é uma “lei natural”.

No entanto , não podia estar de acordo com este ponto de vista já que me tinha convencido antes de que, reconhecer a cruel luta interior pela existência nos limites de cada espécie, e considerar tal guerra como uma condição de progresso, significaria aceitar algo que não só não foi demonstrado ainda, senão que de nenhum modo é confirmado pela observação direta.

Por outra parte, tendo chegado a meu conhecimento a conferência “Sobre a lei da ajuda mútua”, do professor Kessler, então decano da Universidade de São Petersburgo, que pronunciou num Congresso de naturalistas russos, em janeiro de. 1880, vi que arrojava nova luz sobre toda esta questão. Segundo a opinião de Kessler, além da lei de luta mútua, existe na natureza também a lei de ajuda mútua, que, para o sucesso da luta pela vida e, particularmente, para a evolução progressiva das espécies desempenha um papel bem mais importante do que a lei da luta mútua.

Esta hipótese, que não é em realidade mais do que o desenvolvimento máximo das idéias anunciadas pelo mesmo Darwin em sua Origem do homem, pareceu-me tão justa e tinha tão enorme importância, que, desde que tive conhecimento disso (em 1883 , comecei a reunir materiais para o máximo desenvolvimento desta idéia que Kessler mal tocou, em seu discurso, e não teve tempo de desenvolver já que morreu em 1881.

Somente num ponto não pude estar completamente de acordo com as opiniões de Kessler Mencionava este os “sentimentos familiares” e os cuidados da descendência (veja-se capítulo 1) como a fonte das inclinações mútuas dos animais. Mas creio que o determinar quanto contribuíram realmente estes dois sentimentos ao desenvolvimento dos instintos sociais entre os animais e quanto os outros instintos atuaram no mesmo sentido constitui uma questão aparte, e muito complexa, à qual mal estamos, agora, em condições de responder.

Só depois que estabeleçamos bem os fatos mesmos da ajuda mútua entre as diferentes classes de animais e sua importância para a evolução poderemos determinar que parte do desenvolvimento dos instintos sociais corresponde aos sentimentos familiares e daí parte à sociabilidade mesma; e a origem da última, evidentemente, tem-se de procurar nos estádios mais elementares de evolução do mundo animal até, quiçá, nos “estádios coloniais”.

Devido a isto, dediquei todo meu atendimento a estabelecer antes de mais nada, a importância da ajuda mútua como fator de evolução, especialmente da progressiva, deixando para outros pesquisadores o problema da origem dos instintos de ajuda mútua na Natureza, A importância do fator da ajuda mútua -“se tão só pudesse demonstrar-se sua generalidade”- não escapou ao atendimento de Goethe, em quem de maneira tão brilhante se manifestou o gênio do naturalista. Quando, certa vez, Eckerman contou a Goethe -sucedia isto no ano 1827- que dois pichoncillos de “reyezuelo”, que se lhe tinham escapado quando matou à mãe, foram achados por ele, ao dia seguinte, num ninho de ruivos que os alimentavam asa par dos seus, Goethe se emocionou muito por este relato. Viu em isso a confirmação de suas opiniões panteístas sobre a, natureza e disse: “Se resultasse, verdade que alimentar aos estranhos é inerente à natureza toda, como algo que tem caráter de lei geral, muitos enigmas ficariam então resolvidos. Voltou sobre esta questão ao dia seguinte, -e rogou a Eckerman (quem, como é sabido, era zoólogo) que fizesse um estudo especial dela, agregando que Eckerman, sem dúvida, poderia obter “resultados valiosos e inapreciáveis” (Gespráche, edit. 1848, -tomo III, págs. 219, 221). <

Por desgraça, tal estudo nunca foi empreendido, ainda que é muito provável que Brehm, que reuniu em suas obras materiais tão ricos sobre a ajuda mútua entre os animais, poderia ter sido levado a esta idéia pela observação citada de Goethe. durante os anos 1878-1886 se imprimiram várias obras volumosas sobre a inteligência e a vida mental dos animais (essas obras se citam nas notas do capítulo I deste livro), três das quais têm uma relação mais estreita com a questão que nos interessa, a: saber: Lhes Sociétés animais, de Espinhas (Paris, 1887); A lutte pour I’existence et l’association pour a lutte, conferência de Lanessan (abril 1881); e o livro, cuja primeira edição apareceu no ano 1881 ou 1882, e a segunda, consideravelmente aumentada, em 1885.

Mas, apesar da excelente qualidade de cada uma, estas obras deixam, no entanto, ampla margem para uma investigação na que a ajuda mútua fora considerada não somente em qualidade de argumento em favor da origem prehumano dos instintos morais, senão também como uma lei da natureza e um fator de evolução.

Espinhas chamou especialmente o atendimento sobre as sociedades de animais (formigas, abelhas) que estão fundadas nas diferenças fisiológicas de estrutura dos diversos membros da mesma espécie e a divisão fisiológica do trabalho entre eles, e ainda que sua obra traz excelentes, indicações em todos os sentidos possíveis, foi escrita numa época em que o desenvolvimento das sociedades humanas, não podia ser examinado como podemos fazê-lo agora, graças ao volume de conhecimentos acumulado desde então.

A conferência de Lanessan tem mais bem o caráter de um plano geral de trabalho, brilhantemente exposto, como uma obra na qual fora examinado o apoio mútuo começando desde as rochas a orlas do mar, e passando ao mundo dos vegetais dos animais e dos homens.

Quanto à obra recém editada de Büchner, apesar de que induz à reflexão sobre o papel da ajuda mútua na natureza, e de que é rica em fatos, não estou de acordo com sua idéia dominante. O livro se inicia com um hino ao amor, e quase todos os exemplos são tentativas para demonstrar a existência do amor e a simpatia entre os animais. Mas, reduzir a sociabilidade dos animais ao amor e à simpatíasignifica restringir sua universalidade e sua importância, exatamente o mesmo que uma ética humana baseada no amor e a simpatia pessoal conduz nada mais que a restringir a concepção do sentido moral em sua totalidade.

De nenhum modo me guia o amor para o dono de uma determinada casa a quem muito com freqüência nem sequer conheço quando, vendo sua casa presa das chamas, tomo um cubo com água e corro para ela, ainda que não tema pela minha. Guia-me um sentimento mais amplo, ainda que é mais indefinido, um instinto, mais exatamente dito, de solidariedade humana; isto é, de caução solidária entre todos os homens e de sociabilidade.

O mesmo se observa também entre os animais. Não é o amor, nem sequer a simpatia (compreendidos no sentido verdadeiro destas palavras) o que induz ao rebanho de ruminantes ou cavalos a formar um círculo com o fim de defender-se das agressões dos lobos de nenhum modo é o amor o que faz que os lobos se reúnam em manadas para caçar; exatamente o mesmo que não é o amor o que obriga aos corderillos e aos gatinhos a entregar-se a seus jogos, nem é o amor o que junta as crianças outonais das aves que passam juntas dias inteiros durante quase todo o outono.

Por último também não pode atribuir-se ao amor nem à simpatia pessoal o fato de que muitos milhares de gamos, disseminados por territórios de extensão comparável à de França, reúnam-se em dezenas de rebanhos isolados que se dirigem, todos, para um ponto conhecido, com o fim de atravessar o Amur e emigrar a uma parte mais temperada da Manchuria. Em todos estes casos, o papel mais importante o desempenha um sentimento incomparavelmente mais amplo do que o amor ou a simpatia pessoal. Aqui entra o instinto de sociabilidade, que se desenvolveu lentamente entre os animais e os homens em decorrência de um período de evolução extremamente longo, desde os estádios mais elementares, e que ensinou por igual a muitos animais e homens a ter consciência dessa força que eles adquirem praticando a ajuda e o apoio mútuos, e também a ter consciência do prazer que se pode achar na vida social. <

Uma importância desta distinção poderá ser apreciada facilmente por tudo aquele que estude a psicologia dos animais, e mais ainda, a ética humana. O amor, a simpatia e o sacrifício de si mesmos, naturalmente, desempenham um papel enorme no desenvolvimento progressivo de nossos sentimentos morais. Mas a sociedade, na humanidade, de nenhum modo lhe criou sobre o amor nem também não sobre a simpatia.

Criou-se sobre a consciência -ainda que seja instintiva- da solidariedade humana e da dependência recíproca dos homens. Criou-se sobre o reconhecimento inconscientes semiconsciente da força que a prática comum de dependência estreita da felicidade de cada indivíduo da felicidade de todos, e sobre os sentimentos de justiça ou de equidade que obrigam ao indivíduo a considerar os direitos de cada um dos outros como iguais a seus próprios direitos.

Mas esta questão ultrapassa os limites do presente trabalho, e eu me limitarei mais do que a indicar minha conferência “Justiça e Moral”, que era contestação à Etica de Huxley , e na qual me referia esta questão com maior detalhe.

Devido a tudo, o dito anteriormente, Pensei que um livro sobre “A ajuda mútua como lei da natureza e fator de evolução” poderia encher uma lagoa muito importante. Quando Huxley publicou, no ano 1888 seu “manifesto” sobre a luta pela existência (“Struggle for Existence and its Bearing upon Man”) o qual, desde meu ponto de vista, era uma representação completamente infiel dos fenômenos da natureza, tais como os vemos nas taigas e as estepes, dirigi-me ao redator da revista Nineteenth Century rogando dar localização nas páginas, da revista que ele dirigia a uma critica cuidadosa das opiniões de um dos mais marcantes darwinistas, e Mr. James Knowles acolheu meu propósito com a maior simpatia por este motivo falei também, com W. Bates, com o grande “naturalista do Amazonas”, quem reuniu, como é sabido, os materiais para Wallace e Darwin, e a quem Darwin, com perfeita justiça, qualificou em sua autobiografia como um dos homens mais inteligentes que tinha encontrado. “sim, por verdadeiro; isso é verdadeiro darwinismo exclamou Bates, o que fizeram de Darwin é singelamente indignante. Escreva esses artigos e quando estejam impressos lhe enviarei uma carta que poderá publica.

Por desgraça, a composição destes artigos me ocupou quase sete anos, e quando o último foi publicado, Bates já não estava entre os vivos.

Depois de ter examinado a importância da ajuda mútua para o sucesso e desenvolvimento das diferentes classes de animais, evidentemente, estava obrigado a julgar a importância daquele mesmo fator no desenvolvimento do homem. Isto era ainda mais indispensável, porque existem evolucionistas dispostos a admitir a importância da ajuda mútua entre os animais, mas, ao mesmo tempo, como Herbert Spencer, negando-a ao com respeito ao homem. Para os selvagens primitivos -afirmam- a guerra de um contra todos era a lei dominante do a vida. Tratei de analisar neste livro, nos capítulos dedicados aos selvagens e bárbaros, até onde esta afirmação que com excessiva complacência repetem todos sem a necessária comprovação desde a época de Hobbes, coincide com o que conhecemos com respeito aos graus mais antigos do desenvolvimento do homem.

O número e a importância das diferentes instituições de ajuda mútua que se desenvolveram na humanidade obrigado ao gênio criador as massas selvagens e semi-selvagens, já durante o período seguinte da comuna aldeana, e também a imensa influência que estas instituições antigas exerceram sobre o, desenvolvimento posterior da humanidade até os tempos modernos, induziram-me a estender o caminho de minhas investigações aos períodos dos tempos históricos mais antigos. Especialmente me detive no período de maior interesse, o das cidades repúblicas, livres, da Idade Média, cuja universalidade e cuja influência sobre nossa civilização moderna não foi suficientemente apreciada até agora.

Por último, também tratei de indicar brevemente a enorme importância que têm ainda os costumes de apoio mútuo transmitidas em herança pelo homem através de um período extraordinariamente longo de seu desenvolvimento, sobre nossa sociedade contemporânea, apesar de que se pensa e se diz que descansa sobre o princípio: “cada um para si e o Estado para todos”, princípio que as sociedades humanas nunca seguiram por inteiro e que nunca será levado à realização, integralmente.

Quiçá se me objetará que neste livro tanto os homens como os animais estão representados desde um ponto de vista demasiado favorável: que suas qualidades sociais são marcantes em excesso, enquanto suas inclinações antisociais, de afirmação de si mesmos, mal estão marcadas. No entanto, isto era inevitável. Nos últimos tempos ouvimos falar tanto de “a luta dura e cruel pela vida que aparentemente sustenta cada animal contra todos os outros, cada selvagem contra todos os demais selvagens, e cada homem civilizado contra todos seus concidadinos semelhantes opiniões se converteram numa espécie de dogma, de religião da sociedade, que foi necessário, antes de mais nada opor uma série ampla de fatos que mostram a vida dos animais e dos homens completamente desde outro ângulo.

Era necessário mostrar, em primeiro lugar, o papel predominante que desempenham os costumes sociais na vida da natureza e na evolução progressiva, tanto das espécies animais como igualmente dos seres humanos.

Era necessário demonstrar que os costumes de apoio mútuo dão aos animais melhor proteção contra seus inimigos, que fazem menos difícil obter alimentos (provisões invernais, migrações, alimentação sob a vigilância de sentinelas, etc.), que aumentam o prolongamento da vida e devido a isto facilitam o desenvolvimento das faculdades intelectuais; que deram aos homens, aparte das vantagens citadas, comuns com as dos animais, a possibilidade de formar aquelas instituições que ajudaram à humanidade a sobreviver na luta dura com a natureza e a aperfeiçoar-se, apesar de todas as vicisitudes da história. Assim o fiz. E por isto o presente livro é livro da lei de ajuda mútua considerada como uma das principais causas ativas do desenvolvimento progressivo, e não a investigação de todos os fatores de evolução e seu valor respectivo. Era necessário escrever este livro antes de que fuer a possível pesquisar a questão da importância respectiva dos diferentes agentes da evolução.

E menos ainda, naturalmente, estou inclinado a menosprezar o papel que desempenhou a autoafirmação do indivíduo no desenvolvimento da humanidade.

Mas esta questão, segundo minha opinião, exige um exame bastante mais profundo que o que achou até agora. Na história da humanidade a autoafirmación do indivíduo com freqüência representou, e continua representando, algo perfeitamente marcante, e algo mais amplo e profundo do que essa mesquinha e irracional estreiteza mental do que a maioria dos escritores apresentam como “individualismo” e “autoafirmação”.

De modo semelhante, os indivíduos impulsores da história não se reduziram somente àqueles que os historiadores nos descrevem em qualidade de heróis. Devido a isto, tenho o propósito, sempre que seja possível, de analisar em detalhe, posteriormente, o papel que desempenhou a autoafirmación do indivíduo no desenvolvimento progressivo da humanidade Por agora, limito-me a fazer nada mais que a observação geral seguinte:

Quando as instituições de ajuda mútua isto é, a organização tribal, a comuna aldeana, as guildas, a cidade da idade média começaram a perder em decorrência do processo histórico seu caráter primitivo, quando começaram a aparecer nelas as excrecências parasitarias que lhes eram estranhas, devido ao qual estas mesmas instituições se transformaram em obstáculo para o progresso, então a rebelião dos indivíduos na contramão destas instituições tomava sempre um caráter duplo.

Uma parte dos rebeldes se começava em purificar as velhas instituições dos elementos estranhos a ela, ou em elaborar formas superiores de livre convivência, baseadas uma vez mais nos princípios de ajuda mútua; trataram de introduzir, por exemplo, no direito penal, o princípio de compensação (multa), em lugar da lei do Talión, e mais tarde, proclamaram o “perdão das ofensas”, isto é, um ideal ainda mais elevado de igualdade ante a consciência humana, em lugar da “compensação” que se pagava segundo o valor de classe do danificado.

Mas ao mesmo tempo, a outra parte desses indivíduos, que se rebelaram contra a organização que se tinha consolidado, tentavam simplesmente destruir as instituições protetoras de apoio mútuo a fim de impor, em lugar destas, sua própria arbitrariedade, acrescentar deste modo suas riquezas próprias e fortificar seu próprio poder.

Nesta tríplice luta entre as duas categorias de indivíduos, os que se tinham rebelado e os protetores do existente, consiste toda a verdadeira tragédia da história. Mas, para representar esta luta e estudar honestamente o papel desempenhado no desenvolvimento da humanidade por cada uma das três forças citadas, fará falta, pelo menos, tantos anos de trabalho como tive de dedicar a escrever este livro. Das obras que examinam aproximadamente o mesmo problema, mas aparecidas já depois da publicação de meus artigos sobre a ajuda mútua entre os animais, devo mencionar The Lowell Lectures on the Ascent of Man, por Henry Drummond, Londres, 1894, e The Origin and Growth of the Moral Instinct, por A. Sutherland, Londres, 1898. Ambos livros estão concebidos, em grau considerável, segundo o mesmo plano do livro citado de Büchner, e no livro de Sutherland lhe consideram com bastante detalhes os sentimentos paternais e familiares corno único fator no processo de desenvolvimento dos sentimentos morais. A terceira obra desta classe que trata do homem e está escrita segundo o mesmo plano é o livro do professor americano F. A. Giddings, cuja primeira edição apareceu no ano 1896, em Nova York e em Londres, sob o título The Principles of Sociology, e cujas idéias dominantes tinham sido expostas pelo autor num folheto, no ano 1894.

Devo, no entanto, deixar por completo à crítica literária o exame das coincidências similitudes e divergências entre as duas obras citadas e a minha.

Todos os capítulos deste livro foram publicados primeiramente na revista Nineteenth Century (“A ajuda mútua entre os animais”, em setembro e novembro de 1890; “A ajuda mútua entre os selvagens”, em abril de 1891; “ajuda mútua entre os bárbaros”, em janeiro de 1892; “A ajuda mútua na Cidade Medieval”, em agosto e setembro de 1884, e “A ajuda mútua na época moderna”, em janeiro e junho de 1896 . Ao publicá-los em forma de livro, pensei, num princípio, incluir em forma de apêndices a massa de materiais reunidos por mim que não pude aproveitar para os artigos que apareceram na revista, bem como o juízo sobre diferentes pontos secundários que tive que omitir.

Tais apêndices teriam duplicado o tamanho do livro, e me vi obrigado a renunciar a sua publicação ou, pelo menos, a adiá-la.

Nos apêndices deste livro está incluído somente o juízo sobre algumas poucas questões que foram objeto de controvérsia científica no curso destes últimos anos; do mesmo modo no texto dos artigos primitivos intercalei só o pouco material adicional que me foi possível agregar sem alterar a estrutura geral desta obra.

Aproveito esta oportunidade para expressar ao editor de Nineteenth Century, James Knowles, meu agradecimento, tanto pela amável hospitalidade que mostrou para a presente obra, mal se inteirou de sua idéia geral, como por sua amável permissão para a reimpressão deste trabalho

Bromley, Kent, 1902

23 de set de 2010

Clássicos da Geografia: Albert Demangeon




Geógrafo francês e aluno de Vidal de La Blache, Demangeon publicou em 1905 seu primeiro trabalho de geografia regional sobre a Picardía.  Em dezembro de 1925 torna-se professor titular da cátedra de geografia econômica na Sobornne. Junto com Lucien Febvre fundou os Annales d´histoire économique et sociale.
Para este geógrafo, a Geografia Humana deveria estudar os homens em sua relação com o meio, englobando tanto as influências naturais como as do homem sobre a natureza. Afim de atingir este objetivo, a Geografia não deveria estabelecer relações causais simples entre os fenômenos. Isso porque, segundo Demageon, o espaço geográfico é complexo, multiescalar, cujos elementos possuem interrelações mútuas.
Tendo iniciado seus trabalhos no campo da Geografia Regional, ao longo de sua trajetória foi se aproximando do campo da geografia econômica e da geografia política. Também realizou estudos sobre o hábitat e a moradia rural.

___________________________________________________________
Uma definição da Geografia Humana
Albert Demangeon

Desde a Antigüidade muitos escritores, de espíritos curiosos e observadores, constataram na superfície da Terra diferenças entre os costumes dos homens. Muitos viajantes, desde Heródoto, as têm descrito; muitos historiadores e moralistas, desde Tucídides, as têm tomado como base de suas reflexões filosóficas. Porém, a idéia de constituir uma ciência, isto é, em procurar a explicação, veio muito mais tarde e só apareceu a partir do fim do Século XVIII. Até então, o estudo dos fatos que agrupamos sob o nome de Geografia Humana: modos de vida dos homens na superfície da Terra, modos de grupamentos, consistia em uma simples descrição olhada sobretudo como um conhecimento de caráter utilitário e prático ou como uma imagem pitoresca dos costumes e das diferentes maneiras de ser dos povos. Eram relatórios de informações destinados a guiar os viajantes, eram narrações freqüentemente romanceadas de aventuras maravilhosas feitas sobretudo para agradar a imaginação; eram enumerações de lugares e de distâncias, todas entremeadas de recordações históricas; eram, por vezes, considerações arqueológicas e genealógicas; noções de estatística e de administração. Estes trabalhos visavam, certamente, satisfazer a curiosidade que todos os espíritos, mesmo os mais humildes, sentem por aquilo que se relaciona com os povos estrangeiros e com as paisagens exóticas. Porém, de fato, este conjunto de conhecimentos era apenas um caos desordenado, sem esforço construtivo, sem luz explicativa, isto é, sem característica científica.
O progresso da Geografia Humana como ciência remonta ao progresso do nosso conhecimento do globo, efetuado sobretudo em conseqüência de viagens de descobertas e de colonização do Século XVIII; viagens efetuadas sobretudo por cientistas e por exploradores animados de curiosidade científica. Eles obtiveram através do mundo elementos de comparação entre as sociedades humanas situadas em diferentes graus de civilização; ora, o espírito de comparação desperta o espírito científico, porque cria o sentido da generalidade dos fatos.
Vidal de La Blache, que foi o iniciador da Geografia Humana na França, mostrou que o caráter científico desta geografia remonta a dois geógrafos alemães: Alexandre von Humboldt (1769-1859) e Karl Ritter (1779-1859), quando os dois demonstraram que entre os fenômenos físicos e os fenômenos da vida há relações constantes de causa e efeito, mas cada um deles trouxe sua maneira original de conceber esta conexão. Autor do Cosmos, Humboldt, sobretudo naturalista, interessou-se em estudar os fenômenos físicos e a mostrar, por exemplo, a influência dos fatores como a altitude, a temperatura, a umidade, a seca sobre as formações vegetais. Autor de Allgemeine vergleichende Geographie, provido de uma forte cultura histórica, K. Ritter mostra que em Geografia Humana a natureza não é o único poder causal e que o próprio homem é, na superfície da Terra, um agente de transformação e de vida. Dessa maneira, a natureza e o homem, Natur und Geschichte, como dizia Ritter, são "os dois termos perpetuamente associados" entre os quais deve gravitar o pensamento do geógrafo.
É neste caminho que a Geografia Humana permaneceu, com dois mestres de escola, Ratzel na Alemanha e Vidal de La Blache na França. Suas doutrinas e seus ensinamentos foram divulgados em quase todos os países, inspirando aqui e acolá obras que contribuíram para vulgarizar a nova ciência e em fazer penetrar os princípios e as lições fora dos meios intelectuais, até nas esferas de ampla cultura. Pode-se citar na França: J. Brunhes; na Alemanha: Philippson; na Inglaterra: Mackinder e Herbertson; nos Estados Unidos: Miss Semple; na lugoslávia: Cvijic; na Itália: Marinelli; na Rússia: Woeikof.
1. Definição e objeto da Geografia Humana
Se tentarmos precisar o espírito que domina os trabalhos de Geografia Humana e procurar aquelas tendências comuns às quais obedecem podemos chegar, por aproximações sucessivas, a definir o objeto desta ciência.
De início, a Geografia Humana aparece-nos como o estudo das relações dos homens com o meio físico. Esta noção nos vem sobretudo da Geografia Botânica, por intermédio de Humboldt e de Berghans e, particularmente, dessa ciência botânica chamada Ecologia, que estuda até que ponto os fatores do clima e do solo determinam a vida das plantas. Da mesma forma, eles podem em uma grande escala determinar a vida dos homens. Uma das primeiras preocupações do geógrafo é colocar os fatos humanos em relação com a série de causas naturais que podem explicá-los e recolocá-los, desta maneira, no encadeamento do qual faz parte. O entendimento dessas causas nos esclarece sobre os modos de vida e os hábitos materiais dos homens. Esta influência do meio físico ambiental, como dizem certos americanos, manifesta-se em toda a parte, em todos os domínios da atividade humana, em exemplos entre os quais o geógrafo só tem o embaraço da escolha. É numa dependência causal que se encontram, frente a frente, os três termos de uma associação que une estreitamente uma planta, um animal doméstico e um modo de vida, isto é, o líquen, a rena e o Lapão. A influência soberana do meio conduziu os indígenas da floresta da África Central a uma vida de caçador e de coletor, àquelas das estepes da Ásia Central a uma vida de nômades e de pastores. Nos países áridos existe uma estreita conexão entre as fontes e a posição das aldeias; nas altas montanhas, entre as raras manchas de boa terra bem exposta e o habitat humano. Não houve do ponto de vista do desenvolvimento da civilização uma profunda diferença entre a Europa, localizada no coração do hemisfério ocidental e a Austrália, isolada no meio de mares imensos? As penínsulas e as ilhas não contribuíram para a formação de individualidades humanas, de Estados? A separação de Portugal em relação à Espanha não se explica, em parte, do lado do Oeste por sua posição oceânica, do lado do Leste pelo relevo acidentado e as gargantas selvagens que o isolam da Espanha?
Porém, ao levar até o fim esta primeira definição da Geografia Humana, percebe-se que ela não poderia abranger todo o estudo das relações humanas com o meio físico. A definição logo aparece muito ampla, porque muitas dessas relações escapam certamente à competência da Geografia Humana e se ligam a ciências bem definidas. Em seu livro sobre La Terre et l'Evolution humaine, L. Febvre marcou fortemente essas zonas interditas à Geografia Humana. Por exemplo, embora certas raças humanas pareçam ligadas a um domínio geográfico bem limitado, não cabe à Geografia Humana explicar as diferenças que existem entre as raças do ponto de vista de suas reações em face da cor de sua pele, em face dos fatores do clima. Deixemos, então, a outros o estudo dos elementos fisiológicos da natureza humana. Não esqueçamos que o homem tem uma anatomia, uma fisiologia, uma patologia que derivam de caracteres hereditários e cujo estudo constitui a Antropologia e a Medicina. Tratemos de retificar nossa primeira definição.
Pode-se, portanto, dar uma segunda definição: a Geografia é o estudo dos grupamentos humanos em suas relações com o meio físico. Renunciemos a considerar os homens como indivíduos. Pelo estudo de um indivíduo, a Antropologia e a Medicina podem chegar a resultados científicos; a Geografia Humana não. O que ela estuda são os homens como coletividades e grupamentos: são as ações dos homens como sociedades. Devemos partir em nossas pesquisas, não do indivíduo, mas do grupo. Desde os tempos mais distantes vemos em ação não homens isolados, mas grupamentos de homens. Tão longe quanto se possa recuar ao passado, constatamos que viver em sociedades, viver com os semelhantes que têm os mesmos modos de viver é um estado inseparável da natureza humana. Esses grupamentos são, às vezes, pequenos como são as numerosas aldeias neolíticas, cujos restos foram encontrados. Elas são às vezes imensas como essas sociedades da época paleolítica, cujas ferramentas se assemelham através do mundo. Dessa forma, é pelos seus grupamentos que a humanidade mesmo primitiva entra em contato com o meio físico. É um esforço de cooperação que vemos na origem das civilizações e de suas conquistas materiais sobre a natureza. Os esforços como a construção dos dolmens, a organização da irrigação na Mesopotâmia e no Egito, como a domesticação dos animais, só poderiam ser empreendimentos coletivos. Mas esta definição ainda não é suficiente para envolver todo o conceito de Geografia Humana, e há uma última correção que nos aproxima definitivamente da realidade.
A Geografia Humana é o estudo dos grupamentos humanos em suas relações com o meio geográfico. A expressão de meio geográfico é mais compreensiva que a de meio físico; ela engloba não somente as influências naturais que podem-se exercer, mas ainda uma influência que contribui para formar o meio geográfico, o ambiente total, a influência do próprio homem. No início de sua existência, a Humanidade foi certamente escrava, pela sua dependência da natureza. Porém, o homem nudus et inermis não tardou a tornar-se, graças à sua inteligência e à sua iniciativa, um elemento que exerce sobre o meio uma ação poderosa. Torna-se um agente da natureza transformando a fundo a paisagem natural, criando associações novas de plantas e animais, os oásis para as culturas de irrigação, as formações vegetais como o matagal e a charneca em detrimento da floresta. E essas transformações se estenderam por diversas regiões porque há, de grupo para grupo de homens, as migrações, os empréstimos, as imitações. E essa ação das sociedades humanas sobre a natureza é tanto mais rica e mais forte quando as suas iniciativas as têm tornado mais capazes de ampliar seu raio de ação, de alcançar mais. Há tais dados da natureza que o homem tem, por sua ação, profundamente perturbado: na Antigüidade, as ilhas Britânicas eram a extremidade do mundo conhecido, numa posição excêntrica; na época moderna, a partir da descoberta e do povoamento do Novo Mundo, elas ocupam uma posição central. Em nossos dias, a ação do homem sobre a natureza está-se ampliando ainda mais em razão das armas que a ciência Ihe tem dado e do domínio que os transportes Ihe asseguram sobre as distâncias. Dessa maneira, as obras humanas oriundas de todo o passado da Humanidade contribuem para constituir o meio, o ambiente, o meio geográfico que condiciona a vida dos homens. Assim, podemos adotar como definição da Geografia Humana o estudo das relações dos grupamentos humanos com o meio geográfico.
Esta definição da Geografia Humana permite-nos conceber de maneira concreta qual é seu objeto e determinar os quadros e os limites. Ela compreende quatro grandes grupos de problemas que resultam precisamente das relações das sociedades humanas com o meio geográfico.
Em primeiro lugar é a valorização feita pelas sociedades humanas dos recursos que a natureza fornece ou o que elas conquistaram sobre ela; são modos de vida tais como os modelam as grandes zonas naturais: a vida humana nas regiões frias; a vida humana nas regiões temperadas; a vida humana nas regiões áridas; a vida humana nas regiões quentes, comparando-se cada uma dessas zonas, seu contingente de plantas cultivadas e de animais domésticos; a vida humana na montanha; a vida humana no litoral.
Em segundo lugar é a elaboração progressiva pelas sociedades, ao correr dos tempos e através do espaço, dos diferentes procedimentos pelos quais elas têm, para sua subsistência, tirado partido dos recursos naturais, desde os mais elementares até os mais complexos: quer se trate da colheita, da caça e da pesca ou da agricultura e da criação, quer da indústria ou do comércio, das trocas e dos transportes. Trata-se, em suma, da evolução de um tipo de civilização.
Em terceiro lugar é a distribuição dos homens em função mesmo das condições da natureza e dos recursos criados pela sua exploração: a extensão da Humanidade, seu efetivo e sua densidade, seus movimentos e suas migrações.
Em quarto lugar são as instituições humanas, isto é, os modos de ocupação da terra desde as formas mais simples até os grupamentos mais complicados, desde a casa e a aldeia até as cidades e os Estados.
Eis aí o que parece ser o conteúdo próprio da Geografia Humana. É nestes quadros que se divide todo o trabalho de pesquisas, toda a sua obra.
2. O Método da Geografia Humana
Conceber e limitar o conteúdo e o objeto da Geografia Humana não basta. É preciso princípios de método, seja para melhor entendê-la, seja para não se afastar dela. Eis os princípios essenciais desse método.
Primeiro princípio: Não se deve crer em Geografia Humana numa espécie de determinismo brutal, numa fatalidade resultante dos fatores naturais. A causalidade em Geografia Humana é muito complexa. Com sua vontade e suas iniciativas o próprio homem é uma causa que traz perturbações àquilo que poderia parecer a ordem natural. Por exempto, uma ilha não está necessariamente destinada à vida marítima. O nascimento de uma vida marítima procede muitas vezes dos contatos de civilização. Assim, os ingleses tornaram-se marinheiros somente com a escola de mercadores escandinavos e hanseáticos. Da mesma forma, a agricultura não é somente função das qualidades da terra; há terras férteis que não são cultivadas; há terras pouco férteis que o são. Tudo depende do estágio de civilização da sociedade agrícola. O homem é, às vezes, o responsável pela fertilidade do solo, por exemplo, praticando a irrigação. A antiga extensão das vinhas na Europa Ocidental até a Bélgica, a Inglaterra e o Norte da França fez-se em contradição com as exigências naturais de sua vegetação; se ela pôde avançar tão longe nesses países frios e pouco ensolarados é porque nesses países havia necessidade do vinho para celebrar a missa e que não se podia, por falta de transporte barato, recebê-lo dos países mais meridionais; porém, à medida que esses transportes se tornaram menos onerosos, a cultura da vinha recuou em direção ao Sul, em sítios mais favoráveis e mais de acordo com as suas necessidades de vegetação e maturidade. O mesmo pays pode modificar profundamente de valor pela ocupação humana, conforme o grau de civilização das sociedades humanas que o povoam. Antes da chegada dos europeus, a Austrália estava ainda num estágio de vida selvagem; não havia grandes animais para caçar, salvo o canguru que era raro; uma pobre caça de marsupiais, de serpentes, de insetos; não havia animais a domesticar; poucas plantas selvagens a consumir; indígenas famélicos nômades em busca de uma pobre alimentação. Chegam os europeus com suas plantas cultiváveis e seus animais domésticos e, depois, com seus poderosos meios de arar e circular, e fizeram deste continente muito tempo atrasado, um país de grande cultura e de criação intensiva, uma terra de civilização progressiva e de conforto humano. Portanto, nada de determinismo absoluto, mas somente possibilidades colocadas em uso pela iniciativa humana; nada de fatalidade, mas de vontade humana.
Segundo princípio: A Geografia Humana deve trabalhar apoiando-se sobre uma base territorial. Em todos os lugares onde vive o homem, seu modo de existência implica uma relação necessária entre ele e o substrato territorial. É precisamente a consideração deste laço territorial que diferencia a Geografia Humana da Sociologia. Os sociólogos têm tendência a perceber apenas os aspectos psicológicos dos grupamentos humanos, a esquecer as relações dos homens com a terra, a tratar do homem como se ele estivesse desligado da superfície terrestre. Não se poderia desconhecer, aliás, que existem outros cimentos sociais que a terra, em particular aqueles que repousam sobre os princípios de natureza psicológica, tais como o parentesco e a religião, e seu estudo pertence não aos geógrafos, porém aos sociólogos.
Todavia, o próprio da Geografia Humana é constatar que o homem não pode ser estudado sem o solo que ele habita e que o solo é o fundamento de qualquer sociedade. Pode-se mesmo dizer que quanto mais esta base é larga e rica mais profundas são as relações entre ela e seus habitantes. Mais forte é a densidade da população e mais intensiva a exploração da terra mais esses laços se tornam estreitos.
Pode-se dizer com Sanderson que, mesmo nas tribos de caçadores, a utilização do mesmo território cria uma solidariedade social, independente dos laços sangüíneos e mais forte que eles. Entre os Algonquinos da América do Norte, povo caçador, o território de cada tribo era dividido em setores atribuídos desde tempos imemoriais às mesmas famílias; esses grupos de família constituíam a verdadeira unidade social; o cimento desta unidade não era o laço de parentesco mas a comunidade de poder do mesmo território, do mesmo setor. Esses setores tinham entre os Algonquinos uma média de 200 a 400 milhas quadradas por família, no território central da tribo, e duas a quatro vezes mais sobre a fronteira desse território. Sobre esse território a família caça. A caça é regulamentada de tal maneira que apenas o crescimento natural dos animais é consumido; tem-se o cuidado de deixar após cada estação muitos animais para assegurar as provisões do ano seguinte: sabe-se que um massacre indiscriminado exporá a família à fome. Em todos os domínios de caça da América pré-colombiana (caribu, bisão, guanaco) existia a mesma organização. Entre os povos inferiores da Austrália, a tribo tinha os mesmos direitos de coleta e de caça sobre um território devidamente limitado; no interior mesmo do território da tribo cada unidade familiar possuía direitos semelhantes. Com mais forte razão entre os povos agrícolas, a base territorial leva vantagem como cimento social sobre os princípios de natureza psicológica. Todas as comunidades agrícolas têm uma estrutura determinada pelos laços que as prendem ao solo; grupamento das habitações em aldeias, dada a necessidade de defenderem-se e sobretudo às necessidades do trabalho em comum; a organização extremamente regulamentada pela posse das terras cultivadas e baseada na rotação de culturas de uma parte a outra do território; caráter permanente dos limites da terra; em certos países, as obras de irrigação cuja localização comanda a repartição territorial dos campos cultivados. Diz ainda Sanderson: "A comunidade da aldeia foi o meio de dar à humanidade um governo local baseado sobre o princípio territorial, de preferência ao princípio de parentesco." Substituindo a organização tribal por esta organização territorial, há uma base geográfica que, desde uma alta antigüidade, a maior parte das civilizações deu aos grupamentos rurais. Esses habitats onde os homens se agrupam, onde eles trabalham, são de dimensões muito desiguais que podem ir da localidade elementar ao grande território. Eles formam os quadros no interior dos quais se distribuem os fatos geográficos e, por seus caracteres próprios, imprimem uma originalidade para a Humanidade que aí se concentra. Compreender e descrever essas unidades regionais é uma das funções primordiais da Geografia, porque cada uma delas forma freqüentemente uma espécie de personalidade que é preciso reviver. Esta Geografia Regional constitui um dos pontos de apoio essenciais do trabalho da Geografia Geral, porque geralmente só se consegue conceber os grandes conjuntos pela análise de pequenos pays que a compõem; para melhor abranger os fatos gerais é bom partir do particular, do localizado, do regional, observar o que a região contém de particular em seus horizontes, suas plantas, seus habitantes e definir alguma coisa de animado que resulta da união de um fragmento de terra com um grupo humano. Somos levados, dessa maneira, invencivelmente ao ponto de partida do nosso conhecimento do mundo, ao substrato imediato de nossa existência material. É freqüentemente pela análise dos caracteres que compõem a fisionomia de uma região que se pode melhor compreender as relações que unem os homens a seu meio.
Terceiro princípio: Para ser compreensiva e explicativa, a Geografia Humana não pode ater-se somente à consideração do estado atual das coisas. É preciso encarar a evolução dos fatos, remontar ao passado, isto é, recorrer à História. Muitos fatos que, considerados em função das condições presentes, nos aparecem como fortuitos se explicam desde que se os considere em função do passado. A História abre vastos horizontes sobre o passado que viu suceder tantas experiências humanas. Esta noção de idade, de evolução, é indispensável. Sem ela a razão do que existe nos escaparia freqüentemente. Como, por exemplo, a Geografia Urbana poderia dispensar a História? Como explicar Roma, Paris, Londres, sem conhecer seu passado? Como compreender a população de um velho país como a França, se não conhecemos a história do plantio, do desflorestamento, da partilha dos campos, dos trabalhos de drenagem e de represamento? Todo o estudo desta conquista do solo é feito com base na História. Eis por que os trabalhos de Geografia Humana contêm sempre muito de pesquisas históricas, e por que os geógrafos se encontram freqüentemente nos depósitos de arquivos, com os historiadores. Para explicar os fatos que observa, o geógrafo não deve contentar-se de situá-los racionalmente no espaço; é preciso também que ele os projete no passado. Também deve saber servir-se dos documentos históricos e saber também onde encontrá-los. Para tomar somente o exemplo da França, existem grandes depósitos de arquivos: os Arquivos Nacionais de Paris, que possuem para as diferentes séries ao menos um inventário sumário; os Arquivos Departamentais, que não estão de todo inventariados; os Arquivos Comunais, muito desigualmente acessíveis. Muitas bibliotecas possuem depósitos de documentos inéditos, desde a Biblioteca Nacional de Paris até as das grandes cidades da França e as dos estabelecimentos públicos, como a École des Ponts et Chaussées. Em seguida, há os arquivos nas administrações públicas: Ministérios de Obras Públicas, do Comércio, da Agricultura; cadastro, sem talar nos arquivos da Câmara de Comércio, da Rede Ferroviária, Companhias de Mineração, Companhias de Navegação, Sociedades Agrícolas e Industriais, e mesmo dos arquivos dos tabeliães tão interessantes a pesquisar para o estudo das propriedades e explorações. Pode dar, enfim, como exemplo de uma massa de documentos à disposição de pesquisadores a coleção de documentos inéditos sobre a história econômica da Revolução Francesa, rica já de mais de uma centena de volumes, e que projetam uma viva luz sobre tantos fatos da Geografia Humana: a exploração das culturas de charnecas, bens comunais, direitos de percursos e de terrenos cuja pastagem é livre, oficinas rurais e indústrias domiciliares; a metalurgia e as florestas, os inícios do maquinismo, a rede das estradas e das vias navegáveis, o movimento da população, a evolução da agricultura, os regimes agrários. Portanto, o estudo do passado é necessário á explicação dos fatos da Geografia Humana. A Humanidade evolui no tempo. Para compreender esta evolução o testemunho da História é tão necessário como o conhecimento das leis naturais.


Transcrito do livro Problèmes de Géogrephie Humaine (Paris, Librairie Armand Colin, 1952), p. 25-34. 
Tradução de Jaci Silva Fonseca.

13 de set de 2010

Núcleo de pesquisa Geografia, Espaço e Ação

O NuGEA se concentra no entendimento do espaço como importante elemento nas práticas dos sujeitos sociais. O foco consiste em compreender como o espaço, através de sua apropriação, pode ser visto como categoria central na construção da ação política dos sujeitos.

As pesquisas desenvolvidas no laboratório tem como objeto a relação dos sujeitos com o espaço e as formas de uso e apropriação que fazem dele.


www.ufjf.br/nugea