23 de set de 2010

Clássicos da Geografia: Albert Demangeon




Geógrafo francês e aluno de Vidal de La Blache, Demangeon publicou em 1905 seu primeiro trabalho de geografia regional sobre a Picardía.  Em dezembro de 1925 torna-se professor titular da cátedra de geografia econômica na Sobornne. Junto com Lucien Febvre fundou os Annales d´histoire économique et sociale.
Para este geógrafo, a Geografia Humana deveria estudar os homens em sua relação com o meio, englobando tanto as influências naturais como as do homem sobre a natureza. Afim de atingir este objetivo, a Geografia não deveria estabelecer relações causais simples entre os fenômenos. Isso porque, segundo Demageon, o espaço geográfico é complexo, multiescalar, cujos elementos possuem interrelações mútuas.
Tendo iniciado seus trabalhos no campo da Geografia Regional, ao longo de sua trajetória foi se aproximando do campo da geografia econômica e da geografia política. Também realizou estudos sobre o hábitat e a moradia rural.

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Uma definição da Geografia Humana
Albert Demangeon

Desde a Antigüidade muitos escritores, de espíritos curiosos e observadores, constataram na superfície da Terra diferenças entre os costumes dos homens. Muitos viajantes, desde Heródoto, as têm descrito; muitos historiadores e moralistas, desde Tucídides, as têm tomado como base de suas reflexões filosóficas. Porém, a idéia de constituir uma ciência, isto é, em procurar a explicação, veio muito mais tarde e só apareceu a partir do fim do Século XVIII. Até então, o estudo dos fatos que agrupamos sob o nome de Geografia Humana: modos de vida dos homens na superfície da Terra, modos de grupamentos, consistia em uma simples descrição olhada sobretudo como um conhecimento de caráter utilitário e prático ou como uma imagem pitoresca dos costumes e das diferentes maneiras de ser dos povos. Eram relatórios de informações destinados a guiar os viajantes, eram narrações freqüentemente romanceadas de aventuras maravilhosas feitas sobretudo para agradar a imaginação; eram enumerações de lugares e de distâncias, todas entremeadas de recordações históricas; eram, por vezes, considerações arqueológicas e genealógicas; noções de estatística e de administração. Estes trabalhos visavam, certamente, satisfazer a curiosidade que todos os espíritos, mesmo os mais humildes, sentem por aquilo que se relaciona com os povos estrangeiros e com as paisagens exóticas. Porém, de fato, este conjunto de conhecimentos era apenas um caos desordenado, sem esforço construtivo, sem luz explicativa, isto é, sem característica científica.
O progresso da Geografia Humana como ciência remonta ao progresso do nosso conhecimento do globo, efetuado sobretudo em conseqüência de viagens de descobertas e de colonização do Século XVIII; viagens efetuadas sobretudo por cientistas e por exploradores animados de curiosidade científica. Eles obtiveram através do mundo elementos de comparação entre as sociedades humanas situadas em diferentes graus de civilização; ora, o espírito de comparação desperta o espírito científico, porque cria o sentido da generalidade dos fatos.
Vidal de La Blache, que foi o iniciador da Geografia Humana na França, mostrou que o caráter científico desta geografia remonta a dois geógrafos alemães: Alexandre von Humboldt (1769-1859) e Karl Ritter (1779-1859), quando os dois demonstraram que entre os fenômenos físicos e os fenômenos da vida há relações constantes de causa e efeito, mas cada um deles trouxe sua maneira original de conceber esta conexão. Autor do Cosmos, Humboldt, sobretudo naturalista, interessou-se em estudar os fenômenos físicos e a mostrar, por exemplo, a influência dos fatores como a altitude, a temperatura, a umidade, a seca sobre as formações vegetais. Autor de Allgemeine vergleichende Geographie, provido de uma forte cultura histórica, K. Ritter mostra que em Geografia Humana a natureza não é o único poder causal e que o próprio homem é, na superfície da Terra, um agente de transformação e de vida. Dessa maneira, a natureza e o homem, Natur und Geschichte, como dizia Ritter, são "os dois termos perpetuamente associados" entre os quais deve gravitar o pensamento do geógrafo.
É neste caminho que a Geografia Humana permaneceu, com dois mestres de escola, Ratzel na Alemanha e Vidal de La Blache na França. Suas doutrinas e seus ensinamentos foram divulgados em quase todos os países, inspirando aqui e acolá obras que contribuíram para vulgarizar a nova ciência e em fazer penetrar os princípios e as lições fora dos meios intelectuais, até nas esferas de ampla cultura. Pode-se citar na França: J. Brunhes; na Alemanha: Philippson; na Inglaterra: Mackinder e Herbertson; nos Estados Unidos: Miss Semple; na lugoslávia: Cvijic; na Itália: Marinelli; na Rússia: Woeikof.
1. Definição e objeto da Geografia Humana
Se tentarmos precisar o espírito que domina os trabalhos de Geografia Humana e procurar aquelas tendências comuns às quais obedecem podemos chegar, por aproximações sucessivas, a definir o objeto desta ciência.
De início, a Geografia Humana aparece-nos como o estudo das relações dos homens com o meio físico. Esta noção nos vem sobretudo da Geografia Botânica, por intermédio de Humboldt e de Berghans e, particularmente, dessa ciência botânica chamada Ecologia, que estuda até que ponto os fatores do clima e do solo determinam a vida das plantas. Da mesma forma, eles podem em uma grande escala determinar a vida dos homens. Uma das primeiras preocupações do geógrafo é colocar os fatos humanos em relação com a série de causas naturais que podem explicá-los e recolocá-los, desta maneira, no encadeamento do qual faz parte. O entendimento dessas causas nos esclarece sobre os modos de vida e os hábitos materiais dos homens. Esta influência do meio físico ambiental, como dizem certos americanos, manifesta-se em toda a parte, em todos os domínios da atividade humana, em exemplos entre os quais o geógrafo só tem o embaraço da escolha. É numa dependência causal que se encontram, frente a frente, os três termos de uma associação que une estreitamente uma planta, um animal doméstico e um modo de vida, isto é, o líquen, a rena e o Lapão. A influência soberana do meio conduziu os indígenas da floresta da África Central a uma vida de caçador e de coletor, àquelas das estepes da Ásia Central a uma vida de nômades e de pastores. Nos países áridos existe uma estreita conexão entre as fontes e a posição das aldeias; nas altas montanhas, entre as raras manchas de boa terra bem exposta e o habitat humano. Não houve do ponto de vista do desenvolvimento da civilização uma profunda diferença entre a Europa, localizada no coração do hemisfério ocidental e a Austrália, isolada no meio de mares imensos? As penínsulas e as ilhas não contribuíram para a formação de individualidades humanas, de Estados? A separação de Portugal em relação à Espanha não se explica, em parte, do lado do Oeste por sua posição oceânica, do lado do Leste pelo relevo acidentado e as gargantas selvagens que o isolam da Espanha?
Porém, ao levar até o fim esta primeira definição da Geografia Humana, percebe-se que ela não poderia abranger todo o estudo das relações humanas com o meio físico. A definição logo aparece muito ampla, porque muitas dessas relações escapam certamente à competência da Geografia Humana e se ligam a ciências bem definidas. Em seu livro sobre La Terre et l'Evolution humaine, L. Febvre marcou fortemente essas zonas interditas à Geografia Humana. Por exemplo, embora certas raças humanas pareçam ligadas a um domínio geográfico bem limitado, não cabe à Geografia Humana explicar as diferenças que existem entre as raças do ponto de vista de suas reações em face da cor de sua pele, em face dos fatores do clima. Deixemos, então, a outros o estudo dos elementos fisiológicos da natureza humana. Não esqueçamos que o homem tem uma anatomia, uma fisiologia, uma patologia que derivam de caracteres hereditários e cujo estudo constitui a Antropologia e a Medicina. Tratemos de retificar nossa primeira definição.
Pode-se, portanto, dar uma segunda definição: a Geografia é o estudo dos grupamentos humanos em suas relações com o meio físico. Renunciemos a considerar os homens como indivíduos. Pelo estudo de um indivíduo, a Antropologia e a Medicina podem chegar a resultados científicos; a Geografia Humana não. O que ela estuda são os homens como coletividades e grupamentos: são as ações dos homens como sociedades. Devemos partir em nossas pesquisas, não do indivíduo, mas do grupo. Desde os tempos mais distantes vemos em ação não homens isolados, mas grupamentos de homens. Tão longe quanto se possa recuar ao passado, constatamos que viver em sociedades, viver com os semelhantes que têm os mesmos modos de viver é um estado inseparável da natureza humana. Esses grupamentos são, às vezes, pequenos como são as numerosas aldeias neolíticas, cujos restos foram encontrados. Elas são às vezes imensas como essas sociedades da época paleolítica, cujas ferramentas se assemelham através do mundo. Dessa forma, é pelos seus grupamentos que a humanidade mesmo primitiva entra em contato com o meio físico. É um esforço de cooperação que vemos na origem das civilizações e de suas conquistas materiais sobre a natureza. Os esforços como a construção dos dolmens, a organização da irrigação na Mesopotâmia e no Egito, como a domesticação dos animais, só poderiam ser empreendimentos coletivos. Mas esta definição ainda não é suficiente para envolver todo o conceito de Geografia Humana, e há uma última correção que nos aproxima definitivamente da realidade.
A Geografia Humana é o estudo dos grupamentos humanos em suas relações com o meio geográfico. A expressão de meio geográfico é mais compreensiva que a de meio físico; ela engloba não somente as influências naturais que podem-se exercer, mas ainda uma influência que contribui para formar o meio geográfico, o ambiente total, a influência do próprio homem. No início de sua existência, a Humanidade foi certamente escrava, pela sua dependência da natureza. Porém, o homem nudus et inermis não tardou a tornar-se, graças à sua inteligência e à sua iniciativa, um elemento que exerce sobre o meio uma ação poderosa. Torna-se um agente da natureza transformando a fundo a paisagem natural, criando associações novas de plantas e animais, os oásis para as culturas de irrigação, as formações vegetais como o matagal e a charneca em detrimento da floresta. E essas transformações se estenderam por diversas regiões porque há, de grupo para grupo de homens, as migrações, os empréstimos, as imitações. E essa ação das sociedades humanas sobre a natureza é tanto mais rica e mais forte quando as suas iniciativas as têm tornado mais capazes de ampliar seu raio de ação, de alcançar mais. Há tais dados da natureza que o homem tem, por sua ação, profundamente perturbado: na Antigüidade, as ilhas Britânicas eram a extremidade do mundo conhecido, numa posição excêntrica; na época moderna, a partir da descoberta e do povoamento do Novo Mundo, elas ocupam uma posição central. Em nossos dias, a ação do homem sobre a natureza está-se ampliando ainda mais em razão das armas que a ciência Ihe tem dado e do domínio que os transportes Ihe asseguram sobre as distâncias. Dessa maneira, as obras humanas oriundas de todo o passado da Humanidade contribuem para constituir o meio, o ambiente, o meio geográfico que condiciona a vida dos homens. Assim, podemos adotar como definição da Geografia Humana o estudo das relações dos grupamentos humanos com o meio geográfico.
Esta definição da Geografia Humana permite-nos conceber de maneira concreta qual é seu objeto e determinar os quadros e os limites. Ela compreende quatro grandes grupos de problemas que resultam precisamente das relações das sociedades humanas com o meio geográfico.
Em primeiro lugar é a valorização feita pelas sociedades humanas dos recursos que a natureza fornece ou o que elas conquistaram sobre ela; são modos de vida tais como os modelam as grandes zonas naturais: a vida humana nas regiões frias; a vida humana nas regiões temperadas; a vida humana nas regiões áridas; a vida humana nas regiões quentes, comparando-se cada uma dessas zonas, seu contingente de plantas cultivadas e de animais domésticos; a vida humana na montanha; a vida humana no litoral.
Em segundo lugar é a elaboração progressiva pelas sociedades, ao correr dos tempos e através do espaço, dos diferentes procedimentos pelos quais elas têm, para sua subsistência, tirado partido dos recursos naturais, desde os mais elementares até os mais complexos: quer se trate da colheita, da caça e da pesca ou da agricultura e da criação, quer da indústria ou do comércio, das trocas e dos transportes. Trata-se, em suma, da evolução de um tipo de civilização.
Em terceiro lugar é a distribuição dos homens em função mesmo das condições da natureza e dos recursos criados pela sua exploração: a extensão da Humanidade, seu efetivo e sua densidade, seus movimentos e suas migrações.
Em quarto lugar são as instituições humanas, isto é, os modos de ocupação da terra desde as formas mais simples até os grupamentos mais complicados, desde a casa e a aldeia até as cidades e os Estados.
Eis aí o que parece ser o conteúdo próprio da Geografia Humana. É nestes quadros que se divide todo o trabalho de pesquisas, toda a sua obra.
2. O Método da Geografia Humana
Conceber e limitar o conteúdo e o objeto da Geografia Humana não basta. É preciso princípios de método, seja para melhor entendê-la, seja para não se afastar dela. Eis os princípios essenciais desse método.
Primeiro princípio: Não se deve crer em Geografia Humana numa espécie de determinismo brutal, numa fatalidade resultante dos fatores naturais. A causalidade em Geografia Humana é muito complexa. Com sua vontade e suas iniciativas o próprio homem é uma causa que traz perturbações àquilo que poderia parecer a ordem natural. Por exempto, uma ilha não está necessariamente destinada à vida marítima. O nascimento de uma vida marítima procede muitas vezes dos contatos de civilização. Assim, os ingleses tornaram-se marinheiros somente com a escola de mercadores escandinavos e hanseáticos. Da mesma forma, a agricultura não é somente função das qualidades da terra; há terras férteis que não são cultivadas; há terras pouco férteis que o são. Tudo depende do estágio de civilização da sociedade agrícola. O homem é, às vezes, o responsável pela fertilidade do solo, por exemplo, praticando a irrigação. A antiga extensão das vinhas na Europa Ocidental até a Bélgica, a Inglaterra e o Norte da França fez-se em contradição com as exigências naturais de sua vegetação; se ela pôde avançar tão longe nesses países frios e pouco ensolarados é porque nesses países havia necessidade do vinho para celebrar a missa e que não se podia, por falta de transporte barato, recebê-lo dos países mais meridionais; porém, à medida que esses transportes se tornaram menos onerosos, a cultura da vinha recuou em direção ao Sul, em sítios mais favoráveis e mais de acordo com as suas necessidades de vegetação e maturidade. O mesmo pays pode modificar profundamente de valor pela ocupação humana, conforme o grau de civilização das sociedades humanas que o povoam. Antes da chegada dos europeus, a Austrália estava ainda num estágio de vida selvagem; não havia grandes animais para caçar, salvo o canguru que era raro; uma pobre caça de marsupiais, de serpentes, de insetos; não havia animais a domesticar; poucas plantas selvagens a consumir; indígenas famélicos nômades em busca de uma pobre alimentação. Chegam os europeus com suas plantas cultiváveis e seus animais domésticos e, depois, com seus poderosos meios de arar e circular, e fizeram deste continente muito tempo atrasado, um país de grande cultura e de criação intensiva, uma terra de civilização progressiva e de conforto humano. Portanto, nada de determinismo absoluto, mas somente possibilidades colocadas em uso pela iniciativa humana; nada de fatalidade, mas de vontade humana.
Segundo princípio: A Geografia Humana deve trabalhar apoiando-se sobre uma base territorial. Em todos os lugares onde vive o homem, seu modo de existência implica uma relação necessária entre ele e o substrato territorial. É precisamente a consideração deste laço territorial que diferencia a Geografia Humana da Sociologia. Os sociólogos têm tendência a perceber apenas os aspectos psicológicos dos grupamentos humanos, a esquecer as relações dos homens com a terra, a tratar do homem como se ele estivesse desligado da superfície terrestre. Não se poderia desconhecer, aliás, que existem outros cimentos sociais que a terra, em particular aqueles que repousam sobre os princípios de natureza psicológica, tais como o parentesco e a religião, e seu estudo pertence não aos geógrafos, porém aos sociólogos.
Todavia, o próprio da Geografia Humana é constatar que o homem não pode ser estudado sem o solo que ele habita e que o solo é o fundamento de qualquer sociedade. Pode-se mesmo dizer que quanto mais esta base é larga e rica mais profundas são as relações entre ela e seus habitantes. Mais forte é a densidade da população e mais intensiva a exploração da terra mais esses laços se tornam estreitos.
Pode-se dizer com Sanderson que, mesmo nas tribos de caçadores, a utilização do mesmo território cria uma solidariedade social, independente dos laços sangüíneos e mais forte que eles. Entre os Algonquinos da América do Norte, povo caçador, o território de cada tribo era dividido em setores atribuídos desde tempos imemoriais às mesmas famílias; esses grupos de família constituíam a verdadeira unidade social; o cimento desta unidade não era o laço de parentesco mas a comunidade de poder do mesmo território, do mesmo setor. Esses setores tinham entre os Algonquinos uma média de 200 a 400 milhas quadradas por família, no território central da tribo, e duas a quatro vezes mais sobre a fronteira desse território. Sobre esse território a família caça. A caça é regulamentada de tal maneira que apenas o crescimento natural dos animais é consumido; tem-se o cuidado de deixar após cada estação muitos animais para assegurar as provisões do ano seguinte: sabe-se que um massacre indiscriminado exporá a família à fome. Em todos os domínios de caça da América pré-colombiana (caribu, bisão, guanaco) existia a mesma organização. Entre os povos inferiores da Austrália, a tribo tinha os mesmos direitos de coleta e de caça sobre um território devidamente limitado; no interior mesmo do território da tribo cada unidade familiar possuía direitos semelhantes. Com mais forte razão entre os povos agrícolas, a base territorial leva vantagem como cimento social sobre os princípios de natureza psicológica. Todas as comunidades agrícolas têm uma estrutura determinada pelos laços que as prendem ao solo; grupamento das habitações em aldeias, dada a necessidade de defenderem-se e sobretudo às necessidades do trabalho em comum; a organização extremamente regulamentada pela posse das terras cultivadas e baseada na rotação de culturas de uma parte a outra do território; caráter permanente dos limites da terra; em certos países, as obras de irrigação cuja localização comanda a repartição territorial dos campos cultivados. Diz ainda Sanderson: "A comunidade da aldeia foi o meio de dar à humanidade um governo local baseado sobre o princípio territorial, de preferência ao princípio de parentesco." Substituindo a organização tribal por esta organização territorial, há uma base geográfica que, desde uma alta antigüidade, a maior parte das civilizações deu aos grupamentos rurais. Esses habitats onde os homens se agrupam, onde eles trabalham, são de dimensões muito desiguais que podem ir da localidade elementar ao grande território. Eles formam os quadros no interior dos quais se distribuem os fatos geográficos e, por seus caracteres próprios, imprimem uma originalidade para a Humanidade que aí se concentra. Compreender e descrever essas unidades regionais é uma das funções primordiais da Geografia, porque cada uma delas forma freqüentemente uma espécie de personalidade que é preciso reviver. Esta Geografia Regional constitui um dos pontos de apoio essenciais do trabalho da Geografia Geral, porque geralmente só se consegue conceber os grandes conjuntos pela análise de pequenos pays que a compõem; para melhor abranger os fatos gerais é bom partir do particular, do localizado, do regional, observar o que a região contém de particular em seus horizontes, suas plantas, seus habitantes e definir alguma coisa de animado que resulta da união de um fragmento de terra com um grupo humano. Somos levados, dessa maneira, invencivelmente ao ponto de partida do nosso conhecimento do mundo, ao substrato imediato de nossa existência material. É freqüentemente pela análise dos caracteres que compõem a fisionomia de uma região que se pode melhor compreender as relações que unem os homens a seu meio.
Terceiro princípio: Para ser compreensiva e explicativa, a Geografia Humana não pode ater-se somente à consideração do estado atual das coisas. É preciso encarar a evolução dos fatos, remontar ao passado, isto é, recorrer à História. Muitos fatos que, considerados em função das condições presentes, nos aparecem como fortuitos se explicam desde que se os considere em função do passado. A História abre vastos horizontes sobre o passado que viu suceder tantas experiências humanas. Esta noção de idade, de evolução, é indispensável. Sem ela a razão do que existe nos escaparia freqüentemente. Como, por exemplo, a Geografia Urbana poderia dispensar a História? Como explicar Roma, Paris, Londres, sem conhecer seu passado? Como compreender a população de um velho país como a França, se não conhecemos a história do plantio, do desflorestamento, da partilha dos campos, dos trabalhos de drenagem e de represamento? Todo o estudo desta conquista do solo é feito com base na História. Eis por que os trabalhos de Geografia Humana contêm sempre muito de pesquisas históricas, e por que os geógrafos se encontram freqüentemente nos depósitos de arquivos, com os historiadores. Para explicar os fatos que observa, o geógrafo não deve contentar-se de situá-los racionalmente no espaço; é preciso também que ele os projete no passado. Também deve saber servir-se dos documentos históricos e saber também onde encontrá-los. Para tomar somente o exemplo da França, existem grandes depósitos de arquivos: os Arquivos Nacionais de Paris, que possuem para as diferentes séries ao menos um inventário sumário; os Arquivos Departamentais, que não estão de todo inventariados; os Arquivos Comunais, muito desigualmente acessíveis. Muitas bibliotecas possuem depósitos de documentos inéditos, desde a Biblioteca Nacional de Paris até as das grandes cidades da França e as dos estabelecimentos públicos, como a École des Ponts et Chaussées. Em seguida, há os arquivos nas administrações públicas: Ministérios de Obras Públicas, do Comércio, da Agricultura; cadastro, sem talar nos arquivos da Câmara de Comércio, da Rede Ferroviária, Companhias de Mineração, Companhias de Navegação, Sociedades Agrícolas e Industriais, e mesmo dos arquivos dos tabeliães tão interessantes a pesquisar para o estudo das propriedades e explorações. Pode dar, enfim, como exemplo de uma massa de documentos à disposição de pesquisadores a coleção de documentos inéditos sobre a história econômica da Revolução Francesa, rica já de mais de uma centena de volumes, e que projetam uma viva luz sobre tantos fatos da Geografia Humana: a exploração das culturas de charnecas, bens comunais, direitos de percursos e de terrenos cuja pastagem é livre, oficinas rurais e indústrias domiciliares; a metalurgia e as florestas, os inícios do maquinismo, a rede das estradas e das vias navegáveis, o movimento da população, a evolução da agricultura, os regimes agrários. Portanto, o estudo do passado é necessário á explicação dos fatos da Geografia Humana. A Humanidade evolui no tempo. Para compreender esta evolução o testemunho da História é tão necessário como o conhecimento das leis naturais.


Transcrito do livro Problèmes de Géogrephie Humaine (Paris, Librairie Armand Colin, 1952), p. 25-34. 
Tradução de Jaci Silva Fonseca.

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