19 de jun de 2009

Karl Ritter


Filósofo, historiador e professor de Geografia na Universidade de Berlin, Karl Ritter nasceu na Alemanha em 1779. Considerado, junto com Humboldt, fundador da geografia científica. Sua primeira obra foi Europa, Quadro Geográficos, Históricos e Estatísticos. Acreditava na necessidade do uso de todas as ciências para o estudo da geografia.

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ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO NA SUPERFÍCIE DO GLOBO E SUA FUNÇÃO NA EVOLUÇÃO HISTÓRICA
Carl Ritter

Examinemos um globo terrestre. Por maior que seja, nós o vemos apenas como uma miniatura e uma representação imperfeita do modelado externo de nosso planeta.
O que no surpreende ao observarmos um globo terrestre é o caráter aleatório que preside a distribuição das extensões de água e de terra. Não há espaços matemáticos, nenhuma construção linear ou geométrica, nenhuma seqüência de linhas retas, nem de pontos regulares; somente a rede de coordenadas estabelecida a partir da abóbada celeste permite medir artificialmente uma realidade inalcançável: os próprios pólos não passam de pontos matemáticos definidos em função da rotação da Terra e cuja realidade ainda nos escapa.
Sim, este Todo terrestre assimétrico, ao não obedecer aparentemente a nenhuma regra e ser difícil de captar como um conjunto, deixa-nos obedecer aparentemente a nenhuma regra e ser difícil de captar como um conjunto, deixa-nos uma impressão estranha e nos vemos obrigados a utilizar diversos métodos de classificação para apagar a idéia de caos que dele resulta. Por isso, até agora o interesse foi maior em relação às suas partes constitutivas do que em relação à suas aparência global e, então, os compêndios geográficos têm-se dedicado fundamentalmente a descrever essas partes. Portanto, tendo-se contentado até agora em descrever e classificar sumariamente as diferentes partes do Todo, a geografia não pôde ocupar-se das relações e das leis de caráter geral, que são as únicas capazes de transformá-la em uma ciência e de dar-lhe sua unidade.
Embora a Terra, como planeta, seja muito diferente das representações em escala reduzida que dela conhecemos, e que só nos fornecem uma idéia simbólica de seu modelado, tivemos que lançar mão dessas miniaturizações artificiais do globo terrestre para criar uma linguagem abstrata que nos permitisse falar da Terra como um todo. E foi desse modo que, inspirando-nos diretamente na realidade terrestre, pudemos elaborar a terminologia das relações espaciais.
Existe uma diferença fundamental entre as obras da natureza e as criações do homem: por mais belas, simétricas ou acabadas que estas últimas possam parecer, um exame atento revelará sua falta de coesão e sua estrutura tosca. O tecido mais fino, o relógio mais elegante, o quadro mais formoso, o brilho mais intenso do mármore ou dos metais trabalhados nos levariam, vistos no microscópio, a uma constatação semelhante. Inversamente, a impressão de assimetria e a aparência informe das obras da natureza desaparece com um exame minucioso. A lente do microscópio faz surgir em uma teia de aranha, na estrutura de uma célula vegetal, no aparelho circulatório dos animais, na estrutura cristalina molecular dos minerais, elementos e conjuntos de uma textura sempre mais delicada.
Não deveríamos encontrar esta diferença também no caso do maior corpo natural que conhecemos, isto é, nosso planeta, embora saibamos que nosso conhecimento dele é ainda e apenas superficial? ... E, como conciliar esta abordagem global de nosso planeta com o que sabemos de tudo que nele vive, grupos humanos e outros seres vivos; com o que conhecemos de aventura do homem nesse planeta; e como conseguir esta conciliação se concebemos o globo como o lugar e a morada que oferecem ao homem, durante o tempo de sua passagem na Terra, a base necessária ao seu desenvolvimento?
Tudo nos leva a não buscar no presente a imagem da eternidade, a não confundir aparência e essência, as impressões que obtemos de uma coisa ou de um fenômeno e a realidade dessa coisa ou desse fenômeno, a não interpretar as leis naturais estabelecidas como construções lógicas do nosso intelecto, mas, antes, a considerá-las como uma feliz descoberta de um mundo de fenômenos que nos envolve e que, estão, não tínhamos conseguido elucidar. A gênese dessas multidões de estrelas que constituem as nebulosas, o estudo da formação dos ventos estão entre as coisas que têm ensinado a não rotular de incoerente a aparente deserdem do mundo que no rodeia.
Com efeito, quanto mais avançamos no conhecimento de distribuição espacial (dos fenômenos) na superfície terrestre, e quanto mais nos interessamos – para além de sua deserdem aparente – pela relação interna de suas partes, mais simetria e harmonia descobrimos nela, e uma medida cada vez maior as ciências naturais e a história podem ajudar-nos a compreender a evolução das relações espaciais. De fato, graças à meteorologia e à física, foi possível a realização, até agora, de grandes progressos em matéria de conhecimento da ordem espacial. Mas, resta ainda muito para se fazer e esperamos consegui-lo por meio da intervenção, nesse estudo, de nossos conhecimentos relacionados com a história dos homens e dos povos e, também, da distribuição geográfica dos elementos dos três reinos da natureza.
RELAÇÕES ENTRE OS FATORES NATURAIS E A EVOLUÇÃO DA HUMANIDADE
De início, basta recordar aqui como, nos três continentes do Velho Mundo, as formas oval da África, romboédrica da Ásia e triangular da Europa determinaram para cada um deles três tipos de relações dimensionadas. O caráter uniforme que essas relações adquirem na África (praticamente a mesma largura e o mesmo comprimento em termos de latitude e de longitude) se opõe fundamentalmente ao caráter que assumem na Europa. Neste último caso, com efeito, a extensão leste-oeste do continente equivale a duas ou três vezes sua largura norte-sul, a qual diminui cada vez mais, desde a base do triângulo, junta à Ásia, até seu vértice, voltando para o Atlântico. Se a África, este corpo maciço e voltado para si mesmo, é pobre em termos de articulações, o coração do continente asiático, igualmente maciço... tem um outro problema: não somente o sul e a oeste mas, também, ao norte e no seu próprio interior, cujas ramificações tiveram tanta importância quanto aquela do núcleo central no que diz respeito ao desenvolvimento do processo de civilização.
A pequena articulação entre o centro e a periferia no continente africano conduz `pobreza dos contatos entre o mar e o interior das terras e à dificuldade de acesso ao coração do continente. As condições naturais e humanas negaram ao corpo inarticulado da África uma individualização clara... Este caráter, em grande parte uniforme, é o que explica o estado primitivo e patriarcal em que vivem os povos deste continente e que eles tenham permanecido à margem dos progressos...
Quanto à Ásia, o extraordinário desenvolvimento costeiro provocou um mundo de fenômenos completamente diferentes. (Essas regiões costeiras) isoladas do resto do continente, mas comunicando-se entre si pelo mar, possuem uma configuração diferenciada pela natureza, através de suas montanhas, seus vales, seus rios, seus mares, seus ventos e seus produtos. Suas próprias populações e culturas as convertem em mundos à parte. É isto que explica, ademais, o caráter fortemente diferenciado das individualidades constituídas pelo mundo chinês, malaio, hindu, persa, árabe, etc. Entretanto,... os progressos levados a cabo por essas civilizações não puderam modificar de maneira substancial a vida dos nômades que circulam pelo interior da Ásia há milênios: mongóis, turcomanos, quirgnizes, uzbeques, kalmucos e outros. E, muito menos ainda, puderam alcançar o norte do continente...
Embora um prolongamento da Ásia, a Europa, na medida em que progride para o oeste, desenvolve suas superfícies com uma crescente autonomia. Assim com "membros" proporcionalmente mais importantes que o corpo, a Europa supera sua vizinha oriental precisamente no sentido de que, não possuindo obstáculos naturais importantes, o núcleo central não fica isolado de seus membros (periféricos). Assim, pois, este indivíduo terrestre fortemente compartimentado que é a Europa conheceu um desenvolvimento harmonioso... que condicionado desde o começo seu caráter civilizador e antepôs a harmonia das formas à força da matéria. O menos dos continentes estava, assim destinado a dominar os maiores...
Nos encadeamentos de causa e efeito que a natureza e a história nos mostram, pode-se prever – posto que o planeta parece ter uma vocação mais nobre revelada pela continuidade histórica – uma organização superior que, ademais, não seria de natureza puramente física. Esta organização deve ser fundamentalmente diferente daquela dos organismos naturais que o planeta sustenta, que se movem nele e datados de uma existência forçosamente mais breve.
Apesar da desordem aparente em que se encontra envolvido o globo par um observador despreparado, é nas diferenças entre superfícies e formas que reside o segredo do sistema interno e superior de organização planetária que expressa ema infinidade de forças cujos efeitos invisíveis estão em interação. Estas forças, que influem na natureza e na história, atuam de uma forma análoga à atividade fisiológica que determina a vida dos organismos vegetais e animais.
É precisamente na repartição diferencial e na amplitude irregular das extensões de terra e de água, assim como nas temperaturas variáveis que as acompanham necessariamente, e nos movimentos aparentemente desordenados dos eventos que reside a razão fundamental da organização planetária e de sua interação feral. Assim o fato de que os continentes tenham superfícies deferentes explica o poderio dos povos e a possibilidade que lhes é dada de cominar esses espaços. O aparente acaso que preside a disposição relativa das massa de terra reflete uma lei cósmica superior, que tem, necessariamente, determinado todo o processo de desenvolvimento da humanidade. A separação, à primeira vista puramente física entre o Velho e o novo Mundo, entre os continentes e as ilhas caba por ser a essência da relação espacial universal. A distribuição desigual dos dons naturais é o estimulante fundamental par o desenvolvimento dos intercâmbios universais. A pequena superfície da Europa e a harmonia de suas formas limitadas é a condição de sua liberdade e de sua capacidade de dominação

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