4 de ago de 2010

Apresentação - Pensamento geográfico brasileiro v.3

Pensamento geográfico brasileiro v. 3
Ruy Moreira

Apresentação

Com este volume se completa a trilogia – na verdade, uma tetralogia que se inicia com Para onde vai o pensamento geográfco? – com a qual pretendemos formar um quadro analítico da evolução do pensamento geográfco brasileiro. A difculdade de montar esse painel pode ser observada ao longo do livro. Todo trabalho de epistemologia crítica supõe uma base de história das ideias que não se dispõe para o pensamento geográfco brasileiro. Há estudos parciais, voltados para a reconstituição da evolução de setores, que o leitor encontra na bibliografa.
Todo o suporte que utilizamos foi, assim, a própria literatura geográfca brasileira. E isso exigiu um enorme esforço de sistematização. Mas, sobretudo, uma pertinaz atenção para não confundirmos o livro com um estudo da Geografa do Brasil, que em geral forma o conteúdo de quase todos os textos encontrados. Veríssimo Pereira advertia para a necessidade de traçar essa diferença. O que nos obrigou a uma peranente vigilância de fronteira entre um tema e outro. Mesmo assim, foi impossível não ultrapassar a linha. O leitor perceberá isso em várias passagens do livro. Em consequência, uma massa de anotações sobre a Geografa do Brasil contida nos textos lidos se acumulou em paralelo. Fruto do método de seleção de conteúdo adotado. E do projeto de um outro livro que, no decurso da elaboração deste, acabou surgindo.
Toda uma atenção particular foi dada também ao critério de seleção das leituras. A literatura geográfca brasileira é maior do que supomos, além de absolutamente heterogênea e dispersa. Acresce que resolvemos nela incluir também a vasta literatura de viajantes, cronistas e naturalistas, para cuja contemplação mais criteriosa fomos levados ao recurso de estabelecer previamente uma distinção entre Geografa informal e formal que fzesse valer para as obras da literatura colonial o mesmo campo de fundamento epistemológico que o conceito acadêmico estabelece como válido paraconsiderar as obras do saber especializado. Foi com base nesse conceito e critério distintivos que incorporamos as obras da primeira ao lado da segunda. Deixamos ao leitor o julgamento.
Optamos por contemplar no livro os textos que melhor abrigassem em suas análises a tese da herança discursiva dos problemas provindos dos embates que envolveram a Geografa e a Sociologia no ambiente intelectual francês do começo do século xx, que permeia a refexão crítica de toda a trilogia. E, entre eles, particularmente os que se defrontaram com os efeitos epistemológicos desse bloqueio diante da tarefa
de a Geografa brasileira oferecer à sociedade nacional uma teoria de Brasil explicada geografcamente. Muitos livros e textos de periódicos fcaram, assim, excluídos. Provavelmente alguns foram inadequadamente incluídos. Seja como for, também deixamos o julgamento para o leitor.
O livro está dividido em cinco partes. Na primeira fazemos o retrospecto da herança intelectual de nossas relações com a Geografa mundial da qual viemos e que analisamos nos dois primeiros volumes. Na segunda analisamos as obras que espelham aquilo que poderíamos chamar de um pensamento geográfco brasileiro.
Na terceira buscamos mostrar sete livros centrados na questão de teorizar o geral, dos quais se pode apreender o miolo criativo do pensamento brasileiro. Na quarta mostramos os entrecruzamentos da literatura aqui analisada entre si e com a literatura mundial, abordada nos volumes anteriores. A quinta e última parte é o capítulo conclusivo da trilogia.
Com esta tetralogia, o leitor brasileiro dispõe de um painel analítico o mais amplo possível sobre nossas origens discursivas nacionais e mundiais e o modo como delas temos sido também sujeitos. E se através dela for possível aumentarmos esse compartilhamento mundial e brasileiro de compreender o mundo com os olhos da Geografa, teremos atingido nosso propósito.

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